Evolução do mercado: Folhagem (CN 0604) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio da União Europeia (UE) com países terceiros para a posição pautal 0604, que abrange folhagem, ramos e outras partes de plantas ornamentais, frescos ou preparados, no período compreendido entre 2015 e 2025. A análise baseia-se nos dados de fluxos de importação e exportação, explorando as principais tendências, mudanças na estrutura de parceiros comerciais, a especialização dos Estados-Membros e a ocorrência de choques de mercado. Os dados revelam um setor em transformação, marcado por uma redução do défice comercial, uma reconfiguração das cadeias de abastecimento e uma crescente volatilidade.
Fonte: Visão Geral
1. Uma dinâmica de comércio externo em reconfiguração
O período analisado foi caracterizado por uma divergência clara entre a evolução das importações e das exportações da UE no setor da folhagem ornamental. Enquanto as importações registaram uma contração significativa em volume, as exportações demonstraram uma resiliência e crescimento sustentados, resultando numa melhoria acentuada da balança comercial.
1.1. Queda acentuada nas importações, mas com aumento de valor
As importações totais da UE para o código 0604 sofreram uma redução expressiva em quantidade, passando de 66.649 toneladas em 2015 para 41.043 toneladas em 2025, uma queda de 38,4%. Paradoxalmente, o valor total das importações diminuiu apenas 9,3% (de 217,3 milhões EUR para 197,0 milhões EUR). Esta dinâmica resulta de um aumento acentuado do preço médio das importações, que subiu 47,2% no período, refletindo uma procura por produtos de maior valor acrescentado ou pressões inflacionárias na cadeia de abastecimento. A máxima de valor foi atingida em 2022 (260,3 milhões EUR), sugerindo um pico de procura ou custos elevados no pós-pandemia.
| Indicador | 2015 (Início) | 2025 (Fim) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das Importações (EUR) | 217.289.018 | 197.020.619 | -9,3% |
| Quantidade das Importações (t) | 66.649 | 41.043 | -38,4% |
| Preço Médio das Importações (EUR/t) | 3.260 | 4.800 | +47,2% |
1.2. Crescimento robusto das exportações
O setor exportador da UE apresentou um crescimento positivo tanto em valor como em quantidade. O valor das exportações passou de 133,7 milhões EUR para 171,4 milhões EUR, um aumento de 28,1%. A quantidade exportada cresceu 17,8%, atingindo 49.109 toneladas em 2025. Tal como nas importações, observou-se um aumento no preço médio (8,8%), embora menos pronunciado. O valor máximo das exportações foi registado em 2021 (228,8 milhões EUR), impulsionado provavelmente por uma procura externa forte.
1.3. Redução significativa do défice comercial
A melhoria na balança comercial é uma das tendências mais marcantes. O défice, que em 2015 era de 83,6 milhões EUR, reduziu-se para 25,7 milhões EUR em 2025, uma melhoria de 69,3%. Este resultado é o produto direto da combinação de uma contração das importações e de um crescimento das exportações, indicando um ganho de competitividade relativa da UE no mercado global da folhagem.
2. Uma reconfiguração acentuada dos parceiros comerciais
A geografia do comércio da folhagem ornamental da UE sofreu alterações profundas, com mudanças na importância relativa dos principais fornecedores e mercados de destino, acompanhadas por alterações nos índices de concentração do comércio.
2.1. Declínio dos fornecedores tradicionais e ascensão de novos atores
Os Estados Unidos e a Costa Rica, que em 2015 eram os dois maiores fornecedores de folhagem à UE, registaram quedas acentuadas no valor das suas exportações para o bloco (-38,9% e -48,5%, respetivamente). Em contraste, a China (+81,1%) e a Turquia (+61,6%) aumentaram significativamente a sua quota. A Guatemala também consolidou a sua posição (+32,4%). Esta redistribuição sugere uma diversificação geográfica da cadeia de abastecimento da UE.
| Fornecedor (Importações UE) | Valor 2015 (EUR) | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 62.849.269 | 38.411.986 | -38,9% |
| Costa Rica | 35.108.002 | 18.096.590 | -48,5% |
| Guatemala | 18.001.442 | 23.836.458 | +32,4% |
| China | 10.088.879 | 18.270.550 | +81,1% |
| Turquia | 4.812.082 | 7.775.839 | +61,6% |
2.2. Concentração dos exportadores vs. diversificação dos fornecedores
A análise do Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) confirma uma evolução oposta na estrutura dos mercados. A concentração das exportações da UE aumentou (HHI de 2.481 para 3.097), indicando que as vendas se focaram ainda mais nos principais mercados. Por outro lado, a concentração das importações diminuiu significativamente (HHI de 1.389 para 931), refletindo a diversificação das fontes de abastecimento mencionada acima.
