Evolução do mercado: Café (CN 0901) — 2015–2025
Introdução
A União Europeia é o maior mercado de importação de café do mundo, sendo simultaneamente um processador e exportador relevante de café torrado. O código pautal 0901 abrange o café cru e torrado — com ou sem descafeinagem —, as cascas e películas de café e os sucedâneos que contenham café em qualquer proporção. O período 2015–2025 foi marcado por transformações profundas no mercado global do café, com reflexos diretos no comércio externo da UE.
Três dinâmicas centrais emergem da análise dos dados: (i) uma escalada acentuada dos preços, que fez duplicar o valor das importações sem crescimento proporcional dos volumes; (ii) uma reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento, com maior concentração nas importações e maior diversificação das exportações; e (iii) a consolidação da UE como plataforma de transformação, que importa sobretudo café cru e exporta café torrado de maior valor acrescentado.
1. A explosão dos preços e o agravamento do défice comercial
1.1 O valor das importações duplica com volumes praticamente estáveis
O período 2015–2025 foi dominado por um efeito-preço de grande magnitude. O valor total das importações extra-UE de café passou de 8,6 mil milhões de euros em 2015 para 18,7 mil milhões em 2025, uma subida de +118,9%. No entanto, o volume importado cresceu apenas +7,5%, de 2,73 milhões de toneladas para 2,94 milhões de toneladas. O preço médio de importação subiu assim de 3.133 €/t para 6.379 €/t, um aumento de +103,6%.
| Ano | Importações (M€) | Importações (mil t) | Preço médio (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 8.557 | 2.731 | 3.133 |
| 2016 | 8.171 | 2.904 | 2.814 |
| 2017 | 8.508 | 2.787 | 3.053 |
| 2018 | 7.561 | 2.910 | 2.598 |
| 2019 | 7.512 | 3.002 | 2.502 |
| 2020 | 7.515 | 2.890 | 2.600 |
| 2021 | 8.237 | 2.894 | 2.846 |
| 2022 | 12.813 | 3.048 | 4.203 |
| 2023 | 10.631 | 2.745 | 3.873 |
| 2024 | 13.581 | 2.990 | 4.542 |
| 2025 | 18.731 | 2.936 | 6.379 |
O ponto de rutura mais evidente ocorre entre 2021 e 2022, quando o preço médio de importação sobe de 2.846 €/t para 4.203 €/t (+48%). Esta escalada está associada às más condições climáticas no Brasil (geada de julho de 2021 e seca subsequente) e às disrupções nas cadeias de abastecimento globais. Após uma breve correção em 2023, os preços retomaram a trajetória ascendente, atingindo o máximo do período em 2025.
No segmento dominante — café cru não descafeinado (CN 090111), que representa cerca de 97% do volume importado —, a evolução é ainda mais marcante: o preço subiu de 2.622 €/t em 2015 para 5.942 €/t em 2025, um aumento de +127%.
1.2 O défice comercial duplica, de −7 mil milhões para −15 mil milhões
A UE é estruturalmente deficitária em café, dado que a produção europeia se limita essencialmente ao processamento (torragem e transformação). O défice comercial passou de −7,0 mil milhões de euros em 2015 para −15,1 mil milhões em 2025, uma deterioração de +117,4%.
| Ano | Exportações (M€) | Défice (M€) |
|---|---|---|
| 2015 | 1.593 | −6.964 |
| 2016 | 1.685 | −6.486 |
| 2017 | 1.809 | −6.699 |
| 2018 | 1.782 | −5.779 |
| 2019 | 1.904 | −5.609 |
| 2020 | 1.984 | −5.530 |
| 2021 | 2.080 | −6.157 |
| 2022 | 2.644 | −10.169 |
| 2023 | 2.585 | −8.046 |
| 2024 | 2.858 | −10.723 |
| 2025 | 3.591 | −15.140 |
O ponto de mínimo do défice (menor valor absoluto) registou-se em 2020, com −5.530 milhões de euros, refletindo a queda dos preços do café durante a pandemia. A partir de 2022, o défice agravou-se significativamente, ultrapassando pela primeira vez os −10 mil milhões. Este agravamento deve-se sobretudo ao efeito-preço nas importações, uma vez que as exportações cresceram 125,4% em valor mas a partir de uma base quase cinco vezes inferior.
