Evolução do mercado: Canela (CN 0906) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia para o código pautal 0906 — Canela e flores de caneleira — no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição abrange três subcategorias: a canela verdadeira (Cinnamomum zeylanicum, código 090611), a canela em outras formas (código 090619) e a canela triturada ou em pó (código 090620). Trata-se de um produto essencialmente importado pela UE, uma vez que a caneleira não é cultivada em território europeu. Ao longo da década analisada, o mercado registou transformações significativas em termos de volume, valor, preços, parceiros comerciais e estrutura do produto. Os dados completos podem ser consultados no painel geral de comércio.
1. Disjunção entre volumes e valores: uma década de inflação de preços
A procura europeia cresceu em valor a um ritmo muito superior ao crescimento físico
O período 2015–2025 foi marcado por uma forte desaceleração do crescimento real de volumes, contrastando com uma subida acentuada dos valores transacionados. Do lado das importações, o volume cresceu apenas 27,9% (de 13 952 t para 17 849 t), enquanto o valor disparou 106,4%, passando de €33,9 milhões para €70,0 milhões. O preço médio de importação subiu de €2 432/t para €3 923/t (+61,3%), atingindo um máximo de €4 882/t em 2022. Esta dinâmica sugere que a canela deixou de ser um produto de crescimento por volume para se tornar um produto cuja valorização é cada vez mais determinada pela componente de preço.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — Valor (M€) | 33,9 | 70,0 | +106,4% |
| Importações — Volume (t) | 13 952 | 17 849 | +27,9% |
| Importações — Preço (€/t) | 2 432 | 3 923 | +61,3% |
| Exportações — Valor (M€) | 8,6 | 16,8 | +97,0% |
| Exportações — Volume (t) | 1 588 | 2 048 | +29,0% |
| Exportações — Preço (€/t) | 5 384 | 8 225 | +52,8% |
O défice comercial agravou-se significativamente
O saldo comercial da UE em canela passou de −€25,4 milhões em 2015 para −€53,2 milhões em 2025, um agravamento de 109,6%. O máximo absoluto do défice foi registado em 2022, atingindo −€63,1 milhões — coincidindo com o pico de preços após a crise logística pós-COVID e o início do conflito na Ucrânia. Apesar de as exportações europeias terem também crescido quase ao mesmo ritmo em valor (+97%), o seu peso relativo é insuficiente para reduzir o desequilíbrio estrutural, dado que as importações representam cerca de quatro vezes o valor das exportações.
(Fonte: Dados gerais de comércio)
2. Diversificação geográfica das fontes de abastecimento
A Indonésia mantém-se como parceiro dominante, mas o Vietname emergiu como concorrente estratégico
A estrutura de abastecimento da UE em canela sofreu uma profunda transformação ao longo do período. Em 2015, a Indónia e o Sri Lanka dominavam as importações, com €18,0 milhões e €7,4 milhões, respetivamente. Em 2025, a Indónia manteve a liderança com €23,3 milhões (+29,4%), mas o Vietname ascendeu de apenas €1,8 milhões para €17,7 milhões — um crescimento de 899,5% — tornando-se o segundo maior fornecedor da UE. A China também registou um crescimento expressivo de 327,3%, passando de €1,6 milhões para €6,7 milhões.
| Parceiro (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Indonésia | 18,0 | 23,3 | +29,4% |
| Vietname | 1,8 | 17,7 | +899,5% |
| Sri Lanka | 7,4 | 11,7 | +57,1% |
| Madagáscar | 2,9 | 6,6 | +126,7% |
| China | 1,6 | 6,7 | +327,3% |
| Reino Unido | 1,1 | 1,2 | +4,5% |
| Tanzânia | <0,01 | 0,8 | +28 656% |
O índice de concentração das importações diminuiu substancialmente
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor caiu de 3 426 para 2 208 (−35,6%), refletindo uma diversificação efetiva das fontes. O valor mínimo do HHI foi registado em 2023 (2 054), sugerindo que, nesse ano, a distribuição de fornecedores foi a mais equilibrada do período. Em termos de volume, a queda foi ainda mais acentuada (−48,1%). A Tanzânia, que em 2015 representava apenas €2 836 em exportações para a UE, tornou-se em 2025 uma fonte de €815 513, embora com um coeficiente de variação de 0,75 — o mais volátil dos principais fornecedores — o que sugere fornecimentos ainda incipientes e pouco regulares.
