Evolução do mercado: Cosméticos (CN 3307) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia para a posição aduaneira CN 3307, que abrange preparações para barbear, desodorizantes corporais e ambientais, sais e preparações para banho, depilatórios e outras preparações de perfumaria e cosmética. O período em análise — de 2015 a 2025 — revelou um mercado marcado por três dinâmicas fundamentais: a valorização progressiva dos preços como motor do crescimento comercial, uma reconfiguração significativa dos parceiros geográficos e divergências notáveis entre os diferentes segmentos de produto. A UE consolidou-se como exportador líquido estrutural, com o seu superávit comercial a atingir 820 milhões de euros em 2025, e a propensão exportadora a quase duplicar, reflectindo uma crescente internacionalização do sector.
1. Crescimento do valor comercial impulsionado pela escalada de preços
O comércio cresceu em valor, mas estagnou ou recuou em volume
O período 2015–2025 foi marcado por uma disparidade evidente entre a evolução do valor e a evolução do volume das trocas comerciais. Do lado das exportações, o valor subiu 44,1%, passando de 1 601 milhões de euros para 2 308 milhões, enquanto a quantidade exportada recuou 8,4%, de 290 851 toneladas para 266 510 toneladas. Do lado das importações, o crescimento do valor atingiu 50,1% (de 991 milhões para 1 488 milhões de euros), mas o volume cresceu apenas 21,4%, de 216 322 toneladas para 262 691 toneladas. Isto significa que, no caso das exportações, praticamente todo o crescimento verificado se deveu à subida dos preços unitários, e não a um aumento real das quantidades transaccionadas.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (milhões EUR) | 1 601 | 2 308 | +44,1 |
| Exportações — volume (milhares t) | 290,9 | 266,5 | −8,4 |
| Exportações — preço médio (EUR/t) | 5 506 | 8 659 | +57,3 |
| Importações — valor (milhões EUR) | 991 | 1 488 | +50,1 |
| Importações — volume (milhares t) | 216,3 | 262,7 | +21,4 |
| Importações — preço médio (EUR/t) | 4 582 | 5 664 | +23,6 |
| Saldo comercial (milhões EUR) | 610 | 820 | +34,3 |
Fonte: Dados gerais de comércio
O prémio de preço das exportações europeias alargou-se significativamente
Os preços de exportação da UE subiram 57,3% ao longo do período (de 5 506 para 8 659 EUR/t), enquanto os preços de importação cresceram 23,6% (de 4 582 para 5 664 EUR/t). Em 2015, as exportações europeias eram em média 20% mais caras do que as importações; em 2025, esse diferencial alargou-se para 53%. Esta evolução sugere uma crescente especialização europeia em segmentos de maior valor acrescentado — como cosmética premium e preparações ambientais de gama superior — em detrimento de produtos de menor margem. A produção interna da UE em valor cresceu 11,6% (de 4 088 para 4 561 milhões de euros), o que, combinado com a estagnação do volume exportado, aponta para um crescimento orientado para o mercado interno e para a subida de preços generalizada.
A dependência líquida de importações reforçou a posição exportadora da UE
O indicador de dependência líquida de importações passou de −8,3% para −20,7%, consolidando a posição estrutural da UE como exportador líquido. Simultaneamente, a intensidade comercial (soma de exportações e importações como parcela da produção) subiu de 37,8% para 60,9%, e a propensão exportadora saltou de 26,3% para 48,6%. Estes dados reflectem uma abertura comercial crescente do sector cosmético europeu e uma orientação cada vez mais assertiva para os mercados externos.
2. Diversificação geográfica e reconfiguração das parcerias comerciais
Os fluxos de importação tornaram-se significativamente mais diversificados
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 3 830 para 3 132 (−18,2%), e o das exportações caiu de 971 para 597 (−38,6%). Estes declínios indicam uma redução da concentração geográfica em ambos os sentidos do comércio. No caso das importações, esta redução reflecte o crescimento de fornecedores alternativos que antes tinham um peso marginal. A Ucrânia emergiu como parceiro de exportação com uma variação de +204,8%, passando de 26,8 para 81,6 milhões de euros, o que poderá reflectir tanto o crescimento do mercado ucraniano como a integração progressiva das cadeias de abastecimento europeias nesse país.
