Evolução do mercado: Ácidos monocarboxílicos (CN 2916) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento da posição aduaneira 2916 da Nomenclatura Combinada, que abrange ácidos monocarboxílicos acíclicos não saturados e ácidos monocarboxílicos cíclicos, seus anidridos, halogenetos, peróxidos, peroxiácidos e seus derivados halogenados, sulfonados, nitrados ou nitrosados (âmbito e definições). Esta família de produtos é de elevada relevância setorial, pois alimenta indústrias como a de polímeros (acrílicos, metacrílicos), petroquímicos, farmacêuticos, cosméticos e agroquímicos. A janela temporal considerada — de 2015 a 2025 — abarca fases de expansão, perturbações provocadas pela pandemia, picos de preços energéticos no pós-Covid e o impacto da saída do Reino Unido do Mercado Único.
O período em análise foi marcado por três grandes dinâmicas: (i) o aprofundamento da dependência líquida da UE em relação a importações; (ii) uma reconfiguração significativa das parcerias comerciais; e (iii) choques de preços e volatilidade em vários fluxos. A análise incide sobre valores, quantidades e preços unitários, segmentados por parceiro e por subproduto, sempre com base nos dados fornecidos.
1. A UE transformou-se estruturalmente em importador líquido deste segmento
A análise da balança comercial da UE no CN 2916 revela uma deterioração sistemática da posição líquida da União ao longo do período analisado.
1.1. O déficit comercial mais do que duplicou entre 2015 e 2025
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, mil M€) | 886 | 740 | −16,5% |
| Exportações (quantidade, kt) | 473 | 305 | −35,5% |
| Exportações (preço médio, €/t) | 1 872 | 2 423 | +29,4% |
| Importações (valor, mil M€) | 1 049 | 1 046 | −0,3% |
| Importações (quantidade, kt) | 463 | 454 | −1,9% |
| Importações (preço médio, €/t) | 2 264 | 2 301 | +1,6% |
| Balança (mil M€) | −163 | −306 | −87,9% |
Fonte: Visão geral do comércio.
O déficit alargou-se de −163 mil milhões de euros em 2015 para −306 mil milhões em 2025. O valor mínimo do período foi registado em 2025, sinalizando uma aceleração negativa nos últimos anos. As importações mantiveram-se razoavelmente estáveis em valor (−0,3%), enquanto as exportações recuaram acentuadamente em quantidade (−35,5%).
1.2. A dependência líquida de importações cresceu acentuadamente
A dependência líquida de importações passou de 5,9 % em 2015 para 13,8 % em 2025, uma subida de +132,4 %. Cabe notar que esta métrica atingiu mesmo um mínimo negativo de −3,4 % em 2018, período em que a UE teve um excedente líquido temporário. A viragem para valores persistentemente positivos, sobretudo a partir de 2019, indica que a capacidade produtiva interna deixou de acompanhar o crescimento da procura.
1.3. A produção europeia recuoou, mas a abertura comercial intensificou-se
A produção PRODCOM da UE (code 20.14.33) registou uma ligeira contração: de aproximadamente 1,69 mil milhões de kg em 2015 para 1,61 mil milhões de kg em 2025 (−4,9 %), com uma redução de valor de 2,4 mil milhões de euros para 2,3 mil milhões (−2,2 %). No entanto, simultaneamente:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Intensidade do comércio (%) | 44,8 | 60,5 | +35,0 % |
| Propensão exportadora (%) | 26,7 | 38,9 | +45,8 % |
Fonte: Intensidade do comércio, Propensão exportadora.
Isto significa que, apesar de a produção total ter decrescido, a percentagem da produção que é exportada cresceu substancialmente. Combinando-se esta maior propensão exportadora com volumes de importação estáveis, a conclusão é que a UE está a produzir menos para consumo interno e a depender cada vez mais de fornecedores terceiros. Este é um quadro de vulnerabilidade crescente, embora a UE mantenha vantagens comparativas em determinados subprodutos de elevado valor acrescentado.
