Evolução do mercado: Lâmpadas (CN 8539) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 8539, que abrange lâmpadas e tubos elétricos de incandescência ou de descarga — incluindo lâmpadas halógenas, fluorescentes, de vapor de mercúrio/sódio, lâmpadas de arco, raios ultravioleta/infravermelhos e, crucialmente, fontes de luz de díodos emissores de luz (LED) — no período de 2015 a 2025.
Trata-se de uma categoria de produto num ponto de inflexão tecnológico sem precedentes: a transição global da iluminação convencional para LED, impulsionada por regulações ambientais (como o fim da venda de lâmpadas fluorescentes na UE em 2023), está a reconfigurar radicalmente as cadeias de valor, a estrutura produtiva europeia e os fluxos comerciais com o exterior.
Os dados disponíveis — visão geral do comércio — revelam uma transformação profunda: a UE passou de uma posição de superávit comercial significativo para um déficit estrutural, num espaço de apenas uma década.
1. Uma inversão dramática do saldo comercial da UE
O fim de uma posição de excedente
O indicador mais marcante do período é a inversão completa da balança comercial da UE. Em 2015, o bloco europeu registou um superávit de 995 milhões de EUR no comércio de lâmpadas com países terceiros. Em 2025, esse superávit transformou-se num déficit de 312 milhões de EUR, uma variação de −131,3% (indicador de dependência líquida de importações).
Queda sustentada das exportações
As exportações da UE para o exterior sofreram uma erosão acentuada e contínua ao longo de toda a década:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações | 2 001 M EUR | 1 207 M EUR | −39,7% |
| Quantidade das exportações | 72 029 t | 17 644 t | −75,5% |
| Preço médio das exportações | 27 774 EUR/t | 68 379 EUR/t | +146,2% |
A queda de 75,5% na quantidade exportada é particularmente dramática e reflete o colapso da produção europeia de lâmpadas convencionais, que não foi compensada por exportações de produtos LED. O aumento do preço médio (+146,2%) sinaliza que as exportações remanescentes se concentram progressivamente em segmentos de maior valor acrescentado, provavelmente lâmpadas especializadas (UV, IR) e lâmpadas halógenas para veículos, cujo preço unitário é superior (análise por segmento de produto).
Importações crescentes mas com dinâmica diferente
As importações cresceram em valor (+51,1%, de 1 005 M EUR para 1 519 M EUR) e moderadamente em peso (+14,7%, de 60 653 t para 69 558 t). A divergência entre o crescimento do valor (+51%) e o da quantidade (+15%) indica um aumento significativo dos preços médios de importação (+31,7%). Este fenómeno tem múltiplas causas: a inflação pós-COVID, a subida dos custos logísticos em 2021–2022, e a transição para LED — cujo preço unitário (EUR/kilo) é superior ao das lâmpadas convencionais (verificação das importações).
A produção europeia em queda livre
Os dados de produção PRODCOM pintam um quadro de contração industrial severa:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida (unidades) | 5 167 514 166 | 761 437 959 | −85,3% |
| Valor da produção | 3 673 M EUR | 2 976 M EUR | −19,0% |
A queda de 85,3% no número de unidades produzidas é avassaladora. Curiosamente, o valor da produção caiu apenas 19%, o que implica que a produção remanescente se concentra em produtos de muito maior valor unitário. Isto sugere que as fábricas europeias sobreviventes se especializaram em nichos de alto valor (lâmpadas especializadas, componentes para iluminação profissional) ou na montagem de módulos LED, abandonando a produção em massa de lâmpadas convencionais.
2. A transição LED como motor estrutural da reconfiguração do mercado
O crescimento explosivo do LED como fração das importações
A análise por segmento de produto revela a magnitude da transição tecnológica impostada nos dados (comparação entre segmentos):
| Segmento (código) | Descrição | Importações 2015 (valor) | Importações 2025 (valor) | Evolução |
|---|---|---|---|---|
| 853952 | Lâmpadas LED | n.d.* | 716 M EUR | — |
| 853951 | Módulos LED | n.d.* | 347 M EUR | — |
| 853931 | Fluorescentes de cátodo quente | 213 M EUR | 15 M EUR | −92,7% |
| 853921 | Halogéneos de tungsténio | 260 M EUR | 105 M EUR | −59,6% |
| 853922 | Incandescência ≤200W, >100V | 67 M EUR | 10 M EUR | −85,3% |
| 853929 | Outras incandescência | 105 M EUR | 50 M EUR | −52,0% |
| 853990 | Partes | 61 M EUR | 31 M EUR | −49,5% |
*Os dados de LED (853951 e 853952) estão disponíveis apenas a partir de 2022.
O domínio absoluto do LED nas importações a partir de 2022
Com os dados disponíveis a partir de 2022, verifica-se que as lâmpadas LED (853952) já representavam 1 052 M EUR nas importações da UE em 2022 — ou seja, mais de metade do valor total de importações nesse ano. Os módulos LED (853951) adicionaram mais 238 M EUR. Em conjunto, os produtos LED constituíram a esmagadora maioria das importações.