Novos fornecedores de terceiros países ganharam peso relevante
O crescimento mais expressivo nas importações da UE provém de parceiros asiáticos e de economias emergentes. A China cresceu 173,3% nas importações (de 76 para 209 milhões de euros), a Índia 197,6% (de 13 para 40 milhões de euros), e a Bósnia e Herzegovina registou um crescimento excecional de 601,5%, embora partindo de uma base muito reduzida (de 1,4 para 10,0 milhões de euros). A Turquia também se afirmou como fornecedor relevante (+97,9%). Em contraste, os Estados Unidos mantiveram-se virtualmente estáveis como fornecedor (+0,2%), e a Suíça registou ligeiro recuo (−5,8%).
O Reino Unido permanece o principal parceiro, mas a Rússia perde relevância nas exportações
O Reino Unido continuou a dominar o comércio em ambos os sentidos: principal fornecedor com 783 milhões de euros em importações (+32,0%) e principal destino de exportações com 418 milhões de euros (+1,0%). Contudo, a Rússia — outrora o segundo maior destino das exportações da UE — viu as suas importações de cosméticos europeus recuarem 23,9%, passando de 202 para 154 milhões de euros. Esta quebra, concentrada no último quinquénio, é consistente com as sanções e as restrições comerciais impostas após 2022, reflectindo uma reconfiguração geopolítica do mapa de exportações europeu. A Suíça e os Emirados Árabes Unidos compensaram parcialmente esta perda, com crescimentos de 95,9% e 32,2%, respetivamente.
| Principais parceiros — Importações para a UE (milhões EUR) | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 593 | 783 | +32,0 |
| China | 76 | 209 | +173,3 |
| Turquia | 54 | 107 | +97,9 |
| Estados Unidos | 97 | 97 | +0,2 |
| Suíça | 73 | 69 | −5,8 |
| Índia | 13 | 40 | +197,6 |
| Bósnia e Herzegovina | 1,4 | 10,0 | +601,5 |
| Principais parceiros — Exportações da UE (milhões EUR) | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 414 | 418 | +1,0 |
| Rússia | 202 | 154 | −23,9 |
| Estados Unidos | 88 | 171 | +93,0 |
| Suíça | 90 | 176 | +95,9 |
| Turquia | 44 | 76 | +70,6 |
| Ucrânia | 27 | 82 | +204,8 |
| Emirados Árabes Unidos | 75 | 99 | +32,2 |
Fonte: Principais parceiros por valor
A especialização interna da UE reforça-se na Europa Central e de Leste
Os países mais especializados em cosméticos (medido pelo RSCA) são a Croácia (RSCA = 0,414), a Dinamarca (0,305), a Bulgária (0,303) e a Polónia (0,289), sendo que esta última representa 12,0% das exportações totais do sector — o maior peso entre os especialistas. A Alemanha, a França, a Espanha e a Itália continuam a ser os maiores exportadores em termos absolutos, com a Itália a registar o crescimento mais expressivo (+94,7%) e a Polónia a afirmar-se como quarto maior exportador (+64,4%). Esta configuração sugere uma reconfiguração da cadeia de valor europeia, com a produção de cosméticos a ganhar relevância nos países da Europa Central.
3. Dinâmicas divergentes entre segmentos de produto
O segmento dos desodorizantes ambientais (330749) foi o grande impulsionador das importações
O subcapítulo 330749 — preparações para perfumar ou desodorizar ambientes foi o que mais contribuiu para o crescimento das importações da UE em volume, com um aumento de 48,9%, de 57 872 para 86 170 toneladas. Em valor, o crescimento foi ainda mais acentuado, de 205 para 379 milhões de euros (+84,3%). No lado das exportações, este segmento manteve volumes estáveis (~49 648 toneladas em 2025), mas registou uma apreciação de preços extraordinária: de 5 024 para 9 718 EUR/t (+93,4%). Estes dados sugerem uma crescente procura europeia por desodorizantes ambientais de origem externa, possivelmente relacionada com a expansão do segmento de home fragrance e difusores, enquanto a UE se concentra na exportação de produtos de gama superior.
