Evolução do mercado: Cordas e cabos (CN 5607) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no setor das cordas e cabos (posição pautal CN 5607) ao longo do período 2015–2025. Esta posição abrange cordéis, cordas e cabos entrançados ou não, mesmo impregnados, revestidos, recobertos ou embainhados de borracha ou de plástico, englobando seis subcategorias que vão desde os cordéis agrícolas (para atadeiras ou enfardadeiras) até cabos de polietileno, polipropileno e outras fibras sintéticas.
Ao longo da década analisada, a UE manteve uma posição de superavitário no comércio destes produtos, embora com uma clara erosão desse saldo. A produção europeia cresceu significativamente em valor (+80,6%), mas as importações de países terceiros cresceram a um ritmo muito superior às exportações, alterando a dinâmica competitiva do setor.
1. A erosão do superavit comercial europeu: crescimento assimétrico entre importações e exportações
1.1. As importações cresceram quase quatro vezes mais do que as exportações em valor
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE para países terceiros aumentou 17,5%, passando de €313 milhões para €368 milhões (ver evolução comercial). No mesmo período, as importações cresceram 68,7%, de €125 milhões para €212 milhões. Esta diferença de ritmo conduziu a uma redução do saldo comercial positivo de €188 milhões para €156 milhões, uma queda de 16,7%.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (€) | 313 269 064 | 368 037 894 | +17,5% |
| Importações (€) | 125 469 138 | 211 636 339 | +68,7% |
| Saldo comercial (€) | 187 799 926 | 156 401 555 | −16,7% |
1.2. As exportações perderam volume, mas ganharam em preço
Um dado revelador é que, embora o valor das exportações tenha crescido, o volume exportado diminuiu 4,3%, passando de 75 231 toneladas para 71 970 toneladas (ver dados de comércio). Isto significa que o crescimento do valor se deveu inteiramente ao aumento dos preços unitários de exportação, que subiram 22,7% (de €4 164/t para €5 111/t). Esta subida de preços pode refletir uma aposta europeia em produtos de maior valor acrescentado — cabos técnicos, cordas industriais de alta resistência — em detrimento de produtos de base, cuja produção se está a deslocar para terceiros países.
Em contraste, as importações cresceram tanto em volume (+60,3%, de 32 136t para 51 511t) como em valor (+68,7%), com os preços de importação a subir apenas 5,2% (de €3 904/t para €4 108/t). Esta diferença de elasticidade de preço sugere que os fornecedores externos, sobretudo asiáticos, estão a ganhar quota de mercado com preços competitivos.
1.3. A produção europeia cresceu em valor, mas de forma insuficiente para compensar
Os dados de produção europeia revelam que a produção da UE em termos de volume cresceu apenas 5,9% (de 227 301 toneladas para 240 726 toneladas), mas em valor o crescimento foi de 80,6% (de €513 milhões para €926 milhões). Esta disparidade confirma a tendência de subida dos preços internos, mas também sugere que a produção europeia está a concentrar-se em segmentos de maior valor. A intensidade das trocas comerciais (trade intensity) subiu de 4,0% para 50,3%, um aumento que reflete uma crescente integração do setor nas cadeias de valor globais.
2. A crescente dependência da China e a reconfiguração geográfica do comércio
2.1. A China consolidou-se como principal fornecedor, com crescimento de 134,5%
O parceiro comercial que mais se destacou pela dimensão da sua presença nas importações da UE foi a China. As importações chinesas passaram de €32 milhões para €76 milhões (+134,5%), representando agora a maior quota individual nas importações da UE. Esta ascensão reflete a enorme capacidade produtiva da China em produtos sintéticos de polietileno e polipropileno, segmentos dominantes nas importações.
| Fornecedor | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 32 202 449 | 75 503 017 | +134,5% |
| Índia | 6 262 127 | 16 164 197 | +158,1% |
| Turquia | 5 320 342 | 10 527 629 | +97,9% |
| Brasil | 2 520 924 | 6 179 448 | +145,1% |
| Coreia do Sul | 6 873 144 | 7 595 759 | +10,5% |
| Sérvia | 9 221 484 | 5 986 172 | −35,1% |
| Madagáscar | 7 315 648 | 4 708 535 | −35,6% |
A Índia (+158,1%) e o Brasil (+145,1%) foram os fornecedores que mais cresceram em termos percentuais, embora em valores absolutos permaneçam muito atrás da China. Em contrapartida, fornecedores tradicionais como a Sérvia (−35,1%) e Madagáscar (−35,6%) perderam relevância. Madagáscar, historicamente fornecedor de cordéis de sisal e fibras naturais, reflete o declínio global deste segmento em favor das fibras sintéticas.
2.2. A concentração das importações aumentou significativamente
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor subiu de 1 077 para 1 633 (+51,6%), ultrapassando o limiar de 1 500 que marca habitualmente uma concentração moderada. Em volume, o aumento foi ainda mais pronunciado (+55,5%, de 1 193 para 1 855). Esta concentração reflete a crescente dominância da China como fornecedor, criando potenciais vulnerabilidades na cadeia de abastecimento europeia. A dependência líquida de importações, embora a UE se mantenha exportadora líquida, passou de −1,2% para −23,7%, sinal de que o peso das importações no consumo interno está a aumentar.
2.3. As exportações europeias mantiveram-se concentradas em mercados ocidentais
Do lado das exportações, os principais destinos mantiveram-se estáveis: os Estados Unidos (€53 milhões), o Reino Unido (€50 milhões), o Canadá (€12 milhões) e a Noruega (€24 milhões) absorvem a maior parte das vendas europeias. A Noruega, no entanto, apresentou uma queda acentuada (−44,2%), possivelmente relacionada com flutuações na procura do setor offshore/petrolífero.
