Evolução do mercado: Ácidos policarboxílicos (CN 2917) — 2015–2025
Introdução
O código combinado 2917 abrange uma família alargada de ácidos policarboxílicos, os seus anidridos, halogenetos, peróxidos e peroxiácidos, bem como os respetivos derivados halogenados, sulfonados, nitrados ou nitrosados. Esta posição tarifária inclui produtos fundamentais para a indústria química europeia — desde o ácido tereftálico (base do PET) ao anidrido maleico, ftálico e adipico — e constitui um indicador relevante da competitividade do setor químico orgânico da UE.
O período em análise (2015–2025) foi marcado por profundas transformações estruturais: a pandemia de COVID-19, a crise energética europeia de 2022, a reconfiguração das cadeias de abastecimento globais e o avanço da capacidade produtiva asiática. Como se verá, estas dinâmicas conduziram a uma deterioração acentuada da balança comercial da UE, que passou de um défice de −429,8 milhões de euros em 2015 para −786,2 milhões em 2025 — um agravamento de 82,9%. A dependência líquida de importações subiu de 3,8% para 22,7%, refletindo uma perda significativa de autonomia.
Este relatório organiza-se em três secções principais. A primeira analisa a reconfiguração do comércio externo da UE, com ênfase no crescimento das importações e no declínio da capacidade exportadora. A segunda explora a reorganização das parcerias comerciais, identificando os fornecedores e destinos que mais evoluíram. A terceira examina a volatilidade de preços e as dinâmicas de segmentação do produto.
1. O declínio exportador e a crescente dependência de importações
As importações cresceram muito mais do que as exportações ao longo da década
A análise das tendências gerais do comércio revela uma divergência clara entre a evolução das importações e das exportações:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor, M€) | 1.116,9 | 1.503,6 | +34,6% |
| Importações (quantidade, kt) | 1.107,0 | 1.368,7 | +23,6% |
| Exportações (valor, M€) | 687,1 | 717,5 | +4,4% |
| Exportações (quantidade, kt) | 541,6 | 516,4 | −4,7% |
| Balança comercial (M€) | −429,8 | −786,2 | −82,9% |
As importações cresceram em valor 34,6% — quase oito vezes mais do que as exportações (4,4%). Em volume, a dissonância é ainda mais pronunciada: as importações ganharam 23,6% em toneladas, enquanto as exportações perderam 4,7%. O défice comercial quase duplicou, passando de −430 M€ para −786 M€.
A produção europeia recuou em volume, apesar de manter o valor
Os dados de produção evidenciam uma compressão significativa da capacidade produtiva da UE:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção (quantidade, Gkg) | 5.604 | 4.569 | −18,5% |
| Produção (valor, M€) | 3.840 | 3.993 | +4,0% |
A produção física recuou quase um quinto, caindo de 5.604 mil milhões de kg para 4.569 mil milhões de kg. Contudo, o valor da produção manteve-se estável (+4,0%), o que indica um aumento acentuado dos preços unitários de produção — fenómeno consistente com a inflação de custos energéticos e de matérias-primas na Europa, particularmente após 2021.
A propensão exportadora da UE diminuiu acentuadamente
Os indicadores de vulnerabilidade e autonomia confirmam a erosão da posição competitiva europeia:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Propensão exportadora (%) | 17,9 | 12,8 | −28,6% |
| Intensidade comercial (%) | 32,6 | 38,6 | +18,5% |
| Dependência líquida de importações (%) | 3,8 | 22,7 | +503,6% |
A propensão exportadora — a razão entre exportações e produção interna — desceu de 17,9% para 12,8%, confirmando que a UE está a exportar uma fração cada vez menor do que produz. Paralelamente, a intensidade comercial (comércio total relativamente ao consumo interno) subiu 18,5%, sinal de que o mercado europeu se tornou mais aberto e mais dependente de fornecedores externos. O indicador de salience atribui à propensão exportadora uma pontuação de 65,8 contra 29,9 para a intensidade comercial, sublinhando que o declínio exportador é o fator dominante da análise.
2. Reconfiguração das parcerias: a ascensão da Ásia e o recuo dos fornecedores tradicionais
A China tornou-se o principal fornecedor da UE, com crescimento de 116%
O perfil dos principais parceiros de importação sofreu uma transformação profunda:
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Coreia do Sul | 356,0 | 406,6 | +14,2% |
| China | 201,0 | 434,7 | +116,2% |
| Países não especificados | 121,7 | 202,6 | +66,5% |
| Estados Unidos | 182,4 | 96,8 | −46,9% |
| México | 80,2 | 91,2 | +13,8% |
| Turquia | 20,6 | 58,6 | +184,6% |
| Taiwan | 11,3 | 25,4 | +125,7% |
A China registou o crescimento mais expressivo: as suas exportações para a UE mais do que duplicaram, passando de 201 M€ para 435 M€ (+116,2%), tornando-se assim o segundo maior fornecedor e quase igualando a Coreia do Sul. A Turquia (+184,6%) e Taiwan (+125,7%) também registaram avanços muito significativos, embora em valores absolutos mais modestos. Em contraste, os Estados Unidos — outrora o segundo maior fornecedor — viram as suas exportações para a UE caírem 46,9%, de 182 M€ para 97 M€.
