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Evolução do mercado: Farinhas de leguminosas (CN 1106) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 1106 — que abrange farinhas, sêmolas e pós de legumes de vagem secos (posição 0713), de sagu ou de raízes e tubérculos (posição 0714) e dos produtos do Capítulo 8 — no período compreendido entre 2015 e 2025. Trata-se de um setor heterogéneo, que inclui desde farinhas de grão-de-bico e de ervilha até farinhas de mandioca (tapioca) e produtos à base de frutos secos e frutas tropicais.

O período em análise foi marcado por transformações profundas: a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia, a crise das cadeias de abastecimento e a escalada dos preços das matérias-primas alimentares. Estes fatores, aliados a tendências estruturais como o crescimento da procura por proteínas vegetais e a expansão das dietas baseadas em plantas, moldaram significativamente as dinâmicas comerciais deste produto na UE.


1. Crescimento robusto do comércio externo com gradual inversão do balanço comercial

A década 2015-2025 foi caracterizada por uma expansão acentuada tanto nas importações como nas exportações da UE no segmento das farinhas de leguminosas, tubérculos e frutos. No entanto, o ritmo de crescimento das importações superou significativamente o das exportações, conduzindo a uma deterioração progressiva do balanço comercial.

1.1. As importações da UE duplicaram em valor ao longo da década

As importações passaram de €49,1 milhões em 2015 para €98,3 milhões em 2025, registando um crescimento de 100,2%. Em volume, o aumento foi de 21 113 toneladas para 31 545 toneladas (+49,4%), o que revela que parte substancial do crescimento em valor se deveu à subida dos preços médios de importação, que ascenderam de €2 325/t para €3 115/t (+34,0%).

Indicador (Importações) 2015 2025 Variação (%)
Valor (€ M) 49,1 98,3 +100,2%
Volume (t) 21 113 31 545 +49,4%
Preço médio (€/t) 2 325 3 115 +34,0%

1.2. As exportações cresceram de forma significativa, mas insuficiente para manter o equilíbrio

As exportações da UE aumentaram de €48,8 milhões para €85,9 milhões (+76,1%), com o volume a crescer de 15 116 toneladas para 24 059 toneladas (+59,2%). Os preços de exportação subiram de €3 227/t para €3 571/t (+10,6%), um ritmo de valorização inferior ao registado nas importações.

Indicador (Exportações) 2015 2025 Variação (%)
Valor (€ M) 48,8 85,9 +76,1%
Volume (t) 15 116 24 059 +59,2%
Preço médio (€/t) 3 227 3 571 +10,6%

1.3. O balanço comercial passou de equilíbrio para défice significativo

Em 2015, o balanço comercial era praticamente equilibrado (défice de apenas €299 mil). Em 2025, o défice atingiu os €12,4 milhões (+4 031,7%). Esta evolução reflete uma procura interna europeia que cresceu mais rapidamente do que a capacidade exportadora, em grande parte impulsionada pelo aumento do consumo de farinhas de leguminosas para alimentação humana e de produtos transformados à base de frutos tropicais e farinhas de raízes.


2. Reconfiguração geográfica: diversificação das parcerias e alterações nos fluxos de fornecimento

Ao longo da década, verificou-se uma significativa reconfiguração dos padrões geográficos do comércio, com a emergência de novos fornecedores e a alteração do peso relativo dos parceiros tradicionais.

2.1. A Turquia tornou-se o principal fornecedor da UE, com crescimento de 100%

Nos imports por parceiro, a Turquia emergiu como o parceiro dominante, com crescimento de €9,6 milhões (2015) para €19,2 milhões (2025), uma variação de +100,8%. O Reino Unido, anteriormente co-líder, viu o seu peso relativo diminuir (-10,3%), passando de €9,8 milhões para €8,8 milhões.

Parceiro (Importações) 2015 (€ M) 2025 (€ M) Variação (%)
Turquia 9,6 19,2 +100,8%
Reino Unido 9,8 8,8 –10,3%
EUA 8,0 9,4 +17,2%
Brasil 1,2 4,3 +260,1%
Gana 0,3 2,4 +822,3%
Costa do Marfim 0,4 1,3 +217,7%
Noruega 1,5 1,5 +5,2%

2.2. Fornecedores africanos e sul-americanos ganharam protagonismo

Destaca-se o crescimento exponencial de Gana (+822,3%), que passou de fornecedor marginal (€261 mil) a parceiro relevante (€2,4 milhões), e do Brasil (+260,1%), de €1,2 milhões para €4,3 milhões. Estas evoluções sugerem uma reconfiguração das cadeias de abastecimento globais para este setor, com a UE a diversificar as suas fontes de aprovisionamento para além dos parceiros europeus e norte-americanos tradicionais. A Costa do Marfim também registou um crescimento significativo (+217,7%), reforçando o papel da África Ocidental no fornecimento de farinhas de raízes e tubérculos (subcategoria 110620).

2.3. O Reino Unido continua a ser o principal destino de exportação da UE

Nos exports por parceiro, o Reino Unido manteve-se como principal destino, crescendo de €25,4 milhões para €32,0 milhões (+25,8%). A Rússia registou o maior crescimento relativo (+233,2%), passando de €2,1 milhões para €7,1 milhões. A Turquia, por sua vez, tornou-se também num destino relevante para exportações europeias, com crescimento de €160 mil para €1,4 milhões (+774,8%).

