Evolução do mercado: Armações de óculos (CN 9003) — 2015–2025
Introdução
O código CN 9003 abrange as armações para óculos e artigos semelhantes, bem como as suas partes, e engloba três subcategorias: armações de plástico (900311), armações de outras matérias (900319) e partes (900390). A União Europeia é simultaneamente um dos maiores produtores e importadores mundiais deste produto, com a Itália a concentrar uma posição dominante — perto de metade da produção comunitária e quase 70 % das exportações extra-UE. O período 2015–2025 foi marcado por um crescimento sustentado do comércio, mas também por transformações estruturais profundas: a passagem de exportador líquido a importador líquido, a consolidação da China como fornecedor quase exclusivo e uma reconfiguração geográfica significativa dos parceiros comerciais. Este relatório analisa as principais dinâmicas observadas ao longo da década, organizadas em três eixos temáticos.
1. O déficit comercial agravou-se 20 %, apesar de um crescimento simétrico de importações e exportações
1.1 O valor do comércio total cresceu perto de 20 %, sustentado por subidas de preços nas importações
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE para países terceiros passaram de 972,5 milhões € para 1 161,7 milhões € (+19,5 %), enquanto as importações cresceram de forma quase simétrica, de 1 108,0 milhões € para 1 323,9 milhões € (+19,5 %). Em volume, as exportações aumentaram 18,5 % (de 3 670 t para 4 350 t), mas as importações mantiveram-se praticamente estáveis (−2,5 %, de 7 547 t para 7 359 t). Esta divergência entre valor e volume do lado das importações reflecte uma subida acentuada do preço médio importado: de 146 795 €/t para 179 863 €/t (+22,5 %), ao passo que o preço médio de exportação se manteve estável em torno dos 265 000 €/t (+0,8 %).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (milhões €) | 972,5 | 1 161,7 | +19,5 % |
| Importações (milhões €) | 1 108,0 | 1 323,9 | +19,5 % |
| Saldo comercial (milhões €) | −135,6 | −162,1 | −19,6 % |
| Exportações (t) | 3 670 | 4 350 | +18,5 % |
| Importações (t) | 7 547 | 7 359 | −2,5 % |
| Preço exportação (€/t) | 264 843 | 266 847 | +0,8 % |
| Preço importação (€/t) | 146 795 | 179 863 | +22,5 % |
Fonte: Visão geral do comércio
1.2 O ano de 2023 constituiu uma excepção pontual, com um superavit de 7,9 milhões €
A evolução anual do saldo comercial revela uma trajectória de déficit crónico, mas não linear. O déficit agravou-se de −135,6 milhões € em 2015 para −191,2 milhões € em 2016, recuperou parcialmente em 2017 (−94,6 milhões €), voltou a alargar-se em 2018–2019 e atingiu o valor mais negativo em 2022 (−209,5 milhões €), impulsionado por uma vaga de importações no valor recorde de 1 413,7 milhões €. No entanto, em 2023, as exportações atingiram o máximo da década (1 313,4 milhões €), ao passo que as importações recuaram para 1 305,5 milhões €, gerando um superavit pontual de +7,9 milhões € — o único do período analisado. Em 2024–2025, o déficit regressou, situando-se nos −162,1 milhões € no final de 2025.
| Ano | Exportações (M€) | Importações (M€) | Saldo (M€) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 972,5 | 1 108,0 | −135,6 |
| 2016 | 943,0 | 1 134,2 | −191,2 |
| 2017 | 1 012,2 | 1 106,7 | −94,6 |
| 2018 | 981,9 | 1 160,1 | −178,1 |
| 2019 | 1 045,7 | 1 200,3 | −154,6 |
| 2020 | 749,9 | 903,9 | −153,9 |
| 2021 | 1 050,0 | 1 208,7 | −158,7 |
| 2022 | 1 204,2 | 1 413,7 | −209,5 |
| 2023 | 1 313,4 | 1 305,5 | +7,9 |
| 2024 | 1 237,5 | 1 341,1 | −103,7 |
| 2025 | 1 161,7 | 1 323,9 | −162,1 |
Fonte: Visão geral do comércio
1.3 A dependência líquida de importações passou de −18,2 % para +8,1 %, marcando uma transição estrutural
O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) revela a dimensão da transformação: em 2015, a UE era exportadora líquida com um rácio de −18,2 %, o que significava que as exportações excediam as importações em relação à produção interna; em 2025, o rácio inverteu-se para +8,1 %, reflectindo uma dependência efectiva de fornecedores externos.
Paralelamente, a intensidade comercial (trade intensity) subiu de 59,0 % para 102,0 %, e a propensão para exportar (export propensity) passou de 46,4 % para 104,2 %. Estes valores superiores a 100 % indicam que o comércio extra-UE (importações + exportações) ultrapassa agora o valor da produção comunitária, sugerindo um papel crescente da UE como plataforma de transformação e reexportação no sector.
