Evolução do mercado: Folha de alumínio (CN 7607) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) em folhas e tiras finas de alumínio (posição aduaneira CN 7607), com espessura não superior a 0,2 mm, abrangendo o período 2015–2025. Este produto é composto por três subcategorias: folhas simplesmente laminadas (760711), folhas com suporte (760720) e folhas trabalhadas adicionalmente (760719).
Ao longo da década analisada, o setor registou transformações significativas: o superávit comercial da UE reduziu-se substancialmente, as importações cresceram a um ritmo muito superior ao das exportações, e os preços unitários sofreram uma acentuada pressão inflacionária, agravada pelo choque de 2022. Simultaneamente, observaram-se mudanças na geografia dos parceiros comerciais e uma crescente concentração das exportações europeias. Este relatório organiza-se em três secções temáticas que procuram dar conta destas dinâmicas principais.
1. O enfraquecimento do superávit comercial europeu face ao avanço das importações
A balança comercial deteriorou-se significativamente entre 2015 e 2025
A UE manteve-se ao longo de todo o período como exportador líquido de folha de alumínio, mas o seu superávit comercial reduziu-se expressivamente. Em 2015, o saldo comercial situou-se nos 626,5 milhões de EUR; em 2025, caiu para 411,2 milhões de EUR — uma descida de 34,4%. O valor mínimo atingido foi de apenas 196,4 milhões de EUR, registando-se num ponto intermédio do período, refletindo um momento de máxima pressão importadora.
As importações cresceram mais de 45% em valor, enquanto as exportações estagnaram
O crescimento das importações da UE em folha de alumínio foi claramente mais robusto do que o das exportações:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (mil M EUR) | 1.525 | 1.721 | +12,8% |
| Exportações — volume (mil t) | 328.690 | 278.792 | −15,2% |
| Importações — valor (mil M EUR) | 898 | 1.310 | +45,8% |
| Importações — volume (mil t) | 238.125 | 282.356 | +18,6% |
| Balanço (mil M EUR) | 626,5 | 411,2 | −34,4% |
Em termos de volume, o mais relevante é que as exportações caíram 15,2% (de 328.690 t para 278.792 t), enquanto as importações subiram 18,6% (de 238.125 t para 282.356 t). Em 2025, o volume importado (282.356 t) ultrapassou ligeiramente o volume exportado (278.792 t), invertendo a posição de excedente líquido em termos físicos — um sinal estrutural relevante.
A dependência líquida de importações atenuou-se mas permanece negativa
O indicador de dependência líquida de importações passou de −37,4% em 2015 para −10,7% em 2025 (variação de +71,4%). Valores negativos indicam que a UE é exportador líquido; a convergência para zero reflete a erosão do excedente exportador. A produção europeia de folha de alumínio cresceu de 943.031 t para 1.050.000 t (+11,3%) e em valor de 3.755 milhões de EUR para 5.000 milhões de EUR (+33,1%), conforme dados PRODCOM, o que sugere que a procura interna absorveu uma parte crescente da produção europeia.
A propensão exportadora da UE diminuiu em mais de 20 pontos percentuais
A propensão exportadora — ou seja, a razão entre exportações e produção — desceu de 41,8% em 2015 para 33,3% em 2025 (−20,3%). Este indicador confirma que a indústria europeia tem canalizado uma quota crescente da sua produção para o mercado interno, em detrimento das vendas externas.
2. Reorientação geográfica: a ascensão da Turquia e a consolidação dos EUA como destino estratégico
A Turquia tornou-se o segundo maior fornecedor da UE, com crescimento de 108%
No lado das importações, a China manteve-se como principal origem, com 265,6 milhões de EUR em 2025 (crescimento moderado de 13,5% face a 2015). Contudo, a grande história deste período é a ascensão da Turquia como fornecedor: as importações turcas passaram de 176,0 milhões de EUR em 2015 para 365,4 milhões de EUR em 2025, um crescimento de 107,6% — praticamente duplicando a sua quota.
Outros fornecedores registaram também crescimentos notáveis:
| Parceiro | Importações 2015 (mil M EUR) | Importações 2025 (mil M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 234,0 | 265,6 | +13,5% |
| Turquia | 176,0 | 365,4 | +107,6% |
| Coreia do Sul | 26,6 | 91,3 | +243,1% |
| Reino Unido | 47,0 | 80,0 | +70,2% |
| Arménia | 43,8 | 59,4 | +35,7% |
| Noruega | 26,6 | 32,6 | +22,5% |
| Suíça | 136,1 | 110,7 | −18,6% |
A Coreia do Sul merece menção especial: com um crescimento de 243,1% em valor, passou de um fornecedor marginal a um ator relevante. Estas evoluções sugerem uma diversificação das cadeias de abastecimento europeias para além da China, possivelmente por razões de competitividade de preço e proximidade geográfica (caso turco).
