Evolução do mercado: Massas (CN 1902) — 2015–2025
Introdução
A posição Nomenclatura Combinada (NC) 1902 engloba um amplo leque de massas alimentícias — desde esparguete e macarrão crus (com ou sem ovos), passando por massas recheadas como ravióli, nhoque e lasanha, até massas preparadas de outro modo e cuscuz. No período compreendido entre 2015 e 2025, o comércio externo da União Europeia (UE) neste setor registou uma expansão profunda: o valor das exportações cresceu 84,5%, atingindo €2.664 milhões em 2025, enquanto as importações mais do que duplicaram em valor (+162,7%), atingindo €1.046 milhões. Apesar da convergência, a UE manteve-se estruturalmente uma exportadora líquida, com um saldo comercial positivo que cresceu de €1.045 milhões para €1.618 milhões.
Este relatório analisa as principais dinâmicas observáveis no período, organizadas em três eixos: a evolução assimétrica entre exportações e importações; a reconfiguração geográfica das parcerias com destaque para a ascensão dos fornecedores asiáticos; e as tensões inflacionárias, a segmentação de produto e o papel determinante da Itália na estrutura produtiva europeia.
1. Uma década de expansão comercial, com dinâmicas assimétricas entre exportações e importações
As exportações cresceram 84,5% em valor enquanto as importações mais do que duplicaram (+162,7%)
O comércio externo da UE em massas cresceu de forma significativa ao longo da década, mas com ritmos distintos para exportações e importações:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor | 1.444 M€ | 2.664 M€ | +84,5% |
| Exportações — volume | 1.117 kt | 1.540 kt | +37,9% |
| Preço médio exportações | 1.292 €/t | 1.730 €/t | +33,8% |
| Importações — valor | 398 M€ | 1.046 M€ | +162,7% |
| Importações — volume | 226 kt | 443 kt | +96,0% |
| Preço médio importações | 1.761 €/t | 2.360 €/t | +34,0% |
| Saldo comercial | 1.045 M€ | 1.618 M€ | +54,8% |
As exportações cresceram tanto por via do volume como do preço, o que sinaliza uma expansão quantitativa da procura externa e uma valorização crescente do produto europeu. Contudo, as importações cresceram a um ritmo muito mais acelerado: duplicaram em volume (+96,0%) e mais do que duplicaram em valor (+162,7%). Este crescimento mais acentuado das importações reflecte a penetração crescente de produtos asiáticos — em especial noodles instantâneos — no mercado europeu.
A série temporal revela igualmente um claro ponto de inflexão em 2020, durante a pandemia de COVID-19. O volume total de exportações atingiu nesse ano 1.622 mil toneladas — o máximo de todo o período — impulsionado sobretudo pelo pico de 1.338 mil toneladas no segmento de massas cruas sem ovos (CN 190219). Este fenómeno reflecte a procura de reserva alimentar durante os confinamentos europeus, que potenciou as exportações de massas secas italianas. Os volumes baixaram em 2021 antes de se recuperarem, situando-se em 1.540 mil toneladas em 2025.
O saldo comercial manteve-se estruturalmente positivo, apesar da convergência de preços
A UE manteve-se consistentemente uma exportadora líquida de massas ao longo de todo o período. A dependência líquida de importações situou-se entre -10,3% em 2015 e -12,0% em 2025 (valores negativos indicam posição exportadora líquida), tendo atingido um máximo em valor absoluto de -17,7% em algum ponto intermédio — provavelmente no pico de exportações de 2020.
O saldo comercial efetivamente cresceu 54,8%, passando de €1.045 milhões para €1.618 milhões. Simultaneamente, a intensidade comercial do setor subiu de 14,1% para 23,0% (+62,7%), e a propensão exportadora passou de 11,9% para 17,7% (+48,2%). Estes indicadores confirmam que o setor europeu de massas se tornou progressivamente mais orientado para o comércio internacional, com uma quota crescente da produção a ser canalizada para mercados externos.
A produção europeia cresceu 47% em volume e 165% em valor, sustentando a posição exportadora
O crescimento do comércio externo sustentou-se numa expansão significativa da produção europeia. A produção total da UE passou de 5.536 milhões de kg para 8.129 milhões de kg (+46,8% em volume), enquanto o valor da produção disparou de €5.850 milhões para €15.474 milhões (+164,5%). O valor unitário da produção subiu assim de aproximadamente €1,06/kg para €1,90/kg — um aumento de cerca de 80% — o que reflecte a subida generalizada dos custos de matérias-primas (sobretudo trigo e ovos), energia e transporte ao longo da década, agravada a partir de 2021.
