Evolução do mercado: Higiene bucal (CN 3306) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no setor das preparações para higiene bucal ou dentária (posição CN 3306), que abrange dentífricos, fios dentários e outras preparações para a higiene oral, no período compreendido entre 2015 e 2025. Este setor, enquadrado no capítulo 33 da Nomenclatura Combinada (Óleos essenciais e resinas; produtos de perfumaria ou de toucador preparados), revelou-se um dos segmentos cosméticos com maior dinamismo comercial na UE ao longo da última década. A análise baseia-se exclusivamente em dados anuais e abrange as trocas da UE com países terceiros, excluindo períodos incompletos.
O panorama global que emerge dos dados é claro: a UE consolidou-se como um exportador líquido de grande escala neste setor, com um saldo comercial que ultrapassou os 850 milhões de euros em 2025. As exportações cresceram mais de 50% em valor, impulsionadas tanto por ganhos de volume como por valorização dos preços. Paralelamente, observaram-se transformações significativas na geografia dos parceiros comerciais, com a China a emergir como fornecedor dominante e mercados como a Suíça e a Ucrânia a tornarem-se destinos de exportação cada vez mais relevantes.
1. Da dependência modesta à liderança exportadora: a transformação estrutural da balança comercial
A UE passou de importador marginal a exportador líquido de grande dimensão
Em 2015, a UE apresentava uma dependência líquida de importações de apenas 8,1%, o que indicava uma posição de pequeno importador líquido. Em 2025, este indicador inverteu-se para -132,6%, sinalizando que as exportações da UE ultrapassam as importações em mais do dobro do valor. O saldo comercial passou de 521,9 milhões de euros em 2015 para 852,9 milhões em 2025, um crescimento de 63,4%.
| Indicador | 2015 | 2020 | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Exportações (milhões €) | 866,8 | 826,0 | 1 335,1 | +54,0 % |
| Importações (milhões €) | 344,9 | 315,1 | 482,2 | +39,8 % |
| Saldo comercial (milhões €) | 522,0 | 510,9 | 852,9 | +63,4 % |
| Dependência líquida (%) | 8,1 | — | -132,6 | Inversão total |
Fonte: Visão geral do comércio
O crescimento das exportações foi impulsionado por ganhos simultâneos de volume e de preço
As exportações cresceram 29,5% em quantidade (de 155 772 toneladas para 201 657 toneladas) e 19,0% em preço unitário médio (de 5 565 €/t para 6 620 €/t). Já as importações apresentaram uma dinâmica inversa: a quantidade diminuiu 12,2% (de 67 915 t para 59 657 t), mas o preço unitário disparou 59,2% (de 5 077 €/t para 8 083 €/t). Isto sugere que as importações se concentraram progressivamente em produtos de maior valor acrescentado, enquanto a UE expandiu as suas exportações de forma mais equilibrada entre volume e valor.
| Fluxo | Quantidade 2015 (t) | Quantidade 2025 (t) | Var. Quant. | Preço 2015 (€/t) | Preço 2025 (€/t) | Var. Preço |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Exportações | 155 772 | 201 657 | +29,5 % | 5 565 | 6 620 | +19,0 % |
| Importações | 67 915 | 59 657 | -12,2 % | 5 077 | 8 083 | +59,2 % |
A produção interna valorizou-se significativamente, apesar da redução dos volumes produzidos
Segundo os dados de produção disponíveis, a produção da UE em termos de valor passou de 988,9 milhões de euros para 1 422,0 milhões (+43,8%), enquanto o volume físico de produção diminuiu 24,3%. Esta divergência entre valor e volume reflete uma tendência de valorização dos produtos fabricados na UE, possivelmente associada à subida de preços, à inovação de produto ou à concentração em segmentos premium. A propensão exportadora atingiu 90,6% em 2025, o que significa que praticamente toda a produção europeia de higiene bucal é destinada ao comércio externo, evidenciando o carácter fortemente exportador deste setor na economia da UE.