As exportações europeias dirigem-se sobretudo ao espaço europeu alargado
Do lado das exportações, o Reino Unido é de longe o principal destino, absorvendo €5,7 milhões em 2025 (+66,7% face a 2015). Seguem-se a Rússia (€2,1 milhões, +171%), a Noruega (€2,1 milhões, +193,6%) e a Suíça (€2,1 milhões, +314,4%). Estes números sugerem que a canela europeia — provavelmente já transformada — é sobretudo redistribuída para mercados vizinhos da Europa, incluindo países do EEE e candidatos à adesão (Sérvia: +251,3%). A concentração das exportações manteve-se relativamente estável (HHI de 1 827 para 1 632), o que indica uma distribuição geográfica moderadamente diversificada mas sem alterações estruturais significativas.
(Fonte: Parceiros comerciais · Especialização e concentração)
3. A canela triturada ou em pó como motor de crescimento
O segmento 090620 tornou-se dominante nas importações
A análise por subcategoria revela que o crescimento das importações foi desigual. O segmento de canela triturada ou em pó (090620) registou uma explosão: o volume quase duplicou, passando de 4 105 t para 9 510 t (+131,6%), e o valor cresceu 282,9%, de €8,4 milhões para €32,0 milhões. Em contraste, o segmento de canela em outras formas (090619, que exclui a Cinnamomum zeylanicum e a canela moída) registou mesmo uma ligeira queda de volume (de 6 450 t para 5 162 t), embora o valor tenha crescido 55,8% devido à subida de preços (de €2 100/t para €4 088/t). O segmento de canela verdadeira (090611) manteve volumes estáveis em torno de 3 100–3 800 t.
| Subcategoria | 2015 — Vol. (t) | 2025 — Vol. (t) | 2015 — Valor (M€) | 2025 — Valor (M€) |
|---|---|---|---|---|
| 090619 — Outras formas | 6 450 | 5 162 | 13,5 | 21,1 |
| 090620 — Triturada/em pó | 4 105 | 9 510 | 8,4 | 32,0 |
| 090611 — C. zeylanicum | 3 397 | 3 177 | 12,0 | 16,9 |
O crescimento da canela em pó reflete a transformação da procura alimentar
A crescente procura de canela em pó pode estar associada à expansão da indústria alimentar europeia, nomeadamente nos segmentos de alimentos processados, bebidas e produtos de panificação, onde a canela em pó é mais prática e direta na sua utilização. O preço médio do segmento 090620 em importação (€3 368/t em 2025) situa-se abaixo do da canela verdadeira (€5 318/t), o que sugere que este crescimento é em parte impulsionado por uma canela de menor custo — provavelmente cassia asiática — em substituição da canela do Ceilão, mais cara.
As exportações europeias concentram-se no segmento triturado com preços premium
Do lado das exportações, o padrão é semelhante: a canela triturada ou em pó (090620) representa a maior parte do volume (1 708 t em 2025, 83% do total exportado) e do valor (€12,7 milhões, 75%). Contudo, os preços de exportação do segmento 090620 (€7 413/t) são significativamente superiores aos de importação (€3 368/t), o que indica que a UE importa canela em bruto ou a granel, procede à sua transformação ou mistura, e reexporta a preços mais elevados, sobretudo para mercados europeus vizinhos. A canela verdadeira (090611) apresenta preços de exportação particularmente altos (€19 093/t em 2025), o que reflecte provavelmente a sua natureza de produto de nicho e a adição de valor na cadeia europeia.
(Fonte: Segmentação por produto · Volatilidade)
Conclusão
O mercado europeu da canela (CN 0906) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por três grandes dinâmicas interrelacionadas: (i) uma forte valorização dos preços, que fez com que o crescimento do valor fosse muito superior ao crescimento dos volumes; (ii) uma diversificação geográfica significativa das fontes de abastecimento, com a emergência do Vietname como segundo maior fornecedor e a crescente importância da China e de países africanos, reduzindo a dependência tradicional da Indonésia e do Sri Lanka; e (iii) uma mudança estrutural na composição do produto, com o segmento de canela triturada ou em pó a tornar-se claramente dominante nas importações, impulsionado pela procura da indústria alimentar e por preços mais acessíveis relativamente à canela verdadeira do Ceilão.
O agravamento do défice comercial (de −€25,4 milhões para −€53,2 milhões) confirma que a UE continua fortemente dependente de fornecedores terceiros para este produto. As exportações europeias, embora em crescimento, funcionam essencialmente como redistribuição para mercados do espaço europeu alargado, com a adição de valor na cadeia de transformação europeia a reflectir-se em preços de exportação significativamente superiores aos de importação. O risco de abastecimento parece moderado, dada a crescente diversificação de fornecedores, embora a elevada volatilidade de alguns parceiros mais recentes (Tanzânia, Israel, Vietname) justifique uma monitorização atenta das cadeias de abastecimento.