Fonte: Concentração do Comércio
2.3. O Reino Unido como destino dominante e a eliminação da Rússia
O Reino Unido consolidou-se como o principal destino das exportações da UE, crescendo 49,6% em valor (de 57,4 milhões EUR para 85,9 milhões EUR) e aumentando a sua quota. A Rússia, que era o terceiro maior mercado em 2015 (17,2 milhões EUR), registou em 2025 um valor residual de apenas 20.690 EUR, uma queda de 99,9%. Este colapso é um dos choques mais visíveis do período, resultante de sanções e interrupções comerciais. Por outro lado, as exportações para os EUA cresceram de forma espetacular (+207,2%).
3. Especialização, segmentos e choques de mercado
A análise setorial e a especialização dos Estados-Membros da UE revelam uma estrutura de mercado complexa, fortemente influenciada por choques externos que afetaram a estabilidade do setor.
3.1. Especialização geográfica dentro da UE: o papel da Dinamarca e dos Países Baixos
Em 2025, a Dinamarca apresentava o Índice de Vantagem Comparativa Revelada (RCA) mais elevado (10,22) e uma quota de produção especializada de 17,6%, sendo o Estado-Membro mais especializado em folhagem ornamental. Os Países Baixos, apesar de um RCA mais moderado (2,56), dominavam em termos absolutos, respondendo por 37,1% das exportações intra-UE deste setor e 37,1% da produção especializada. Esta especialização geográfica indica a existência de "clusters" de produção e comércio altamente eficientes dentro do bloco.
Fonte: Países mais especializados
3.2. Segmentação de produto: a crescente importância das folhagens preparadas
Os dados por subposição pautal mostram uma evolução distinta entre os segmentos "Frescos" (060420) e "Preparados" (060490).
- Nas importações, enquanto o volume de produtos frescos (060420) caiu drasticamente (de 54.974t para 31.640t), o seu preço médio aumentou. O segmento preparado (060490) manteve um volume mais estável, mas registou uma explosão de valor (+27,3% desde 2015) e de preço médio, atingindo picos em 2021 e 2022. Isto sugere uma procura crescente por folhagens secas, tingidas ou tratadas.
- Nas exportações, o crescimento foi liderado pelos produtos preparados, que em 2025 representavam 20,7% do valor total das exportações, com um preço médio muito superior (7.503 EUR/t vs. 3.060 EUR/t para frescos), indicando uma aposta da UE na exportação de produtos de maior valor acrescentado.
3.3. Choques significativos: a Rússia e o Reino Unido
A análise de volatilidade e choques identifica dois eventos estruturais:
- Choque de fornecimento na Rússia (2025): As exportações da UE para a Rússia colapsaram em 99,9%, com uma anormalidade estatística de 2,0. Embora a quota de valor fosse apenas 10,1% em 2015, esta perda total de mercado é um choque de oferta de grandes proporções.
- Choque de preço no Reino Unido (2021): Este mercado, que absorvia 58% do valor das exportações da UE, registou uma queda anómala de 11,3% no preço médio em 2021, numa anormalidade de 11,2. Este fenómeno pode estar relacionado com disrupções pós-Brexit ou alterações na procura.
Fonte: Eventos de Choque
Conclusão
O mercado da folhagem ornamental da UE (CN 0604) entre 2015 e 2025 passou por uma profunda transformação. A principal narrativa é de uma resiliência exportadora face a uma contração das importações, resultante de uma reconfiguração das cadeias de valor globais e de uma especialização interna. O défice comercial foi substancialmente reduzido.
Diversos fatores impulsionaram esta dinâmica: a diversificação das fontes de abastecimento para longe dos fornecedores tradicionais americanos e centro-americanos, a consolidação do Reino Unido como mercado vital, e a aposta na exportação de produtos de valor acrescentado (folhagens preparadas). Contudo, o setor também enfrentou desafios, como a perda total do mercado russo devido a sanções e uma crescente concentração das exportações, que pode aumentar a vulnerabilidade a choques no futuro. A especialização geográfica dentro da UE, com um papel central dos Países Baixos e da Dinamarca, permanece um pilar fundamental da competitividade do setor.