Evolução do mercado: Óculos (CN 9004) — 2015–2025
Introdução
O CN 9004 abrange os óculos para correção, proteção ou outros fins e artigos semelhantes, englobando duas subpartidas essenciais: 900410 (óculos de sol) e 900490 (óculos corretivos, de proteção e outros, excluindo lentes de contacto, lentes oftálmicas e armações isoladas). A União Europeia ocupa uma posição paradoxal neste mercado: é simultaneamente o maior exportador mundial de óculos de gama alta — com a Itália a liderar de forma esmagadora — e um importador volumoso de produtos massificados, sobretudo de origem chinesa.
O período 2015–2025 foi marcado por três grandes dinâmicas: (i) um crescimento comercial robusto, mas largamente sustentado por aumentos de preços e não por expansão de volumes; (ii) uma profunda reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais, agravada pelo Brexit e marcada pela consolidação asiática; e (iii) uma transformação estrutural da produção europeia, que perdeu dois terços do seu volume mas duplicou o valor unitário, consolidando a via da premiumização.
1. Preços no comando: crescimento sem expansão significativa de volumes
O comércio externo da UE em CN 9004 cresceu de forma robusta em termos de valor ao longo da década. Contudo, tanto nas exportações como nas importações, o crescimento das quantidades físicas foi marginal face à evolução dos preços. A componente-preço constituiu, em ambos os fluxos, o verdadeiro motor da valorização comercial.
As exportações cresceram 30% em valor face a apenas 2% em volume
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor | 1.987 M€ | 2.586 M€ | +30,1% |
| Quantidade | 10.164 t | 10.365 t | +2,0% |
| Preço médio | 195.461 €/t | 249.430 €/t | +27,6% |
A quase totalidade do crescimento exportador (+599 M€) explica-se pela subida do preço médio de 195.461 €/t para 249.430 €/t (+27,6%). Em termos de volume, a UE exportou em 2025 praticamente a mesma quantidade que em 2015 — apenas 200 toneladas de diferença. Este padrão é sintomático de uma evolução do mix exportador no sentido de produtos de maior valor acrescentado.
As importações apresentam uma dinâmica semelhante, mas com crescimento mais acentuado
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor | 1.040 M€ | 1.573 M€ | +51,2% |
| Quantidade | 25.111 t | 27.037 t | +7,7% |
| Preço médio | 41.418 €/t | 58.148 €/t | +40,4% |
O crescimento das importações foi ainda mais dependente dos preços: +51,2% em valor, mas apenas +7,7% em volume. Note-se que o preço médio de importação (58.148 €/t) se situa a um patamar muito inferior ao das exportações (249.430 €/t), refletindo a natureza predominantemente mass-market dos óculos importados.
O excedente comercial manteve-se estrutural, apesar de uma quebra pontual em 2020
| 2015 | Mínimo | Máximo | 2025 | |
|---|---|---|---|---|
| Saldo comercial | +947 M€ | +429 M€ | +1.595 M€ | +1.013 M€ |
A UE manteve um excedente comercial consistente ao longo de todo o período. O ponto mínimo (+429 M€) corresponde a 2020, quando as restrições pandémicas abalaram o setor: as exportações de óculos de sol caíram 27% em valor nesse ano, embora as importações de óculos corretivos e de proteção (900490) tenham registado um aumento atípico de 39% face a 2019. Em 2025, o saldo situou-se nos 1.013 M€, 6,9% acima de 2015.
2. O redesenho geográfico do comércio europeu de óculos
A distribuição dos parceiros comerciais da UE evoluiu em três movimentos simultâneos e distintos: a consolidação da China como fornecedor dominante das importações, o retraimento abrupto do Reino Unido no pós-Brexit, e uma significativa diversificação dos mercados de destino das exportações europeias.
