Evolução do mercado: Fios emborrachados (CN 5604) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no que respeita à posição pautal CN 5604 — que abrange fios e cordas de borracha recobertos de têxteis, bem como fios têxteis, lâminas e formas semelhantes das posições 5404 ou 5405, impregnados, revestidos, recobertos ou embainhados de borracha ou de plástico — no período compreendido entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. Este produto insere-se no capítulo 56 da Nomenclatura Combinada, dedicado a pastas, feltros, fios especiais, cordéis, cordas e artigos de cordoaria.
Ao longo da década analisada, o setor registou dinâmicas significativas: um forte crescimento do valor comercial — impulsionado sobretudo pela subida dos preços —, uma reconfiguração notável das parcerias comerciais, e uma transformação da estrutura produtiva europeia. A UE manteve-se exportadora líquida, embora as importações tenham crescido a um ritmo muito superior ao das exportações. O relatório organiza-se em três eixos principais: a evolução dos volumes e preços, a reconfiguração geográfica do comércio, e a estrutura produtiva e de especialização do bloco.
Para uma visão geral completa, consultar o painel de comércio CN 5604.
1. Crescimento do valor comercial impulsionado pela escalada de preços
1.1. As exportações europeias duplicaram em valor, mas estagnaram em volume
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de CN 5604 cresceu 63,2%, passando de 56,4 milhões de euros para 92,0 milhões de euros, atingindo um máximo de 105,1 milhões em 2022. Contudo, as quantidades exportadas mantiveram-se virtualmente estáveis (−0,4%), com 6 036 toneladas em 2015 e 6 011 toneladas em 2025. Esta divergência é explicada inteiramente pela evolução dos preços unitários de exportação, que subiram 63,8% — de 9 335 €/t para 15 294 €/t —, refletindo quer uma valorização do produto europeu no mercado internacional, quer um efeito inflacionário acumulado.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações | 56,4 M€ | 92,0 M€ | +63,2% |
| Quantidade exportações | 6 036 t | 6 011 t | −0,4% |
| Preço médio exportações | 9 335 €/t | 15 294 €/t | +63,8% |
1.2. As importações cresceram a ritmo acelerado, tanto em valor como em volume
O crescimento das importações foi ainda mais expressivo. O valor total das importações quase triplicou (+123,2%), passando de 24,1 milhões de euros para 53,8 milhões de euros. Diferentemente das exportações, as quantidades importadas também cresceram de forma substancial (+59,7%), de 4 041 toneladas para 6 451 toneladas. O preço médio de importação subiu 39,8% (de 5 968 €/t para 8 344 €/t), o que significa que, embora os preços tenham subido, a componente quantitativa foi o principal motor do crescimento das importações.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor importações | 24,1 M€ | 53,8 M€ | +123,2% |
| Quantidade importações | 4 041 t | 6 451 t | +59,7% |
| Preço médio importações | 5 968 €/t | 8 344 €/t | +39,8% |
1.3. O saldo comercial permaneceu positivo, mas a dependência líquida agravou-se
A UE manteve-se exportadora líquida ao longo de todo o período, com um saldo comercial que passou de 32,2 milhões de euros em 2015 para 38,1 milhões em 2025 (+18,2%). No entanto, este valor de referência é enganador: o saldo atingiu um mínimo de apenas 14,2 milhões em 2023, refletindo o crescimento muito mais rápido das importações face às exportações. A dependência líquida de importações agravou-se de −8,8% para −23,3% (valores negativos indicam posição exportadora líquida), o que, paradoxalmente, sinaliza uma maior exposição da UE ao mercado externo — tanto a exportar como a importar — e uma menor margem de autonomia relativa.
A intensidade comercial subiu de 17,1% para 44,5%, e a propensão para exportar passou de 13,0% para 35,4%, indicando que o setor se tornou significativamente mais internacionalizado.
1.4. A produção europeia perdeu volume, mas ganhou valor
Dados do Prodcom revelam que a produção europeia de CN 5604 em quantidade recuou 22,9%, de 33,3 milhões de kg para 25,7 milhões de kg. Em contrapartida, o valor da produção aumentou 14,7%, passando de 236 milhões de euros para 271 milhões de euros. Esta evolução sugere uma clara estratégia de subida na cadeia de valor: produzir menos volume, mas de maior valor acrescentado — consistente com a especialização em segmentos técnicos e de elevado desempenho.
