Evolução do mercado: Arroz (CN 1006) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor do arroz (posição aduaneira CN 1006) ao longo do período 2015–2025. O código 1006 abrange quatro subcategorias: arroz com casca (100610), arroz descascado ou cargo (100620), arroz semibranqueado ou branqueado (100630) e trinca de arroz (100640) (ver definições no painel).
O período em análise é marcado por três grandes dinâmicas estruturais: (i) um crescimento acentuado da dependência europeia das importações, impulsionado pela Índia e por fornecedores do Sudeste Asiático; (ii) uma redução significativa da produção interna, compensada por um aumento do valor unitário; e (iii) alterações profundas nos destinos de exportação, com a perda de mercados afetados por conflitos no Médio Oriente e a consolidação do Reino Unido e da Suíça como principais parceiros. O setor registou igualmente choques de preços relevantes, particularmente em 2022–2023, ligados a restrições à exportação na Índia.
1. Uma dependência crescente: a viragem estrutural das importações da UE
1.1. As importações duplicaram em valor e superaram largamente a produção interna
Ao longo da década, o valor das importações de arroz pela UE cresceu de €898 milhões (2015) para €1 849 milhões (2025), um aumento de 105,9% (ver evolução do comércio). Em volume, as importações passaram de 1,50 milhões de toneladas para 2,50 milhões de toneladas (+67,3%).
Em contraste, a produção interna da UE registou uma quebra de 15,1% em quantidade (de 3,05 milhões de toneladas para 2,59 milhões), embora o seu valor tenha subido 64,1% (de €2 059 milhões para €3 378 milhões) (ver produção por volumes). Esta combinação — menor volume e maior valor — sugere uma subida significativa dos preços internos, possivelmente ligada à inflação e à crescente pressão da procura.
1.2. A dependência líquida de importações passou de 6% para 31%
O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) subiu de 6,3% em 2015 para 31,3% em 2025 — um aumento de 400,3% (ver dependência líquida). A intensidade comercial duplicou igualmente, de 22,3% para 44,7% (ver intensidade comercial).
Estes dados revelam que a UE deixou de ser um mercado com elevada autonomia no setor do arroz para se tornar progressivamente mais dependente de fornecedores externos, tanto em volume como em valor.
1.3. O saldo comercial deteriorou-se de forma consistente
O défice comercial da UE em arroz agravou-se de -€560 milhões em 2015 para -1 446 milhões em 2025 (-158,4%). Os picos de défice situaram-se em 2022 e 2023, atingindo os -€1 528 milhões — coincidindo com os choques de preços e o aumento da procura global (ver evolução do comércio).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | €898 M | €1 849 M | +105,9% |
| Importações (volume) | 1 500 kt | 2 501 kt | +67,3% |
| Exportações (valor) | €339 M | €403 M | +19,0% |
| Exportações (volume) | 451 kt | 368 kt | -18,5% |
| Saldo comercial | -€560 M | -€1 446 M | -158,4% |
| Dependência líquida | 6,3% | 31,3% | +400,3% |
2. A geografia das importações: ascensão da Índia e consolidação do Sudeste Asiático
2.1. A Índia tornou-se o principal fornecedor de arroz à UE
A Índia consolidou a sua posição como principal fornecedor de arroz à UE, passando de €183 milhões em 2015 para €431 milhões em 2025 — um crescimento de 135,7% (ver parceiros principais). O valor máximo foi atingido precisamente em 2025.