Este crescimento da produção é simultaneamente causa e consequência da expansão comercial: a capacidade industrial europeia, fortemente radicada em Itália, permitiu responder à procura externa crescente, ao mesmo tempo que os mercados internacionais proporcionaram o volume necessário para justificar investimentos adicionais na capacidade produtiva.
2. A ascensão dos fornecedores asiáticos como motor da transformação das importações
A Coreia do Sul, a China e o Vietname triplicaram a sua quota nas importações da UE em massas
A transformação mais visível no período 2015–2025 ocorreu na geografia das importações. Os parceiros asiáticos consolidaram-se como os principais fornecedores da UE, impulsionados pela procura crescente por massas preparadas e noodles instantâneos:
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 61,2 | 202,6 | +231,1% |
| Coreia do Sul | 20,6 | 192,6 | +835,8% |
| Tailândia | 73,2 | 131,7 | +80,0% |
| Vietname | 41,8 | 124,1 | +196,5% |
| Suíça | 62,2 | 89,2 | +43,3% |
| Reino Unido | 53,2 | 52,8 | -0,7% |
| Turquia | 13,2 | 26,4 | +99,9% |
O caso mais impressionante é o da Coreia do Sul, que passou de um fornecedor marginal (€20,6 milhões em 2015) para o segundo maior parceiro de importação da UE (€192,6 milhões), registando um crescimento de 835,8%. Esta evolução reflecte a popularização massiva de ramyeon (noodles instantâneos coreanos) nos mercados europeus, fenómeno em larga medida impulsionado pela difusão da cultura coreana (Hallyu) e pela adopção de novos hábitos alimentares por parte dos consumidores europeus. A China reforçou a sua posição de primeiro fornecedor, ultrapassando largamente os €200 milhões, enquanto o Vietname quase triplicou o seu valor exportado para a UE.
Curiosamente, o Reino Unido — outrora o segundo maior fornecedor europeu — manteve-se estagnado (-0,7%), caindo para a sexta posição. Esta estagnação pode reflectir os efeitos do Brexit nas relações comerciais bilaterais. A Turquia (+99,9%), embora de menor dimensão, consolidou igualmente a sua presença, passando de €13 milhões para €26 milhões.
As exportações europeias mantiveram-se geograficamente estáveis, com o Reino Unido e os EUA a absorverem mais de metade do total
Em contraste com a transformação das importações, a geografia das exportações revelou uma notável estabilidade estrutural:
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 461,5 | 815,9 | +76,8% |
| Estados Unidos | 281,2 | 695,9 | +147,5% |
| Suíça | 99,7 | 162,9 | +63,4% |
| Japão | 82,3 | 93,0 | +13,0% |
| Canadá | 42,8 | 95,9 | +124,2% |
| Austrália | 37,0 | 76,8 | +107,6% |
| Israel | 22,9 | 43,4 | +89,1% |
O Reino Unido permaneceu como o principal destino das exportações europeias de massas, com €815,9 milhões em 2025, seguido pelos Estados Unidos que quase triplicaram o seu valor para €695,9 milhões. Juntos, estes dois mercados absorvem mais de 56% do total das exportações extra-UE, uma quota que se consolidou ao longo do período. Os EUA apresentaram o maior crescimento percentual entre os principais parceiros (+147,5%), possivelmente impulsionado pela crescente procura de produtos italianos premium no mercado norte-americano. O crescimento mais modesto do Japão (+13,0%) sugere um mercado já maduro para massas europeias no Leste Asiático.
No total, os parceiros anglo-saxónicos e europeus tradicionais (Reino Unido, EUA, Suíça, Canadá, Austrália e Israel) continuaram a dominar — ao contrário das importações, onde a geografia se reconfigurou radicalmente. Esta assimetria reflecte a natureza premium das exportações europeias, que se dirigem sobretudo a mercados com elevado poder de compra e tradição de consumo de massas mediterrânicas.
A concentração das exportações aumentou ligeiramente enquanto as importações se mantiveram diversificadas
Os índices de concentração HHI revelam dinâmicas distintas para importações e exportações:
| Fluxo | HHI 2015 (valor) | HHI 2025 (valor) | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações | 1.536 | 1.729 | +12,6% |
| Importações | 1.181 | 1.172 | -0,7% |
O HHI das exportações subiu de 1.536 para 1.729, reflectindo a crescente concentração das vendas no Reino Unido e nos Estados Unidos, que em conjunto reforçaram a sua quota dominante. Em contraste, o HHI das importações manteve-se praticamente estável (1.181 → 1.172), apesar da ascensão dos parceiros asiáticos. Isto deve-se ao facto de a origem das importações ter sido repartida por múltiplos países asiáticos (China, Coreia, Tailândia, Vietname), evitando uma dependência excessiva de um único fornecedor.