2. Reconfiguração geográfica: consolidação asiática e colapso do comércio com a Rússia
2.1. A China e a Turquia dominam agora as importações, com crescimentos exponenciais
A estrutura das importações da UE de CN 5604 alterou-se profundamente. A China, que já era o maior fornecedor em 2015 (8,8 M€), consolidou a sua posição até 24,6 milhões de euros em 2025 (+179,8%). Contudo, a transformação mais espetacular foi a da Turquia, cujas exportações para a UE passaram de 1,4 milhões de euros para 15,2 milhões de euros — um crescimento de 953% —, tornando-a o segundo maior fornecedor. Os Estados Unidos, em terceiro lugar, mantiveram-se relativamente estáveis (4,6 M€ → 4,4 M€, −5,7%).
| Parceiro (importações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 8,8 M€ | 24,6 M€ | +179,8% |
| Turquia | 1,4 M€ | 15,2 M€ | +953,0% |
| Estados Unidos | 4,6 M€ | 4,4 M€ | −5,7% |
| Tailândia | 1,5 M€ | 1,6 M€ | +6,2% |
| Suíça | 3,0 M€ | 2,0 M€ | −33,5% |
| Tunísia | 0,8 M€ | 1,1 M€ | +42,9% |
Este crescimento reflete a crescente capacidade industrial têxtil e de transformação na Turquia, bem como eventuais reconfigurações das cadeias de abastecimento na sequência das disrupções pandémicas e das tensões geopolíticas. O índice de concentração HHI das importações subiu de 1 979 para 3 002 (+51,7%), confirmando uma maior concentração das fontes de abastecimento.
2.2. As exportações europeias: Tailândia como novo destino de destaque e colapso russo
No lado das exportações, o parceiro que mais cresceu foi a Tailândia, com um aumento de 332,2% (de 6,2 M€ para 26,8 M€), tornando-se o segundo maior destino das exportações da UE, atrás apenas dos Estados Unidos (23,5 M€, +47,4%). O Reino Unido manteve-se como terceiro destino (7,9 M€, +46,8%), e o México registou um crescimento de 47,9% (de 5,6 M€ para 8,4 M€).
O caso mais notável é o da Rússia, cujas importações da UE desceram de 2,0 milhões de euros para apenas 65 mil euros (−96,8%), refletindo claramente as sanções comerciais impostas após 2022. Este colapso representou a eliminação quase total de um parceiro comercial que, em 2019, ainda atingia 3,5 milhões de euros.
| Parceiro (exportações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 16,0 M€ | 23,5 M€ | +47,4% |
| Tailândia | 6,2 M€ | 26,8 M€ | +332,2% |
| Reino Unido | 5,4 M€ | 7,9 M€ | +46,8% |
| China | 7,5 M€ | 6,6 M€ | −13,1% |
| México | 5,6 M€ | 8,4 M€ | +47,9% |
| Turquia | 3,2 M€ | 5,2 M€ | +64,2% |
| Rússia | 2,0 M€ | 0,07 M€ | −96,8% |
O HHI das exportações também subiu (de 1 362 para 1 761, +29,3%), refletindo a crescente concentração em poucos mercados de destino — com Tailândia e Estados Unidos a absorverem uma fatia cada vez maior.
2.3. A Tailândia emergiu como parceiro volátil, mas estratégico
A análise de volatilidade revela que a Tailândia apresenta um coeficiente de variação (CV) de 0,39 nas exportações da UE, o que, embora moderado, reflete flutuações consideráveis dado o crescimento exponencial registado. O choque de preço mais significativo nas importações foi registado com a Turquia em 2023, com uma anomalia de 16,0 e uma variação de +78% nos preços, sugerindo uma reprecificação abrupta possivelmente associada à depreciação da lira turca ou a alterações na procura europeia.
Do lado das exportações, destacam-se dois choques de preço: com o México em 2021 (+48,6%, anomalia de 14,4) e com a Tunísia em 2017 (+123,4%, anomalia de 13,4). Estes episódios sugerem que a formação de preços neste setor é sensível a fatores cambiais e logísticos.
3. Estrutura produtiva e segmentação: o domínio crescente do subproduto 560490
3.1. O subproduto 560490 tornou-se o motor das importações
A decomposição por subproduto revela que o 560490 — fios têxteis impregnados ou revestidos de borracha ou plástico registou o crescimento mais acentuado nas importações: as quantidades mais do que duplicaram (de 1 339 toneladas para 3 217 toneladas, +140%), e o valor triplicou (de 9,5 M€ para 30,4 M€, +221%). O preço médio de importação deste subproduto subiu de 7 087 €/t para 9 462 €/t (+33,5%).
