Evolução do mercado: Cevada (CN 1003) — 2015–2025
Introdução
A cevada (posição aduaneira CN 1003) é um dos cereais mais relevantes no comércio agroalimentar da União Europeia, tanto enquanto matéria-prima para a indústria cervejeira como na alimentação animal. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da UE em cevada, no período compreendido entre 2015 e 2025, com base em dados anuais que excluem períodos incompletos.
A posição CN 1003 inclui duas subcategorias principais: cevada para sementeira (CN 100310) e cevada para outros fins (CN 100390), sendo esta última esmagadoramente dominante no volume e no valor comercializados.
Ao longo da década analisada, a UE manteve-se uma exportadora líquida de cevada, com um saldo comercial positivo sempre acima dos 735 milhões de euros. Contudo, o período foi marcado por transformações profundas: reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais, um pico de preços sem precedentes em 2022 — associado à invasão russa da Ucrânia — e uma crescente diversificação das exportações. Este relatório organiza-se em três eixos temáticos que procuram dar conta destas dinâmicas.
1. A UE enquanto exportador líquido: dinâmicas de volume, valor e preço no comércio externo
O comércio externo é dominado pelas exportações, que registam uma ligeira contração
A UE é estruturalmente uma exportadora líquida de cevada. Em 2015, as exportações atingiram o valor máximo da série — 1 892,8 milhões de euros — e o volume mais elevado — 10,2 milhões de toneladas —, configurando um superavit comercial de 1 684,8 milhões de euros. Em 2025, o valor das exportações situou-se em 1 730,2 milhões de euros (−8,6% face a 2015) e o volume recuou para 8,9 milhões de toneladas (−12,6%). O preço médio de exportação subiu de 185,2 €/t para 193,7 €/t (+4,6%), evidenciando que a quebra em volume foi parcialmente compensada pela valorização dos preços.
As importações, muito inferiores em escala, passaram de 208,1 milhões de euros (1,16 milhões de toneladas) em 2015 para 193,1 milhões de euros (0,82 milhões de toneladas) em 2025. O recuo mais acentuado verificou-se no volume (−29,6%), mas o preço médio de importação subiu 31,7% (de 179,2 €/t para 236,1 €/t), o que sugere que a UE passou a importar cevada de origens mais dispendiosas ou que os choques de preço afetaram assimetricamente as importações.
2022 foi o ano de maior anomalia: pico simultâneo de preços e de valor
O ano de 2022 constitui um ponto de rutura na série temporal. Os preços de exportação atingiram o máximo de 321,2 €/t — praticamente o dobro do mínimo da série (156,5 €/t) —, enquanto os preços de importação dispararam para 328,6 €/t. O valor das importações atingiu o máximo histórico de 599,0 milhões de euros, mais do triplo do mínimo registado (190,7 milhões de euros). Este surto está diretamente ligado à crise global provocada pela guerra na Ucrânia, que interrompeu as cadeias de abastecimento de cereais do Mar Negro e fez disparar os preços globais. Os dados mostram que, em 2022, a UE aproveitou parcialmente a janela exportadora, mas os custos de importação também se intensificaram.
A composição por subproduto revela a marginalidade do segmento de sementeira
A subcategoria CN 100390 (cevada excluindo sementeira) representa mais de 99% do volume exportado e importado. Em 2025, as exportações de CN 100390 totalizaram 8,9 milhões de toneladas (1 717,1 milhões de euros), enquanto as de CN 100310 foram de apenas 14 210 toneladas (13,1 milhões de euros). A sementeira apresenta, contudo, preços unitários substancialmente mais elevados — 922,2 €/t em 2025, contra 192,5 €/t para CN 100390 nas exportações — refletindo o maior valor acrescentado deste segmento especializado. As flutuações de preço do CN 100310 são significativamente mais acentuadas do que as do CN 100390, como se verifica nos picos de 2022 (850,0 €/t) e 2023 (1 059,2 €/t).