No entanto, a volatilidade dos fluxos individuais merece atenção. O coeficiente de variação (CV) das importações provenientes da Coreia do Sul atingiu 0,61 — o mais elevado entre os principais parceiros — confirmando a natureza ainda incipiente e volátil deste comércio emergente. A Sérvia (CV de 0,71), embora de dimensão reduzida, apresentou a volatilidade absoluta mais elevada. Do lado das exportações, os destinos com maior volatilidade foram a Ucrânia (CV de 0,41) e a Arábia Saudita (CV de 0,40), reflexo da instabilidade geopolítica e das flutuações cambiais nestas regiões.
3. Inflação de preços, choques de 2022 e o peso determinante da Itália
Os preços subiram acentuadamente a partir de 2021, com choques de 2022 a agravar a tendência
A evolução dos preços médios do comércio de massas evidencia uma aceleração clara a partir de 2021, coincidindo com a crise energética europeia e as disrupções nas cadeias de abastecimento:
- Preço médio das exportações: atingiu o pico de €1.863/t, antes de estabilizar em €1.730/t em 2025
- Preço médio das importações: atingiu o pico de €2.567/t, com o valor de 2025 em €2.360/t
A detecção de choques de preço identificou três eventos significativos, todos centrados em 2022:
| Fluxo | Parceiro | Desvio anómalo | Variação de preço | Quota no valor total |
|---|---|---|---|---|
| Exportações | África do Sul | 775,4 | +52,9% | 1,4% |
| Importações | Turquia | 55,4 | +64,3% | 3,4% |
| Importações | Marrocos | 22,4 | +22,1% | 4,4% |
O choque mais extremo registou-se nas exportações para a África do Sul (desvio anómalo de 775,4), com um aumento de 52,9% no preço médio. Nas importações, a Turquia (+64,3%) e Marrocos (+22,1%) também registaram picos de preço em 2022. Estes choques ocorreram num contexto global marcado pela invasão da Ucrânia, que provocou uma escalada dos preços do trigo, da energia e dos transportes, afetando diretamente a indústria de massas. Note-se que 2022 foi igualmente o ano em que o preço médio das importações de massas cruas sem ovos (CN 190219) atingiu o máximo de €1.795/t, face a €1.267/t cinco anos antes.
As massas preparadas dominam as importações, enquanto as massas cruas sem ovos lideram as exportações
A decomposição por subproduto revela uma clara especialização funcional do comércio europeu, com padrões distintos para importações e exportações:
Importações por segmento (volume em toneladas):
| Segmento | Descrição | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 190230 | Massas preparadas (excl. recheadas) | 128.294 | 282.102 | +120% |
| 190219 | Massas cruas sem ovos | 42.890 | 74.421 | +74% |
| 190220 | Massas recheadas | 35.099 | 56.769 | +62% |
| 190240 | Cuscuz | 14.239 | 26.050 | +83% |
| 190211 | Massas com ovos | 5.661 | 4.080 | -28% |
Exportações por segmento (volume em toneladas):
| Segmento | Descrição | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 190219 | Massas cruas sem ovos | 897.494 | 1.266.254 | +41% |
| 190230 | Massas preparadas (excl. recheadas) | 60.071 | 117.358 | +95% |
| 190220 | Massas recheadas | 83.853 | 88.385 | +5% |
| 190211 | Massas com ovos | 52.236 | 48.849 | -7% |
| 190240 | Cuscuz | 23.453 | 19.515 | -17% |
Os dados confirmam uma assimetria estrutural: a UE importa predominantemente massas preparadas (CN 190230), que representam 64% do volume importado em 2025 — um reflexo claro da procura por noodles instantâneos de origem asiática. Em contrapartida, a UE exporta sobretudo massas cruas não recheadas e sem ovos (CN 190219), que representam 82% do volume exportado e que correspondem tipicamente ao esparguete e macarrão seco de produção italiana.