Os EUA consolidaram-se como principal destino extrarregional das exportações europeias
Do lado das exportações, os Estados Unidos registaram o crescimento mais expressivo: de 169,0 milhões de EUR em 2015 para 376,2 milhões de EUR em 2025, um crescimento de 122,5%. Os EUA tornaram-se assim o maior destino das exportações europeias de folha de alumínio, ultrapassando o Reino Unido, cujas exportações caíram 20,9% (de 263,0 M EUR para 208,1 M EUR) — uma redução que pode estar associada ao Brexit e ao consequente atrito comercial.
| Parceiro | Exportações 2015 (mil M EUR) | Exportações 2025 (mil M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| EUA | 169,0 | 376,2 | +122,5% |
| Suíça | 213,7 | 332,8 | +55,8% |
| Reino Unido | 263,0 | 208,1 | −20,9% |
| Turquia | 76,9 | 115,5 | +50,2% |
| Argélia | 32,8 | 54,2 | +65,5% |
| Sérvia | 27,5 | 35,1 | +27,6% |
| México | 56,9 | 44,2 | −22,4% |
A concentração das exportações europeias aumentou
O índice HHI das exportações subiu de 810 para 1.117 (+37,9%), refletindo uma maior concentração das exportações num número reduzido de parceiros. Em contraste, o HHI das importações manteve-se estável (de 1.455 para 1.439, −1,1%), sugerindo que as fontes de abastecimento da UE se mantiveram razoavelmente diversificadas.
Alemanha e Itália dominam tanto as exportações como as importações intra-UE
Entre os principais Estados-Membros importadores, a Alemanha lidera com 287,4 milhões de EUR em 2025, seguida da Polónia (173,1 M EUR, crescimento de 112%), Itália (168,0 M EUR) e França (117,6 M EUR, crescimento de 113,8%). No que respeita às exportações, a Alemanha é de longe o maior exportador europeu (637,3 M EUR), seguida da Itália (281,2 M EUR, +36,9%) e da França (147,2 M EUR). A Espanha regista o maior crescimento relativo entre os grandes exportadores (+96,8%), passando de 49,3 M EUR para 97,1 M EUR.
A Grécia apresenta a maior especialização exportadora do setor
De acordo com os indicadores de especialização, a Grégia apresenta o RCA mais elevado da UE (14,04) e um RSCA de 0,867, confirmando uma forte vantagem comparativa revelada na folha de alumínio. Seguem-se a Croácia (RCA 6,90), a Bulgária (4,99), o Luxemburgo (3,81) e a Eslovénia (3,76). Do lado oposto, países como o Chipre, a Irlanda e a Áustria apresentam RCA próximo de zero, indicando ausência de especialização produtiva neste setor.
3. Pressão ascendente nos preços e o choque de 2022: a dimensão Turquia
Os preços de exportação subiram 33% ao longo da década, com um pico acentuado em 2022
O preço médio de exportação da folha de alumínio europeia subiu de 4.639 EUR/t em 2015 para 6.172 EUR/t em 2025, uma variação de +33,0%. Os preços de importação acompanharam a tendência, subindo 22,9% (de 3.773 EUR/t para 4.638 EUR/t). Contudo, a trajetória não foi linear: ambos os indicadores atingiram máximos em 2022, com os preços de exportação a atingirem 6.584 EUR/t e os de importação 5.337 EUR/t.
| Ano | Preço exportação (EUR/t) | Preço importação (EUR/t) | Prémio exportador |
|---|---|---|---|
| 2015 | 4.639 | 3.773 | +23,0% |
| 2018 | ~4.730* | ~3.525* | +34,2% |
| 2020 | ~4.500* | ~3.321* | +35,5% |
| 2022 | 6.584 | 5.337 | +23,4% |
| 2025 | 6.172 | 4.638 | +33,0% |
Valores estimados a partir dos dados de preço unitário disponíveis nos segmentos de produto.
O prémio exportador — a diferença entre os preços de exportação e de importação — permaneceu positivo ao longo de todo o período, indicando que a UE exporta folha de alumínio de maior valor acrescentado (provavelmente produtos mais trabalhados ou de maior especificação técnica).
