Evolução do mercado: Epóxidos (CN 2910) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente ao código aduaneiro 2910 — Epóxidos, epoxiálcoois, epoxifenóis e epoxiéteres, com três átomos no ciclo, e seus derivados halogenados, sulfonados, nitrados ou nitrosados — no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição tarifária abrange um leque de substâncias químicas orgânicas de elevada importância industrial, designadamente o óxido de propileno (CN 291020), a epicloridrina (CN 291030), o óxido de etileno (CN 291010), e uma categoria residual de outros epóxidos e derivados (CN 291090), para além de dois inseticidas organoclorados — a dieldrina (CN 291040) e a endrina (CN 291050) — cujo volume comercial é hoje residual.
Ao longo da década em análise, o mercado europeu destes produtos assistiu a transformações estruturais profundas: uma crescente dependência das importações, uma significativa reconfiguração dos parceiros comerciais e a acumulação de vulnerabilidades no que respeita à concentração do abastecimento e à exposição a choques de preços. O painel de comércio constitui a fonte primária dos dados aqui analisados.
1. A viragem estrutural: da produção interna ao défice comercial crescente
1.1. O declínio da produção europeia de epóxidos
Entre o primeiro e o último período disponível, a produção interna da UE em epóxidos apresentou uma evolução divergente em volume e em valor:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida | 2.860 mil milhões kg | 2.396 mil milhões kg | −16,2% |
| Valor produzido | 2.109 mil milhões EUR | 2.212 mil milhões EUR | +4,9% |
A queda de 16,2% na quantidade produzida, num contexto em que o valor nominal cresceu ligeiramente (+4,9%), revela um aumento significativo dos preços unitários de produção — um padrão consistente com pressões inflacionárias nos custos dos inputs (matérias-primas, energia) e com eventuais restrições de capacidade produtiva na Europa.
1.2. As importações como motor do abastecimento
O vazio deixado pela produção interna foi rapidamente preenchido por importações, que registaram um crescimento expressivo tanto em volume como em valor:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 230,6 M EUR | 437,0 M EUR | +89,5% |
| Importações (quantidade) | 168.864 t | 284.607 t | +68,5% |
Em contraste, as exportações apresentaram um crescimento mais moderado em valor (+13,1%) e uma contração de 8,3% em volume (de 92.503 para 84.822 toneladas), reflectindo uma perda de competitividade externa.
1.3. A deterioração acentuada do saldo comercial
A conjunção destes fatores traduziu-se numa deterioração profunda do saldo comercial:
| Período | Saldo comercial (EUR) |
|---|---|
| 2015 | −94,2 M EUR |
| 2025 | −282,8 M EUR |
O défice quase triplicou ao longo da década (variação de −200,1%), consolidando uma posição de dependência líquida cuja taxa de dependência subiu de 2,4% para 3,8% (+58,5%).
1.4. A erosão da propensão exportadora
A propensão exportadora da UE em epóxidos — isto é, a percentagem da produção interna que é exportada — caiu de 9,4% para 6,8% ao longo do período (−27,6%), sinalizando uma orientação crescente do setor para o mercado interno ou uma perda de competitividade face a produtores extra-europeus. A intensidade comercial acompanhou esta tendência, descendo de 19,0% para 15,8% (−16,6%).
2. Reconfiguração das cadeias de abastecimento: a ascensão dos EUA e o desaparecimento do Reino Unido
2.1. A concentração crescente das importações
Um dos desenvolvimentos mais marcantes do período foi o aumento acentuído da concentração das importações, medida pelo Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI):
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| HHI — importações (valor) | 2.564 | 5.383 | +109,9% |
| HHI — importações (volume) | 2.981 | 6.613 | +121,9% |
O HHI mais do que duplicou — tanto em valor como em volume — aproximando-se de níveis que, na análise de mercados, indicam uma elevada concentração. Em contraste, o HHI das exportações manteve-se relativamente estável (1.977 → 1.914 em valor, −3,2%), sugerindo que os destinos de exportação europeus permaneceram algo diversificados.
