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Evolução do mercado: Erva-mate (CN 0903) — 2015–2025

Introdução

A erva-mate (CN 0903) é um produto tradicionalmente consumido na América do Sul — sobretudo na Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — cujo consumo tem vindo a ganhar expressão no mercado europeu. Classificada sob o código 0903, num capítulo mais amplo que inclui café, chá e especiarias (CN 09), a erva-mate apresenta um padrão comercial distinto no contexto da União Europeia: a UE é estruturalmente importadora líquida, com uma produção interna marginal ou inexistente.

Entre 2015 e 2025, o comércio europeu de erva-mate registou uma transformação significativa. As importações cresceram 150% em valor e 174% em quantidade, atingindo cerca de 8 605 toneladas e €26,4 milhões em 2025. As exportações, embora muito menores, acompanharam parcialmente este crescimento, com um aumento de 65% em valor. Este período é marcado por três grandes dinâmicas: um crescimento sustentado da procura europeia, uma concentração e, simultaneamente, uma diversificação geográfica das fontes de abastecimento, e episódios de choque de preços — notavelmente em 2022 — que reconfiguraram parcialmente os fluxos comerciais.

O presente relatório analisa a evolução do comércio da erva-mate na UE ao longo desta década, organizado em três eixos: o crescimento e a assimetria dos fluxos, a estrutura geográfica dos parceiros comerciais, e a volatilidade e os choques de oferta que marcaram o período.


1. Crescimento acelerado das importações e aprofundamento do défice comercial

1.1. As importações mais do que duplicaram em volume e valor

O período 2015–2025 foi caracterizado por um crescimento robusto das importações europeias de erva-mate. Em 2015, a UE importou 3 145,8 toneladas no valor de €10,6 milhões; em 2025, esses valores atingiram 8 604,6 toneladas e €26,4 milhões, correspondendo a aumentos de 173,5% e 149,9%, respetivamente (Vista geral do comércio).

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Importações — volume (t) 3 145,8 8 604,6 +173,5%
Importações — valor (€) 10 579 799 26 437 416 +149,9%
Preço médio importação (€/t) 3 362,9 3 071,8 −8,7%
Exportações — volume (t) 185,3 304,8 +64,5%
Exportações — valor (€) 1 371 579 2 266 648 +65,3%
Balança comercial (€) −9 208 221 −24 170 769 −162,5%

A evolução das importações apresenta um crescimento quase contínuo ao longo do período, sem anos de contração significativa. O mínimo tanto em volume como em valor ocorreu no primeiro ano da série (2015), e o máximo em 2025, sugerindo que o crescimento não decorreu de um único pico, mas antes de uma tendência estrutural ascendente.

1.2. Preços de importação estáveis a ligeiramente decrescentes

Um aspeto relevante é a evolução do preço médio de importação. Apesar do crescimento da procura, o preço médio caiu 8,7%, passando de €3 362,9/t para €3 071,8/t. O preço mínimo registado foi de €2 838,1/t e o máximo de €3 444,7/t (Vista geral do comércio). Esta relativa estabilidade — ou ligeira descida — de preços sugere que os fornecedores sul-americanos conseguiram expandir a oferta de forma a acompanhar o crescimento da procura europeia sem pressões inflacionistas significativas no médio prazo, apesar de choques pontuais de preços (ver Secção 3).

1.3. As exportações europeias são marginais mas crescem

As exportações da UE para países terceiros são significativamente mais pequenas que as importações (representando menos de 10% do valor importado em 2025), mas registaram um crescimento de 65% em valor e 65% em volume ao longo da década. O preço médio de exportação (€7 436,6/t em 2025) é mais do dobro do preço médio de importação (€3 071,8/t), o que pode refletir reexportações de produto com maior valor acrescentado, ou operações de distribuição a partir de hubs europeus para mercados terceiros (Vista geral do comércio).

1.4. O défice comercial alargou-se para €24 milhões

O défice comercial da UE em erva-mate agravou-se de €9,2 milhões em 2015 para €24,2 milhões em 2025, um agravamento de 162,5%. Este défice crescente é uma consequência direta do crescimento muito mais acentuado das importações do que das exportações, e reflete o papel da UE como mercado consumidor de um produto cuja produção se encontra quase exclusivamente na América do Sul.


2. Predominância sul-americana e emergência de novos parceiros e hubs internos

2.1. Argentina, Brasil e Paraguai dominam o abastecimento

O fornecimento de erva-mate à UE é fortemente concentrado na América do Sul, com a Argentina, o Brasil e o Paraguai a representarem a esmagadora maioria das importações (Principais parceiros por valor).

