Evolução do mercado: Armas de guerra (CN 9301) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no que diz respeito à posição aduaneira 9301 — Armas de guerra, exceto revólveres, pistolas e armas brancas da posição 9307 — no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição engloba peças de artilharia (canhões, obuses, morteiros), lançadores de mísseis e granadas, e outras armas militares.
O período analisado é marcado por uma transformação profunda nas dinâmicas comerciais da UE neste setor. As importações passaram de €15,3 milhões em 2015 para €1.150 milhões em 2025, representando um crescimento de 7.413%. As exportações, por sua vez, cresceram 489%, atingindo €390,9 milhões no último ano disponível. Consequentemente, a balança comercial — que em 2015 apresentava um superavit de €51,1 milhões — converteu-se num défice de €759,1 milhões em 2025.
A análise estrutura-se em três eixos principais: a explosão das importações europeias, impulsionada pelo rearmamento e pela resposta geopolítica ao conflito na Ucrânia; a reconfiguração das exportações da UE, com a Ucrânia como destino dominante; e a crescente concentração geográfica do comércio e os choques de volatilidade que marcaram este período.
1. O surto de rearmamento europeu: uma explosão sem precedentes nas importações
1.1. As importações cresceram de forma exponencial a partir de 2022
O crescimento das importações de armas de guerra pela UE ao longo da década 2015–2025 não foi linear: até 2021, os volumes mantiveram-se relativamente modestos, após o que se registou um aumento abrupto. Em 2015, a UE importou apenas 258,6 toneladas (€15,3 milhões); em 2025, esse valor atingiu 5.248,2 toneladas (€1.150 milhões).
| Ano | Importações (EUR) | Quantidade (t) | Preço médio (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 15.306.541 | 258,6 | 59.151 |
| 2016 | 10.735.228 | 178,5 | 60.148 |
| 2017 | 18.910.248 | 142,6 | 132.577 |
| 2018 | 7.410.029 | 31,6 | 234.627 |
| 2019 | 14.981.639 | 63,0 | 237.662 |
| 2020 | 71.485.512 | 123,8 | 577.375 |
| 2021 | 38.455.217 | 114,7 | 335.224 |
| 2022 | 259.853.083 | 1.545,5 | 168.136 |
| 2023 | 472.577.304 | 2.289,7 | 206.393 |
| 2024 | 930.507.610 | 4.207,9 | 221.132 |
| 2025 | 1.150.014.430 | 5.248,2 | 219.127 |
(Fonte: Visão geral do comércio — CN 9301)
O ponto de inflexão é inequívoco: 2022 marca o início de uma escalada que triplica o valor das importações face a 2021. O preço médio por tonelada subiu de €59.151 (2015) para €219.127 (2025), um aumento de 170%, o que sugere que, paralelamente ao aumento de volume, houve uma evolução para sistemas mais sofisticados e de maior valor unitário.
1.2. A Polónia tornou-se o epicentro das importações europeias de armamento
A desagregação por Estado-Membro revela uma concentração extraordinária: a Polónia sozinha representou €999,2 milhões em importações em 2025 — ou seja, 87% do total europeu. Em 2015, as importações polacas situavam-se nos €6,3 milhões, representando um crescimento de 15.880%.
| Estado-Membro | Importações 2015 (EUR) | Importações 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Polónia | 6.252.837 | 999.170.241 | +15.880% |
| Estónia | 2.609.947 | 64.867.348 | +2.385% |
| Países Baixos | 39.205 | 23.382.169 | +59.541% |
| Espanha | 1.509.481 | 40.830.642 | +2.605% |
| Lituânia | 570.629 | 3.929.972 | +589% |
(Fonte: Principais importadores da UE por valor)
O perfil dos Estados-Membros mais activos nas importações é revelador: Polónia, Estónia, Lituânia e Países Baixos — todos países da NATO na frente oriental europeia — lideram o esforço de rearmamento. A Roménia, que em 2015 era o maior importador com €111,6 milhões, registou uma queda de 99,5%, passando a €534.268 em 2025, o que sugere uma conclusão antecipada dos seus programas de aquisição.
1.3. A Coreia do Sul emergiu como o principal fornecedor extra-europeu
Do lado dos parceiros comerciais, a Coreia do Sul consolidou-se como a principal origem das importações da UE, com €948,4 milhões em 2025 (crescimento de 511% face ao primeiro registo disponível). Os Estados Unidos, com €126,2 milhões, e o Reino Unido, com €60,8 milhões, completam o trio principal de fornecedores.
| Parceiro | Primeiro valor (EUR) | Último valor (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Coreia do Sul | 155.274.645 | 948.445.606 | +511% |
| Estados Unidos | 3.591.841 | 126.151.268 | +3.412% |
| Reino Unido | 4.176.972 | 60.815.709 | +1.356% |
| Turquia | 855.155 | 2.531.222 | +196% |
| Noruega | 3.184.675 | 1.066.758 | -67% |
| Israel | 2.295 | 7.703.560 | +335.567% |
(Fonte: Principais parceiros de importação por valor)
O destaque para a Coreia do Sul reflete os grandes contratos de aquisição de equipamento militar pesado — como tanques K2 e obuses K9 — por parte da Polónia, formalizados a partir de 2022 no contexto da resposta ao conflito na Ucrânia. O crescimento exponencial das importações israelitas (+335.567%, partindo de uma base muito baixa) sugere também uma diversificação das fontes de abastecimento.