Paralelamente, Myanmar registou o crescimento mais acentuado entre os fornecedores principais: de €66 milhões para €248 milhões (+277,5%), com um pico de €380 milhões em 2023. O Paquistão também cresceu de forma significativa, de €114 milhões para €263 milhões (+130,6%), com um auge de €445 milhões em 2022.
| Fornecedor | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Índia | €183 M | €431 M | +135,7% |
| Paquistão | €114 M | €263 M | +130,6% |
| Myanmar | €66 M | €248 M | +277,5% |
| Camboja | €165 M | €259 M | +57,1% |
| Tailândia | €177 M | €217 M | +22,2% |
| Uruguai | €14 M | €113 M | +710,2% |
| Guiana | €56 M | €55 M | -1,8% |
2.2. O Uruguai emergiu como fornecedor latino-americano de destaque
O Uruguai apresentou o crescimento mais dramático entre todos os parceiros analisados: de €14 milhões para €113 milhões (+710,2%), com um pico de €133 milhões em 2024. Este crescimento reflete provavelmente a diversificação estratégica das cadeias de abastecimento europeias para além da Ásia, bem como a qualidade reconhecida do arroz uruguaio em segmentos de maior valor acrescentado.
2.3. A Tailândia mantém posição estável enquanto a concentração de importações se reduz
Ao contrário de outros fornecedores asiáticos, a Tailândia apresentou um crescimento modesto (+22,2%), mantendo um coeficiente de variação (CV) de apenas 0,064 — o mais baixo entre todos os fornecedores analisados (ver volatilidade). Isto sugere uma relação comercial madura e estável.
O índice de concentração HHI das importações (por valor) reduziu-se de 1 435 para 1 344 (-6,3%) (ver concentração). Embora a redução seja moderada, indica uma ligeira diversificação das fontes de abastecimento. Contudo, o valor do HHI permanece relativamente elevado, refletindo uma concentração significativa em poucos fornecedores — com a Índia, Camboja, Tailândia, Paquistão e Myanmar a dominarem conjuntamente o fornecimento.
2.4. O arroz branqueado (100630) domina as importações e cresceu fortemente
A segmentação por subcategoria revela que o arroz semibranqueado ou branqueado (CN 100630) é de longe o produto mais importado, representando mais de metade do volume total. As suas importações cresceram de 662 mil toneladas para 1 184 mil toneladas (+78,8%) (ver segmentação por produto). A trinca de arroz (100640) também cresceu significativamente, de 247 kt para 474 kt (+92,0%), enquanto o arroz descascado (100620) se manteve mais estável (+57,5%).
| Subcategoria (importações, kt) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 100630 — Arroz branqueado | 662 | 1 184 | +78,8% |
| 100620 — Arroz descascado | 505 | 795 | +57,5% |
| 100640 — Trinca de arroz | 247 | 474 | +92,0% |
| 100610 — Arroz com casca | 81 | 47 | -41,8% |
3. Exportações em retração: mudança de mercados e aumento de preços
3.1. O volume exportado diminuiu, mas o valor unitário subiu 46%
As exportações da UE de arroz diminuíram em volume de 451 mil toneladas para 368 mil toneladas (-18,5%), mas o valor total das exportações subiu 19,0%, de €339 milhões para €403 milhões (ver evolução do comércio). O preço médio de exportação subiu de €751/t para €1 097/t (+46,1%), atingindo um máximo de €1 269/t em 2023.
Esta dinâmica sugere uma reorientação das exportações europeias para segmentos de maior valor, com os preços a serem impulsionados tanto pela inflação global como pela crescente escassez de oferta interna.
3.2. O Reino Unido e a Suíça consolidaram-se como principais destinos
O Reino Unido manteve-se como o principal destino das exportações europeias de arroz, com uma quota estável em torno dos €145 milhões (2025), apesar de uma ligeira redução face ao pico de €176 milhões em 2019 (ver parceiros principais — exportações). A Turquia cresceu 24,2% (de €43 M para €53 M), e a Suíça destacou-se com um aumento de 70,8% (de €27 M para €46 M), consolidando-se como mercado de elevado valor.