2. A geografia do comércio sofreu uma reconfiguração profunda
As mudanças nos parceiros comerciais da UE ao longo destes 11 anos foram marcantes — com destaque para o impacto do Brexit, a asserção da China nas importações e a emergência de novos fornecedores como a Arábia Saudita.
2.1. O Reino Unido deixou de ser parceiro privilegiado no comércio intra-CN 2916
O impacto do Brexit é inequívoco neste segmento. O Reino Unido era em 2015 o maior fornecedor terceiro da UE (313 mil milhões de euros em importações) e o segundo maior destino de exportações (175 mil milhões). Em 2025:
| Fluxo | Parceiro | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| Importações | Reino Unido | 313 | 46 | −85,4% |
| Exportações | Reino Unido | 174 | 123 | −29,2% |
Fonte: Principais parceiros.
A queda acentuada das importações provenientes do Reino Unido (−85,4 %) reflete quase certamente a reinstalação de barreiras alfandegárias e regulatórias e a reclassificação de fluxos que antes eram intra-UE e passaram a figurar como extra-UE. As exportações para o Reino Unido caíram também significativamente (−29,2 %), embora este permaneça como 2.º maior destino europeu. A elevada volatilidade registada (coeficiente de variação de 0,74 nas importações) sugere adaptação ainda em curso.
2.2. A China consolidou-se como principal fornecedor; a Arábia Saudita emergiu de forma dramática
De forma paralela ao esvaziamento do Reino Unido, outros parceiros ganharam relevância:
| Fornecedor | Importações 2015 (mil M€) | Importações 2025 (mil M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 206 | 309 | +50,3 % |
| Arábia Saudita | 5 | 136 | +2 588 % |
| Estados Unidos | 204 | 201 | −1,4 % |
| Coreia do Sul | 65 | 79 | +20,7 % |
| Indonésia | 13 | 5 | −62,1 % |
| África do Sul | 24 | 26 | +8,7 % |
Fonte: Principais parceiros — importações.
A China tornou-se o primeiro fornecedor extra-UE com 309 mil milhões de euros, ultrapassando os Estados Unidos. Contudo, a história mais marcante é a da Arábia Saudita: de um fornecedor marginal em 2015 (5 mil milhões), cresceu para o 4.º maior fornecedor em 2025 (136 mil milhões), impulsionado pela integração a jusante do petróleo no segmento petroquímico (a Arábia Saudita é acionista de referência do grupo SABIC, um dos maiores produtores mundiais de ácidos acrílicos e metacrílicos). A Indonésia, por seu lado, regrediu abruptamente nas importações (−62,1 %), possivelmente refletindo a reorientação de fluxos para a China e mudanças na capacidade refinadora local.
2.3. As exportações da UE mantiveram diversificação geográfica, com ênfase crescente nos EUA e na China
| Destino | Exportações 2015 (mil M€) | Exportações 2025 (mil M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 137 | 170 | +24,0 % |
| Reino Unido | 174 | 123 | −29,2 % |
| Turquia | 126 | 60 | −52,7 % |
| Suíça | 76 | 88 | +15,0 % |
| China | 33 | 51 | +55,6 % |
| Brasil | 34 | 34 | +1,4 % |
| Japão | 32 | 24 | −23,1 % |
Fonte: Principais parceiros — exportações.
Os Estados Unidos ultrapassaram o Reino Unido como principal destino das exportações da UE. A China e a Suíça ganharam importância crescente, enquanto a Turquia registou um recuo muito significativo (−52,7 %), possivelmente associado à desaceleração económica turca e à flutuação da lira. A relativa estabilidade do destino Brasil (apenas +1,4 %) é notável, dadas as volatilidades macroeconómicas do período.
2.4. A concentração importadora da UE diminuiu, mas a concentradora exportadora aumentou ligeiramente
O índice HHI de concentração das importações por parceiro desceu de 1 839 em 2015 para 1 626 em 2025 (−11,6 %), sinalizando maior diversificação. Em contraste, nas exportações o HHI subiu de 1 000 para 1 152 (+15,2 %), o que indica um ligeiro aumento da concentração exportadora — coerente com a crescente dependência dos EUA como destino.
