Evolução do mercado: Biodiesel (CN 3826) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no que respeita ao código aduaneiro 3826 — Biodiesel e suas misturas, que não contenham ou que contenham menos de 70 %, em peso, de óleos de petróleo ou de óleos minerais betuminosos — ao longo do período 2015–2025 (Escrutura escopo e definições). O biodiesel ocupa uma posição central na transição energética da UE e na descarbonização do setor dos transportes, tornando a análise das dinâmicas comerciais deste produto particularmente relevante do ponto de vista da política industrial e da segurança energética.
O período em análise foi marcado por transformações profundas: a procura interna cresceu significativamente, os preços das commodities energéticas sofreram múltiplos choques — em particular durante 2021–2022 — e o comércio com países terceiros intensificou-se de forma desigual entre importações e exportações. Os dados revelam uma UE que se tornou progressivamente mais dependente de fornecedores externos de biodiesel, com o défice comercial a alargar-se de forma acentuada, ao mesmo tempo que as relações com os principais parceiros comerciais se reconfiguraram.
1. A crescente dependência externa: o alargamento do défice comercial
O elemento mais marcante da evolução do comércio de biodiesel da UE no período 2015–2025 é o fosso crescente entre importações e exportações, com um acentuado aumento da dependência externa (Visão geral do comércio).
1.1 As importações cresceram mais de 200 % em valor
As importações da UE de biodiesel (CN 3826) registaram um crescimento extraordinário ao longo do período:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (mil milhões €) | 0,633 | 1,998 | +215,8 % |
| Quantidade (milhares de toneladas) | 696 | 1 567 | +125,1 % |
| Preço médio (€/t) | 909 | 1 275 | +40,3 % |
O valor das importações mais do que triplicou, impulsionado tanto pelo aumento de volumes como pelo encarecimento dos preços. O pico de importações foi atingido num ponto intermédio do período, tendo as importações atingido um valor máximo de €4 385 milhões para uma quantidade de 3 731 mil toneladas, antes de retroceder parcialmente (mas mantendo-se ainda muito acima dos níveis de 2015).
1.2 As exportações cresceram de forma mais moderada
As exportações da UE para países terceiros registaram um crescimento muito inferior:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (mil milhões €) | 0,562 | 0,872 | +55,1 % |
| Quantidade (milhares de toneladas) | 658 | 678 | +3,0 % |
| Preço médio (€/t) | 855 | 1 287 | +50,6 % |
Enquanto as importações cresceram mais de 200 % em valor, as exportações limitaram-se a um aumento de 55 %. Em termos de quantidade, a variação é ainda mais expressiva: +125 % nas importações versus apenas +3 % nas exportações. Isto revela que a UE passou de uma posição de quase equilíbrio comercial (défice de apenas €70 milhões em 2015, equivalente à procura interna líquida) para um défice de €1 126 milhões em 2025 — uma deterioração de quase 1 500 %.
1.3 Os preços divergiram e depois convergiram
Uma observação relevante é a dinâmica dos preços médios de importação e exportação. Em 2015, o preço médio de exportação (€855/t) era inferior ao de importação (€909/t), o que sugere uma dinâmica de margens apertadas para a reexportação. No entanto, em 2025, os preços convergiram significativamente (€1 287/t nas exportações versus €1 275/t nas importações), refletindo um alinhamento de preços provocado pela subida generalizada das cotações de commodities energéticas em 2021–2022.
O preço médio de importação atingiu um mínimo de €709/t em algum ponto do período, antes de subir para um máximo de €1 601/t, refletindo a elevada volatilidade das matérias-primas associadas ao biodiesel (óleos vegetais, gorduras animais).
2. Reconfiguração geográfica e estrutural do comércio
Além do crescimento global, o período 2015–2025 assistiu a uma profunda reconfiguração das origens e destinos do comércio de biodiesel da UE, tanto em termos de parceiros como de Estados-Membros envolvidos (Concentração: parceiros; Concentração: Estados-Membros).