A China consolidou o domínio, reforçando uma concentração importadora elevada
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 617 | 930 | +50,6% |
| Japão | 23 | 170 | +629,6% |
| Estados Unidos | 110 | 153 | +39,3% |
| Taiwan | 94 | 118 | +26,4% |
| Reino Unido | 89 | 28 | -68,2% |
| Vietname | 6 | 16 | +168,7% |
| Malásia | 8 | 3 | -58,3% |
A China é de longe a principal fonte de importações da UE, respondendo por 930 M€ em 2025 — mais de metade do total — com um crescimento de 50,6% sobre 2015. O HHI das importações manteve-se estável em torno de 3.800, confirmando uma estrutura de mercado altamente concentrada. O Japão emergiu como segundo maior fornecedor com 170 M€ (+630%), refletindo provavelmente a aquisição de marcas europeias por conglomerados japoneses (como a EssilorLuxottica e a Kering Eyewear, com hubs logísticos no Japão).
O Brexit provocou o colapso das importações do Reino Unido — mas as exportações resistiram
O Reino Unido, que em 2015 constituía a quinta maior fonte de importações da UE (89 M€), desceu para apenas 28 M€ em 2025 — uma queda de 68,2%. A volatilidade destas trocas atingiu o nível mais elevado dos principais parceiros de importação (CV de 0,87), refletindo as incertezas aduaneiras e regulatórias da saída do mercado único. Em contraste, as exportações da UE para o Reino Unido cresceram 32,7% (de 249 M€ para 331 M€), sugerindo que os consumidores britânicos passaram a importar produtos europeus de forma mais direta face ao retraimento das cadeias de distribuição integradas.
As exportações europeias diversificaram-se para novos mercados de crescimento
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 685 | 594 | -13,3% |
| Reino Unido | 249 | 331 | +32,7% |
| Turquia | 84 | 213 | +154,5% |
| China | 104 | 210 | +101,5% |
| Suíça | 92 | 210 | +129,1% |
| México | 36 | 138 | +281,6% |
| Noruega | 23 | 56 | +143,5% |
Enquanto os Estados Unidos permanecem o principal destino exportador, a sua quota relativa diminuiu. Os crescimentos mais expressivos registaram-se em mercados como o México (+281,6%), a Turquia (+154,5%), a Suíça (+129,1%) e a China (+101,5%). O HHI das exportações caiu de 1.514 para 1.000 (-34%), passando de uma zona de concentração moderada para uma estrutura efetivamente desconcentrada. A Turquia e o México tornaram-se hubs regionais de distribuição das marcas europeias, servindo respetivamente o Médio Oriente/Balcãs e a América Latina, enquanto a China e a Suíça cresceram como mercados de consumo final de gama alta.
3. Da produção em massa ao segmento premium: a transformação estrutural da indústria europeia
A indústria europeia de óculos atravessou entre 2015 e 2025 uma transformação profunda. Os dados de produção PRODCOM revelam uma queda dramática do volume, mas o valor unitário mais do que duplicou, confirmando uma reorientação estrutural para o segmento de luxo e alta gama. Simultaneamente, o hiato de preços entre o que a UE importa e o que exporta — de 8:1 nos óculos de sol — evidencia de forma inequívoca a aposta na diferenciação e na marca.
A produção europeia caiu 60% em volume, mas o valor unitário médio duplicou
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida | 70,5 M un. | 27,8 M un. | -60,6% |
| Valor da produção | 1.682 M€ | 1.375 M€ | -18,3% |
| Valor unitário implícito | ~23,9 €/un. | ~49,5 €/un. | +107% |
Produção: : a UE produziu em 2025 apenas 27,8 milhões de unidades de óculos (CN 9004), face a 70,5 milhões em 2015 — uma contração de 60,6%. No entanto, o valor global da produção desceu apenas 18,3%, uma vez que o valor unitário médio mais do que duplicou (de ~23,9 € para ~49,5 €). A queda mais pronunciada no volume ocorreu em 2020 (ano pandémico), mas a recuperação não se fez em volume — fez-se em valor. Esta trajetória é consistente com a crescente especialização europeia em óculos de gama alta e de luxo, abdicando de segmentos de baixo custo onde a concorrência asiática é dominante.
Importa notar que o valor mínimo de produção atingiu 1.267 M€ (face ao máximo de 2.810 M€), uma amplitude que confirma a vulnerabilidade do setor a choques de procura externos.