2.5. Bélgica e Países Baixos dominam o fluxo logístico, a França emergiu como exportador
No lado interno, a distribuição dos fluxos pelos Estados-Membros é dominada por Bélgica e Países Baixos nas importações:
| Estado-Membro | Importações 2015 (mil M€) | Importações 2025 (mil M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Bélgica | 287 | 333 | +16,0 % |
| Países Baixos | 247 | 274 | +11,2 % |
| Alemanha | 194 | 140 | −27,5 % |
| Espanha | 74 | 95 | +28,9 % |
| Polónia | 11 | 23 | +109,3 % |
Fonte: Principais reportadores — importações.
A Bélgica e os Países Baixos, dada a sua posição logística (portos de Antuérpia e Roterdão), concentram provavelmente uma parte significativa dos fluxos de trânsito/exportação posterior. A Polónia duplicou as suas importações, provavelmente em resposta à industrialização crescente e à integração nas cadeias de valor químicas europeias.
Nas exportações, a Alemanha mantém-se no topo (250 mil milhões em 2025), mas a França registou um crescimento excecional: de 14 mil milhões em 2015 para 66 mil milhões em 2025 (+387 %), consolidando-se como o 4.º maior exportador da UE. A Estónia (+72,8 %) e a Espanha (+76,4 %) também registaram ganhos significativos.
| Estado-Membro | Exportações 2015 (mil M€) | Exportações 2025 (mil M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 307 | 250 | −18,8 % |
| Bélgica | 245 | 157 | −35,8 % |
| Países Baixos | 183 | 121 | −33,5 % |
| França | 13 | 66 | +387 % |
| Estónia | 20 | 34 | +72,8 % |
Fonte: Principais reportadores — exportações.
3. Volatilidade, choques de preço e segmentação por subproduto definem a dinâmica recente
A segunda metade do período em análise (sobretudo 2021–2022) foi marcada por uma elevada volatilidade de preços, com consequências heterogéneas nos diferentes subprodutos e parceiros.
3.1. Os preços médios das exportações cresceram significativamente, impulsionados por subprodutos de elevado valor acrescentado
A evolução dos preços unitários médios de exportação subiu de €1 594/t (mínimo do período, 2016) para €2 899/t (máximo, 2022), antes de estabilizar em €2 423/t em 2025. Isto reflete uma combinação de inflação de custos energéticos (especialmente no gás natural, insumo fundamental para a produção de ácidos acrílicos) e de uma composição enviesada para produtos de maior valor unitário.
Os subprodutos mais relevantes no volume total de exportações são:
| Subproduto | Exportações 2015 (kt) | Exportações 2025 (kt) | Variação | Preço médio 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 291612 — Ésteres do ácido acrílico | 191 | 121 | −36,5 % | 1 861 |
| 291631 — Ácido benzóico e sais/ésteres | 80 | 67 | −17,2 % | 1 861 |
| 291614 — Ésteres do ácido metacrílico | 90 | 40 | −55,5 % | 2 544 |
| 291611 — Ácido acrílico e sais | 53 | 36 | −31,4 % | 1 142 |
| 291632 — Peróxido de benzoílo e cloreto | 18 | 14 | −17,4 % | 3 350 |
| 291619 — Outros ácidos insaturados acíclicos | 13 | 12 | −11,6 % | 7 208 |
| 291615 — Ácidos oleico, linoleico, linolénico | 12 | 5 | −61,8 % | 4 235 |
Fonte: Comparação por segmento.
Os ésteres do ácido metacrílico (291614) registaram a maior quebra volumétrica (−55,5 %), refletindo possivelmente a pressão competitiva asiática. Em contraste, os subprodutos de elevada especialidade (291619 e 291615) mantiveram volumes surpreendentemente estáveis apesar de preços unitários muito mais elevados (€7 208/t e €4 235/t respetivamente), sugerindo que neste segmento a UE conserva vantagens de especialização.