A Jordânia registou o crescimento mais acentuado entre os destinos de exportação: de €5,5 milhões para €20,3 milhões (+272,0%), embora com elevada volatilidade (CV = 0,61).
| Destino | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | €149 M | €145 M | -2,6% |
| Turquia | €43 M | €53 M | +24,2% |
| Suíça | €27 M | €46 M | +70,8% |
| Jordânia | €5,5 M | €20,3 M | +272,0% |
| EUA | €18,3 M | €23,1 M | +25,9% |
| Síria | €11,7 M | €4,0 M | -66,0% |
| Líbano | €14,0 M | €2,7 M | -80,6% |
3.3. Conflitos no Médio Oriente provocaram o colapso das exportações para Síria e Líbano
A Síria e o Líbano registaram as quebras mais acentuadas: -66,0% e -80,6%, respetivamente. Estes declínios estão claramente associados aos conflitos armados e à instabilidade política nas duas regiões, que desestruturaram as cadeias de distribuição e reduziram drasticamente a capacidade de importação. A Síria registou adicionalmente um choque de preços de exportação em 2023, com um aumento de 74,8% e uma anormalidade de 6,0 (ver choques de fornecimento).
3.4. O setor registou choques de preços significativos em 2022–2023
O evento de maior relevância identificado nos dados é o choque de preço nas importações da Índia em 2022: uma subida de 33% com uma anormalidade de 14,2, correspondendo a 18,6% do valor total das importações (ver choques de fornecimento). Este choque coincide com a proibição de exportação de arroz não-basmati imposta pela Índia em julho de 2023 (com antecedentes em 2022), que desencadeou uma escalada de preços nos mercados globais e afetou particularmente a UE enquanto importador significativo.
A volatilidade das importações varia significativamente entre fornecedores. O Uruguai apresenta o coeficiente de variação mais elevado (0,594), refletindo uma relação comercial ainda em consolidação, enquanto a Tailândia (0,064) e a Suíça nas exportações (0,093) representam os mercados mais estáveis.
3.5. A concentração das exportações diminuiu, refletindo a diversificação de mercados
O índice HHI das exportações por valor reduziu-se significativamente de 2 247 para 1 713 (-23,7%) (ver concentração). Esta redução reflete a perda de peso relativo de destinos tradicionais como Síria e Líbano e o crescimento de mercados como a Suíça e a Jordânia. No entanto, o valor do HHI permanece elevado, uma vez que o Reino Unido continua a representar uma quota dominante.
Internamente, a Itália é o principal exportador da UE, com €188 milhões em 2025, seguida da Espanha (€52 M), Bélgica (€39 M) e Portugal (€39 M) (ver principais Estados-Membros exportadores). Portugal registou o maior crescimento entre os exportadores internos (+182,8%), enquanto os Países Baixos reduziram as suas exportações em 46,6%.
Conclusão
A evolução do comércio da UE em arroz (CN 1006) entre 2015 e 2025 revela uma transformação estrutural profunda. A UE passou de um mercado com elevada autonomia produtiva para uma economia crescentemente dependente de importações, com a dependência líquida a saltar de 6% para 31% e o défice comercial a triplicar. Esta evolução resultou da combinação de uma produção interna em declínio (-15% em volume) com uma procura de importações em forte crescimento (+67% em volume).
A geografia do fornecimento concentra-se no Sudeste Asiático, com a Índia, Paquistão, Myanmar, Camboja e Tailândia a dominarem as importações. O crescimento exponencial do Uruguai (+710%) sugere, contudo, uma diversificação em curso. Do lado das exportações, a consolidação do Reino Unido e da Suíça como principais mercados contrasta com a perda quase total de mercados no Médio Oriente afetados por conflitos.
Os choques de preços de 2022–2023, particularmente o provocado pelas restrições indianas à exportação, sublinham a vulnerabilidade da UE a perturbações nas cadeias de abastecimento globais. Num contexto de crescente importância estratégica da segurança alimentar, a evolução observada aponta para a necessidade de uma reflexão sobre a resiliência do abastecimento europeu em arroz e a diversificação das suas fontes de importação.