A Itália é o epicentro absoluto da indústria europeia de óculos
| País | RSCA | RCA | Quota da produção nacional |
|---|---|---|---|
| Itália | 0,70 | 5,67 | 45,4% |
| Estónia | 0,41 | 2,39 | 0,8% |
| Hungria | 0,35 | 2,06 | 5,5% |
| Chipre | 0,15 | 1,35 | 0,04% |
| França | 0,12 | 1,28 | 10,0% |
No ranking de especialização de 2025, a Itália destaca-se com um RCA de 5,67 e um RSCA de 0,70 — valores que indicam uma vantagem comparativa fortemente concentrada. A Itália é responsável por 45,4% do valor da produção europeia e, nas exportações por Estado membro, as exportações italianas atingem 1.959 M€ em 2025 — mais de 75% do total da UE e um crescimento de 23,3% sobre 2015. A Alemanha, segunda maior exportadora, atinge apenas 192 M€ (+53,6%) e a França 184 M€ (+28,0%). Os clusters de Belluno (Veneto) e Pieve di Cadore concentram um ecossistema produtivo sem paralelo na Europa.
Os relatórios revelam ainda que a Espanha (+153%) e a Polónia (+539%) emergem como novos atores exportadores, embora em escalas muito inferiores à italiana.
Os óculos de sol dominam o comércio e evidenciam um hiato de preços de 8:1
| Indicador | Importações 2025 | Exportações 2025 |
|---|---|---|
| Óculos de sol (900410) | ||
| Unidades | ~221 M pares | ~57,7 M pares |
| Valor | 1.112 M€ | 2.249 M€ |
| Preço unitário (€/par) | 5,01 € | 38,97 € |
| Outros óculos (900490) | ||
| Valor | 461 M€ | 337 M€ |
| Preço por tonelada | 32.643 €/t | 144.373 €/t |
A análise por segmento revela a essência do modelo europeu. A UE importou em 2025 cerca de 221 milhões de pares de óculos de sol a um preço médio de 5,01 €/par, mas exportou apenas 57,7 milhões de pares a 38,97 €/par — quase oito vezes o preço médio de importação. Em termos de valor, os óculos de sol (900410) representam 87% das exportações e 71% das importações, confirmando a centralidade deste segmento no comércio internacional.
No segmento dos outros óculos (900490), a mesma lógica se repete: o preço de exportação por tonelada (144.373 €/t) é 4,4 vezes superior ao de importação (32.643 €/t). Ao longo da década, o preço de exportação dos óculos de sol subiu de 31,39 €/par para 38,97 €/par (+24%), enquanto o preço de importação passou de 3,42 €/par para 5,01 €/par (+46%). Apesar do crescimento mais rápido em termos percentuais do lado das importações, a margem absoluta de preço manteve-se estável em torno de 8:1, consolidando a posição da UE como exportador premium no mercado global de óculos.
Conclusão
O mercado europeu de óculos para correção, proteção ou outros fins (CN 9004) evoluiu entre 2015 e 2025 segundo três grandes eixos. Primeiro, o crescimento comercial — a UE passou de um superavit de 947 M€ para 1.013 M€ — foi integralmente conduzido pela componente preço, com volumes físicos praticamente estagnados (exportações +2%, importações +8%). Segundo, a geografia do comércio reconfigurou-se profundamente: a China consolidou o domínio das importações com 930 M€, as trocas com o Reino Unido colapsaram no pós-Brexit (-68%), e as exportações europeias diversificaram-se para mercados como a Turquia, o México e a Suíça, com o HHI a cair 34%. Terceiro, a indústria europeia — representando de forma quase absoluta pela Itália (RCA 5,67, 75% das exportações) — perdeu 61% do volume de produção mas duplicou o valor unitário, consolidando a via da premiumização num hiato de 8:1 entre os preços de exportação e de importação de óculos de sol.
O setor que daqui emerge é estruturalmente excedentário, com uma propensão exportadora crescente e uma competitividade assente na diferenciação, no design e na marca — não no custo ou no volume. O principal risco reside na elevada concentração das importações face à China (HHI ~3.800) e na dependência de um único Estado membro — a Itália — para a produção e exportação de valor acrescentado.