Evolução do mercado: Padaria e pastelaria (CN 1905) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código pautal 1905 — que abrange produtos de padaria, pastelaria, bolachas e biscoitos, hóstias, cápsulas vazias para uso farmacêutico e produtos semelhantes — no período 2015–2025. Trata-se de um setor agroalimentar com dimensão significativa no comércio intra e extra-UE, envolvendo uma vasta gama de subprodutos desde pão crocante (knäckebrot) até waffles e bolachas edulcoradas.
O período em análise foi marcado por transformações estruturais: a consolidação da UE como exportador líquido relevante, a diversificação geográfica dos parceiros comerciais, choques exógenos como a pandemia de COVID-19 e o conflito na Ucrânia, e dinâmicas de preços impulsionadas pela inflação global de matérias-primas. Com base nos dados disponíveis (ver dashboard), o relatório organiza-se em três eixos de análise.
1. A consolidação da UE como superavitário estrutural no setor
1.1. Um superávit comercial que mais do que duplicou
Entre 2015 e 2025, o saldo comercial da UE no setor CN 1905 passou de €3 638 milhões para €8 287 milhões, representando um crescimento de 127,8%. Este alargamento resultou de uma combinação entre o crescimento acelerado das exportações e um aumento mais moderado das importações.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (€) | 4 930,9 M | 10 641,0 M | +115,8% |
| Importações (€) | 1 292,9 M | 2 354,3 M | +82,1% |
| Saldo (€) | 3 638,0 M | 8 286,8 M | +127,8% |
Fonte: General Overview
1.2. Exportações que crescem ao ritmo da procura global
As exportações da UE para países terceiros praticamente duplicaram em valor, passando de €4 931 milhões para €10 641 milhões. O crescimento das quantidades exportadas (+48,7%, de 1,65 para 2,46 milhões de toneladas) explica parte deste aumento, mas a componente de preços foi igualmente decisiva: o preço médio de exportação subiu 45,1%, de €2 984/t para €4 331/t, refletindo quer a inflação de custos de produção (energia, matérias-primas), quer uma evolução para produtos de maior valor acrescentado.
1.3. O setor reforça a sua relevância na balança agroalimentar
Os indicadores de autonomia e vulnerabilidade comercial evidenciam uma crescente orientação exportadora. A propensão exportadora (exportações como proporção da produção) subiu de 3,8% para 10,7% (+178,5%), e a intensidade comercial (exportações mais importações sobre a produção) passou de 5,1% para 12,7% (+150,7%). Por sua vez, a dependência líquida de importações agravou-se de -2,6% para -9,2%, confirmando que a UE se tornou progressivamente mais dependente das suas vendas externas do que das compras ao exterior (ver indicadores de vulnerabilidade).
Paralelamente, a produção europeia do setor cresceu 27,8% em quantidade (de 26,1 mil milhões de kg para 33,4 mil milhões de kg) e 79,0% em valor (de €53 157 milhões para €95 135 milhões), sugerindo um aumento significativo da produtividade e do valor unitário dos bens produzidos (ver produção).
2. Reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais
2.1. O Reino Unido como parceiro dominante em ambas as margens
O Reino Unido manteve-se ao longo de todo o período como o principal parceiro comercial da UE, tanto em exportações como em importações. As exportações para o Reino Unido passaram de €1 926 milhões para €3 856 milhões (+100,2%), representando cerca de 36% do total exportado em 2025. Do lado das importações, o fluxo cresceu de €776 milhões para €1 037 milhões (+33,6%). Apesar das incertezas associadas ao Brexit, o Reino Unido manteve uma relação comercial estreita com a UE neste setor, ainda que com crescimento mais modesto do que outros parceiros.