2. A Ucrânia como destino dominante: a reconfiguração das exportações europeias
2.1. As exportações para a Ucrânia cresceram de forma explosiva após 2022
Se as importações reflectem o rearmamento dos próprios Estados-Membros, as exportações espelham a resposta europeia ao conflito na Ucrânia. Em 2015, as exportações totais da UE de armas de guerra (CN 9301) para países terceiros totalizavam €66,4 milhões; em 2025, atingiram €390,9 milhões (+489%). A Ucrânia é responsável pela esmagadora maioria desta transformação.
| Ano | Exportações totais (EUR) | Exportações para Ucrânia (EUR) | Peso da Ucrânia |
|---|---|---|---|
| 2015 | 66.416.151 | 608.338 | 0,9% |
| 2016 | 47.268.001 | 2.848.085 | 6,0% |
| 2017 | 72.845.718 | 3.103.957 | 4,3% |
| 2018 | 118.603.201 | 9.089.901 | 7,7% |
| 2019 | 45.843.640 | 5.266.173 | 11,5% |
| 2020 | 29.819.258 | 310.353 | 1,0% |
| 2021 | 43.459.600 | 2.879.680 | 6,6% |
| 2022 | 384.086.985 | 271.386.065 | 70,7% |
| 2023 | 465.334.858 | 360.944.721 | 77,6% |
| 2024 | 728.457.185 | 580.917.518 | 79,7% |
| 2025 | 390.933.921 | 295.022.259 | 75,5% |
(Fonte: Principais parceiros de exportação por valor)
A variação de +48.396% nas exportações para a Ucrânia (de €608 mil para €295 milhões) é, sem dúvida, o dado mais marcante do período. Os valores de 2022 e 2023 reflectem claramente o fornecimento massivo de equipamento militar europeu no âmbito do apoio à defesa ucraniana.
2.2. A diversidade de destinos tradicionais contraiu-se significativamente
Paralelamente ao crescimento das exportações para a Ucrânia, observou-se uma redução acentuada noutros destinos que antes eram relevantes:
| Destino | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Ucrânia | 608.338 | 295.022.259 | +48.396% |
| Estados Unidos | 3.197.184 | 23.630.638 | +639% |
| Noruega | 524.577 | 20.528.146 | +3.813% |
| Israel | 1.320.715 | 12.111 | -99,1% |
| Arábia Saudita | 21.690.442 | 9.646.284 | -55,5% |
| Reino Unido | 348.082 | 121 | -100% |
| Iraque | 22.331.735 | 70.919 | -99,7% |
(Fonte: Principais parceiros de exportação por valor)
Os mercados do Médio Oriente e Norte de África — que em 2015 absorviam a maior fatia das exportações europeias (Iraque, Arábia Saudita, Israel) — praticamente desapareceram do mapa em 2025. Esta reconfiguração sugere uma dupla dinâmica: por um lado, a prioridade política europeia para o fornecimento à Ucrânia; por outro, possíveis restrições à exportação ou mudanças na procura nesses mercados tradicionais.
2.3. Os subprodutos 930110 e 930120 lideraram a expansão das exportações
A decomposição por subcódigo revela que a componente de artigos de artilharia (930110) e de lançadores de mísseis e granadas (930120) foram os principais motores do crescimento das exportações.
| Subproduto | Exportações 2015 (EUR) | Exportações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| 930110 — Peças de artilharia | 14.896.829 | 272.613.050 | +1.730% |
| 930120 — Lança-mísseis e lançadores | 5.256.410 | 70.845.516 | +1.248% |
| 930190 — Outras armas militares | 46.260.825 | 47.475.353 | +2,6% |
(Fonte: Decomposição por segmento de produto)
O crescimento de 1.730% nas peças de artilharia (930110) e de 1.248% nos lança-mísseis e lançadores (930120) é consistente com o tipo de equipamento fornecido à Ucrânia — sistemas de artilharia, mísseis anticarro e lança-granadas. A subcategoria 930190 (outras armas militares, incluindo submetralhadoras) manteve-se praticamente estável (~€47 milhões), sugerindo que a dinâmica de crescimento se concentrou em equipamento pesado e não em armamento ligeiro.