2.1 Argentina emergiu como o principal fornecedor, mas com elevada instabilidade
A lista dos principais fornecedores extra-UE revela mudanças estruturais notáveis:
| Parceiro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) | Máx. (€) |
|---|---|---|---|---|
| Argentina | 11,6 M | 329,6 M | +2 740 % | 1 414 M |
| China | 0,4 M | 23,4 M | +5 622 % | 1 429 M |
| Malásia | 307,1 M | 592,9 M | +93,0 % | 592,9 M |
| Reino Unido | 236,2 M | 329,0 M | +39,3 % | 624,7 M |
| Indonésia | 11,3 M | 77,4 M | +586 % | 526,8 M |
| Coreia do Sul | 23,0 M | 182,4 M | +693 % | 243,0 M |
| Noruega | 2,8 M | 47,9 M | +1 625 % | 116,3 M |
Argentina destaca-se como o caso de maior expansão: de fornecedor marginal (€11,6 milhões em 2015) passou a um dos maiores fornecedores da UE, num crescimento de quase 2 740 %, com um máximo pontual de €1 414 milhões. Este crescimento espelha o papel da Argentina como grande produtora de biodiesel à base de soja e o impacto das políticas de importação da UE (incluindo direitos antidumping e revisões regulatórias).
China apresenta uma trajetória volátil, tendo-se tornado um fornecedor massivo num ponto intermédio (pico de €1 429 milhões) antes de receder para €23,4 milhões em 2025. Esta dinâmica é consistente com choques relacionados com restrições comerciais ou dumping.
Malásia mantém-se como o fornecedor mais estável e consistente, com um crescimento moderado mas sustentado de 93 % — refletindo o seu papel como produtora líder de óleo de palma, matéria-prima controversa mas amplamente utilizada na produção de biodiesel.
Indonésia e Coreia do Sul registaram crescimentos de 586 % e 693 %, respetivamente, embora com perfis muito diferentes em termos de estabilidade.
2.2 O Reino Unido domina as exportações, mas com sinais de saturação
Do lado das exportações, a estrutura é mais estável:
| Parceiro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) | Máx. (€) |
|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | 384,3 M | 661,4 M | +72,1 % | 1 162,0 M |
| Estados Unidos | 9,5 M | 3,1 M | −67,5 % | 1 642,3 M |
| Suíça | 34,5 M | 113,0 M | +227,4 % | 1 676,6 M |
| Noruega | 104,4 M | 78,3 M | −25,0 % | 130,7 M |
| Peru | 70,8 M | 2,7 M | −96,1 % | 85,1 M |
O Reino Unido é consistentemente o principal destino das exportações da UE de biodiesel, com crescimento de 72 % — o que espelha a proximidade geográfica e a integração regulatória pós-Brexit no setor dos combustíveis renováveis. Os Estados Unidos, que em determinado momento foram o maior destino de exportação da UE (pico de €1 642 milhões, provavelmente devido à procura impulsiva no período 2020–2022), caíram para apenas €3,1 milhões em 2025, sugerindo uma perda de competitividade ou alterações regulatórias (incluindo o impacto do Inflation Reduction Act norte-americano).
Peru apresenta o declínio mais acentuado: de €70,8 milhões para €2,7 milhões (−96 %), o que pode refletir o crescimento da capacidade de produção local na América do Sul ou restrições importadoras desse país.