1.3 Compressão do fator de valorização na cadeia de transformação europeia
Uma dinâmica menos visível mas estrategicamente relevante é a compressão das margens dos torrefadores europeus. Em 2015, a UE importava café cru não descafeinado (CN 090111) a 2.622 €/t e exportava café torrado não descafeinado (CN 090121) a 7.695 €/t — um fator de valorização de 2,94x. Em 2025, os mesmos preços eram 5.942 €/t e 11.849 €/t, respetivamente, reduzindo o fator para 2,00x.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Preço importação café cru (€/t) | 2.622 | 5.942 | +126,6% |
| Preço exportação café torrado (€/t) | 7.695 | 11.849 | +54,0% |
| Margem bruta por tonelada (€/t) | 5.073 | 5.907 | +16,4% |
| Fator de valorização | 2,94x | 2,00x | −32,0% |
O custo da matéria-prima mais do que duplicou (+127%), enquanto o preço do produto processado no mercado de exportação subiu apenas +54%. A margem bruta absoluta cresceu apenas 16,4% ao longo de uma década, insuficiente para compensar integralmente o aumento dos custos operacionais, energéticos e logísticos acumulados. Esta compressão sugere uma pressão competitiva crescente sobre a indústria de torragem europeia nos mercados internacionais.
2. Reconfiguração geográfica: concentração nas importações e diversificação nas exportações
2.1 O Brasil consolida a liderança; Uganda emerge como fornecedor de destaque
O Brasil é, de longe, o principal fornecedor de café da UE, com exportações para o bloco que cresceram de 2,4 mil milhões de euros em 2015 para 6,4 mil milhões em 2025 (+165,8%). O Viet Nam, segundo maior fornecedor, apresentou uma trajetória semelhante (+159,6%), atingindo 2,9 mil milhões de euros.
Contudo, o crescimento mais espetacular registou-se em Uganda, cujas exportações para a UE passaram de 260 milhões de euros para 1.257 milhões (+383,9%), consolidando-a como o quarto maior fornecedor. Este crescimento reflete a aposta da Uganda na produção de café Arábica de qualidade e a crescente procura europeia por diversificação de origens para além dos fornecedores tradicionais da América Latina.
| País fornecedor | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Brasil | 2.406 | 6.395 | +165,8 |
| Viet Nam | 1.135 | 2.948 | +159,6 |
| Honduras | 587 | 989 | +68,5 |
| Uganda | 260 | 1.257 | +383,9 |
| Colômbia | 566 | 1.178 | +108,1 |
| Índia | 282 | 606 | +114,5 |
| Peru | 336 | 574 | +70,9 |
A concentração das importações, medida pelo índice Herfindahl-Hirschman (HHI), aumentou de 1.381 para 1.645 (+19,1%). Em 2015, o mercado situava-se na faixa «não concentrado» (abaixo de 1.500); em 2025, ultrapassou esse limiar, passando para a faixa de «concentração moderada». A crescente ponderação do Brasil na balança de fornecimentos explica grande parte desta evolução.
2.2 As exportações europeias diversificam-se para novos mercados
Em contraste com a maior concentração das importações, as exportações da UE tornaram-se significativamente mais diversificadas. O HHI das exportações diminuiu de 1.211 para 857 (−29,3%), refletindo uma distribuição mais equilibrada pelos mercados de destino.
Os dois maiores mercados mantiveram-se estáveis: os Estados Unidos (352 M€ → 622 M€, +76,8%) e o Reino Unido (347 M€ → 630 M€, +81,8%) continuam a absorver mais de um terço das exportações da UE em conjunto. Contudo, os crescimentos mais expressivos registaram-se em mercados secundários:
| País destino | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 347 | 630 | +81,8 |
| Estados Unidos | 352 | 622 | +76,8 |
| Suíça | 157 | 335 | +113,3 |
| Rússia | 121 | 211 | +73,6 |
| Ucrânia | 57 | 223 | +293,3 |
| Noruega | 53 | 107 | +103,5 |
| Austrália | 86 | 81 | −6,1 |
O caso da Ucrânia é particularmente notável: as exportações da UE cresceram +293,3%, de 57 para 223 milhões de euros, posicionando-a como o quinto maior mercado de destino em 2025. A Suíça (+113,3%) e a Noruega (+103,5%) também duplicaram as suas compras, refletindo a procura por café europeu processado de qualidade nestes mercados vizinhos. A Austrália é o único mercado do top 7 que registou uma ligeira contração (−6,1%).