| Principais destinos de exportação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 926,0 M | 3 855,8 M | +100,2% |
| Estados Unidos | 438,5 M | 1 453,7 M | +231,5% |
| Suíça | 371,6 M | 707,2 M | +90,3% |
| Noruega | 283,8 M | 468,9 M | +65,3% |
| Rússia | 161,2 M | 220,5 M | +36,7% |
| Austrália | 127,5 M | 278,7 M | +118,5% |
| Canadá | 95,0 M | 280,6 M | +195,4% |
Fonte: Top partners
2.2. Estados Unidos: o mercado de exportação que mais acelerou
Dos sete principais destinos, os Estados Unidos registaram o crescimento mais expressivo em termos absolutos e relativos (+231,5%). Com um aumento de €439 milhões para €1 454 milhões, o mercado norte-americano tornou-se um motor de diversificação das exportações europeias, refletindo provavelmente a forte procura por produtos de pastelaria premium e a consolidação de marcas europeias naquele mercado. O Canadá (+195,4%) e a Austrália (+118,5%) apresentaram dinâmicas semelhantes, sugerindo uma estratégia europeia de reforço em mercados ultramarinos de elevado poder de compra.
2.3. Ucrânia, Turquia e Sérvia: novos fluxos de importação em crescimento exponencial
Do lado das importações, a evolução mais marcante ocorreu com parceiros de proximidade geográfica. As importações provenientes da Ucrânia cresceram 964,8% (de €18 milhões para €191 milhões), acompanhando a introdução das medidas comerciais autónomas da UE para a Ucrânia após 2022. A Turquia (+210,1%, de €82 milhões para €255 milhões) e a Sérvia (+375,0%, de €21 milhões para €102 milhões) registaram igualmente aumentos expressivos.
| Principais origens de importação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 776,3 M | 1 036,8 M | +33,6% |
| Turquia | 82,4 M | 255,5 M | +210,1% |
| Ucrânia | 17,9 M | 191,0 M | +964,8% |
| China | 38,8 M | 95,6 M | +146,1% |
| Sérvia | 21,5 M | 102,0 M | +375,0% |
| Macedónia do Norte | 27,2 M | 55,8 M | +105,0% |
| Vietname | 16,1 M | 44,8 M | +178,0% |
Fonte: Top partners
2.4. Queda da concentração das importações: um mercado de origem mais diversificado
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor desceu de 3 740 para 2 209 (-40,9%), saindo de um nível de concentração moderado para uma estrutura mais dispersa. Este resultado é consistente com a entrada de novos fornecedores (Ucrânia, Turquia, Sérvia, Vietname) e a redução do peso relativo do Reino Unido. Do lado das exportações, a concentração manteve-se relativamente estável (HHI de 1 768 para 1 628, -7,9%), sugerindo que os destinos europeus se mantiveram diversificados ao longo de todo o período (ver concentração).
2.5. Volatilidade mais acentuada nos fluxos com parceiros emergentes
Os coeficientes de variação (CV) revelam que a volatilidade das importações é significativamente superior nos parceiros mais recentes. A Sérvia apresenta o CV mais elevado (0,625), seguida da Ucrânia (0,451) e da China (0,296). Em contraste, os fluxos com parceiros tradicionais como o Reino Unido (0,201) e a Turquia (0,199) apresentam maior estabilidade relativa. Do lado das exportações, destaca-se a elevada volatilidade nas vendas para Marrocos (0,547) e Rússia (0,356), enquanto o Reino Unido (0,100) e a Noruega (0,063) constituem mercados muito mais previsíveis (ver volatilidade).
3. Dinâmicas de produto diferenciadas: crescimento dos waffles e erosão de nichos tradicionais
3.1. O código 190590 como espinha dorsal do comércio
A subposição 190590 — que engloba pão, pastelaria, bolos, biscoitos e outros produtos de padaria não especificados nas restantes subposições — domina absolutamente o comércio, representando a maior parte tanto das importações como das exportações. Em 2025, as exportações de 190590 atingiram 1 622 mil toneladas (€6 341 milhões), enquanto as importações chegaram a 616 mil toneladas (€1 474 milhões).
O crescimento das importações de 190590 em 2024–2025 é particularmente notável: a quantidade subiu de 404 mil toneladas para 616 mil toneladas (+52,4%), enquanto o preço médio desceu de €3 362/t para €2 394/t (-28,8%). Esta combinação — mais volume a preços significativamente mais baixos — sugere a entrada massiva de produtos de preço mais competitivo, possivelmente associada às preferências comerciais concedidas à Ucrânia e ao aumento de exportações turcas e sérvias.
