Evolução do mercado: Fogos de artifício (CN 3604) — 2015–2025
Introdução
O código NC 3604 abrange fogos de artifício (subparte 360410), bem como foguetes de sinalização, bombas, petardos e outros artigos de pirotecnia especializados (subparte 360490). Este setor assistiu a transformações estruturais profundas entre 2015 e 2025.
O período analisado é marcado por três dinâmicas principais: (i) um crescimento robusto dos fluxos comerciais externos da UE, contrastando com uma queda acentuada da produção interna; (ii) uma dependência estrutural e crescente das importações chinesas; e (iii) uma expansão significativa das exportações europeias, com dinâmicas diferenciadas por segmento de produto e por mercado de destino. O choque exógeno da pandemia de COVID-19, em 2020–2021, interrompeu temporariamente esta trajetória, mas a recuperação subsequente reforçou as tendências de fundo.
1. Crescimento do comércio externo europeu face à contração da produção interna
1.1. Expansão sustentada dos fluxos de importação e exportação
Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE em artigos pirotécnicos registou um crescimento expressivo em ambos os sentidos:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 271,9 M€ | 424,5 M€ | +56,1% |
| Importações (volume) | 95 882 t | 128 125 t | +33,6% |
| Exportações (valor) | 89,1 M€ | 136,6 M€ | +53,3% |
| Exportações (volume) | 3 033 t | 4 798 t | +58,2% |
| Balanço comercial | −182,8 M€ | −287,9 M€ | −57,5% |
Os preços médios de importação subiram 16,8% (de 2 836 €/t para 3 313 €/t), enquanto os preços de exportação recuaram ligeiramente (−3,1%, de 29 369 €/t para 28 460 €/t). Esta divergência reflecte, em parte, a diferença de composição entre os dois segmentos do código 3604, como se discutirá na terceira secção.
O défice comercial agravou-se substancialmente, mas a trajetória não foi linear: o défice máximo registou-se em 2024 (−305,8 M€), enquanto o mínimo ocorreu em 2021 (−16,3 M€), como consequência da quebra pandémica nas importações.
1.2. Colapso da produção europeia de artigos pirotécnicos
Paralelamente ao crescimento das importações, a produção europeia de artigos pirotécnicos sofreu uma queda acentuada:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida | 59 965 t | 11 464 t | −80,9% |
| Valor da produção | 610,0 M€ | 325,7 M€ | −46,6% |
| Valor unitário estimado | ~10,2 €/kg | ~28,4 €/kg | +178% |
Ao longo do período, a produção mínima rondou as 5 105 toneladas (198,0 M€ de valor), enquanto o máximo atingiu 71 540 toneladas (846,4 M€).
A queda de 80,9% na quantidade produzida, contrastada com uma redução "apenas" de 46,6% no valor, indica uma reorientação significativa da produção europeia para segmentos de maior valor acrescentado. O valor unitário de produção quase triplicou, sugerindo que os produtores europeus que permaneceram no setor se concentraram em artigos pirotécnicos especializados (sinalização, uso militar, efeitos cinematográficos) em detrimento dos fogos de artifício convencionais de baixo custo, cuja produção foi progressivamente transferida para a Ásia.
1.3. O impacto da pandemia COVID-19 e a recuperação subsequente
A pandemia provocou uma perturbação sem precedentes no setor. O volume de importações de fogos de artifício (360410) desabou de 105 018 t em 2019 para apenas 29 217 t em 2021 — uma queda de 72%.
| Segmento | Indicador | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 360410 – Fogos de artifício | Importações (t) | 105 018 | 79 744 | 29 217 | 79 592 | 127 185 |
| Importações (M€) | 264,2 | 190,0 | 90,0 | 304,8 | 398,3 | |
| 360490 – Artigos especializados | Importações (t) | 1 207 | 832 | 4 177 | 776 | 940 |
| Importações (M€) | 17,9 | 18,3 | 27,8 | 31,0 | 26,2 |
Em 2021, a combinação de restrições a celebrações e disrupções nas cadeias de abastecimento asiáticas reduziu drasticamente a procura de fogos de artifício convencionais. Curiosamente, o segmento 360490 manteve-se relativamente resiliente (as importações até aumentaram em valor para 27,8 M€), reflectindo a natureza menos sazonal e mais industrial dos artigos pirotécnicos especializados.