Mercados como o Marrocos (+102,8%) e a Turquia (+110,4%) cresceram significativamente em valor, sugerindo uma diversificação geográfica das exportações europeias. Em contraste, o HHI das exportações baixou de 829 para 595 (−28,2%), confirmando uma maior diversificação dos mercados de destino — o oposto do que se verifica nas importações.
3. A especialização portuguesa e as assimetrias intra-europeias
3.1. Portugal é, de longe, o Estado-Membro mais especializado no setor
Os dados de especialização revelada mostram que Portugal domina com enorme vantagem a produção e exportação europeia de cordas e cabos. Com um RCA de 18,5 e um RSCA de 0,897 em 2025, Portugal detém 25,6% da produção europeia e 1,4% das exportações mundiais totais deste setor. Nenhum outro Estado-Membro se aproxima deste nível de especialização:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produção UE |
|---|---|---|---|
| Portugal | 0,897 | 18,50 | 25,6% |
| Lituânia | 0,614 | 4,17 | 2,6% |
| Grécia | 0,582 | 3,78 | 2,6% |
| Letónia | 0,533 | 3,28 | 1,1% |
| Eslováquia | 0,359 | 2,12 | 4,5% |
Contudo, apesar da sua posição dominante, Portugal registou uma quebra de 28,1% no valor das exportações (de €113 milhões para €82 milhões), o que sugere pressão competitiva crescente. Em termos de exportações por Estado-Membro, a Grécia (+80,0%) e a Espanha (+114,5%) foram os Estados-Membros que mais cresceram, acompanhados pela Bélgica (+97,4%).
3.2. Os segmentos sintéticos dominam o comércio, com os cordéis agrícolas em declínio
A análise por subcategoria revela uma clara mudança estrutural. Os dois principais segmentos de importação são:
| Subcategoria | Descrição | Import. 2015 (t) | Import. 2025 (t) | Var. (%) |
|---|---|---|---|---|
| 560749 | Cabos de polietileno/polipropileno | 11 275 | 21 147 | +87,6% |
| 560750 | Outras fibras sintéticas | 6 110 | 11 018 | +80,3% |
| 560790 | Outros materiais | 4 365 | 9 538 | +118,5% |
| 560741 | Cordéis agrícolas (polietileno) | 6 172 | 4 735 | −23,3% |
| 560721 | Cordéis agrícolas (sisal) | 2 726 | 3 834 | +40,6% |
| 560729 | Cordas de sisal/agave | 1 488 | 1 239 | −16,7% |
As importações de cabos sintéticos (560749) quase duplicaram em volume, confirmando a dominância das fibras sintéticas no mercado. Em termos de exportações, o segmento 560741 (cordéis para enfardadeiras de polietileno), que em 2015 representava o maior volume exportado (37 699t), caiu para 30 774t (−18,4%), enquanto as exportações de 560749 (cabos sintéticos) se mantiveram estáveis (≈20 000–21 000t) com preços crescentes (de €4 607/t para €6 588/t).
3.3. Choques pontuais e volatilidade revelam fragilidades nas cadeias de abastecimento
A análise de volatilidade dos principais parceiros comerciais revela padrões distintos. Do lado das importações, a Turquia (CV = 0,39) e a Índia (CV = 0,33) apresentam os maiores coeficientes de variação, enquanto a Coreia do Sul (CV = 0,17) e a Sérvia (CV = 0,22) demonstram maior estabilidade. Do lado das exportações, a Rússia (CV = 0,64) e o México (CV = 0,49) apresentam a maior volatilidade, refletindo provavelmente instabilidade política e cambial.
Foram detetados três choques significativos:
- Canadá (2022): choque de preço nas exportações, com subida de 40,4% e abnormalidade de 19,3, possivelmente relacionado com disrupções nas cadeias de abastecimento pós-COVID e tensões logísticas.
- Sérvia (2021): choque de preço nas importações (+26,7%, abnormalidade 7,9), coincidindo com as pressões inflacionárias do setor têxtil no pós-pandemia.
- Israel (2023): choque de preço nas exportações (+68,2%, abnormalidade 7,4), embora com quota de valor reduzida (1,2%).
Conclusão
O mercado europeu de cordas e cabos (CN 5607) encontra-se num ponto de inflexão. Embora a UE mantenha uma posição líquida exportadora, a dinâmica da década 2015–2025 aponta para uma crescente pressão competitiva externa. As importações cresceram quase 70% em valor, impulsionadas sobretudo pela China, que passou a representar mais de um terço do valor total das importações da UE. Paralelamente, as exportações europeias perderam volume, compensado por uma subida de preços que reflete uma aposta em segmentos de maior valor acrescentado.
A produção europeia cresceu 80,6% em valor, mas com um crescimento marginal em volume (+5,9%), confirmando uma reestruturação do setor para produtos de especialidade. Portugal, com uma quota de 25,6% na produção europeia e um RCA de 18,5, continua a ser o epicentro industrial do setor na UE, embora com sinais de perda de competitividade nas exportações (−28,1% em valor).
Os principais riscos identificados são a crescente concentração das importações na China (HHI de 1 633), a volatilidade das relações com fornecedores emergentes e a erosão do saldo comercial. A diversificação de fornecedores e a consolidação da vantagem europeia em segmentos técnicos de elevado valor serão determinantes para a sustentabilidade competitiva do setor no próximo ciclo económico.