2.3 Alemanha, Itália e Países Baixos como centros de gravidade do comércio europeu
A análise por Estado-Membro revela uma forte concentração do comércio em três polos principais. Em 2025, os sete maiores importadores intra-UE representavam a seguinte estrutura:
| Estado-Membro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) | Peso 2025 (%) |
|---|---|---|---|---|
| Alemanha | 2.931 | 6.160 | +110,2 | 32,9 |
| Itália | 1.383 | 3.447 | +149,2 | 18,4 |
| França | 1.520 | 2.212 | +45,5 | 11,8 |
| Bélgica | 819 | 1.607 | +96,3 | 8,6 |
| Espanha | 548 | 1.581 | +188,8 | 8,4 |
| Países Baixos | 167 | 1.393 | +733,9 | 7,4 |
| Suécia | 337 | 607 | +79,9 | 3,2 |
O crescimento mais espetacular registou-se nos Países Baixos (+733,9%), que passaram de 167 M€ para 1.393 M€ em importações. Esta evolução reflete o papel cada vez mais central de Roterdão como principal porto de entrada de café na Europa e a crescente importância dos Países Baixos como entreposto comercial e de reexportação. A Espanha (+188,8%) e a Itália (+149,2%) também registaram crescimentos muito acima da média.
No lado das exportações intra-UE, a Itália destaca-se como o maior exportador (487 M€ → 1.128 M€, +131,8%), refletindo a sua tradição como potência cafeeira especializada em torragem de café expresso. A Polónia regista o crescimento mais acentuado (+427,3%, de 38 para 198 M€), sinalizando a emergência de novos centros de processamento no Leste europeu. Os Países Baixos nas exportações cresceram +339,8% (89 M€ → 391 M€), consolidando o seu papel como hub logístico.
3. A UE como plataforma de transformação cafeeira
3.1 Importar grão verde, exportar café torrado: a estrutura do comércio
A análise por segmento de produto revela claramente o papel da UE como plataforma de transformação. Em 2025, a estrutura das importações era a seguinte:
Importações por segmento (2025):
| Segmento | Descrição | Volume (t) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 090111 | Cru, não descafeinado | 2.844.788 | 16.904 | 5.942 |
| 090121 | Torrado, não descafeinado | 67.213 | 1.574 | 23.416 |
| 090112 | Cru, descafeinado | 19.213 | 124 | 6.451 |
| 090122 | Torrado, descafeinado | 4.776 | 128 | 26.760 |
| 090190 | Cascas e sucedâneos | 168 | 2 | 9.024 |
| Total | 2.936.158 | 18.731 | 6.379 |
O café cru não descafeinado (CN 090111) representa 96,9% do volume importado e 90,2% do valor. A UE importa essencialmente matéria-prima para transformação interna.
Exportações por segmento (2025):
| Segmento | Descrição | Volume (t) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 090121 | Torrado, não descafeinado | 220.406 | 2.612 | 11.849 |
| 090112 | Cru, descafeinado | 64.791 | 492 | 7.593 |
| 090111 | Cru, não descafeinado | 53.344 | 384 | 7.165 |
| 090122 | Torrado, descafeinado | 5.818 | 85 | 14.538 |
| 090190 | Cascas e sucedâneos | 1.544 | 18 | 11.740 |
| Total | 345.904 | 3.591 | 10.377 |
Nas exportações, o café torrado não descafeinado (CN 090121) domina com 63,7% do volume e 72,7% do valor. A transformação da matéria-prima importada em café torrado de maior valor constitui assim a essência da cadeia cafeeira europeia.
A evolução temporal reforça esta tendência: o peso do café torrado nas exportações subiu de 51,8% do volume em 2015 (142.338 t num total de 274.785 t) para 65,4% em 2025 (226.224 t em 345.904 t). Em simultâneo, as exportações de café cru descafeinado (CN 090112) diminuíram de 98.016 t para 64.791 t (−33,9%), sugerindo uma reorientação da UE para exportar produto processado em vez de matéria-prima.
3.2 Intensidade comercial e propensão exportadora em crescimento exponencial
A intensidade comercial da UE em café registou um aumento exponencial, passando de 6,3% em 2015 para 25,9% em 2025 (+310,1%). A propensão exportadora seguiu uma trajetória paralela, de 5,3% para 17,3% (+224,1%). De acordo com os dados de especialização, os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada em 2025 foram a Bulgária (RSCA = 0,41), a Itália (0,35) e a Lituânia (0,28).