As exportações europeias revelaram maior resiliência: os fogos de artifício exportados caíram de 2 031 t (2019) para 1 546 t (2020), mas recuperaram para 2 557 t já em 2021. A recuperação a partir de 2022 foi vigorosa: em 2023, tanto as importações como as exportações ultrapassaram os níveis pré-pandemia, com as importações a atingirem um máximo histórico de 440,5 M€ em 2024.
2. Hegemonia chinesa nas importações e crescente vulnerabilidade externa
2.1. A China como fornecedor quase exclusivo da UE
A estrutura das importações da UE em artigos pirotécnicos é dominada de forma esmagadora pela China:
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação | Peso em 2025 |
|---|---|---|---|---|
| China | 249,4 | 390,8 | +56,7% | 92,1% |
| Reino Unido | 4,7 | 14,7 | +216,3% | 3,5% |
| Albânia | 0,3 | 5,4 | +1 456% | 1,3% |
| Estados Unidos | 10,0 | 5,6 | −44,1% | 1,3% |
| Suíça | 2,4 | 3,2 | +34,6% | 0,8% |
| Hong Kong | 3,7 | 0,3 | −92,9% | 0,1% |
| Total UE | 271,9 | 424,5 | +56,1% | 100% |
A China representava já 91,7% das importações da UE em 2015 e manteve essa quota em 2025 (92,1%). O índice de concentração HHI das importações situou-se entre 6 112 (mínimo) e 8 802 (máximo) — valores que indicam uma concentração extrema, tipicamente associada à dependência de um único fornecedor.
O crescimento das importações da Albânia (+1 456%) é notável em termos relativos, embora em valores absolutos continue marginal (5,4 M€). Este crescimento pode reflectir o desenvolvimento de uma indústria pirotécnica albanesa orientada para o mercado europeu, beneficiando de custos de produção mais baixos e proximidade geográfica. A queda das importações de Hong Kong (−92,9%) provavelmente reflecte a reconfiguração das rotas comerciais asiáticas, com os fluxos a passarem diretamente da China continental para a UE.
2.2. Aumento da dependência importadora e da vulnerabilidade externa da UE
Os indicadores de vulnerabilidade revelam uma transformação profunda do setor europeu:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência importadora líquida | 12,1% | 48,3% | +300% |
| Intensidade comercial | 26,1% | 75,3% | +188% |
| Propensão exportadora | 9,2% | 41,9% | +355% |
A dependência importadora líquida quadruplicou, passando de 12,1% para 48,3%. Este indicador, que mede a proporção do consumo interno satisfeito por importações, reflecte simultaneamente o colapso da produção europeia e o crescimento das importações. A intensidade comercial passou de 26,1% para 75,3%, indicando que o setor se tornou predominantemente orientado para o comércio externo. A propensão exportadora, que mais que quadruplicou (+355%), sugere que os produtores europeus que permanecem no setor são significativamente mais exportadores do que em 2015, reforçando a ideia de uma reorientação para segmentos de maior valor e especialização.
2.3. Concentração extrema das importações versus diversificação das exportações
Existe um contraste marcante entre a concentração das importações e a diversificação das exportações:
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 8 428 | 8 497 | +0,8% |
| Exportações (valor) | 789 | 909 | +15,2% |
O HHI das importações (≈8 500) situa-se muito acima do limiar de concentração elevada (tipicamente 2 500), confirmando a dependência quase monopolística face à China. Em contraste, o HHI das exportações (≈900) indica uma distribuição muito mais diversificada dos mercados de destino. Os sete principais parceiros de importação representam 98,9% do total das importações extra-UE, enquanto os sete principais mercados de exportação representam apenas 52,6%.