3.2. Os principais choques de preço foram registados em 2018 e 2022
A análise de choques identificou três eventos de relevo:
| Evento | Tipo de choque | Fluxo | Desvio (%) | Deslocamento preço (%) | Momento |
|---|---|---|---|---|---|
| Arábia Saudita | Preço | Importações | 106,0 | +62,4 % | 2018 |
| México | Preço | Exportações | 11,8 | +38,3 % | 2022 |
| Brasil | Preço | Exportações | 7,6 | +55,1 % | 2022 |
Fonte: Eventos de choque.
O choque de 2018 nas importações da Arábia Saudita, com uma anormalidade de preço de 106,0 desvios-padrão e uma subida de 62,4 %, coincide com a fase de expansão da capacidade petroquímica saudita — possivelmente os primeiros envios de elevado valor acrescentado a entrar na UE a preços premium. Os choques de 2022 no México e no Brasil (exportações) são mais consistentes com a crise energética generalizada e com o efeito do conflito na Ucrânia nos custos de produção e transporte.
Os parceiros com maior volatilidade nas importações foram a Indonésia (CV = 1,77), a Arábia Saudita (CV = 0,79) e o Brasil (importações, CV = 0,86), refletindo a natureza intermitente destes fornecedores. Do lado das exportações, Singapura (CV = 0,74), a Turquia (CV = 0,34) e a China (CV = 0,48) mostraram os fluxos mais instáveis, embora em graus distintos.
3.3. A Bélgica exibe vantagem comparativa revelada como exportador especializado; grande parte da UE permanece pouco especializada
A análise de especialização revela uma distribuição muito assimétrica dentro da UE:
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota prod. UE |
|---|---|---|---|
| Bélgica | 3,30 | 0,535 | 27,9 % |
| Estónia | 2,26 | 0,386 | 0,8 % |
| França | 1,81 | 0,289 | 14,2 % |
| Alemanha | 1,34 | 0,145 | 28,4 % |
| Países Baixos | 1,21 | 0,097 | 17,6 % |
Os Estados-Membros com RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage) positivo concentram-se na Europa Ocidental e possuem uma quota combinada de produção UE de quase 90 %. Em contraste, países como Luxemburgo (RSCA = −0,997), Portugal (−0,996), Grécia (−0,976), Croácia (−0,972) e Bulgária (−0,969) apresentam RSCA fortemente negativos, o que indica que o setor quase não existe nestas economias. A especialização está pois geograficamente concentrada, o que torna a UE dependente de um punhado de Estados-Membro para a sua capacidade produtiva interna.
Conclusão
Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE no segmento CN 2916 sofreu uma transformação estrutural. A União Europeia passou de uma posição de pequeno deficitista líquido (−5,9 % de dependência) para uma clara dependência de importações (13,8 %), com o déficit comercial a quase duplicar em termos de valor. Esta evolução resultou da combinação de dois fatores: (i) uma contração das exportações volumétricas (−35,5 % em quantidade) e (ii) uma estabilidade relativa das importações, notavelmente apoiada no crescimento da Arábia Saudita (+2 588 %) e da China (+50,3 %) como fornecedores, compensando a drástica retração das importações do Reino Unido (−85,4 %, impacto do Brexit).
Os preços subiram, mas de forma heterogénea: os segmentos de baixo valor acrescentado sofreram contração de volumes, enquanto os de especialidade mantiveram a sua posição. Os choques de preço de 2022, de provável origem energética, perturbaram significativamente os fluxos com o Brasil e o México. A Bélgica e a França surgem como os Estados-Membros mais dinâmicos na exportação especializada.
Em síntese, apesar de a UE manter uma posição de vantagem comparativa em subprodutos de especialidade, a sua crescente dependência de fornecedores terceiros — particularmente de parceiros com elevada volatilidade nas relações comerciais — constitui um risco de vulnerabilidade que justifica atenção política, sobretudo no contexto das ambições europeias de autonomia estratégica nos setores químicos e industriais de base.