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Evolução do mercado: Amidos e féculas (CN 1108) — 2015–2025

Introdução

O código combinado (CN) 1108 abrange um conjunto heterogéneo de produtos — amidos de trigo, milho e outros cereais, féculas de batata e de mandioca, e inulina — que constituem matérias-primas fundamentais para as indústrias alimentar, farmacêutica e de biomateriais na União Europeia. O período 2015–2025 foi marcado por transformações profundas neste mercado: alterações geopolíticas (Brexit, conflito na Ucrânia), choques de preços nas commodities e uma reconfiguração das cadeias de abastecimento. Este relatório analisa as principais dinâmicas de comércio externo da UE com países terceiros ao longo desta década, com base nos dados disponíveis de 2015 a 2025.

O universo do CN 1108 inclui seis subprodutos principais: amido de trigo (110811), amido de milho (110812), fécula de batata (110813), fécula de mandioca (110814), outros amidos e féculas (110819) e inulina (110820).


1. O superávit comercial da UE duplica, sustentado pela valorização dos preços

A UE é um exportador líquido consolidado

Ao longo de todo o período analisado, a UE manteve uma posição de exportador líquido estrutural no setor dos amidos e féculas. Em 2015, o saldo comercial atingiu 525,9 milhões de euros; em 2025, atingiu 828,1 milhões de euros — um crescimento de 57,5%. O ponto mínimo do período foi de 399,6 milhões de euros, enquanto o máximo atingiu 870,9 milhões de euros.

A dependência líquida de importações permaneceu sempre negativa (indicando posição exportadora líquida), variando entre −10,8% e −32,1%, o que confirma a robustez produtiva do setor no espaço europeu.

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Exportações (valor, M€) 583,1 926,2 +58,8%
Exportações (volume, kt) 936,3 1 018,3 +8,8%
Exportações (preço médio, €/t) 622,8 909,6 +46,0%
Importações (valor, M€) 57,3 98,1 +71,2%
Importações (volume, kt) 90,0 152,2 +69,1%
Importações (preço médio, €/t) 636,2 644,4 +1,3%
Saldo comercial (M€) 525,9 828,1 +57,5%

O crescimento das exportações é sobretudo um fenómeno de preços

O volume exportado cresceu apenas 8,8% ao longo da década (de 936,3 mil toneladas para 1 018,3 mil toneladas), enquanto o valor das exportações aumentou 58,8%. A explicação reside na subida acentuada dos preços de exportação, que passaram de 622,8 €/t para 909,6 €/t (+46,0%), com um pico de 1 047,1 €/t atingido durante o período. Este fenómeno de price-led growth reflete tanto a inflação nas matérias-primas agrícolas (especialmente acentuada em 2021–2022) como uma eventual subida na componente de valor acrescentado dos produtos exportados.

As importações crescem mais em volume do que em valor

As importações apresentaram uma dinâmica oposta: o volume cresceu 69,1% (de 90,0 mil toneladas para 152,2 mil toneladas), enquanto o preço médio de importação manteve-se praticamente estável (+1,3%, de 636,2 €/t para 644,4 €/t). Isto sugere que a UE expandiu as suas compras externas de forma significativa, mas sem pressão adicional de preços — possivelmente recorrendo a fornecedores com ofertas competitivas.

A intensidade comercial e a propensão exportadora duplicam

A intensidade comercial (comércio total como percentagem da produção) passou de 15,2% para 27,0% (+77,6%), enquanto a propensão exportadora subiu de 13,7% para 24,6% (+79,1%). Estes indicadores apontam para uma crescente internacionalização do setor europeu de amidos e féculas: uma proporção cada vez maior da produção interna é destinada a mercados externos.