Em contrapartida, os segmentos em declínio — fluorescentes de cátodo quente, lâmpadas incandescentes e halógenas — colapsaram:
Evolução das quantidades importadas (toneladas):
| Segmento | 2015 | 2019 | 2022 | 2025 | Tendência |
|---|---|---|---|---|---|
| 853931 (fluorescentes) | 20 751 t | 11 741 t | 12 810 t | 2 072 t | Colapso em 2023–2025 |
| 853921 (halogéneos) | 15 160 t | 4 272 t | 3 551 t | 2 944 t | Declínio contínuo |
| 853922 (incand. ≤200W) | 7 955 t | 2 987 t | 1 558 t | 1 008 t | Declínio contínuo |
| 853952 (LED) | n.d. | n.d. | 49 300 t | 42 157 t | Dominante |
O abrupto colapso das importações de fluorescentes de cátodo quente — de 12 810 toneladas em 2022 para apenas 2 072 toneladas em 2025 — coincide diretamente com a proibição da venda de lâmpadas fluorescentes T5 e T8 na UE, implementada em setembro de 2023 no âmbito do regulamento RoHS. Este choque regulatorio é claramente visível nos dados.
Diferenciação de preços entre segmentos
O preço médio de importação (EUR/quilograma) varia significativamente entre segmentos, refletindo diferentes estruturas de custo e valor:
| Segmento | Preço médio 2025 (EUR/kg) | Evolução 2022–2025 |
|---|---|---|
| 853921 (halogéneos) | 35 683 | +2,9% |
| 853929 (outras incand.) | 21 125 | −1,6% |
| 853951 (módulos LED) | 30 621 | −11,8% |
| 853952 (lâmpadas LED) | 16 982 | −20,3% |
| 853931 (fluorescentes) | 7 439 | +29,8% |
| 853922 (incand. ≤200W) | 9 754 | −10,9% |
Os preços unitários das importações LED estão a decrescer em 2023–2025, o que é consistente com a maturação do mercado, a crescente concorrência chinesa e a queda dos custos de produção de LED. Em contraste, o preço das fluorescentes subiu 29,8% entre 2022 e 2025, caso provavelmente ligado à escassez de uma oferta destinada a desaparecer.
A Europa perde a vantagem tecnológica no LED
Os dados de especialização revelam um panorama interessante (especialização por país). Os países mais especializados na produção de lâmpadas incluem:
| País | RCA | RSCA | Parte na produção | Parte global |
|---|---|---|---|---|
| Lituânia | 3,42 | 0,55 | 2,1% | 0,6% |
| Polónia | 2,64 | 0,45 | 17,6% | 6,6% |
| Letónia | 2,27 | 0,39 | 0,8% | 0,3% |
| Roménia | 1,72 | 0,26 | 2,9% | 1,7% |
A Polónia destaca-se como o maior produtor europeu do setor (17,6% da produção da UE), com uma vantagem comparativa revelada (RCA = 2,64) significativa. A Alemanha e os Países Baixos, apesar de terem fábricas importantes, apresentam menor especialização relativa, sugerindo que a sua atividade no setor é menos dominante face às suas outras indústrias.
3. Dependência crescente da China e riscos de concentração
A China como fornecedor dominante
A evolução das importações por parceiro comercial revela a emergência quase monopolística da China (parceiros comerciais principais):
| Parceiro | Importações 2015 | Importações 2025 | Variação | Parte em 2025 |
|---|---|---|---|---|
| China | 606 M EUR | 1 123 M EUR | +85,2% | 73,9% |
| Taiwan | 13 M EUR | 30 M EUR | +122,4% | 2,0% |
| Japão | 71 M EUR | 70 M EUR | −1,3% | 4,6% |
| EUA | 87 M EUR | 91 M EUR | +5,0% | 6,0% |
| Reino Unido | 96 M EUR | 42 M EUR | −56,2% | 2,8% |
A China passou de 606 M EUR para 1 123 M EUR nas importações da UE — um crescimento de 85,2%. Em 2025, a China é a origem de quase três quartos do valor total de importações da UE em lâmpadas. Taiwan (+122,4%) surge como um fornecedor crescente, provavelmente refletindo a localização de capacidade de produção de LED na ilha.
Aumento acentuado da concentração das importações
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 3 876 para 5 586 (+44,1%), atingindo valores que na literatura económica sugerem mercado altamente concentrado (indicador de concentração).
| Indicador HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 3 876 | 5 586 | +44,1% |
| Importações (volume) | 5 969 | 8 505 | +42,5% |
| Exportações (valor) | 1 174 | 945 | −19,6% |
A concentração das exportações diminuiu subtilmente (de 1 174 para 945), sugerindo que as exportações da UE se diversificaram ligeiramente em termos de destinos. Contudo, a erosão das exportações para several parceiros tradicionais é notável.
Choques e volatilidade: o caso russo e a dependência chinesa
A deteção de choques comerciais significantes (eventos de choque) inclui um choque de preço nas importações da China em 2017 (anormalidade = 27,3, variação = 33,8%). Este evento pode estar relacionado com ajustamentos de câmbio do yuan ou com a reorganização das cadeias de abastecimento de LED na China.