As massas recheadas (CN 190220), embora de volume mais modesto, constituem o segmento de maior valor unitário em ambos os lados. O preço médio de exportação de massas recheadas passou de €2.786/t para €4.443/t (+59,5%), significativamente acima do preço de importação do mesmo segmento (€2.322/t → €3.246/t). Este diferencial confirma o posicionamento da UE como fornecedor de gama superior no segmento de massas recheadas — ravióli, tortellini e nhoques artesanais de marca europeia. O cuscuz (CN 190240) apresentou a dinâmica mais estável em volume de exportação, com ligeiro recuo (-17% em volume) mas aumento de valor (+10%), sugerindo uma subida do preço médio sem expansão de mercado.
A Itália concentra 76% das exportações e 47% da produção europeia de massas
A estrutura produtiva do setor de massas na UE é dominada de forma inequívoca pela Itália. Os indicadores de especialização para 2025 confirmam-no:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produção | Quota exportação extra-UE |
|---|---|---|---|---|
| Itália | 0,71 | 5,85 | 46,9% | 75,5% |
| Lituânia | 0,55 | 3,40 | 2,1% | 1,1% |
| Letónia | 0,51 | 3,10 | 1,0% | 0,5% |
| Croácia | 0,19 | 1,48 | 0,6% | 0,6% |
| Grécia | 0,15 | 1,34 | 0,9% | 1,0% |
| ... | ||||
| Bélgica | — | — | — | 3,6% |
| Alemanha | — | — | — | 3,6% |
| França | — | — | — | 3,1% |
A Itália detém um índice de vantagem comparativa revelada (RCA) de 5,85 e um RSCA de 0,71 — ambos muito acima do limiar de especialização — e respondeu por €2.012 milhões dos €2.664 milhões de exportações totais da UE em 2025 (75,5%). As exportações italianas cresceram 80,1% ao longo do período (de €1.117 milhões em 2015), reforçando a sua posição central.
Nos Estados-Membros menos especializados, destacam-se Malta (RSCA de -1,00), a Irlanda (RSCA de -0,99) e o Chipre (RSCA de -0,92), que funcionam essencialmente como mercados importadores dentro da UE. Contudo, a Irlanda é um caso de particular interesse: apesar de não produzir massas em escala significativa, as suas exportações extra-UE cresceram 478% (de €12 milhões para €70 milhões), o que sugere que o país funciona como plataforma de reexportação para empresas multinacionais do sector alimentar ali sediadas.
Do lado das importações intra-UE pelos principais Estados-Membros, os Países Baixos apresentaram o crescimento mais espetacular (+356%, de €58 milhões para €265 milhões), seguidos de Itália (+174%, de €15 milhões para €42 milhões) e Áustria (+153%). Os Países Baixos, enquanto hub logístico europeu com o porto de Roterdão, desempenham simultaneamente um papel de consumo próprio e de redistribuição para outros mercados da UE. A Alemanha (€195 milhões, +102%) e a França (€137 milhões, +113%) consolidaram-se como os maiores mercados de destino.
Conclusão
O mercado europeu de massas alimentícias (NC 1902) atravessou uma transformação estrutural entre 2015 e 2025. A UE reforçou a sua posição como exportadora líquida, com o saldo comercial a crescer para €1,6 mil milhões e a intensidade comercial a duplicar de 14% para 23%. A base produtiva europeia, fortemente ancorada na indústria italiana, expandiu-se 47% em volume e 165% em valor, sustentando a capacidade de responder à procura externa crescente.
Contudo, o período foi marcado por três dinâmicas de fundo que merecem acompanhamento:
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A ascensão meteórica dos fornecedores asiáticos — em particular a Coreia do Sul (+836%), a China (+231%) e o Vietname (+197%) — transformou radicalmente o perfil das importações europeias, impulsionada sobretudo pela popularização de noodles instantâneos e massas preparadas.
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A aceleração inflacionária pós-2021, agravada pelos choques de preço de 2022 associados à crise energética e ao conflito na Ucrânia, elevou os preços médios em 34% tanto em importação como em exportação, com impacto em praticamente todos os segmentos de produto.
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A crescente concentração das exportações no Reino Unido e nos Estados Unidos (HHI +12,6%), inversamente proporcional à diversificação das importações por múltiplas origens asiáticas, configura um modelo comercial assimétrico em que a UE vende para mercados concentrados de elevado rendimento e compra de fornecedores diversificados de custo mais baixo.
No horizonte, a capacidade de o setor europeu — e italiano em particular — manter o seu posicionamento premium, face à concorrência de produtos asiáticos de preço mais acessível, constituirá provavelmente o desafio central da próxima década. A expansão do segmento de massas preparadas, com crescimento de 95% nas exportações europeias da rubrica CN 190230, sugere que a indústria europeia está já a responder a esta tendência com a diversificação da sua oferta para além do macarrão seco tradicional.