| Indicador | 2015 | 2022 | 2025 | Variação 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|
| Exportações — valor (M€) | 1 892,8 | 1 730,5 | 1 730,2 | −8,6% |
| Exportações — volume (Mt) | 10,22 | 5,39 | 8,93 | −12,6% |
| Exportações — preço (€/t) | 185,2 | 321,2 | 193,7 | +4,6% |
| Importações — valor (M€) | 208,1 | 599,0 | 193,1 | −7,2% |
| Importações — volume (Mt) | 1,16 | 1,82 | 0,82 | −29,6% |
| Importações — preço (€/t) | 179,2 | 328,6 | 236,1 | +31,7% |
| Saldo comercial (M€) | 1 684,8 | 735,9 | 1 537,1 | −8,8% |
2. Reconfiguração geográfica: a viragem para o Norte de África e a perda de centralidade da China
As exportações redirecionam-se do Médio Oriente e da China para o Magrebe
A análise dos principais parceiros de exportação revela uma transformação estrutural na década em análise. A China, que em 2015 era o maior destino das exportações da UE (801,8 milhões de euros), viu o seu peso reduzido para 171,7 milhões de euros em 2025 (−78,6%). A Arábia Saudita, segundo maior parceiro em 2015 (537,6 milhões de euros), recuou para 375,1 milhões de euros (−30,2%).
Em contrapartida, os países do Magrebe e do Médio Oriente periférico registaram crescimentos exponenciais:
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Marrocos | 19,8 | 122,7 | +520,7% |
| Argélia | 22,1 | 122,1 | +453,2% |
| Jordânia | 66,0 | 179,2 | +171,7% |
| Tunísia | 28,6 | 76,2 | +166,3% |
| Irão | 49,9 | 69,4 | +39,1% |
Este redirecionamento sugere que a UE compensou parcialmente a perida do mercado chinês com uma maior penetração no Norte de África e no Crescente Fértil, zonas de elevada procura de cevada para alimentação animal e para consumo humano. A crescente procura destes países, aliada à proximidade geográfica e a acordos comerciais preferenciais, explica em parte esta dinâmica.
As importações mantêm-se concentradas no Reino Unido, mas a Ucrânia e a Moldávia ganharam relevância
O Reino Unido permaneceu como o principal fornecedor de cevada à UE ao longo de todo o período, com 157,2 milhões de euros em 2015 e 150,7 milhões de euros em 2025 (−4,2%). A sua quota dominante reflete os laços históricos e a proximidade logística do comércio bilateral no Canal da Mancha. A Ucrânia, que em 2015 exportou 33,5 milhões de euros para a UE, registou uma quebra de 34,6% até 2025 (21,9 milhões de euros), possivelmente refletindo os efeitos da guerra e das interrupções nas rotas do Mar Negro. A Moldávia, com 15,8 milhões de euros em 2025 (+13,2% face a 2015), e a Sérvia (3,9 milhões de euros, +37,0%) reforçaram a sua presença como fornecedores regionais.
A concentração exportadora diminuiu significativamente, refletindo uma maior diversificação de mercados
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações caiu de 2 654 para 1 011 entre 2015 e 2025 (−61,9%), sinalizando uma redução acentuada da concentração das exportações. Em 2015, a China e a Arábia Saudita dominavam; em 2025, o leque de parceiros é muito mais diversificado. Em contraste, o HHI das importações subiu ligeiramente de 6 016 para 6 289 (+4,5%), mantendo-se num patamar elevado que reflete a dominância do Reino Unido como fornecedor. A concentração importadora é sempre significativamente superior à exportadora, o que é expectável dado o menor volume e valor das importações.
3. Estrutura interna da UE: Estados-Membros exportadores e a crescente relevância da Roménia
A França mantém-se como principal exportador, mas a Roménia emerge como segundo polo
Os principais Estados-Membros exportadores revelam uma estrutura interna em transformação. A França, que em 2015 exportou 901,2 milhões de euros de cevada para países terceiros, viu o seu valor recuar para 718,2 milhões de euros em 2025 (−20,3%). Apesar disso, continua a ser de longe o maior exportador da UE, contribuindo com uma quota dominante no total das exportações comunitárias.
