Evolução do mercado: Lã cardada ou penteada (CN 5105) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 5105 abrange a lã, pelos finos ou grosseiros, cardados ou penteados (incluindo a lã penteada a granel), um produto essencial para a indústria têxtil europeia. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros entre 2015 e 2025, identificando as principais dinâmicas estruturais, as alterações na geografia comercial e os fatores de vulnerabilidade do bloco. A UE é, historicamente, uma importadora líquida significativa deste produto, e a análise revela transformações profundas na última década — desde a contração da produção interna até a reconfiguração das cadeias de abastecimento após o Brexit e a pandemia de COVID-19.
Para mais detalhes sobre o âmbito e as definições do produto, consulte a visão geral no Trade Dashboard.
1. Queda acentuada dos volumes e dependência crescente das importações
1.1 Redução sustentada do volume importado
O volume total de importações da UE (CN 5105) diminuiu de 41 868 toneladas em 2015 para 30 590 toneladas em 2025, uma queda de 26,9%. A contração mais pronunciada ocorreu entre 2019 e 2020, quando os volumes caíram para o mínimo do período (24 798 t), refletindo o choque da pandemia. Embora tenha havido uma recuperação parcial em 2021–2022, os volumes de 2024–2025 estabilizaram-se em patamares significativamente inferiores ao período pré-pandemia.
| Indicador | 2015 | 2020 (mín.) | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Importações — volume (t) | 41 868 | 24 798 | 30 590 | −26,9% |
| Importações — valor (€M) | 445,5 | 298,4 | 363,7 | −18,4% |
| Exportações — volume (t) | 7 174 | 5 917 | 6 012 | −16,2% |
| Exportações — valor (€M) | 59,4 | — | 46,4 | −21,9% |
| Saldo comercial (€M) | −386,1 | −249,97* | −317,3 | melhoria de 17,8% |
*O mínimo do saldo comercial ocorreu num ano intermédio (2021).
1.2 Aumento da dependência líquida de importações
A dependência líquida de importações passou de 31,5% em 2015 para 66,7% em 2025 — uma variação positiva de 111,6%. Este indicador atingiu um máximo de 81,6% durante o período analisado, revelando uma vulnerabilidade crescente da UE face a choques externos de abastecimento. A intensidade comercial (comércio total como proporção de produção + importações) subiu de 61,3% para 79,8%, confirmando que a UE se tornou mais integrada no mercado global para este produto — mas sobretudo enquanto importadora.
1.3 Preços de importação em alta, preços de exportação em queda
Os preços médios de importação aumentaram 11,7% ao longo do período (de €10 642/t para €11 889/t), enquanto os preços de exportação diminuíram 6,9% (de €8 285/t para €7 716/t). Esta divergência sugere uma compressão das margens para os transformadores europeus, que enfrentam custos de matéria-prima mais elevados num contexto de procura interna mais fraca.
2. Reconfiguração geográfica do comércio: Brexit, América do Sul e concentração
2.1 O impacto estrutural do Brexit
O parceiro comercial que registou a queda mais pronunciada nas importações da UE foi o Reino Unido, cujas vendas para a UE caíram de €35,0M para €10,1M (−71,0%). Em 2015, o Reino Unido era o 4.º maior fornecedor da UE; em 2025, caiu para a 7.ª posição. Esta evolução reflete claramente as consequências da saída do Reino Unido do mercado único europeu, com a introdução de formalidades aduaneiras e eventuais barreiras não tarifárias. Note-se que as exportações da UE para o Reino Unido também diminuíram, embora de forma mais moderada (de €8,3M para €7,3M, −11,7%).
2.2 Ascensão dos fornecedores sul-americanos
Em contraste com a perda do Reino Unido, os fornecedores sul-americanos ganharam protagonismo:
| Parceiro | Importações 2015 (€M) | Importações 2025 (€M) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 192,1 | 158,6 | −17,4% |
| Argentina | 41,8 | 53,8 | +28,8% |
| Uruguai | 38,2 | 40,7 | +6,5% |
| Peru | 23,2 | 39,7 | +71,0% |
| África do Sul | 29,4 | 25,1 | −14,5% |
| Egito | 32,8 | 27,3 | −16,7% |
A China continua a ser o principal fornecedor, com €158,6M em 2025, mas o seu peso relativo diminuiu. Argentina e Peru destacam-se como fornecedores em crescimento — o Peru registou mesmo um aumento de 71% no valor das exportações para a UE, o crescimento mais expressivo entre os principais parceiros.
2.3 Aumento da concentração das importações
O índice de concentração HHI das importações em valor subiu de 2 242 para 2 479 (+10,6%), indicando uma maior concentração do fornecimento. Em volume, a subida foi ainda mais acentuada: de 1 693 para 2 295 (+35,5%). Isto significa que a UE depende, proporcionalmente, de menos fornecedores do que há uma década — um fator de vulnerabilidade acrescida em caso de perturbações em países-chave como a China ou a Argentina.