A produção europeia cresce em valor mais do que em volume

Os dados de produção PRODCOM confirmam esta tendência de valorização: a quantidade produzida subiu 12,7% (de 3,81 mil milhões de kg para 4,29 mil milhões de kg), mas o valor da produção mais do que duplicou, passando de 1,40 mil milhões de euros para 3,04 mil milhões de euros (+117,6%). Esta divergência entre volume e valor ecoa a subida dos preços observada nos dados de comércio externo.


2. Reconfiguração geográfica do comércio: novos fornecedores, Brexit e choques de abastecimento

O Reino Unido perde relevância como fornecedor, mas mantém-se como principal destino de exportação

O Brexit teve um impacto claro e assimétrico no comércio bilateral de amidos e féculas entre a UE e o Reino Unido. Enquanto fornecedor, as importações da UE provenientes do Reino Unido caíram de 17,3 milhões de euros para 5,6 milhões de euros (−67,4%). Em contrapartida, as exportações da UE para o Reino Unido cresceram de 65,8 milhões de euros para 110,2 milhões de euros (+67,4%), consolidando o Reino Unido como o segundo maior destino de exportação da UE (a par dos EUA). Esta assimetria sugere que, após o Brexit, o Reino Unido se tornou mais dependente da UE para o abastecimento de amidos e féculas, ao passo que a UE diversificou as suas fontes de importação.

A Sérvia, o Vietname e a Ucrânia surgem como fornecedores emergentes

Três parceiros registaram crescimentos excecionalmente elevados no fornecimento à UE:

Fornecedor 2015 (M€) 2025 (M€) Variação (%)
Ucrânia 0,3 8,6 +2 567,9%
Vietname 0,4 10,0 +2 176,4%
Brasil 0,8 5,4 +537,9%
Sérvia 9,8 19,6 +101,3%
Tailândia 15,7 27,2 +73,1%

O Vietname e a Tailândia são tradicionais produtores de mandioca e amido de tapioca, o que se alinha com o crescimento das importações de fécula de mandioca (CN 110814). A Ucrânia, por sua vez, emergiu como fornecedor significativo de amido de milho, embora o seu percurso comercial tenha sido marcado por um choque de preço nas importações em 2022, com uma subida anómala de 123,8% e uma anormalidade de 67,2 — coincidente com o início do conflito armado.

A concentração das importações diminui, sinal de diversificação da base de fornecedores

O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 2 061 para 1 463 (−29,0%), passando de uma concentração moderada para o limiar da desconcentração. Em volume, a redução foi ainda mais acentuada (de 2 612 para 1 780, −31,8%). Isto indica que a UE diversificou significativamente as suas fontes de importação ao longo do período — uma estratégia coerente com a crescente procura de resiliência nas cadeias de abastecimento.

Em contraste, o HHI das exportações manteve-se relativamente estável (de 708 para 765 em valor), refletindo a já elevada diversificação dos mercados de destino da UE.

Choques de volatilidade: Ucrânia em 2022 e Noruega em 2023

A análise de volatilidade e choques de abastecimento revela dois episódios de ruptura significativos nas importações:

  • Ucrânia (2022): choque de preço com desvio de 123,8% e anormalidade de 67,2, com uma quota de 11,2% no valor total das importações. Este choque reflete os efeitos do conflito russo-ucraniano nas exportações agrícolas ucranianas.
  • Noruega (2023): choque de preço com desvio de 238,2% e anormalidade de 16,7, embora com uma quota de valor mais modesta (4,2%).

Do lado das exportações, destaca-se um choque de preço nas vendas para as Filipinas em 2023 (desvio de 44,8%, anormalidade de 26,7), sugerindo uma alteração pontual nas condições de mercado naquela região.