2. Reconfiguração geográfica: novos fornecedores e mercados de destino em expansão
A China tornou-se o segundo maior fornecedor externo, com crescimento exponencial
A estrutura das importações por parceiro sofreu uma transformação profunda ao longo da década. O Reino Unido, que em 2015 era de longe o maior fornecedor (198,3 milhões de euros), registou uma quebra de 29,9%, caindo para 139,0 milhões em 2025. Em contrapartida, a China mais do que quadruplicou as suas exportações para a UE, passando de 28,4 milhões para 112,6 milhões de euros (+297,0%), tornando-se o segundo maior fornecedor. A Suíça (+215,0%) e os Emirados Árabes Unidos (+273,0%) também registaram crescimentos acentuados.
| Parceiro (importações) | 2015 (milhões €) | 2025 (milhões €) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 198,3 | 139,0 | -29,9 % |
| China | 28,4 | 112,6 | +297,0 % |
| Estados Unidos | 50,7 | 75,4 | +48,8 % |
| Suíça | 21,6 | 67,9 | +215,0 % |
| Índia | 4,1 | 8,1 | +96,9 % |
| Emirados Árabes Unidos | 2,8 | 10,3 | +273,0 % |
| México | 16,5 | 9,5 | -42,5 % |
As exportações para a Suíça, Ucrânia e Emirados Árabes Unidos mais que duplicaram
No lado das exportações, o Reino Unido manteve-se como principal destino (285,5 milhões de euros em 2025, +43,8%). Contudo, os ganhos mais expressivos registaram-se em mercados secundários: a Suíça cresceu 106,7% (de 36,5 para 75,3 milhões), a Ucrânia 158,2% (de 18,5 para 47,8 milhões) e os Emirados Árabes Unidos 135,4% (de 15,8 para 37,1 milhões). O Japão foi a exceção negativa, com uma quebra de 42,2%, passando de 81,4 para 47,0 milhões de euros.
| Parceiro (exportações) | 2015 (milhões €) | 2025 (milhões €) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 198,6 | 285,5 | +43,8 % |
| Rússia | 66,6 | 79,0 | +18,7 % |
| Turquia | 37,8 | 62,9 | +66,2 % |
| Suíça | 36,5 | 75,3 | +106,7 % |
| Ucrânia | 18,5 | 47,8 | +158,2 % |
| Emirados Árabes Unidos | 15,8 | 37,1 | +135,4 % |
| Japão | 81,4 | 47,0 | -42,2 % |
A concentração das importações diminuiu quase 50%, refletindo maior diversificação das origens de abastecimento
O índice de concentração HHI das importações caiu de 3 665 para 1 881 (-48,7%), saindo de uma zona de concentração moderada-alta para uma concentração baixa. Este resultado reflete diretamente a perda de peso do Reino Unido e a entrada de novos fornecedores asiáticos e do Médio Oriente. Do lado das exportações, a concentração já era mais baixa e diminuiu 15,5% (de 839 para 709), indicando uma ligeira dispersão dos mercados de destino.
| Indicador HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 3 665 | 1 881 | -48,7 % |
| Importações (volume) | 5 398 | 2 798 | -48,2 % |
| Exportações (valor) | 839 | 709 | -15,5 % |
| Exportações (volume) | 2 017 | 1 880 | -6,8 % |
A Eslováquia e a Itália foram os Estados-Membros com maior crescimento exportador
Entre os principais exportadores da UE, a Irlanda manteve-se no topo (234,2 milhões de euros em 2025), embora com crescimento marginal (+0,4%). A Alemanha consolidou a segunda posição (+42,9%), seguida da Polónia (+49,6%). Destaca-se a Itália, que mais do que duplicou as suas exportações (+134,0%), e sobretudo a Eslováquia, cujas exportações cresceram 408,8%, de 23,1 para 117,4 milhões de euros — uma das taxas de crescimento mais elevadas de todo o período. No lado das importações, a Alemanha (+100,3%) e os Países Baixos (+107,3%) lideraram o crescimento, enquanto a Irlanda (-15,3%) e a Itália (-27,4%) reduziram as suas compras externas.
3. Dinâmicas de produto: a ascensão do fio dental e a pressão inflacionária nas importações
O fio dental (CN 330620) registou o maior crescimento relativo em ambos os fluxos
A análise por segmento de produto revela que os dentífricos (CN 330610) dominam tanto as importações como as exportações, representando a maioria do valor total. No entanto, o segmento com maior crescimento relativo foi o fio dental (CN 330620): as importações cresceram 62,0% em valor (de 38,2 para 61,9 milhões de euros) e as exportações mais do que duplicaram (+103,4%, de 18,0 para 36,5 milhões). O crescimento do fio dental em volume foi igualmente notável nas importações (+59,2%), passando de 2 241 para 3 568 toneladas, sinalizando um aumento real da procura e não apenas inflação de preços.