A concentração das importações (HHI valor) aumentou ligeiramente de 2.149 para 2.320 (+8,0%), refletindo a consolidação em torno de um número menor de fornecedores dominantes, sobretudo asiáticos.
Os destinos de exportação da UE reorientaram-se para a Turquia e os EUA, mas a Rússia desapareceu
A evolução dos principais parceiros de exportação apresenta um quadro igualmente revelador:
| Parceiro | Exportações 2015 (M€) | Exportações 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Turquia | 62,2 | 121,2 | +95,1% |
| Reino Unido | 96,0 | 96,4 | +0,4% |
| Estados Unidos | 87,1 | 142,7 | +63,8% |
| Suíça | 72,3 | 89,4 | +23,7% |
| Egito | 8,8 | 13,7 | +55,4% |
| Rússia | 77,5 | 0,004 | −100,0% |
| China | 37,5 | 45,4 | +21,2% |
A Turquia (+95,1%) e os Estados Unidos (+63,8%) foram os destinos que mais cresceram em valor. Contudo, o acontecimento mais marcante é o colapso total das exportações para a Rússia: de 77,5 M€ em 2015 para praticamente zero em 2025 (−100%). Este resultado reflete inequivocamente o impacto das sanções comerciais impostas após 2022, que eliminaram um mercado historicamente relevante para os ácidos policarboxílicos europeus. A concentração das exportações (HHI valor) aumentou significativamente de 772 para 1.115 (+44,4%), sinal de uma menor diversificação dos mercados de destino.
A especialização produtiva europeia concentra-se em poucos Estados-Membros
Os dados de especialização revelam que a produção europeia de CN 2917 está altamente concentrada geograficamente:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produção (%) |
|---|---|---|---|
| Bélgica | 0,413 | 2,405 | 20,4% |
| Polónia | 0,182 | 1,445 | 9,6% |
| Países Baixos | 0,133 | 1,306 | 18,9% |
| Espanha | 0,096 | 1,212 | 7,0% |
| Itália | 0,086 | 1,189 | 9,5% |
A Bélgica destaca-se como o Estado-Membro com maior vantagem comparativa revelada (RCA = 2,405), controlando 20,4% da produção europeia. Os Países Baixos (18,9%) e a Bélgica em conjunto representam quase 40% do output europeu. No extremo oposto, países como a Eslováquia (RCA = 0,0005), o Luxemburgo, a Estónia, a Bulgária e a Irlanda apresentam níveis negligíveis de especialização.
No que respeita às importações, Itália (+67,7%), a Lituânia (+58,7%) e a Polónia (+298,3%) foram os Estados-Membros que mais aumentaram as suas importações, refletindo tanto a procura industrial interna como o papel crescente de alguns destes países como plataformas logísticas.
3. Dinâmicas de segmentos, preços e volatilidade: o domínio do ácido tereftálico e os choques de 2021–2022
O ácido tereftálico (291736) domina o comércio, mas com trajetórias opostas nas importações e exportações
A decomposição por segmento revela que o ácido tereftálico e seus sais (CN 291736) é de longe o produto mais relevante, tanto nas importações como nas exportações. Contudo, as trajetórias divergem radicalmente:
Importações de CN 291736 (ácido tereftálico):
| Ano | Quantidade (kt) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 727,4 | 471,0 | 647 |
| 2019 | 747,6 | 536,5 | 718 |
| 2022 | 658,6 | 625,6 | 950 |
| 2025 | 767,9 | 501,7 | 653 |
As importações mantiveram-se estáveis em volume (c. 700–770 kt), mas o preço registou uma forte espiral em 2022 (950 €/t), antes de regressar a valores próximos dos de 2015.
Exportações de CN 291736 (ácido tereftálico):
| Ano | Quantidade (kt) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 71,3 | 44,5 | 624 |
| 2019 | 1.017,9 | 693,1 | 681 |
| 2022 | 536,2 | 507,3 | 946 |
| 2025 | 169,0 | 105,6 | 625 |
As exportações de TPA atingiram um pico extraordinário em 2019 (1.018 kt, 693 M€), impulsionado por investimentos em capacidade europeia. Desde então, o volume despenhou 83,4%, regressando a níveis inferiores aos de 2015. Esta queda reflete a concorrência crescente das unidades asiáticas, nomeadamente na China e no Médio Oriente, que passaram a dominar o mercado global de TPA.