2.2. Os Estados Unidos como fornecedor dominante
A transformação mais dramática na geografia das importações foi a ascensão dos Estados Unidos como parceiro dominante:
| Parceiro | Importações 2015 | Importações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 105,4 M EUR | 316,0 M EUR | +199,8% |
| Coreia do Sul | 19,8 M EUR | 40,2 M EUR | +103,5% |
| China | 8,2 M EUR | 21,3 M EUR | +159,2% |
| Reino Unido | 36,0 M EUR | 2,6 M EUR | −92,9% |
| Rússia | 5,5 M EUR | 3,1 M EUR | −43,0% |
| Japão | 14,4 M EUR | 13,9 M EUR | −3,2% |
| Brasil | 19,3 M EUR | ≈0 M EUR | −100,0% |
Os Estados Unidos passaram de 105,4 milhões EUR em 2015 para 316,0 milhões EUR em 2025, uma variação de quase +200%, e representam agora a esmagadora maioria do valor total importado pela UE. Esta centralização reflete provavelmente expansão da capacidade de cracking nos EUA (associada ao shale gas) e a proximidade de acordos comerciais.
2.3. O colapso das importações do Reino Unido e do Brasil
Dois parceiros registaram quedas dramáticas nas importações:
-
Reino Unido: de 36,0 M EUR para 2,6 M EUR (−92,9%). Esta queda acentuada ocorre sobretudo após 2019-2020, sendo fortemente consistente com os efeitos comerciais do Brexit — nomeadamente a introdução de barreiras aduaneiras, formalidades alfandegárias e a perda do acesso ao mercado único em condições preferenciais.
-
Brasil: de 19,3 M EUR para praticamente zero (−100,0%). A quase-totalidade das importações brasileiras desapareceu após 2019, o que pode estar relacionado com a cessação de contratos de fornecimento, restrições ambientais no Brasil ou alterações na competitividade custos/transporte.
2.4. A especialização dos Estados-Membros na exportação
No que respeita à especialização exportadora, os Estados-Membros apresentam perfis muito distintos em 2025:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Produção relativa |
|---|---|---|---|
| Bélgica | 0,535 | 3,303 | 28,0% |
| Países Baixos | 0,360 | 2,126 | 30,8% |
| Alemanha | 0,192 | 1,475 | 31,2% |
| França | −0,029 | 0,944 | 7,4% |
| Hungria | −0,659 | 0,206 | 0,6% |
A Bélgica (RSCA = 0,535) e os Países Baixos (RSCA = 0,360) são os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada no setor, concentrando em conjunto quase 59% da produção europeia de epóxidos. Países como Portugal e Lituânia não apresentam qualquer produção ou exportação especializada neste setor.
2.5. Destinos de exportação: estabilidade relativa com realces pontuais
Os principais destinos de exportação da UE mantiveram-se em grande medida estáveis na sua configuração:
| Destino | Exportações 2015 | Exportações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Suíça | 27,6 M EUR | 47,6 M EUR | +72,2% |
| Reino Unido | 38,9 M EUR | 27,5 M EUR | −29,5% |
| Estados Unidos | 35,7 M EUR | 36,7 M EUR | +3,0% |
| Noruega | 3,5 M EUR | 8,3 M EUR | +138,7% |
| Índia | 0,8 M EUR | 7,1 M EUR | +794,0% |
Destaca-se o crescimento exponencial das exportações para a Índia (+794%), que passou de 0,8 M EUR para 7,1 M EUR, e a redução das exportações para o Reino Unido (−29,5%), espelhando o mesmo efeito de desvio comercial observado nas importações.
3. Pressões de preços, choques de mercado e riscos de abastecimento
3.1. Uma trajetória de preços ascendente com picos pronunciados
Os preços médios das importações subiram de 1.365 EUR/t em 2015 para 1.535 EUR/t em 2025 (+12,5%), enquanto os preços de exportação cresceram 23,3% (de 1.474 para 1.818 EUR/t). Contudo, esta evolução média oculta oscilações muito significativas: os preços das importações atingiram um máximo de 2.838 EUR/t e os de exportação pico de 2.525 EUR/t, reflectindo a elevada volatilidade intrínseca do setor.
3.2. Choques de preços identificados por parceiro e fluxo
A análise de anomalias e choques de abastecimento revelou três eventos particularmente relevantes:
| Evento | Fluxo | Tipo | Ano central | Desvio (%) | Anomalia | Quota (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Reino Unido — preço | Importações | Preço | 2021 | +280,0% | 427,7 | 7,8% |
| Coreia do Sul — preço | Importações | Preço | 2018 | +67,3% | 14,0 | 10,2% |
| Estados Unidos — preço | Exportações | Preço | 2023 | +236,7% | 11,3 | 30,3% |
O choque mais extremo foi o pico de preços nas importações do Reino Unido em 2021 (anomalia de 427,7, desvio de +280%), que antecede em larga medida o virtual desaparecimento deste parceiro como fornecedor. Este padrão sugere um período de disrupção aguda — possivelmente associado a disrupções logísticas pós-Brexit e à crise energética europeia de 2021 — seguido de uma reorientação definitiva das cadeias de abastecimento.