A Turquia foi epicentro do choque de preços de 2022
A análise de choques identificou três eventos de anomalia significativa, todos centrados em 2022:
| Evento | Tipo | Fluxo | Anomalia | Desvio (%) | Quota no valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Turquia | Preço | Exportações | 25,7 | +40,3% | 7,9% |
| Ucrânia | Preço | Exportações | 11,0 | +44,7% | 1,7% |
| Turquia | Preço | Importações | 5,2 | +62,6% | 28,9% |
O choque mais relevante em termes de anomalia estatística foi o registado nas exportações para a Turquia (anomalia de 25,7), com um desvio de preços de +40,3%. Nas importações provenientes da Turquia, o desvio foi ainda superior (+62,6%), embora com uma anomalia menor (5,2). Estes dados sugerem que a Turquia, enquanto parceiro comercial bidirecional, foi fortemente afetada pelas disrupções de 2022 — possivelmente associadas à guerra na Ucrânia, ao aumento dos custos energéticos e às tensões nas cadeias de abastecimento globais de alumínio.
O choque nas exportações para a Ucrânia (+44,7% de desvio de preços, anomalia de 11,0) é consistente com a interrupção das relações comerciais decorrente do conflito armado.
A volatilidade dos fluxos comerciais varia significativamente entre parceiros
O coeficiente de variação (CV) das importações revela disparidades acentuadas:
- Alta volatilidade: Índia (CV 0,93), Tailândia (0,88), Coreia do Sul (0,46), Japão (0,41)
- Volatilidade moderada: China (0,29), Reino Unido (0,28), Noruega (0,23)
- Baixa volatilidade: Turquia (0,12) — apesar do choque de 2022, o que sugere crescimento consistente
Nas exportações, os parceiros com maior volatilidade incluem a Rússia (CV 0,75) e o Canadá (0,57), enquanto a Suíça (0,04) e a Turquia (0,07) apresentam os fluxos mais estáveis.
Os segmentos de produto refletem a mesma pressão de preços, com destaque para o crescimento das importações de folha com suporte
A análise por subcategoria revela dinâmicas diferenciadas:
Importações por segmento (volume, em mil toneladas):
| Segmento | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 760711 — Simplesmente laminadas | 156,6 | 178,5 | +14,0% |
| 760720 — Com suporte | 31,9 | 62,2 | +94,9% |
| 760719 — Trabalhadas adicionalmente | 49,5 | 41,6 | −16,0% |
O segmento de folha com suporte (760720) registou o maior crescimento das importações (+94,9%), praticamente duplicando em volume. Este crescimento reflete provavelmente a procura crescente de folha de alumínio para aplicações de embalagem flexível, uma tendência estrutural impulsionada pelo setor alimentar e pelas exigências de sustentabilidade.
Exportações por segmento (volume, em mil toneladas):
| Segmento | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 760711 — Simplesmente laminadas | 167,4 | 157,2 | −6,1% |
| 760720 — Com suporte | 114,2 | 77,1 | −32,5% |
| 760719 — Trabalhadas adicionalmente | 47,0 | 44,5 | −5,4% |
Já as exportações de folha com suporte caíram 32,5%, sugerindo que a UE está a perder quota de mercado neste segmento ou a redirecionar a produção para consumo interno. O segmento 760719 mantém os preços mais elevados (9.454 EUR/t em 2025), confirmando o seu carácter de maior valor acrescentado.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural no comércio europeu de folha de alumínio (CN 7607). A UE manteve a sua condição de exportador líquido, mas o superávit comercial reduziu-se em mais de um terço, enquanto as importações cresceram a um ritmo muito mais acelerado do que as exportações — tanto em valor (+45,8% vs. +12,8%) como em volume (+18,6% vs. −15,2%).
Geograficamente, a Turquia emergiu como o parceiro mais dinâmico da década, praticamente duplicando as suas exportações para a UE e tornando-se simultaneamente o epicentro do choque de preços de 2022. Os EUA consolidaram-se como principal destino extrarregional das exportações europeias, compensando parcialmente a perda de quota no mercado britânico pós-Brexit.
Os preços registaram uma trajetória ascendente sustentada, atingindo o máximo em 2022, ano em que se concentraram os choques mais significativos. A crescente concentração das exportações (HHI +37,9%) constitui um risco potencial de vulnerabilidade, contrastando com a relativa diversificação das fontes de importação.
Finalmente, o crescimento exponencial das importações de folha com suporte (+94,9% em volume) e a simultânea queda das exportações deste segmento (−32,5%) apontam para uma mudança na estrutura de procura europeia, possivelmente associada à expansão do setor de embalagens flexíveis. Este fenómeno merece acompanhamento atento, na medida em que pode reconfigurar a posição competitiva da UE num segmento de elevada procura global.