2. A China consolida o fornecimento de 78 % das importações, enquanto a produção europeia troca volume por valor
2.1 A China representa perto de 1 032 milhões € em importações, com uma variabilidade de fornecimento muito reduzida
A China é, de longe, o principal fornecedor externo de armações de óculos para a UE. Em 2025, as importações provenientes da China totalizaram 1 032,2 milhões €, representando 78,0 % do total importado — uma quota praticamente inalterada face aos 77,5 % de 2015 (858,7 milhões €). O coeficiente de variação (CV) das importações chinesas é de apenas 0,10, o mais baixo de todos os parceiros analisados, o que atesta uma elevada fiabilidade e estabilidade do fornecimento.
No entanto, em 2022, as importações da China registaram um choque de preço significativo (+12,8 %), com um índice de anormalidade de 5,4. Este choque coincide com o pico do valor total das importações da UE (1 413,7 milhões € em 2022) e reflecte, em parte, a subida generalizada de custos na cadeia de abastecimento global no pós-pandemia.
Dos restantes fornecedores, destaca-se o crescimento exponencial do Japão (de 37,0 milhões € para 121,9 milhões €; +229,6 %), da Tailândia (de 2,5 milhões € para 16,4 milhões €; +548,1 %) e do Brasil (de 0,16 milhões € para 10,5 milhões €; +6 383 %), embora de uma base muito inferior. Em contrapartida, Hong Kong perdeu relevância (−73,4 %) e a Coreia do Sul recuou 48,9 %.
| Parceiro (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 858,7 | 1 032,2 | +20,2 % |
| Japão | 37,0 | 121,9 | +229,6 % |
| Reino Unido | 54,1 | 9,3 | −82,8 % |
| Hong Kong | 74,5 | 19,8 | −73,4 % |
| Coreia do Sul | 27,3 | 13,9 | −48,9 % |
| Tailândia | 2,5 | 16,4 | +548,1 % |
| Brasil | 0,16 | 10,5 | +6 383 % |
Fonte: Principais parceiros
2.2 A produção europeia colapsou em volume (−89,5 %), mas manteve o valor, sinalizando uma reconfiguração para gama premium
Uma das dinâmicas mais marcantes do período é a transformação da base produtiva europeia. A produção da UE em unidades caiu de 285,7 milhões de peças em 2015 para apenas 29,9 milhões em 2025 — uma redução de 89,5 %. Em contraste, o valor da produção desceu apenas 13,7 % (de 1 374,2 milhões € para 1 185,7 milhões €).
Esta disparidade implica um aumento radical do preço médio unitário de produção: de aproximadamente 4,81 €/peça em 2015 para cerca de 39,71 €/peça em 2025 — um factor de 8,2x. Este padrão é consistente com a especialização da indústria europeia (em particular o distrito óptico de Belluno, em Itália) em armações de gama alta e luxo, abandonando progressivamente a produção de grande volume para concorrer com os fornecedores asiáticos.
2.3 O déficit está concentrado no segmento de partes (900390), que passou de −7,8 M€ para −91,0 M€
A análise por subsegmento de produto revela que a deterioração do saldo comercial não é uniforme. Em 2015, os três segmentos apresentavam déficit; em 2025, as armações de plástico (900311) passaram a superavit (+21,9 milhões €), enquanto as de outras matérias (900319) mantiveram um déficit estável em torno dos −93 milhões €. Contudo, o segmento de partes (900390) registou uma explosão do déficit: de −7,8 milhões € para −91,0 milhões €, explicando praticamente a totalidade do agravamento do saldo global.
| Segmento | Saldo 2015 (M€) | Saldo 2025 (M€) | Variação (M€) |
|---|---|---|---|
| 900311 — Plástico | −36,5 | +21,9 | +58,4 |
| 900319 — Outras matérias | −91,3 | −93,1 | −1,8 |
| 900390 — Partes | −7,8 | −91,0 | −83,2 |
| Total | −135,6 | −162,1 | −26,5 |
Fonte: Comparação por segmento
Em simultâneo, os preços unitários de exportação mantêm-se consistentemente 3,5 vezes superiores aos de importação, tanto para armações de plástico (exportação: 31,90 €/un vs. importação: 8,99 €/un) como para as de outras matérias (35,46 €/un vs. 10,14 €/un). Esta assimetria de preços confirma o papel da UE como elo de valor acrescentado na cadeia global: importa componentes e armações a baixo custo e exporta produtos acabados premium.