2.3 A Holanda e a Bélgica consolidam os fluxos como plataformas logísticas
Em termos de Estados-Membros (Concentração: Estados-Membros):
Importações:
| Estado-Membro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 277,8 M | 1 433,1 M | +415,9 % |
| Espanha | 131,1 M | 167,6 M | +27,9 % |
| Bélgica | 45,3 M | 360,3 M | +694,7 % |
| Alemanha | 142,0 M | 8,7 M | −93,9 % |
Exportações:
| Estado-Membro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 239,1 M | 577,9 M | +141,7 % |
| Alemanha | 144,5 M | 82,7 M | −42,7 % |
| Espanha | 25,3 M | 8,8 M | −65,1 % |
| Bélgica | 80,5 M | 105,9 M | +31,6 % |
A Alemanha sofreu um colapso quase total das importações (de €142 milhões para €8,7 milhões, −93,9 %), o que pode estar associado à substituição por fontes domésticas ou à reorientação dos fluxos comerciais europeus. Em contraste, os Países Baixos e a Bélgica absorvem agora a maior parte das importações, consolidando o seu papel como portos de entrada e redistribuição logística para o mercado único europeu.
Relativamente à especialização intra-UE (Indicadores de especialização), os dados de 2025 revelam:
| Estado-Membro | RSCA | Participação na produção da UE |
|---|---|---|
| Bulgária | 0,588 | 2,4 % |
| Bélgica | 0,503 | 25,6 % |
| Letónia | 0,431 | 0,8 % |
| Países Baixos | 0,364 | 31,1 % |
| Espanha | 0,150 | 7,8 % |
Os Países Baixos e a Bélgica juntos representam mais de 56 % da produção intra-UE de biodiesel com código 3826, o que confere a esses dois países uma posição dominante no refinamento e comércio deste produto.
2.4 A concentração das importações diminuiu significativamente
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações (Concentração HHI) mostra uma diversificação acentuada da base fornecedora:
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 3 777 | 1 633 | −56,8 % |
| Importações ( volume) | 3 672 | 1 516 | −58,7 % |
| Exportações (valor) | 5 060 | 6 116 | +20,9 % |
| Exportações ( volume) | 5 180 | 6 171 | +19,1 % |
As importações passaram de um HHI de 3 777 — indicativo de elevada concentração — para 1 633, refletindo um mercado claramente mais diversificado, com múltiplos fornecedores alternativos a substituir a dependência de um ou dois parceiros dominantes. As exportações, pelo contrário, tenderam a concentrar-se ligeiramente, o que é consistente com a consolidação do Reino Unido como destino principal.
3. Vulnerabilidade, volatilidade e implicações estratégicas
A análise da evolução do comércio de biodiesel da UE não se esgota nos volumes e valores: é igualmente relevante examinar a vulnerabilidade estrutural e a volatilidade de curto prazo do abastecimento, com implicações diretas para a autonomia energética europeia.
3.1 A dependência líquida de importações mais do que duplicou
O indicador de dependência líquida de importações (Dependência líquida de importações) evoluiu da seguinte forma:
| Ano (aprox.) | Dependência líquida (%) |
|---|---|
| 2015 | 1,83 % |
| Máximo | 15,82 % |
| 2025 | 4,80 % |
Embora o valor de 2025 (4,80 %) pareça moderado, a dependência líquida atingiu um pico de quase 16 % em algum ponto do período — provavelmente entre 2020 e 2022, durante a fase de importação mais massiva de biodiesel — o que representa um risco significativo de abastecimento. A variação cumulada de +162,7 % entre 2015 e 2025 confirma uma trajetória de longo prazo de crescente dependência externa.
3.2 A intensidade comercial e a propensão exportadora atingiram máximos históricos
Outros indicadores de abertura económica relativos ao biodiesel (Intensidade comercial; Propensão exportadora):
| Indicador | 2015 | 2025 | Máx. | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| Intensidade comercial (%) | 16,73 | 28,08 | 35,61 | +67,8 % |
| Propensão exportadora (%) | 8,29 | 14,22 | 17,31 | +71,6 % |
Destaca-se que o indicador de propensão exportadora apresenta um salience score superior ao da intensidade comercial (107,4 vs. 89,7), o que sugere que a UE tem progressivamente canalizado uma maior parte da sua produção de biodiesel para exportação, simultaneamente com um aumento das importações para satisfazer a procura interna. Este padrão é consistente com a existência de arbitragem de preços e regulações (double counting, mistura obrigatória) que incentivam fluxos cruzados de biodiesel.