Parceiro Importações 2015 (€) Importações 2025 (€) Variação (%)
Argentina 4 510 350 10 581 119 +134,6%
Brasil 4 052 849 8 290 667 +104,6%
Paraguai 1 160 135 3 040 565 +162,1%
Uruguai 85 184 560 318 +557,8%
Síria 5 198 3 314 809 +63 668%
Líbano 170 377 25 057 −85,3%
Reino Unido 367 567 72 525 −80,3%

A Argentina manteve-se ao longo de toda a série como o principal fornecedor, com importações que passaram de €4,5 milhões para €10,6 milhões. O Brasil, o segundo maior parceiro, cresceu de €4,1 milhões para €8,3 milhões. O Paraguai, embora partindo de uma base menor, apresentou o maior crescimento relativo entre os três grandes fornecedores (+162,1%), passando de €1,2 milhões para €3,0 milhões.

O Uruguai, apesar de representar um volume ainda modesto, registou o crescimento mais expressivo entre os parceiros tradicionais: +557,8%, passando de €85 mil para €560 mil. Esta evolução sugere uma crescente diversificação da base de fornecimento dentro da própria região do Cone Sul.

2.2. A Síria: um caso atípico de crescimento exponencial

O caso mais notável na evolução dos parceiros de importação é a República Árabe Síria. As importações da Síria passaram de apenas €5 198 em 2015 para €3 314 809 em 2025 — um aumento de 63 668%. A Síria tornou-se assim o quarto maior fornecedor de erva-mate à UE em 2025, ultrapassando o Paraguai. Este crescimento explosivo é particularmente surpreendente dada a situação geopolítica síria durante este período e pode refletir reexportações ou reclassificações comerciais, ou um papel crescente do Líbano e da Síria como entrepostos comerciais na rota entre a América do Sul e a Europa (Principais parceiros por valor).

Note-se que o Líbano — parceiro que historicamente partilha dinâmicas comerciais semelhantes com a Síria — apresentou o movimento oposto: as importações caíram 85,3%, de €170 mil para €25 mil. Esta inversão síria-libanesa sugere uma possível transferência de rotas ou de intermediários comerciais.

2.3. Concentração das importações diminuiu ligeiramente

O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor desceu de 3 422,6 para 2 885,5 entre 2015 e 2025, uma redução de 15,7% (Concentração — HHI). Apesar desta descida, o HHI permanece num nível que indica uma concentração moderada a elevada, consistente com a predominância de três parceiros sul-americanos. A diminuição reflete sobretudo o crescimento de fornecedores como o Paraguai, o Uruguai e a Síria.

2.4. Os Países Baixos e a Chequia emergem como hubs europeus

A análise dos Estados-Membros da UE como importadores revela uma redistribuição significativa dos fluxos dentro da própria União (Principais importadores da UE).

Estado-Membro Importações 2015 (€) Importações 2025 (€) Variação (%)
Alemanha 3 720 313 6 731 681 +80,9%
Espanha 2 624 056 7 222 732 +175,3%
Países Baixos 507 709 6 935 151 +1 266,0%
França 2 238 282 1 528 821 −31,7%
Chequia 44 512 1 485 060 +3 236,3%
Itália 443 028 325 439 −26,5%
Suécia 304 814 632 885 +107,6%

A Alemanha manteve-se como o maior importador, mas o crescimento mais espetacular registou-se nos Países Baixos (+1 266%, de €508 mil para €6,9 milhões) e na Chequia (+3 236%, de €45 mil para €1,5 milhões). Os Países Baixos tornaram-se em 2025 o segundo maior importador da UE, quase ao nível da Alemanha — provavelmente refletindo o papel de Roterdão como porta de entrada e redistribuição europeia. A Chequia, por sua vez, destaca-se como o Estado-Membro com maior crescimento relativo, e a sua elevada especialização (RCA de 3,06, ver abaixo) sugere um mercado doméstico de erva-mate em rápida expansão, possivelmente ligado à cultura tereré e à comunidade sul-americana residente.

A França e a Itália foram os únicos grandes importadores a registar contrações (−31,7% e −26,5%, respetivamente), sugerindo uma redistribuição geográfica da procura dentro da UE.

2.5. Especialização: Países Baixos e Chequia lideram a vantagem comparativa

Os dados de especialização para 2025 revelam um padrão claro (Especialização dos Estados-Membros).

Estado-Membro RSCA RCA Quota produção Quota total
Países Baixos 0,552 3,468 50,3% 14,5%
Chequia 0,508 3,061 14,7% 4,8%
Portugal 0,160 1,382 1,9% 1,4%
Alemanha 0,015 1,030 21,8% 21,2%
Espanha −0,241 0,612 3,5% 5,8%

Os Países Baixos e a Chequia apresentam os valores mais elevados tanto de RCA como de RSCA, indicando uma especialização clara no comércio de erva-mate. A Alemanha, apesar de ser o maior importador em valor absoluto, apresenta uma RCA próxima de 1 (1,03), refletindo o seu papel como importador generalista. Os Países Baixos detêm 50,3% da quota de produção da UE neste setor, sublinhando o seu papel como hub logístico e de redistribuição.