3. A geografia do comércio europeu reconfigurou-se: México e Turquia cresceram mais de 100 %, enquanto o Reino Unido perdeu relevância
3.1 O México tornou-se o destino de exportação que mais cresceu (+267,5 %), seguido da Turquia (+134,6 %)
As exportações da UE para o México cresceram de 20,3 milhões € para 74,6 milhões € (+267,5 %), fazendo deste país o quinto maior destino das exportações europeias de armações de óculos em 2025. A Turquia também ganhou peso substancial, passando de 22,2 milhões € para 52,0 milhões € (+134,6 %). Em contraste, os mercados tradicionais como os Estados Unidos (−8,5 %) e o Reino Unido (−7,2 %) registaram quebras ligeiras, embora se mantenham como os dois maiores destinos individuais (290,6 milhões € e 123,5 milhões €, respectivamente). A China, como destino de exportação da UE, cresceu 47,0 % (de 49,0 milhões € para 72,1 milhões €).
| Parceiro (exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 317,4 | 290,6 | −8,5 % |
| Reino Unido | 133,1 | 123,5 | −7,2 % |
| Suíça | 67,3 | 81,2 | +20,7 % |
| México | 20,3 | 74,6 | +267,5 % |
| China | 49,0 | 72,1 | +47,0 % |
| Turquia | 22,2 | 52,0 | +134,6 % |
| Hong Kong | 45,5 | 48,0 | +5,5 % |
Fonte: Principais parceiros
3.2 O Brexit provocou uma quebra abrupta no comércio com o Reino Unido, sobretudo do lado das importações
O Reino Unido registou a maior quebra percentual entre os principais parceiros: as importações da UE provenientes do Reino Unido desceram 82,8 %, de 54,1 milhões € para 9,3 milhões €. Do lado das exportações, a redução foi mais moderada (−7,2 %), de 133,1 milhões € para 123,5 milhões €, mas o Reino Unido perdeu a posição de primeiro destino para os Estados Unidos. Estes movimentos reflectem provavelmente as fricções comerciais introduzidas pelo Brexit, incluindo formalidades aduaneiras, barreiras não-tarifárias e a reconfiguração das cadeias de distribuição no mercado europeu.
No lado das importações, o Reino Unido apresenta também o maior coeficiente de variação (CV = 1,76) de todos os parceiros analisados, o que indica uma elevada instabilidade nos fluxos comerciais, possivelmente agravada pela transição regulatória pós-Brexit.
3.3 A concentração das exportações diminuiu 31,6 %, enquanto a das importações se manteve elevada
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações da UE por destino desceu de 1 412 para 966 (−31,6 %), reflectindo uma diversificação significativa dos mercados de destino. Esta redução é consistente com o crescimento de novos parceiros como México, Turquia e China e a relativa estagnação dos mercados tradicionais.
Em contraste, o HHI das importações manteve-se elevado (de 6 110 para 6 236; +2,1 %), confirmando a dominância quase monopolística da China como fornecedor. Este padrão assimétrico — exportações diversificadas, importações concentradas — constitui um risco de abastecimento: uma perturbação na produção chinesa (seja por motivos geopolíticos, logísticos ou económicos) teria um impacto desproporcionado no sector europeu.
Dentro da UE, a especialização é fortemente concentrada: em 2025, a Itália detinha um RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage) de 0,71 e um RCA de 5,90, valores que reflectem uma vantagem comparativa esmagadora no sector. A Itália responde por 47,2 % da produção e 69,5 % das exportações extra-UE. Em sentido oposto, países como a Polónia (RSCA de −0,90), a Bulgária (−0,99) e a Malta (−0,99) praticamente não participam no comércio internacional deste produto.
Conclusão
O mercado europeu de armações de óculos (CN 9003) vivê, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. Apesar de o valor total do comércio ter crescido cerca de 20 %, a União Europeia passou de exportador líquido a importador líquido, com a dependência de importações a evoluir de −18,2 % para +8,1 %. Esta transição é sustentada por três dinâmicas principais: (i) a consolidação da China como fornecedor de 78 % das importações, com uma fiabilidade logística elevada mas preços crescentes; (ii) a reconfiguração da produção europeia — o volume caiu 89,5 %, mas o valor manteve-se, reflectindo uma aposta clara no segmento premium; e (iii) uma diversificação geográfica das exportações, com mercados como o México e a Turquia a ganharem relevância, enquanto o comércio com o Reino Unido encolheu drasticamente após o Brexit.
O único ano de superavit (2023) e o forte crescimento do déficit no segmento de partes (de −7,8 M€ para −91,0 M€) sugerem que a UE está cada vez mais integrada em cadeias de valor globais como transformadora de alto valor, importando componentes baratos e exportando produtos acabados premium — um modelo que reforça a competitividade da indústria europeia, mas que simultaneamente aumenta a exposição a riscos de abastecimento, sobretudo face à concentração extrema das importações na China.