2.4 Destinos principais das exportações da UE
A Turquia é, de longe, o principal destino das exportações da UE, com €17,7M em 2025 (mas -24,5% face a 2015). Os restantes destinos têm valores muito inferiores. Contudo, alguns mercados de nicho registaram crescimento notável:
| Destino | Exportações 2015 (€M) | Exportações 2025 (€M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Turquia | 23,4 | 17,7 | −24,5% |
| Reino Unido | 8,3 | 7,3 | −11,7% |
| Peru | 3,5 | 6,5 | +84,7% |
| China | 1,6 | 2,9 | +75,5% |
| Índia | 0,4 | 1,4 | +303,8% |
| Egipto | 2,4 | 1,0 | −58,2% |
A Índia destaca-se com um crescimento de 303,8%, passando de €359 mil para €1,4M, embora a sua quota permaneça pequena. A propensão para exportar manteve-se relativamente estável (31,4% → 32,7%), sugerindo que a capacidade exportadora da UE não se expandiu significativamente.
3. Desindustrialização têxtil europeia e especialização fragmentada
3.1 Colapso da produção interna
A produção da UE de lã cardada ou penteada sofreu uma contração dramática:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Volume produzido (t) | 126 913 | 19 930 | −84,3% |
| Valor da produção (€M) | 375,8 | 152,9 | −59,3% |
A queda de 84,3% no volume produzido é o dado mais marcante de todo o período analisado. A produção atingiu o mínimo de 11 729 t antes de recuperar parcialmente para os ~20 000 t atuais, mas permanece muito aquém dos níveis de 2015. Esta evolução reflete a deslocalização continuada da transformação têxtil para países com custos mais baixos, bem como a pressão concorrencial global.
3.2 Especialização concentrada em poucos Estados-Membros
Em 2025, a especialização exportadora da UE neste produto está concentrada num número reduzido de Estados-Membros:
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota na produção da UE |
|---|---|---|---|
| Bulgária | 10,95 | 0,83 | 6,9% |
| Chequia | 5,38 | 0,69 | 25,8% |
| Itália | 3,88 | 0,59 | 31,1% |
| Alemanha | 1,62 | 0,24 | 34,3% |
A Itália e a Alemanha dominam a produção (juntas, 65,4% do total), mas é a Bulgária que apresenta o maior índice de vantagem comparativa revelada (RCA = 10,95), indicando uma especialização intensa — embora a sua quota absoluta na produção seja modesta. Os países menos especializados (Luxemburgo, Estónia, Eslováquia, Grécia, Países Baixos) têm RSCA próximos de −1, confirmando a ausência de capacidade produtiva nestes Estados-Membros para este produto.
3.3 Dinâmica dos principais importadores intra-UE
A concentração das importações dentro da UE é elevada, com Itália (€223M, −10%) e Alemanha (€89M, −23,7%) a responder pela maior parte do valor. Contudo, alguns Estados-Membros registaram quedas acentuadas:
- Polónia: de €24,0M para €7,3M (−69,7%)
- Bulgária: de €22,3M para €7,2M (−67,8%)
- Espanha: de €4,1M para €2,9M (−30,3%)
Estas quedas sugerem uma contração das atividades de transformação têxtil nestes países, possivelmente relacionada com a deslocalização e a redução da procura de lã processada.
3.4 Segmentação do produto: domínio da lã penteada
A análise por subprodutos revela que a lã penteada (excl. "open tops") (CN 510529) domina claramente tanto as importações como as exportações:
| Subproduto | Importações 2025 (t) | Exportações 2025 (t) | Preço importação (€/t) |
|---|---|---|---|
| 510529 — Lã penteada | 26 861 | 5 132 | 9 470 |
| 510539 — Pelos finos pente/cardados | 3 086 | 88 | 24 280 |
| 510531 — Cabra de Caxemira | 265 | 66 | 116 875 |
| 510521 — Lã penteada a granel | 230 | 507 | 8 686 |
| 510510 — Lã cardada | 115 | 79 | 10 903 |
| 510540 — Pelos grosseiros | 33 | 140 | 5 319 |
A caxemira (CN 510531) apresenta o preço mais elevado (€116 875/t), mas em volumes residuais. A lã penteada (510529) representa a esmagadora maioria do volume comercializado (88% das importações em 2025), com um preço de €9 470/t. Nota-se que a UE é exportadora líquida de lã penteada a granel (510521) e de pelos grosseiros (510540), mas importadora líquida de todos os restantes subprodutos.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por três tendências estruturais no mercado da lã cardada ou penteada na UE:
-
Contração da produção interna (−84,3% em volume), que aprofundou a dependência das importações e elevou a dependência líquida de importações para 66,7%.
-
Reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento, com a perda de peso do Reino Unido (Brexit) e a ascensão de fornecedores sul-americanos, em particular a Argentina e o Peru, como alternativas à China.
-
Compressão das margens dos transformadores europeus, que enfrentam preços de importação crescentes e preços de exportação em descida, num contexto de volumes comerciais mais reduzidos.
A volatilidade dos fluxos comerciais, particularmente com parceiros como a África do Sul (CV = 0,51), o Chile (0,62) e a Malásia (0,82), constitui um risco adicional. A combinação de maior concentração do fornecimento e menor capacidade produtiva interna torna a UE vulnerável a perturbações na cadeia de abastecimento global — um desafio que se agravou significativamente ao longo da última década.