Evolução do mercado: Milho (CN 1005) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio exterior da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 1005, correspondente ao milho, no período entre 2015 e 2025. A análise baseia-se exclusivamente nos dados comerciais anuais fornecidos e visa identificar e explicar as principais dinâmicas estruturais, geográficas e de preços que caracterizaram este mercado. Em linhas gerais, o período em análise é marcado por um aumento acentuado da dependência importadora da UE, uma reconfiguração significativa dos parceiros comerciais e episódios de forte volatilidade nos preços, impulsionados por choques na oferta global.
1. A União Europeia como Mercado Deficitário Crescente
Ao longo da última década, a UE reforçou consistentemente a sua posição como importador líquido de milho, com um défice comercial que se ampliou significativamente.
O crescente desequilíbrio comercial
O balanço comercial da UE em milho passou de um défice de 1.001,6 milhões de euros em 2015 para um défice de 3.270,7 milhões de euros em 2025. Este agravamento de 226,6% reflete um crescimento das importações muito superior ao das exportações.
A evolução das importações
O valor das importações quase duplicou, crescendo 99,5%, de 2.081,9 milhões de euros (2015) para 4.152,8 milhões de euros (2025). Em volume, as importações aumentaram 62,3%, passando de 11,4 milhões de toneladas para 18,6 milhões de toneladas, atingindo um pico de 23,8 milhões de toneladas em 2022. Este crescimento sustentado sugere uma procura interna que a produção doméstica não consegue satisfazer.
O desempenho das exportações
Em contraste, as exportações da UE registaram uma evolução negativa. O seu valor diminuiu 18,4%, para 882,1 milhões de euros, e a sua volume caiu acentuadamente 41,1%, para 2,6 milhões de toneladas em 2025, após um máximo de 5,4 milhões de toneladas em 2019. Isto indica uma perda gradual de competitividade externa ou uma redireção da produção para o consumo interno.
2. Reconfiguração Geopolítica dos Parceiros Comerciais
O mapa dos fornecedores e clientes de milho da UE sofreu transformações profundas, com a ascensão de novos parceiros e o declínio de outros, refletindo mudanças geopolíticas e na competitividade global.
A consolidação da Ucrânia como principal fornecedor
A Ucrânia consolidou a sua posição como o maior fornecedor de milho para a UE, respondendo por 42,4% do valor total das importações em 2025 (1.761,8 milhões de euros), contra 62,1% em 2015. Apesar da quota de mercado ter diminuído, o seu valor absoluto cresceu 36,3% Dados por parceiro.
O colapso das importações da Rússia e a ascensão do Atlântico
O fornecimento russo desintegrou-se quase completamente, caindo 98,6% em valor, de 91,2 milhões para apenas 1,3 milhões de euros. Este vazio foi preenchido por fornecedores transatlânticos. As importações dos Estados Unidos dispararam 999,9%, passando de 99,7 milhões para 1.097,1 milhões de euros. De igual modo, as importações do Canadá (crescimento de 1.388,0%) e do Brasil (212,1%) tornaram-se mais relevantes, sinalizando uma maior diversificação da origem das importações da UE.
Destinos de exportação em mutação
Nos destinos das exportações, o Reino Unido manteve-se como o principal parceiro, com um crescimento estável de 23,2%. No entanto, mercados como a Coreia do Sul e o Irão, outrora importantes, praticamente desapareceram em 2025 (queda superior a 74% e 99%, respetivamente). O Líbano, por outro lado, tornou-se um destino mais relevante, com um aumento de 145,5% no valor das exportações da UE.
3. Preços Voláteis e Choques na Oferta
O período foi caracterizado por uma volatilidade acentuada nos preços do milho, atingindo picos sem precedentes em 2022, e por choques de fornecimento que desestabilizaram determinados fluxos comerciais.
A escalada de preços e a sua persistência
O preço médio de importação subiu 22,9%, passando de 181,9 €/tonelada em 2015 para 223,6 €/tonelada em 2025. No entanto, a trajetória não foi linear: os preços atingiram um pico de 300,9 €/tonelada em 2022, refletindo as tensões geopolíticas e as perturbações logísticas globais. Os preços de exportação seguiram uma trajetória semelhante, atingindo 407,3 €/tonelada em 2022.
Choques de preço e abastecimento específicos
A análise da volatilidade e dos choques identifica eventos extremos. Destaca-se o choque de preço nas exportações para Israel em 2017, com uma anormalidade de 395,1 e uma subida de preço de 1.462,1%. Choques de preço também foram detetados nas exportações para o Irão (2017) e nas importações do Canadá (2022). Estes eventos sublinham a vulnerabilidade dos fluxos comerciais a disrupções específicas.
A concentração de fornecedores e a sua evolução
O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) para as importações caiu 30,5% (de 4.059 para 2.819), indicando uma menor concentração e maior diversificação das fontes de abastecimento da UE. Em contraste, o HHI para as exportações aumentou 45,4% (de 791 para 1.150), sugerindo uma maior concentração nos poucos destinos que ainda absorvem a produção da UE.
Conclusão
A análise do comércio da UE em milho entre 2015 e 2025 revela um mercado em transição estrutural. A União Europeia tornou-se uma potência importadora cada vez mais dependente, com um défice comercial quase triplicado. Esta dependência alimentou-se de uma diversificação geográfica estratégica, passando da Ucrânia como fornecedor dominante, mas com uma quota em ligeiro declínio, para uma maior inclusão de fornecedores das Américas, em substituição da Rússia. Paralelamente, o mercado foi assolado por uma grande volatilidade de preços, com picos acentuados em 2022, e por choques localizados que demonstram a fragilidade das cadeias de abastecimento. Em suma, a política comercial da UE em matéria de milho tornou-se mais resiliente em termos de fontes, mas mais vulnerável em termos de custos e de défice estrutural.