Outros segmentos apresentam dinâmicas divergentes
O anidrido maleico (CN 291714) registou um crescimento acentuado nas importações: de 22,5 kt / 24,8 M€ em 2015 para 85,2 kt / 81,0 M€ em 2025 — um aumento de 279% em volume, o mais expressivo de todos os subprodutos. Este crescimento sugere uma redução da capacidade de produção europeia de anidrido maleico ou um aumento da procura que a produção interna não consegue satisfazer.
O anidrido ftálico (CN 291735) apresentou uma evolução inversa nas exportações, que caíram de 29,8 kt para 13,7 kt (−54%), enquanto as importações cresceram moderadamente (27,2 kt → 48,4 kt, +78%). A inversão da posição exportadora é consistente com os encerramentos de unidades produtivas europeias de ácido ftálico.
O ácido adipico (CN 291712) manteve importações voláteis (entre 31 kt e 131 kt), refletindo a natureza cíclica da procura pelo nylon e pelos poliuretanos.
Os choques de preços de 2021–2022 foram generalizados e de curta duração
A análise da volatilidade e dos choques identifica eventos significativos de anomalia de preços, concentrados sobretudo em 2021–2022:
| Evento | Tipo | Fluxo | Desvio (%) | Variação (%) | Valor (M€) |
|---|---|---|---|---|---|
| Índia, 2021 | Preço | Exportações | 179,2 | +196,8% | 3,5% |
| Arábia Saudita, 2020 | Preço | Exportações | 17,5 | −57,2% | 2,3% |
| México, 2022 | Preço | Importações | 5,6 | +80,1% | 8,8% |
O choque mais extremo registou-se nas exportações para a Índia em 2021, com uma anomalia de 179,2 e uma variação de +196,8%, embora o peso no valor total das exportações fosse modesto (3,5%). O choque nas importações do México em 2022 (+80,1%, anomalia 5,6) teve maior peso relativo (8,8% do valor), refletindo a subida global dos preços da energia e das matérias-primas durante o período pós-COVID.
Os coeficientes de variação confirmam que os parceiros mais voláteis nas importações são a China (CV = 0,45), a Turquia (0,44), Taiwan (0,43) e a Bielorrússia (0,49), todos com flutuações muito superiores às da Coreia do Sul (0,26) ou do México (0,17). Nas exportações, os destinos mais voláteis incluem a Argentina (1,41), a Índia (1,67), a Arábia Saudita (1,24) e o Egito (1,24), refletindo mercados de menor dimensão e mais suscetíveis a fluações pontuais.
O aumento dos preços médios compensou parcialmente a queda dos volumes
Ao longo de todo o período, os preços médios do comércio exterior registaram aumentos generalizados:
| Indicador | 2015 (€/t) | 2025 (€/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Preço médio das importações | 1.009 | 1.099 | +8,9% |
| Preço médio das exportações | 1.269 | 1.389 | +9,5% |
Embora estas variações médias pareçam modestas, escondem oscilações muito mais pronunciadas nos anos intermédios. Por exemplo, os preços de importação atingiram um máximo de 1.617 €/t (provavelmente em 2022), antes de recuarem. A inflação de preços ajudou a manter o valor das exportações apesar da queda dos volumes, mas não foi suficiente para travar a deterioração da balança comercial.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma erosão estrutural da posição da UE no mercado dos ácidos policarboxílicos (CN 2917). Os dados analisados permitem identificar três dinâmicas principais:
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A UE tornou-se crescentemente dependente de importações, com a dependência líquida a subir de 3,8% para 22,7% e a propensão exportadora a cair 28,6%. A produção europeia perdeu 18,5% do seu volume físico, embora o aumento dos preços tenha mantido o valor agregado.
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As parcerias comerciais reconfiguraram-se profundamente: a China emergiu como segundo maior fornecedor (+116% em valor), substituindo parcialmente os Estados Unidos (−47%). A Rússia desapareceu completamente dos destinos de exportação da UE, um reflexo direto do regime de sanções. A concentração das exportações aumentou (HHI +44%), sinal de menor diversificação de mercados.
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O ácido tereftálico — o produto dominante — exemplifica a trajetória mais ampla: a UE passou de exportador líquido (pico de 1.018 kt em 2019) para uma posição muito mais reduzida (169 kt em 2025), refletindo a perda de competitividade face à capacidade asiática. Os preços, embora voláteis (com choques pronunciados em 2021–2022), regressaram a níveis próximos do início do período.
Em síntese, a UE está a perder a sua posição como produtora e exportadora de ácidos policarboxílicos, substituindo progressivamente a produção interna por importações — sobretudo da Ásia. Esta tendência, se não for contrariada por investimento na modernização da capacidade produtiva e na competitividade energética, poderá acentuar a vulnerabilidade estratégica do setor químico orgânico europeu.