A volatilidade das importações por parceiro confirma esta estrutura: a China apresenta o coeficiente de variação mais baixo (0,28), reflectindo a estabilidade de uma relação comercial consolidada, enquanto parceiros menores como a Austrália (CV 2,64), a Ucrânia (CV 1,59) ou a Noruega (CV 1,51) apresentam flutuações muito superiores, embora com peso marginal no total.
3. Expansão e diferenciação das exportações europeias
3.1. Principais mercados de destino: EUA, Reino Unido e Europa não comunitária
As exportações da UE cresceram de forma robusta para vários mercados-chave:
| Destino | Exportações 2015 (M€) | Exportações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 12,9 | 29,8 | +130,5% |
| Reino Unido | 6,4 | 18,8 | +194,3% |
| Noruega | 1,8 | 4,2 | +133,8% |
| Sérvia | 0,3 | 1,4 | +360,4% |
| China | 14,7 | 10,5 | −28,8% |
| Suíça | 5,8 | 3,4 | −41,7% |
| Turquia | 4,1 | 3,7 | −10,1% |
Os EUA tornaram-se o principal destino das exportações europeias, ultrapassando a China. Este crescimento (+130,5%) reflecte a procura crescente de artigos pirotécnicos europeus de elevada qualidade no mercado norte-americano, nomeadamente para espetáculos profissionais e eventos de grande escala.
O crescimento das exportações para o Reino Unido (+194,3%) é significativo, embora parte deste aumento possa ser atribuído à reclassificação estatística pós-Brexit (a partir de 2021, o comércio UE–Reino Unido passou a contar como comércio extra-UE na estatística por parceiro).
A Sérvia destaca-se com o maior crescimento relativo (+360,4%), embora em valores absolutos continue modesto (1,4 M€). A Noruega, mercado tradicionalmente importante para artigos pirotécnicos devido às celebrações do dia nacional e do Ano Novo, cresceu 133,8%. Em contraste, as exportações para a China (−28,8%) e a Suíça (−41,7%) registaram quebras, possivelmente reflectindo o aumento da capacidade produtiva local e a concorrência de produtores asiáticos de menor custo.
3.2. Segmentação do comércio: fogos de artifício versus artigos pirotécnicos especializados
O código 3604 engloba dois segmentos com dinâmicas comerciais marcadamente diferentes:
Importações:
| Segmento | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação | Volume 2025 (t) | Preço 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|---|
| 360410 – Fogos de artifício | 252,4 | 398,3 | +57,8% | 127 185 | 3 131 |
| 360490 – Artigos especializados | 19,6 | 26,2 | +33,9% | 940 | 27 885 |
Exportações:
| Segmento | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação | Volume 2025 (t) | Preço 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|---|
| 360410 – Fogos de artifício | 15,9 | 34,3 | +116% | 2 588 | 13 247 |
| 360490 – Artigos especializados | 73,2 | 102,3 | +39,7% | 2 209 | 46 279 |
Nas importações, os fogos de artifício (360410) dominam esmagadoramente o volume (99,3% do total em 2025), reflectindo a transferência da produção de consumo de massa para a China. Os artigos especializados (360490), com preços unitários quase nove vezes superiores (27 885 €/t vs. 3 131 €/t), representam apenas 0,7% do volume mas 6,2% do valor importado.
Nas exportações, a composição é mais equilibrada: em 2025, os fogos de artifício representaram 54% do volume e os artigos especializados 46%. Contudo, em valor, os artigos especializados dominam (75% do total), graças ao seu preço unitário muito mais elevado (46 279 €/t vs. 13 247 €/t). Este padrão confirma que a UE se especializou na exportação de artigos pirotécnicos de alto valor acrescentado, enquanto importa sobretudo fogos de artifício de consumo de massa.