As preparações para barbear (330710) evidenciam um declínio estrutural
O segmento de preparações para barbear registou quedas significativas em ambos os lados do comércio. As importações diminuíram 36,3% em volume (de 31 405 para 19 990 toneladas), enquanto as exportações recuaram 37,6% (de 35 331 para 22 038 toneladas). Em valor, as importações caíram 26,4% e as exportações 21,2%. Esta evolução é consistente com as mudanças nos hábitos de consumo masculinos — nomeadamente a popularização de barbas mais longas e a redução da frequência de barbear — e com a concorrência crescente de marcas direct-to-consumer que reduzem a necessidade de importações intra-sector.
Os sais de banho (330730) em forte recessão nas exportações
O segmento de sais perfumados e preparações para banho sofreu uma contração marcada do lado das exportações, com o volume a cair 50,7%, de 46 578 para 22 964 toneladas, e o valor a recuar 38,0%, de 119 para 74 milhões de euros. Curiosamente, as importações mantiveram-se relativamente estáveis em volume (~19 968 toneladas em 2025). A subida do preço médio de exportação (de 2 557 para 3 219 EUR/t) sugere que os exportadores europeus se reorientaram para produtos de maior valor, abandonando o segmento commodity dos sais de banho.
Os desodorizantes corporais (330720) mantêm a liderança, mas com volumes sob pressão
O maior segmento em valor — desodorizantes corporais e antiperspirantes — representou 880 milhões de euros em exportações em 2025 (o maior valor entre todos os subcapítulos), mas registou uma redução de volume exportado de apenas 1,8% (de 93 770 para 92 081 toneladas), recuperando parcialmente do mínimo de 76 461 toneladas registado em 2021 — ano em que os preços de importação da China dispararam 25,3% num evento anómalo com grau de anomalia de 13,9. Este shock de preço refletiu possivelmente disrupções nas cadeias de abastecimento associadas à pandemia. O preço médio de exportação deste segmento subiu 57,3% (de 6 075 para 9 554 EUR/t), confirmando a tendência de valorização generalizada.
| Segmento CN | Descrição | Imp. vol. 2015 (t) | Imp. vol. 2025 (t) | Var. (%) | Exp. vol. 2015 (t) | Exp. vol. 2025 (t) | Var. (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 330720 | Desodorizantes corporais | 62 540 | 67 625 | +8,1 | 93 770 | 92 081 | −1,8 |
| 330749 | Desodorizantes ambientais | 57 872 | 86 170 | +48,9 | 53 883 | 49 648 | −7,9 |
| 330790 | Outros cosméticos/depilatórios | 43 570 | 63 388 | +45,5 | 60 219 | 78 902 | +31,0 |
| 330710 | Preparações para barbear | 31 405 | 19 990 | −36,3 | 35 331 | 22 038 | −37,6 |
| 330730 | Sais e preparações para banho | 18 126 | 19 968 | +10,2 | 46 578 | 22 964 | −50,7 |
| 330741 | Preparações odoríferas por combustão | 2 810 | 5 550 | +97,6 | 1 070 | 878 | −17,9 |
Fonte: Comparação por segmento de produto
Conclusão
O mercado europeu de cosméticos e preparações de perfumaria (CN 3307) evoluiu de forma robusta entre 2015 e 2025 em termos de valor, atingindo um comércio total (exportações + importações) de quase 3 800 milhões de euros. Contudo, esta expansão foi predominantemente puxada pela subida dos preços — não pelo crescimento do volume — reflectindo tanto a inflação global nas cadeias de abastecimento como uma estratégia europeia de deslocação para produtos de maior valor acrescentado.
A UE reforçou a sua posição como exportador líquido, com o saldo comercial a crescer 34,3% e a propensão exportadora a quase duplicar. Simultaneamente, o mapa geográfico do comércio reconfigurou-se profundamente: a China, a Índia e a Turquia ganharam peso como fornecedores, a Rússia perdeu relevância como destino de exportação, e a Ucrânia emergiu como parceiro comercial significativo. A redução da concentração geográfica em ambos os sentidos do comércio sugere uma maior resiliência sistémica do sector.
No plano segmentar, as divergências são acentuadas: os desodorizantes ambientais e os depilatórios/outros cosméticos cresceram fortemente, enquanto as preparações para barbear e os sais de banho sofreram contrações estruturais em volume. A volatilidade permanece moderada na maioria das rotas comerciais, embora parceiros como os Emirados Árabes Unidos (CV = 0,89) e a Rússia (CV = 0,77) apresentem elevada instabilidade nas importações, justificando uma monitorização atenta por parte das empresas europeias exportadoras.