3. Volatilidade moderada nos fluxos estruturais e choques de preços pontuais em 2022

3.1. Os principais fornecedores apresentam volatilidade moderada

O coeficiente de variação (CV) das importações dos principais parceiros sul-americanos mantém-se em níveis moderados, refletindo a regularidade dos fluxos (Volatilidade).

Parceiro CV — Importações
Argentina 0,373
Brasil 0,316
Paraguai 0,335
Uruguai 0,709
Síria 0,777
Líbano 0,931
Turquia 1,516
Reino Unido 0,995

Os três grandes fornecedores (Argentina, Brasil, Paraguai) apresentam CVs entre 0,32 e 0,37 — níveis que indicam uma certa regularidade no fornecimento, consistente com a maturidade das relações comerciais. Em contraste, parceiros mais recentes ou menores (Turquia, Síria, Líbano) exibem volatilidade muito superior, refletindo o carácter ainda incipiente ou intermitente destes fluxos.

3.2. O choque de preços de 2022: Argentina e Brasil no epicentro

O evento de maior destaque no período analisado foi um choque de preços nas importações ocorrido em 2022 (Choques de oferta).

Parceiro Tipo de choque Fluxo Anormalidade Variação (%) Valor envolvido (%)
Argentina Preço Importações 377,6 +22,3% 46,0%
Brasil Preço Importações 8,3 +16,4% 40,9%
Andorra Preço Exportações 10,7 +27,3% 2,5%

O choque mais significativo foi registado nas importações da Argentina em 2022, com uma anormalidade de 377,6 — um valor extremamente elevado — e uma subida de preços de 22,3%. Dado que a Argentina representava 46% do valor das importações naquele ano, o impacto sobre o preço médio global foi substancial. O Brasil, com 40,9% do valor e uma subida de 16,4%, também foi afetado de forma significativa.

Este choque de 2022 coincide com o período de inflação global pós-pandemia e com as disrupções nas cadeias de abastecimento e nos custos de transporte que afetaram o comércio internacional nesse período. No caso da Argentina, fatores adicionais como a seca, a desvalorização do peso e restrições às exportações podem ter contribuído para a pressão sobre os preços CIF para a Europa.

3.3. Dinâmica das exportações europeias: crescimento em mercados não tradicionais

Do lado das exportações, a volatilidade é mais heterogénea. Os mercados tradicionais de destino (Reino Unido, Suíça, Rússia) apresentam CVs entre 0,40 e 0,49, indicando uma relativa estabilidade. No entanto, destaca-se o crescimento exponencial das exportações para a China (+111,2% em valor, de €55 mil para €116 mil), com CV de 1,22, e para o Brasil (+2 480%, de €2 mil para €51 mil), sugerindo que a UE está a expandir o seu papel como reexportadora ou redistribuidora de erva-mate para mercados fora do Cone Sul (Volatilidade — exportações).

Destino CV — Exportações Exportações 2015 (€) Exportações 2025 (€) Variação (%)
Reino Unido 0,466 356 299 751 894 +111,0%
Rússia 0,489 74 886 243 870 +225,7%
Suíça 0,400 114 538 365 413 +219,0%
China 1,215 54 825 115 767 +111,2%
África do Sul 0,501 32 447 126 883 +291,0%
Brasil 1,101 1 979 51 056 +2 480,0%

Conclusão

O comércio europeu de erva-mate (CN 0903) entre 2015 e 2025 é uma história de crescimento sustentado, mas assimétrico. A UE consolidou a sua posição como mercado importador, com as importações a mais do que duplicarem em volume, atingindo 8 605 toneladas e €26,4 milhões em 2025. O défice comercial agravou-se para €24,2 milhões, refletindo uma dependência estrutural do fornecimento sul-americano.

Três grandes dinâmicas definem este período:

  1. Um crescimento contínuo da procura europeia, impulsionado provavelmente pela difusão do consumo de mate e de produtos à base de erva-mate (incluindo o tereré e bebidas energéticas) em mercados como a Alemanha, os Países Baixos, a Chequia e a Espanha.

  2. Uma reconfiguração geográfica dos fluxos, tanto a nível dos fornecedores (com o crescimento do Paraguai, Uruguai e, de forma atípica, da Síria) como dentro da própria UE (com os Países Baixos e a Chequia a emergirem como hubs de importação e redistribuição, em detrimento da França e da Itália).

  3. Um episódio de choque de preços em 2022, que afetou particularmente as importações da Argentina e do Brasil, dois fornecedores que juntos representam mais de 85% do valor importado. Este choque, embora pontual, sublinhou a exposição da UE a disrupções na oferta sul-americana.

Olhando para o futuro, a continuação da tendência de crescimento da procura dependerá da capacidade de os fornecedores sul-americanos manterem e expandirem a produção, e da eventual diversificação das fontes de abastecimento. A emergência dos Países Baixos e da Chequia como hubs logísticos poderá facilitar a distribuição eficiente dentro da UE, mas a concentração geográfica da oferta — com a Argentina e o Brasil a dominarem — permanece um fator de vulnerabilidade estrutural.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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