2.4. A concentração das trocas comerciais diminuiu significativamente

O índice de concentração HHI dos parceiros sofreu uma redução acentuada tanto nas importações como nas exportações, sinalizando um mercado mais diversificado e potencialmente mais resiliente.

HHI (por valor) 2015 2025 Variação (%)
Importações 1 255 812 –35,3%
Exportações 3 035 1 668 –45,1%

A redução mais acentuada do HHI nas exportações (-45,1%) indica que os exportadores europeus diversificaram significativamente os seus mercados de destino, tornando-se menos dependentes de um único parceiro (nomeadamente o Reino Unido).


3. Transformações na estrutura produtiva europeia: Espanha como polo exportador e expansão da produção

As alterações no comércio externo refletem-se numa profunda reconfiguração da estrutura produtiva e da especialização interna da UE, com destaque para o papel crescente de Espanha e para uma expansão notável da produção europeia.

3.1. A produção europeia cresceu de forma exponencial em volume e valor

De acordo com os dados de produção PRODCOM, a produção europeia registou uma expansão extraordinária: em quantidade, os valores disponíveis indicam um crescimento de 26 439 180 kg para 1 054 000 000 kg, e em valor, de €54,9 milhões para €433,8 milhões. Esta evolução, embora possa refletir em parte mudanças metodológicas na cobertura dos dados PRODCOM, aponta para uma clara tendência de expansão da capacidade de transformação industrial europeia neste segmento — impulsionada pela crescente procura de farinhas e ingredientes à base de plantas para alimentação humana e rações.

3.2. Espanha consolidou-se como o principal exportador da UE, com quota de quase metade

A análise da especialização revela que Espanha, em 2025, detinha uma vantagem comparativa revelada (RCA) de 5,63 e uma quota de 32,6% na produção europeia do setor. Os exports espanhóis passaram de €20,4 milhões para €40,8 milhões (+99,8%), praticamente duplicando a sua posição externa e representando quase metade do total exportado pela UE.

Estado-Membro (Exports) 2015 (€ M) 2025 (€ M) Variação (%)
Espanha 20,4 40,8 +99,8%
França 2,2 8,2 +283,2%
Alemanha 4,9 7,7 +55,9%
Itália 4,8 6,2 +29,5%
Países Baixos 1,1 5,5 +381,1%
Dinamarca 1,6 4,7 +199,5%
Irlanda 11,4 2,0 –82,8%

O caso da Irlanda destaca-se em sentido inverso: anteriormente o segundo maior exportador da UE (€11,4 milhões em 2015), a sua posição desmoronou para apenas €2,0 milhões em 2025 (–82,8%), o que sugere uma reestruturação profunda ou a perda de vantagens competitivas específicas.

3.3. Os Países Baixos e a Alemanha emergem como os principais importadores intra-UE

No que respeita às importações por Estado-Membro, a Alemanha manteve a liderança absoluta com €27,7 milhões em 2025 (+68,1%), mas o crescimento mais espetacular registou-se nos Países Baixos: de €4,6 milhões para €24,1 milhões (+420,7%). Este crescimento reflete provavelmente o papel crescente do porto de Roterdão como porta de entrada e redistribuição, bem como o dinamismo da indústria alimentar holandesa.

Estado-Membro (Imports) 2015 (€ M) 2025 (€ M) Variação (%)
Alemanha 16,5 27,7 +68,1%
Países Baixos 4,6 24,1 +420,7%
França 6,1 11,0 +81,8%
Itália 4,1 6,8 +64,1%
Bélgica 1,6 4,1 +153,7%
Áustria 2,7 3,5 +29,0%
Irlanda 6,6 2,4 –63,1%

3.4. A dependência líquida da UE em relação a importações quase se anulou

O indicador de dependência líquida de importações desceu de 17,8% em 2015 para apenas 0,5% em 2025 (–97%). A intensidade comercial também recuou de 41,8% para 31,2% (–25,3%), sugerindo que a UE se tornou progressivamente mais autossuficiente na produção de farinhas de leguminosas, tubérculos e frutos, em parte graças à expansão produtiva acima referida.


Conclusão

O período 2015–2025 trouxe transformações estruturais ao mercado europeu de farinhas do código 1106. Se, por um lado, as importações duplicaram em valor e o défice comercial se acentuou, a produção interna europeia cresceu exponencialmente, reduzindo a dependência líquida da UE a valores residuais. Paralelamente, observou-se uma diversificação geográfica das parcerias comerciais, com a emergência de fornecedores africanos e sul-americanos e uma maior dispersão dos mercados de exportação.

Espanha consolidou-se claramente como a potência exportadora do setor, enquanto os Países Baixos emergiram como o principal importing hub europeu. A redução da concentração comercial, tanto do lado das importações como das exportações, indica um sector mais resiliente e diversificado, menos vulnerável a choques de fornecimento pontuais.

Olhando para o futuro, as tendências de crescimento da procura global por proteínas vegetais e ingredientes à base de plantas, aliadas à consolidação da capacidade produtiva europeia, sugerem que este setor continuará a registar um dinamismo comercial relevante, com potencial para que a UE reforce ainda mais a sua posição como exportador global líquido.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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