Estes indicadores revelam que o café deixou de ser sobretudo um produto de consumo interno na UE para se tornar uma mercadoria com crescente dimensão comercial externa. A produção europeia de café (essencialmente torragem e transformação) cresceu apenas +5,0% em volume (de 2,01 milhões de toneladas para 2,11 milhões), mas +87,1% em valor (de 8,0 mil milhões de euros para 14,9 mil milhões). A disparidade entre o crescimento do volume e o crescimento do valor confirma que o dinamismo do setor é inteiramente explicado pelo efeito-preço.
3.3 Vulnerabilidade crescente e volatilidade dos parceiros comerciais
A dependência líquida de importações agravou-se ao longo do período, passando de −4,5% em 2015 para −6,1% em 2025 (variação de −35,6%). O ponto de máxima dependência (−6,1%) registou-se em 2025, enquanto o ponto de menor dependência (+2,8%) se verificou em 2020, durante a pandemia, quando os preços do café atingiram mínimo.
A análise de volatilidade dos principais fornecedores, medida pelo coeficiente de variação (CV) dos fluxos de importação ao longo do período, revela diferenças significativas na previsibilidade:
| Fornecedor | Coeficiente de variação |
|---|---|
| Viet Nam | 0,086 |
| Brasil | 0,120 |
| Índia | 0,125 |
| Colômbia | 0,130 |
| Peru | 0,153 |
| Honduras | 0,157 |
| Etiópia | 0,224 |
| Uganda | 0,244 |
| Tanzânia | 0,245 |
| Indonésia | 0,286 |
O Viet Nam é o fornecedor mais estável (CV = 0,086), enquanto Indonésia (CV = 0,286) e Tanzânia (CV = 0,245) apresentam maior volatilidade. A combinação de crescente concentração das importações (HHI acima de 1.500) com fornecedores de elevada volatilidade constitui um fator de risco para a segurança do abastecimento europeu.
No lado das exportações, os mercados com maior volatilidade incluem a Bielorrússia (CV = 0,674) e a Turquia (CV = 0,521), mercados sujeitos a instabilidade geopolítica e a restrições comerciais. A detecção de choques de preço identificou eventos pontuais em mercados periféricos — como a Geórgia em 2019 (anomalia de preço de 1.406) e o Kosovo em 2022 (anomalia de 861) — mas estes incidentes tiveram impacto marginal no comércio total da UE.
Conclusão
O mercado europeu de café (CN 0901) entre 2015 e 2025 foi marcado por três transformações fundamentais que reconfiguraram a posição da UE na economia cafeeira global:
Em primeiro lugar, a escalada dos preços internacionais duplicou o valor das importações (de 8,6 para 18,7 mil milhões de euros) sem crescimento proporcional dos volumes (+7,5%), agravando o défice comercial de −7,0 para −15,1 mil milhões de euros. A subida mais acentuada registou-se entre 2021 e 2022, em resposta a choques de oferta no Brasil, e acelerou novamente em 2024–2025. A matéria-prima encareceu significativamente mais (+127% para o café cru) do que o produto processado exportado (+54% para o café torrado), comprimindo o fator de valorização da indústria europeia de 2,94x para 2,00x.
Em segundo lugar, a reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento traduziu-se numa assimetria marcante: as importações concentraram-se mais (HHI de 1.381 para 1.645), com o Brasil a consolidar a liderança e Uganda a emergir como fornecedor de destaque (+384%); as exportações, inversamente, diversificaram-se (HHI de 1.211 para 857), com a Ucrânia, a Suíça e a Noruega a registarem os crescimentos mais expressivos. Internamente, a Alemanha, a Itália e os Países Baixos consolidaram-se como os centros de gravidade do comércio europeu de café.
Em terceiro lugar, a consolidação da UE como plataforma de transformação cafeeira evidencia-se na estrutura do comércio: 97% das importações são café cru, enquanto 65% das exportações são café torrado. A intensidade comercial cresceu +310% e a propensão exportadora +224%, refletindo a crescente integração da indústria europeia nas cadeias globais de valor do café.
Os principais desafios identificados incluem a compressão das margens dos torrefadores, a crescente dependência de um número limitado de fornecedores (com o risco associado à volatilidade de alguns deles), e a sensibilidade da procura europeia às flutuações dos preços internacionais. A capacidade da indústria europeia de responder a estes desafios — através da diversificação de origens, da inovação em produtos de maior valor acrescentado e da eficiência operacional — será determinante para a competitividade do setor na próxima década.