A Roménia apresentou o crescimento mais expressivo, passando de 286,9 milhões de euros em 2015 para 504,9 milhões de euros em 2025 (+76,0%), consolidando-se como o segundo maior exportador da UE. Este crescimento reflete a expansão da produção cerealífera romena, impulsionada pela melhoria da produtividade agrícola e pela integração nos mercados do Sul e Leste. A Alemanha, terceira posição, registou um ligeiro recuo (328,7 para 277,0 milhões de euros, −15,7%).
| Estado-Membro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| França | 901,2 | 718,2 | −20,3% |
| Roménia | 286,9 | 504,9 | +76,0% |
| Alemanha | 328,7 | 277,0 | −15,7% |
| Dinamarca | 118,3 | 22,4 | −81,0% |
| Lituânia | 58,6 | 56,4 | −3,7% |
A especialização revela padrões contrastantes entre Estados-Membros
Os dados de especialização de 2025 mostram que a Bulgária (RSCA de 0,74, RCA de 6,77) e a França (RSCA de 0,63, RCA de 4,40) possuem a vantagem comparativa mais acentuada na exportação de cevada. A Dinamarca (RSCA de 0,57, RCA de 3,65), a Croácia (RSCA de 0,48) e a Lituânia (RSCA de 0,45) completam o grupo dos mais especializados.
No extremo oposto, a Irlanda (RSCA de −1,00), a Finlândia (−0,99), Portugal (−0,99), a Itália (−0,98) e os Países Baixos (−0,86) apresentam RSCA fortemente negativos, o que indica que são importadores líquidos e possuem uma desvantagem comparativa acentuada na produção e exportação de cevada. Esta dualidade — entre Estados-Membros com vocação cerealífera (França, Roménia, Bulgária) e economias importadoras (Irlanda, Portugal, Países Baixos) — é um traço estrutural do mercado europeu de cevada.
Os fluxos intra-UE de importação revelam a proeminência da Espanha e da Irlanda
No que respeita às importações por Estado-Membro, a Espanha foi em 2015 o maior importador (79,1 milhões de euros), mas registou uma queda drástica de 91,5%, situando-se em apenas 6,7 milhões de euros em 2025. Esta quebra sugere uma reconfiguração do abastecimento espanhol, possivelmente via fornecedores intra-UE ou mudanças na procura interna. Em contraste, a Irlanda — cuja RCA de 0,001 a confirma como altamente não especializada em cevada — passou de 6,0 milhões de euros em 2015 para 61,6 milhões de euros em 2025 (+926,5%), refletindo a forte dependência da indústria pecuária irlandesa de rações importadas.
Conclusão
O mercado europeu de cevada (CN 1003) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por três grandes dinâmicas. Em primeiro lugar, a UE consolidou-se como exportadora líquida estrutural de cevada, mas o volume exportado sofreu uma contração de 12,6%, parcialmente compensada pela subida de preços. Em segundo lugar, verificou-se uma reconfiguração geográfica acentuada: a perda de centralidade da China (−78,6%) e o crescimento exponencial dos mercados do Norte de África (Marrocos +520,7%, Argélia +453,2%) e do Médio Oriente (Jordânia +171,7%) transformaram o mapa das exportações, tornando-o mais diversificado, como atesta a queda do HHI exportador em 61,9%. Em terceiro lugar, a crise de 2022 provocou um choque de preços sem precedentes — com preços de exportação a atingirem 321 €/t e de importação 329 €/t — que afetou todos os parceiros, mas foi particularmente sentido nos destinos do Médio Oriente e do Norte de África, onde os choques de preço atingiram anomalias de 4,6 a 7,9 desvios-padrão.
Internamente, a Franção mantém a hegemonia exportadora, mas a Roménia emerge como o segundo polo cerealífero da UE. A crescente especialização dos Estados-Membros do Leste (Bulgária, Roménia, Lituânia) e a consolidação de Estados importadores líquidos (Irlanda, Países Baixos, Portugal) sugerem uma especialização geográfica crescente no seio do mercado único. Os desafios futuros incluem a volatilidade dos preços internacionais, a incerteza geopolítica nas rotas do Mar Negro e a necessidade de adaptação às alterações climáticas nas regiões produtoras do Sul e do Leste da Europa.