Em contraste, o 560410 — fios e cordas de borracha recobertos de têxteis apresentou uma evolução mais estável em volume (de 2 701 toneladas para 3 235 toneladas, +20%), com o valor a crescer 60% (de 14,6 M€ para 23,4 M€) e o preço médio a subir 33,5% (de 5 413 €/t para 7 229 €/t).
| Subproduto | Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 560410 (importações) | Quantidade | 2 701 t | 3 235 t | +19,7% |
| 560410 (importações) | Valor | 14,6 M€ | 23,4 M€ | +60,0% |
| 560490 (importações) | Quantidade | 1 339 t | 3 217 t | +140,2% |
| 560490 (importações) | Valor | 9,5 M€ | 30,4 M€ | +220,6% |
3.2. Nas exportações, o 560490 é dominante e valorizou-se fortemente
No lado das exportações, o 560490 é claramente o subproduto dominante, representando mais de 85% do valor total. Em 2025, as exportações de 560490 atingiram 82,6 milhões de euros (5 326 toneladas), com um preço médio de 15 500 €/t — um aumento de 58,2% face ao preço de 9 793 €/t em 2015. As exportações de 560410, por sua vez, foram estáveis em valor (de 8,5 M€ para 9,4 M€), mas com uma clara redução em volume (de 1 151 toneladas para 685 toneladas, −40,5%), indicando uma progressiva deslocação da produção europeia para o segmento de maior valor.
3.3. Itália e França lideram a especialização; Polónia surge como nova potência exportadora
Os dados de especialização revelam que a Itália (RSCA de 0,67, RCA de 4,98) e a França (RSCA de 0,39, RCA de 2,27) são os Estados-Membros mais especializados na produção e exportação de CN 5604, com uma vantagem comparativa revelada significativa. A Polónia surge em terceiro lugar (RSCA de 0,27, RCA de 1,74).
A evolução mais impressionante é, porém, a da Polónia nas exportações, cujas exportações passaram de 0,95 milhões de euros para 14,6 milhões de euros — um crescimento de 1 440% —, tornando-a o quarto maior exportador da UE, atrás apenas de França (38,1 M€), Itália (20,8 M€) e Alemanha (8,1 M€).
| Estado-Membro | Exportações 2015 | Exportações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| França | 19,7 M€ | 38,1 M€ | +93,1% |
| Itália | 17,3 M€ | 20,8 M€ | +20,2% |
| Alemanha | 9,5 M€ | 8,1 M€ | −15,3% |
| Polónia | 0,95 M€ | 14,6 M€ | +1 439,7% |
| Estónia | 1,6 M€ | 2,3 M€ | +47,2% |
Do lado das importações, a Itália foi o Estado-Membro que mais aumentou as suas importações (+351,5%, de 1,9 M€ para 8,4 M€), seguida da Alemanha (+195,1%, de 3,5 M€ para 10,2 M€).
Conclusão
O mercado europeu de fios emborrachados (CN 5604) atravessou, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. Três tendências dominam a análise:
Em primeiro lugar, o crescimento do valor comercial foi desproporcionadamente superior ao crescimento dos volumes, sobretudo no que respeita às exportações, onde a estagnação quantitativa contrasta com um aumento de 63,8% nos preços. Isto indica uma valorização da oferta europeia e/ou uma deslocação para produtos de maior valor acrescentado, consistente com a queda de 22,9% na produção em volume e o aumento de 14,7% em valor.
Em segundo lugar, verificou-se uma reconfiguração acentuada das parcerias comerciais, com a consolidação da China e o crescimento exponencial da Turquia como fornecedores, o colapso quase total do comércio com a Rússia, e a emergência da Tailândia como destino principal das exportações europeias. A concentração do comércio — tanto nas importações como nas exportações — aumentou significativamente, o que representa um risco adicional de dependência de poucos parceiros.
Em terceiro lugar, o subproduto 560490 tornou-se claramente o motor do setor, tanto do lado das importações (onde cresceu 140% em volume) como das exportações (onde representa mais de 85% do valor). A Polónia emergiu como uma nova potência exportadora europeia, enquanto a Itália e a França consolidaram a sua posição de liderança em especialização.
Apesar de a UE manter uma posição líquida exportadora, o agravamento da intensidade comercial (de 17% para 45%) e da propensão para exportar (de 13% para 35%) torna o setor significativamente mais exposto a disrupções externas — como evidenciado pelos choques de preço registados com a Turquia, o México e a Tunísia. A vigilância face à concentração geográfica e à volatilidade dos mercados parceiros será crucial para a sustentabilidade competitiva deste setor europeu.