Dinâmicas internas da UE: Alemanha, Dinamarca e os Países Baixos lideram as exportações

Os principais Estados-Membros exportadores de amidos e féculas para países terceiros em 2025 foram:

Estado-Membro 2015 (M€) 2025 (M€) Variação (%)
Alemanha 218,1 221,7 +1,7%
Dinamarca 58,1 219,4 +277,7%
Países Baixos 125,4 165,7 +32,2%
Bélgica 78,2 101,1 +29,3%
Polónia 36,8 73,1 +98,6%
França 14,9 45,2 +204,1%
Itália 15,1 18,1 +19,4%

O caso mais notável é o da Dinamarca, cujas exportações cresceram 277,7%, passando de 58,1 milhões de euros para 219,4 milhões de euros — praticamente ao nível da Alemanha. Este crescimento espetacular pode estar relacionado com a expansão de empresas dinamarquesas especializadas em amidos de alto valor acrescentado, como a Novozymes/Chr. Hansen e a Cargill com operações na Dinamarca. A Polónia (+98,6%) e a França (+204,1%) também registaram avanços significativos, refletindo a expansão da capacidade de processamento de amidos no Leste e Sul da Europa.

Do lado das importações, a Chequia (+930,1%, de 0,8 para 8,6 milhões de euros), a Espanha (+407,6%, de 1,9 para 9,6 milhões de euros) e a Itália (+144,9%, de 3,3 para 8,1 milhões de euros) foram os Estados-Membros que mais expandiram as suas compras externas.


3. A fécula de batata domina as exportações europeias, enquanto a mandioca ganha terreno nas importações

A estrutura do comércio por segmento de produto

O universo do CN 1108 apresenta uma assimetria marcante entre importações e exportações quanto à composição por subproduto. As exportações são dominadas pela fécula de batata, enquanto as importações se repartem entre amido de milho e fécula de mandioca.

Exportações da UE por subproduto (2015 vs. 2025):

Subproduto 2015 (M€) 2025 (M€) Var. (%) 2015 (kt) 2025 (kt) Var. (%)
Fécula de batata (110813) 280,4 401,0 +43,0% 486,9 431,2 −11,4%
Amido de milho (110812) 80,2 113,8 +41,9% 149,1 155,7 +4,4%
Inulina (110820) 87,1 93,2 +7,0% 36,1 34,1 −5,6%
Outros amidos (110819) 41,2 57,4 +39,4% 60,5 53,4 −11,8%
Amido de trigo (110811) 31,8 36,6 +15,1% 90,8 105,3 +15,9%
Fécula de mandioca (110814) 4,4 4,9 +12,0% 2,5 2,0 −18,6%

Importações da UE por subproduto (2015 vs. 2025):

Subproduto 2015 (M€) 2025 (M€) Var. (%) 2015 (kt) 2025 (kt) Var. (%)
Amido de milho (110812) 25,4 34,8 +36,6% 42,2 64,7 +53,2%
Fécula de mandioca (110814) 19,5 45,1 +131,0% 32,2 62,4 +93,6%
Outros amidos (110819) 4,1 9,6 +133,6% 3,3 11,3 +246,4%
Fécula de batata (110813) 2,8 5,3 +86,2% 2,3 11,8 +406,3%
Inulina (110820) 3,5 2,4 −29,7% 1,4 1,0 −29,3%
Amido de trigo (110811) 1,9 0,9 −54,4% 8,6 0,9 −89,3%

A fécula de batata: o produto-âncora das exportações europeias

A fécula de batata (CN 110813) é, de longe, o subproduto mais relevante nas exportações da UE, representando 43,3% do valor total exportado em 2025 (401,0 milhões de euros). O que é particularmente notável é que o seu volume de exportação diminuiu 11,4% (de 486,9 mil toneladas para 431,2 mil toneladas), mas o valor aumentou 43,0% — o que se explica pela subida acentuada do preço médio de exportação, que passou de 576 €/t para 930 €/t (+61,5%).

A Europa (em particular a Alemanha, os Países Baixos, a Dinamarca e a Polónia) detém uma posição dominante na produção e exportação mundial de fécula de batata, beneficiando de uma base agrícola de batata de elevada produtividade. O crescimento do preço reflete tanto a escassez relativa de oferta global como a crescente procura de ingredientes naturais e clean-label na indústria alimentar.