3.3 A produção interna cresceu, mas não na mesma proporção que as importações
A produção intra-UE de biodiesel (CN 3826) (Produção: volumes) registou o seguinte:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Quantidade (Gg / milhões de toneladas) | 10,61 | 13,85 | +30,5 % |
| Valor (mil milhões €) | 7,60 | 11,95 | +57,3 % |
A produção interna cresceu 30,5 % em volume e 57,3 % em valor — um crescimento significativo, mas claramente insuficiente para acompanhar o aumento de 125 % nas importações. O máximo de produção (~14,3 milhões de toneladas) foi atingido num ponto intermédio, sugerindo um abrandamento recente. Esta dinâmica confirma que o crescimento da procura interna — impulsionado pelos mandatos de mistura de biocombustíveis — foi parcialmente satisfeito por fontes externas, acentuando a dependência em relação a fornecedores terceiros.
3.4 Choques de abastecimento afetaram parceiros com elevada volatilidade
A análise de volatilidade (Volatilidade; Choques) revela padrões de instabilidade particularmente relevantes:
Coeficientes de variação mais elevados (importações):
| Parceiro | CV |
|---|---|
| Indonésia | 1,51 |
| Brasil | 1,10 |
| Índia | 0,92 |
| China | 0,85 |
| Argentina | 0,74 |
| Coreia do Sul | 0,74 |
Dois choques de preço notáveis foram detetados nos dados, associados a:
-
Reino Unido (importações): anomalia de 15,7, com desvio de 86,1 % em 2021, afetando 18,7 % do valor total das importações. Este choque coincide cronologicamente com a crise energética global e a escalada dos preços da energia de 2021, que afetou todos os setores de combustíveis.
-
Suíça (exportações): anomalia de 6,3, com desvio de 47,6 % em 2022, afetando 10,0 % do valor total das exportações. Este choque é consistente com a pressão adicional sobre os preços no pós-invasão da Ucrânia e com a procura excepcional de combustíveis alternativos na Suíça durante esse período.
A elevada volatilidade dos fornecedores asiáticos (Indonésia CV = 1,51; China CV = 0,85) e sul-americanos (Brasil CV = 1,10) representa um risco importante para a estabilidade do abastecimento europeu.
Conclusão
A análise do comércio externo da UE de biodiesel (CN 3826) ao longo da década 2015–2025 revela um mercado em profunda transformação. A UE passou de uma posição de quase equilíbrio comercial em 2015 (défice de apenas €70 milhões) para uma dependência acentuada de importações em 2025 (défice de €1 126 milhões), impulsionada por uma procura interna crescente — ligada aos mandatos europeus de mistura de biocombustíveis — que a produção interna, apesar de crescente (+30,5 %), não conseguiu acompanhar.
Do ponto de vista geográfico, a base fornecedora diversificou-se significativamente (HHI das importações caiu 56,8 %), com a Argentina a emergir como o principal fornecedor e a Malásia a consolidar a sua posição como fornecedor estrutural. No entanto, muitos destes fornecedores exibem elevada volatilidade (Indonésia apresenta CV de 1,51), o que torna o abastecimento europeu vulnerável a choques de curto prazo, como os registados em 2021–2022.
A concentração produtiva intra-UE nos Países Baixos e na Bélgica (mais de 55 % da produção) confere a esses países um papel de hub logístico e de processamento, mas também centraliza riscos. O indicador de dependência líquida de importações, com um pico de quase 16 % e uma variação de +162,7 % ao longo do período, sublinha a necessidade de políticas que conciliem o crescimento da procura de biocombustíveis com o reforço da capacidade produtiva europeia — de forma a reduzir a exposição a fornecedores terceiros instáveis e a reforçar a autonomia energética da União.