O caso russo é particularmente instrutivo. As exportações da UE para a Rússia caíram de 72 M EUR (2015) para praticamente zero (5 214 EUR em 2025), uma redução de −100%, refletindo as sanções comerciais impostas após 2022. As importações da Rússia, embora marginais, seguiram uma trajetória semelhante. O coeficiente de variação das exportações para Rússia é o mais elevado entre os parceiros analisados (0,70), refletindo a instabilidade extrema deste fluxo.
Os parceiros europeus de exportação mostram trajetórias heterogéneas:
| Destino | Exportações 2015 | Exportações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| EUA | 490 M EUR | 270 M EUR | −44,9% |
| Reino Unido | 208 M EUR | 149 M EUR | −28,6% |
| China | 382 M EUR | 139 M EUR | −63,5% |
| Rússia | 72 M EUR | 0,005 M EUR | −100% |
| Suíça | 61 M EUR | 88 M EUR | +43,0% |
| Turquia | 61 M EUR | 51 M EUR | −16,9% |
| Arábia Saudita | 29 M EUR | 10 M EUR | −66,4% |
A queda das exportações para a China (−63,5%) é particularmente significativa: a China, outrora um grande destino de exportações europeias de lâmpadas (possivelmente componentes e lâmpadas de nicho), tornou-se agora um exportador líquido esmagador para a UE. A Suíça (+43%) é a única exceção numa tendência predominantemente negativa, provavelmente refletindo a proximidade e a especificidade do mercado suíço como re-exportador.
O impacto interno: os principais importadores e exportadores da UE
Dentro da UE, a distribuição geográfica do comércio revela concentração e heterogeneidade (reporters principais):
Maiores importadores (valor, 2025):
| País | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 247 M EUR | 336 M EUR | +35,9% |
| Polónia | 94 M EUR | 258 M EUR | +174,9% |
| França | 129 M EUR | 183 M EUR | +42,4% |
| Países Baixos | 173 M EUR | 160 M EUR | −7,7% |
| Itália | 81 M EUR | 125 M EUR | +55,2% |
| Espanha | 63 M EUR | 106 M EUR | +70,1% |
| Bélgica | 47 M EUR | 73 M EUR | +57,3% |
O crescimento excecional das importações da Polónia (+174,9%) — de 94 M EUR para 258 M EUR — deve-se simultaneamente ao crescimento do mercado interno polaco e ao papel da Polónia como hub europeu de montagem e redistribuição de lâmpadas LED, dada a sua base produtiva especializada.
Maiores exportadores (valor, 2025):
| País | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 829 M EUR | 592 M EUR | −28,6% |
| Polónia | 237 M EUR | 148 M EUR | −37,7% |
| Hungria | 276 M EUR | 48 M EUR | −82,7% |
| França | 146 M EUR | 84 M EUR | −42,3% |
| Países Baixos | 237 M EUR | 69 M EUR | −70,8% |
| Itália | 36 M EUR | 48 M EUR | +31,6% |
| Bélgica | 141 M EUR | 39 M EUR | −72,4% |
A Hungria (-82,7%), os Países Baixos (-70,8%) e a Bélgica (-72,4%) registaram as quedas mais espetaculares, enquanto a Itália (+31,6%) é o único país da UE a aumentar significativamente as suas exportações para terceiros países — um sinal de resiliência da sua indústria de iluminação especializada.
Conclusão
A análise do comércio externo da UE no setor das lâmpadas (CN 8539) entre 2015 e 2025 revela um mercado em transformação radical impulsionada por três forças convergentes:
-
A transição tecnológica para LED, que eliminou quase completamente a produção e o consumo de lâmpadas convencionais (incandescentes, halógenas, fluorescentes), cujo fim foi formalizado pela regulação europeia (RoHS, ecodesign).
-
A reconfiguração industrial global, que conduziu à perda de capacidade produtiva europeia em volumes (produção de unidades −85,3%) e à concentração da fabricação de LED na Ásia, nomeadamente na China.
-
O aumento da dependência externa, com a UE a passar de superavitária em 995 M EUR para deficitária em 312 M EUR, e com o índice de concentração HHI das importações a subir 44%, refletindo uma crescente vulnerabilidade na cadeia de abastecimento global.
Os riscos associados a esta evolução são claros: uma dependência de quase 74% do valor das importações de um único parceiro (China) para um bem essencial como a iluminação constitui um caso clássico de vulnerabilidade estratégica. A aposta europeia no LED — correta em termos ambientais e de eficiência energética — não foi acompanhada por uma política industrial capaz de manter uma base produtiva relevante no continente.
Todavia, subsistem sinais de resiliência: a queda do preço unitário das importações LED (-20% entre 2022 e 2025), a manutenção de nichos de exportação de alto valor (lâmpadas UV/IR, com exportações estáveis a preços crescentes), e a emergência de novos hubs produtivos na Europa Central (Polónia, Lituânia) sugerem que o mercado europeu de iluminação, embora profundamente transformado, não está em colapso — mas sim mudado de forma irreversível.