A mandioca ganha terreno como matéria-prima de importação

A fécula de mandioca (CN 110814) registou o maior crescimento relativo entre os subprodutos importados: +131,0% em valor (de 19,5 para 45,1 milhões de euros) e +93,6% em volume (de 32,2 para 62,4 mil toneladas). Em 2025, a mandioca tornou-se o principal subproduto importado em termos de valor, ultrapassando o amido de milho. Os principais fornecedores são a Tailândia e o Vietname — dois dos maiores produtores mundiais de mandioca —, cujas exportações para a UE cresceram 73,1% e 2 176,4%, respetivamente.

Este crescimento reflete a crescente utilização de amido de tapioca como substituto funcional em aplicações alimentares e industriais, bem como a sua compatibilidade com formulações gluten-free.

O amido de trigo desaparece das importações

Em sentido oposto, o amido de trigo (CN 110811) praticamente desapareceu das importações da UE: o volume caiu de 8,57 mil toneladas para apenas 927 toneladas (−89,3%) e o valor desceu 54,4%. Este colapso sugere que a UE se tornou inteiramente auto-suficiente na produção de amido de trigo, eliminando a necessidade de recorrer a fornecedores externos.

A inulina mantém-se como nicho de elevado valor

A inulina (CN 110820) é um produto de especialidade com um preço médio de exportação de 2 734 €/t em 2025 — o mais elevado de todos os subprodutos do CN 1108. As exportações mantiveram-se estáveis em volume (~34 mil toneladas) e cresceram ligeiramente em valor (+7,0%, de 87,1 para 93,2 milhões de euros). O preço de exportação da inulina subiu 13,3% (de 2 414 para 2 734 €/t), refletindo a sua crescente utilização como fibra prebiótica e substituto de gordura/açúcar em alimentos funcionais.

Especialização produtiva: os países do Leste da Europa emergem

A análise de especialização revela que, em 2025, os Estados-Membros mais especializados na exportação de amidos e féculas (medido pelo RSCA) incluem:

Estado-Membro RSCA RCA
Lituânia 0,71 5,96
Roménia 0,43 2,48
Bulgária 0,28 1,76
Bélgica 0,27 1,73
Países Baixos 0,13 1,31

A presença de países como a Lituânia, a Roménia e a Bulgária entre os mais especializados sugere que a produção de amidos e féculas se está a expandir para o Leste da Europa, aproveitando menores custos de terra e mão de obra. A Bélgica e os Países Baixos mantêm a sua posição de tradição, sustentada por uma indústria de processamento de batata e milho altamente consolidada.


Conclusão

O mercado europeu de amidos e féculas (CN 1108) passou por uma transformação significativa entre 2015 e 2025. A UE consolidou a sua posição como exportador líquido robusto, com um saldo comercial que cresceu 57,5% — impulsionado sobretudo pela valorização dos preços (+46,0% nas exportações) e não por uma expansão equivalente dos volumes (+8,8%).

Três dinâmicas estruturais dominam a evolução do período:

  1. A consolidação da fécula de batata como produto-âncora das exportações europeias, com preços que subiram de 576 para 930 €/t, e uma base de produção que se expande para o Leste da Europa.
  2. A reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento, com a diversificação dos fornecedores de importação (HHI a descer 29%), o surgimento do Vietname e da Ucrânia como parceiros relevantes, e o impacto do Brexit nas relações com o Reino Unido.
  3. A crescente abertura internacional do setor, com a intensidade comercial e a propensão exportadora a praticamente duplicarem ao longo da década.

As vulnerabilidades identificadas são pontuais: o choque de abastecimento ucraniano de 2022 e a elevada volatilidade nas importações de alguns parceiros periféricos (Noruega, Vietname, Egito) reforçam a importância da diversificação da base de fornecedores — uma estratégia que a UE, em linhas gerais, tem vindo a prosseguir com sucesso.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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