| Segmento | Fluxo | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação | Quant. 2015 (t) | Quant. 2025 (t) | Var. Quant. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 330610 Dentífricos | Import. | 188,2 | 277,5 | +47,4 % | 46 967 | 40 860 | -13,0 % |
| 330610 Dentífricos | Export. | 443,6 | 772,5 | +74,2 % | 88 327 | 117 155 | +32,6 % |
| 330690 Outras preparações | Import. | 118,5 | 142,9 | +20,6 % | 18 707 | 15 229 | -18,6 % |
| 330690 Outras preparações | Export. | 405,3 | 526,1 | +29,8 % | 66 553 | 83 152 | +24,9 % |
| 330620 Fio dental | Import. | 38,2 | 61,9 | +62,0 % | 2 241 | 3 568 | +59,2 % |
| 330620 Fio dental | Export. | 18,0 | 36,5 | +103,4 % | 892 | 1 351 | +51,4 % |
Os preços de importação de dentífricos subiram quase 70%, muito acima da inflação setorial
A evolução dos preços por segmento revela padrões distintos. O preço médio de importação dos dentífricos disparou 69,5% (de 4 007 €/t para 6 791 €/t), refletindo provavelmente a substituição de fornecedores de baixo custo por produtos de marca e premium. Curiosamente, o fio dental manteve preços de importação praticamente estáveis (+1,8%), o que sugere que o crescimento deste segmento não foi inflacionado. Do lado das exportações, o fio dental registou a maior valorização (+34,4%), atingindo 27 026 €/t em 2025 — um preço muito superior ao dos dentífricos (6 594 €/t), confirmando o carácter de produto de nicho de elevado valor.
| Segmento | Preço Import. 2015 (€/t) | Preço Import. 2025 (€/t) | Var. | Preço Export. 2015 (€/t) | Preço Export. 2025 (€/t) | Var. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 330610 | 4 007 | 6 791 | +69,5 % | 5 022 | 6 594 | +31,3 % |
| 330690 | 6 330 | 9 379 | +48,2 % | 6 090 | 6 326 | +3,9 % |
| 330620 | 17 031 | 17 338 | +1,8 % | 20 109 | 27 026 | +34,4 % |
A volatilidade das importações é superior à das exportações, com fornecedores emergentes a apresentar maior instabilidade
A análise de volatilidade, medida pelo coeficiente de variação (CV), revela que os fornecedores mais recentes e de menor dimensão apresentam flutuações mais acentuadas. O México (CV = 1,07), o Vietname (0,97), a Tailândia (0,92) e a Rússia (0,81) lideram a instabilidade nas importações. Do lado das exportações, a volatilidade é globalmente mais baixa, com o Reino Unido a apresentar o CV mais reduzido (0,06), confirmando a estabilidade deste parceiro estratégico. Foi ainda detetado um choque de preço significativo nas exportações para a Turquia em 2021, com uma quebra de 16,1% no preço unitário (abnormalidade de 12,8), possivelmente relacionado com a desvalorização da lira turca ou alterações nas condições de mercado desse país.
Conclusão
O setor das preparações para higiene bucal (CN 3306) experimentou uma transformação estrutural profunda na economia comercial da UE entre 2015 e 2025. A UE consolidou-se como um exportador líquido de grande escala, com um saldo comercial positivo de 852,9 milhões de euros e uma taxa de propensão exportadora de 90,6% face à produção interna. Esta evolução foi sustentada por ganhos simultâneos de volume e de preço, tanto nas exportações como na valorização da produção.
Do ponto de vista geográfico, a diversificação das fontes de importação — com a ascensão da China, da Suíça e dos Emirados Árabes Unidos como fornecedores — e a consolidação de mercados de exportação como a Ucrânia e a Turquia conferiram ao setor uma maior robustez face a eventuais disrupções bilaterais. A queda de quase 50% no índice HHI das importações confirma esta tendência de descentralização.
O fio dental emerge como o segmento de maior dinamismo relativo, com crescimentos superiores a 100% nas exportações, ainda que os dentífricos continuem a dominar em termos absolutos. A divergência entre volumes e valores — com importações a perderem volume mas a ganharem preço — aponta para uma crescente sofisticação do mix importado. Os riscos residem sobretudo na elevada dependência de fornecedores com alta volatilidade (México, Vietname, Tailândia) e na concentração das exportações em mercados geopoliticamente sensíveis, como a Rússia e a Turquia.