3.3. A elevada volatilidade de parceiros-chave
O coeficiente de variação (CV) das importações por parceiro revela padrões de instabilidade muito heterogéneos:
| Parceiro | CV (importações) | Avaliação |
|---|---|---|
| Singapura | 3,30 | Extremamente volátil |
| Reino Unido | 1,43 | Muito volátil |
| Índia | 1,16 | Muito volátil |
| Brasil | 1,00 | Volátil |
| China | 0,80 | Moderadamente volátil |
| EUA | 0,79 | Moderadamente volátil |
| Coreia do Sul | 0,69 | Moderadamente volátil |
| Japão | 0,32 | Relativamente estável |
| Suíça | 0,17 | Estável |
Os parceiros agora mais relevantes em volume (EUA e Coreia do Sul) apresentam volatilidade moderada (CV ≈ 0,7–0,8), o que oferece alguma previsibilidade. Contudo, a concentração crescente num único fornecedor (EUA) anula parcialmente esta vantagem, uma vez que exposição a um parceiro dominante implica risco sistémico em caso de disrupção bilateral.
3.4. Dinâmica por segmento de produto: o domínio do óxido de propileno
A decomposição das importações por subcategoria de produto revela uma clara concentração num produto:
| Subcategoria | Importação 2015 | Importação 2025 | Variação | Quota 2025 (volume) |
|---|---|---|---|---|
| 291020 — Óxido de propileno | 110.345 t | 208.623 t | +89,1% | 73,3% |
| 291030 — Epicloridrina | 20.311 t | 51.416 t | +153,1% | 18,1% |
| 291090 — Outros epóxidos | 10.438 t | 24.493 t | +134,7% | 8,6% |
| 291010 — Óxido de etileno | 27.771 t | 29 t | −99,9% | 0,01% |
O óxido de propileno (CN 291020) é, de longe, o segmento dominante, representando mais de 73% do volume total importado em 2025, com um crescimento de 89% face a 2015. Este produto é um building block essencial na produção de poliuretanos, glicóis e surfactantes, sendo a sua procura fortemente correlacionada com a indústria automóvel, da construção e de bens de consumo.
Em contraste, as importações de óxido de etileno (CN 291010) colapsaram de 27.771 para apenas 29 toneladas (−99,9%), reflectindo possivelmente restrições regulamentares cada vez mais apertadas (trata-se de substância classificada como cancerígena de categoria 1B) e/ou a reorientação da produção e importação para o seu derivado mais seguro, o etileno glicol, já classificado noutros códigos.
A epicloridrina (CN 291030), por seu lado, apresentou uma trajetória de preços particularmente turbulenta, com um pico médio de 2.693 EUR/t em importações em 2022, seguido de uma correção — consistente com um choque de preços generalizado no setor químico durante a crise energética europeia de 2022.
Conclusão
O mercado europeu de epóxidos (CN 2910) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por três grandes dinâmicas estruturais:
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Uma viragem importadora pronunciada, com o défice comercial a triplicar e a produção interna a registar uma queda de 16% em volume. A UE tornou-se crescentemente dependente de fornecedores externos, num contexto em que a propensão exportadora e a intensidade comercial diminuíram significativamente.
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Uma reconfiguração geográfica radical das cadeias de abastecimento, na qual os Estados Unidos emergiram como fornecedor dominante (quase 316 milhões EUR em 2025), enquanto o Reino Unido e o Brasil praticamente desapareceram como parceiros. Esta concentração — reflectida na duplicação do HHI de importações — representa um risco de abastecimento crescente.
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Uma acumulação de vulnerabilidades estruturais, nomeadamente em matéria de volatilidade de preços (com choques de mais de 200% em determinados parceiros) e de dependência de um mercado único de origem. O único produto dominante — o óxido de propileno — absorve mais de 73% das importações, o que torna a UE particularmente sensível a disrupções na sua oferta global.
Em suma, a UE deixou progressivamente de ser um produtor e exportador competitivo de epóxidos para se tornar um importador líquido de dimensão crescente, com uma base de fornecimento simultaneamente mais concentrada e mais sujeita a choques exógenos. A trajetória observada sublinha a importância de uma reflexão estratégica europeia sobre a resiliência das cadeias de valor químicas, num contexto de transição energética e de crescentes tensões geopolíticas.