O preço de importação dos fogos de artifício subiu significativamente no período pós-pandemia, de 2 382 €/t em 2020 para 3 829 €/t em 2022 (máximo do período), antes de estabilizar em 3 131 €/t em 2025. Esta subida pode reflectir tanto a inflação dos custos de transporte e matérias-primas como o endurecimento das normas de segurança e certificação europeias.
3.3. Especialização produtiva dos Estados-Membros: Países Baixos e Chéquia lideram
Os indicadores de especialização de 2025 revelam padrões distintos entre os Estados-Membros:
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota produção 3604 | Quota exportações total |
|---|---|---|---|---|
| Países Baixos | 2,93 | 0,49 | 42,5% | 14,5% |
| Chéquia | 2,15 | 0,37 | 10,4% | 4,8% |
| França | 1,96 | 0,32 | 15,3% | 7,8% |
| Polónia | 0,99 | −0,01 | 6,6% | 6,6% |
| Alemanha | 0,66 | −0,20 | 14,0% | 21,2% |
Os Países Baixos apresentam o maior Índice de Vantagem Comparativa Revelada (RCA = 2,93), indicando uma forte especialização na produção e exportação de artigos pirotécnicos. A Chéquia e a França seguem-se, com RCAs de 2,15 e 1,96, respectivamente — todos acima do limiar de 1 que indica vantagem comparativa.
Curiosamente, a Alemanha, maior exportador da UE em valores absolutos (49,2 M€ em 2025, +40,2% face a 2015), apresenta um RCA de apenas 0,66. Isto significa que os artigos pirotécnicos têm um peso inferior à média na sua estrutura exportadora global. A Alemanha funciona, em grande medida, como entreposto comercial e distribuidor, dada a sua posição geográfica central e a dimensão do seu mercado interno.
Nos Países Baixos, a concentração produtiva neste setor é particularmente elevada: 42,5% da sua produção no código 3604, contra um peso de 14,5% nas exportações totais da UE — sugerindo que parte significativa da produção se destina ao mercado doméstico dos Países Baixos ou é distribuída intra-UE. A queda generalizada da produção europeia (−80,9% em volume) afectou todos os Estados-Membros, mas os que mantiveram capacidade produtiva tenderão a concentrar-se em nichos de alto valor.
Conclusão
O mercado europeu de fogos de artifício e artigos pirotécnicos (CN 3604) assistiu, entre 2015 e 2025, a uma profunda reconfiguração estrutural. A produção europeia colapsou em termos de volume (−80,9%), sendo progressivamente substituída por importações esmagadoramente provenientes da China (92% do total). A dependência importadora líquida quadruplicou, atingindo 48,3% em 2025.
Paradoxalmente, as exportações europeias cresceram de forma robusta (+53,3% em valor), impulsionadas sobretudo por artigos pirotécnicos especializados de alto valor acrescentado (360490), cujo preço unitário é quase nove vezes superior ao dos fogos de artifício convencionais. Os EUA e o Reino Unido tornaram-se os principais mercados de destino, ultrapassando a China.
O setor encontra-se hoje numa posição de maior vulnerabilidade externa, com uma concentração extrema das importações (HHI ≈ 8 500) e uma quota crescente do consumo interno satisfeita por fornecedores terceiros. A especialização produtiva europeia concentra-se nos Países Baixos, Chéquia e França, enquanto a Alemanha desempenha sobretudo um papel de distribuição. Os riscos associados a esta configuração — dependência de uma única origem, potenciais disrupções logísticas e exposição a flutuações cambiais — são parcialmente atenuados pela diversificação das exportações e pela crescente especialização em segmentos de alto valor, mas permanecem significativos num setor com uma intensidade comercial de 75%.