3. Concentração crescente e choques de volatilidade: um mercado cada vez mais estruturado
3.1. O índice HHI revela uma concentração geográfica acentuada
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI), que mede a concentração do comércio, subiu de forma significativa tanto nas importações como nas exportações:
| Fluxo | HHI Valor (2015) | HHI Valor (2025) | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações | 1.922 | 6.978 | +263% |
| Exportações | 2.392 | 5.853 | +145% |
(Fonte: Concentração do comércio — HHI)
Um HHI de 6.978 nas importações (considerando que valores acima de 2.500 indicam elevada concentração) confirma que o mercado de importação se tornou altamente dependente de um número muito reduzido de fornecedores — fundamentalmente a Coreia do Sul. Do lado das exportações, a concentração reflecte o peso dominante da Ucrânia como destino.
3.2. A especialização produtiva europeia é liderada por países da Europa de Leste e do Norte
Os indicadores de especialização revelada (RCA e RSCA) para 2025 identificam os Estados-Membros com maior vantagem comparativa na exportação de armas de guerra:
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota no produto (%) |
|---|---|---|---|
| Finlândia | 33,81 | 0,94 | 33,9% |
| Eslováquia | 5,28 | 0,68 | 11,2% |
| Polónia | 4,15 | 0,61 | 27,6% |
| Espanha | 3,59 | 0,56 | 20,8% |
| Roménia | 0,81 | -0,10 | 1,4% |
(Fonte: Especialização dos Estados-Membros)
A Finlândia apresenta uma vantagem comparativa extraordinária (RCA de 33,8), reflectindo a sua indústria de defesa altamente especializada. A Eslováquia, Polónia e Espanha seguem-se com RCAs superiores a 3, indicando uma forte especialização. Os Países Baixos (RCA 0,34) e a Bélgica (RCA 0) apresentam-se como os menos especializados, o que é consistente com o facto de a Bélgica não registar exportações de CN 9301 no período analisado.
3.3. Choques de preço pontuais revelam a sensibilidade geopolítica do mercado
A análise de volatilidade e choques identificou eventos anómalos significativos:
| Evento | Fluxo | Tipo de choque | Anomalia | Variação (%) | Valor do evento |
|---|---|---|---|---|---|
| Israel (2019) | Exportações | Preço | 645,4 | +4.305% | 1,6% do valor total |
| Ucrânia (2021) | Exportações | Preço | 283,9 | +472% | 88,6% do valor total |
| Noruega (2020) | Exportações | Preço | 20,5 | +1.347% | 2,9% do valor total |
(Fonte: Eventos de choque na oferta)
O choque na Ucrânia em 2021 (anterior, portanto, à invasão de fevereiro de 2022) é particularmente notável: uma variação de preço de +472% que já representava 88,6% do valor total das exportações europeias de CN 9301. Este evento antecipou a escalada massiva que se verificou em 2022, sugerindo que o fornecimento de equipamento militar à Ucrânia se intensificou significativamente já em 2021.
Os coeficientes de variação (CV) dos parceiros mais relevantes confirmam padrões distintos:
- Exportações: Noruega (CV 3,0), Estados Unidos (CV 2,5), Israel (CV 2,0) — elevada volatilidade, típica de mercados de defesa com contratos esporádicos de grande dimensão.
- Importações: Coreia do Sul (CV 0,7), Ucrânia (CV 0,7) — menor volatilidade relativa, reflectindo contratos de longo prazo e relações comerciais consolidadas.
Conclusão
O período 2015–2025 representa uma transformação radical no comércio europeu de armas de guerra (CN 9301), impulsionada fundamentalmente por dois factores: o rearmamento dos Estados-Membros da NATO na frente oriental europeia e o fornecimento massivo de equipamento militar à Ucrânia. As importações cresceram 7.413% e as exportações 489%, invertendo a posição da UE de exportador líquido líquido (superavit de €51 milhões em 2015) para importador líquido (défice de €759 milhões em 2025).
Três dinâmicas principais emergem da análise:
-
A Polónia como epicentro do rearmamento europeu, representando 87% das importações em 2025, com a Coreia do Sul como fornecedor dominante — reflexo dos grandes contratos de aquisição de sistemas de artilharia e blindados.
-
A Ucrânia como destino quase exclusivo das exportações europeias, com um peso de 75–80% do valor total a partir de 2022, em detrimento dos mercados tradicionais do Médio Oriente que praticamente desapareceram.
-
Uma concentração geográfica crescente (HHI de importações subiu de 1.922 para 6.978), tornando o mercado mais dependente de um número reduzido de parceiros e, potencialmente, mais vulnerável a disrupções na cadeia de abastecimento.
O crescimento exponencial de preços médios, a concentração em poucos parceiros estratégicos e a magnitude dos choques de volatilidade observados indicam que o mercado europeu de armas de guerra entrou numa nova fase de maturidade — mais integrada politicamente, mais concentrada comercialmente e mais exposta a riscos geopolíticos sistémicos.