| Subposição | Descrição | Imp. 2015 (t) | Imp. 2025 (t) | Exp. 2015 (t) | Exp. 2025 (t) |
|---|---|---|---|---|---|
| 190590 | Outros produtos de padaria e pastelaria | 329 295 | 615 798 | 1 021 410 | 1 622 396 |
| 190531 | Bolachas e biscoitos com edulcorantes | 122 526 | 135 982 | 356 205 | 478 381 |
| 190532 | Waffles e wafers | 25 387 | 68 842 | 154 205 | 270 573 |
| 190540 | Tostas e pão torrado | 23 151 | 20 710 | 34 607 | 50 562 |
| 190510 | Pão crocante (knäckebrot) | 6 390 | 2 410 | 58 734 | 21 654 |
| 190520 | Pão de especiarias | 6 536 | 5 331 | 27 142 | 13 425 |
Fonte: Product comparison
3.2. Waffles e wafers: o segmento de maior dinamismo
A subposição 190532 (waffles e wafers) registou o crescimento mais acelerado em termos percentuais, tanto em importações (+171,2% em volume, de 25 387 t para 68 842 t) como em exportações (+75,5% em volume, de 154 205 t para 270 573 t). Em valor, as exportações de waffles e wafers passaram de €699 milhões para €1 781 milhões (+154,7%), sustentadas por um aumento acentuado do preço médio de exportação (de €4 534/t para €6 583/t, +45,2%). Este segmento apresenta consistentemente o preço médio mais elevado entre todos os subprodutos, tanto em importação como em exportação, sugerindo uma especialização em produtos de maior valor acrescentado.
3.3. Knäckebrot e pão de especiarias: erosão progressiva de nichos tradicionais
Em contraste com o dinamismo dos waffles, dois subprodutos tradicionais registaram uma erosão significativa. As exportações de knäckebrot (190510) caíram 63,1% em volume (de 58 734 t para 21 654 t), apesar de o preço médio de exportação quase ter duplicado (de €2 264/t para €4 024/t). O pão de especiarias (190520) seguiu uma trajetória semelhante, com exportações a descer de 27 142 t para 13 425 t (-50,5%). Do lado das importações, ambos os subprodutos reduziram igualmente o volume, sugerindo uma contração estrutural da procura por estes nichos, ou uma reclassificação pautal dos respetivos produtos.
3.4. Preços de exportação em forte subida: inflação ou valor acrescentado?
Todas as subposições registaram aumentos significativos dos preços de exportação ao longo do período. Os waffles e wafers lideram (€6 583/t), seguidos do pão de especiarias (€5 429/t) e das bolachas edulcoradas (€4 583/t). As tostas e pão torrado apresentam o crescimento de preço mais modesto (+21,2%, de €2 721/t para €3 298/t). Esta evolução generalizada dos preços reflete parcialmente o aumento dos custos de produção (especialmente após 2021, com a crise energética e a subida dos preços dos cereais), mas também pode indicar uma aposta europeia em produtos de maior valor acrescentado, com diferenciação por marca, qualidade ou certificação de origem.
Conclusão
O período 2015–2025 consolidou a União Europeia como uma potência exportadora líquida no setor dos produtos de padaria e pastelaria (CN 1905), com um superávit comercial que mais do que duplicou para os €8,3 mil milhões. Esta evolução resultou de um crescimento sustentado das exportações — impulsionado tanto por volumes crescentes como por preços em forte subida — e de uma expansão mais moderada das importações.
Do ponto de vista geográfico, o Reino Unido manteve a centralidade, mas os Estados Unidos, a Suíça e o Canadá ganharam peso enquanto mercados de exportação de alto valor. Do lado das importações, a entrada expressiva da Ucrânia, da Turquia e da Sérvia diversificou significativamente as fontes de abastecimento, como comprova a queda de 40,9% no índice HHI de concentração.
A nível de produto, o setor evidencia uma dualidade crescente: enquanto os waffles e wafers consolidam a sua posição como segmento premium de elevado crescimento, nichos tradicionais como o knäckebrot e o pão de especiarias perdem relevância. A subida generalizada dos preços de exportação sugere que a indústria europeia está a captar valor acrescentado, embora o recente aumento do volume de importações a preços mais baixos em 2024–2025 — particularmente no código 190590 — possa constituir um sinal de alerta para a competitividade dos produtores europeus face a fornecedores de custo mais baixo.