Evolução do mercado: Doces de fruta (CN 2007) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código pautal CN 2007 — Doces, geleias, marmelades, purés e pastas de fruta, obtidos por cozimento, mesmo com adição de açúcar ou de outros edulcorantes, no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição pautal abrange três subcategorias principais: preparações homogeneizadas (200710), doces e geleias de citrinos (200791) e os restantes doces, geleias e purés de fruta (200799).
O período em análise é particularmente relevante por abranger múltiplas perturbações estruturais — desde as alterações nas relações comerciais com o Reino Unido pós-Brexit até à pandemia de COVID-19 e à escalada de preços energéticos e alimentares de 2022. A análise combina indicadores de volume, valor, preço unitário, concentração geográfica e vulnerabilidade para oferecer uma leitura abrangente das dinâmicas de mercado.
1. Crescimento robusto dos preços, não dos volumes: a valorização como motor da expansão comercial
A análise dos dados globais de comércio revela um padrão claro: o crescimento do valor comercial é desproporcionalmente superior ao crescimento dos volumes, sugerindo que a subida de preços unitários — e não a expansão física das trocas — constitui o principal motor da evolução observada.
Exportações crescem 67% em valor, mas apenas 3% em volume
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de doces de fruta passaram de €535,9 milhões para €896,9 milhões, representando um crescimento acumulado de 67,4%. Contudo, o volume exportado evoluiu apenas de 248 194 toneladas para 255 749 toneladas (+3,0%), o que significa que o preço médio de exportação subiu de €2 159/tonelada para €3 507/tonelada (+62,4%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (€ M) | 535,9 | 896,9 | +67,4% |
| Volume das exportações (kt) | 248,2 | 255,7 | +3,0% |
| Preço médio de exportação (€/t) | 2 159 | 3 507 | +62,4% |
| Valor das importações (€ M) | 244,1 | 392,7 | +60,9% |
| Volume das importações (kt) | 99,7 | 130,3 | +30,7% |
| Preço médio de importação (€/t) | 2 448 | 3 014 | +23,1% |
Este desfasamento entre valor e volume é consistente com a dinâmica inflacionista observada no setor alimentar europeu, particularmente acentuada entre 2021 e 2023, refletindo o aumento dos custos das matérias-primas, da energia e da logística.
Importações com trajetória de volume mais expressiva
Do lado das importações, a evolução é distinta: o valor cresceu 60,9% (de €244,1 M para €392,7 M), mas o volume apresentou um crescimento mais relevante de 30,7% (de 99 701 para 130 292 toneladas). Isto traduz num aumento do preço médio de importação de apenas 23,1% (de €2 448/t para €3 014/t), inferior à inflação de preços registada nas exportações. A discrepância sugere que os fornecedores externos à UE terão absorvido uma parte significativa dos custos adicionais ou que a composição da cesta importada evoluiu para produtos de menor valor unitário.
A balança comercial mantém-se estruturalmente excedentária
A UE manteve ao longo de todo o período uma balança comercial positiva, com um excedente que passou de €291,8 milhões em 2015 para €504,3 milhões em 2025 (+72,8%). O valor mínimo situou-se em 2015 e o máximo em 2023 (€556,6 M). O indicador de dependência líquida de importações confirma esta posição: com valores negativos ao longo de todo o período (de -7,4% em 2015 para -12,1% em 2025), a UE é um exportador líquido de doces de fruta, e essa vantagem acentuou-se significativamente (-64,2% no índice).
2. Reconfiguração geográfica: do mercado russo e britânico para a América do Norte
Uma das transformações mais marcantes do período reside na reconfiguração dos principais parceiros comerciais da UE, tanto no plano das exportações como das importações.
Exportações: a ascensão dos EUA e Canadá em contraste com a queda da Rússia
Os principais destinos das exportações da UE de doces de fruta sofreram uma transformação estrutural:
| Parceiro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 147,0 | 155,9 | +6,0% |
| Estados Unidos | 74,7 | 239,0 | +219,8% |
| Rússia | 48,2 | 19,5 | -59,4% |
| Suíça | 33,1 | 56,7 | +71,3% |
| Austrália | 15,6 | 35,6 | +128,0% |
| Japão | 26,9 | 29,2 | +8,7% |
| Canadá | 10,4 | 46,1 | +341,8% |
O crescimento mais espetacular registou-se nas exportações para o Canadá (+341,8%) e os Estados Unidos (+219,8%), que em 2025 constituíam o primeiro e segundo maiores mercados extra-UE em valor. Este crescimento é tanto mais notável quanto as exportações para os EUA praticamente triplicaram, passando de €74,7 M para €239,0 M. A entrada em vigor do Acordo Económico e Comercial Global (CETA) com o Canadá, em aplicação provisória desde 2017, e as condições preferenciais do comércio transatlântico terão contribuído para este redirecionamento.
Em contraste, as exportações para a Rússia caíram 59,4% (de €48,2 M para €19,5 M). Esta trajetória descendente acentuou-se particularmente após 2022, em resultado das sanções comerciais impostas no contexto do conflito na Ucrânia. O Reino Unido manteve-se como principal destino individual (+6,0%), mas o seu peso relativo na cesta exportadora diminuiu significativamente face ao crescimento da América do Norte.
Importações: a Turquia consolida a sua liderança
Do lado das importações, a Turquia emerge como o fornecedor dominante, com um crescimento de 67,9% (de €128,5 M para €215,9 M). Em 2025, as importações turcas representavam mais de metade do valor total de importações extra-UE de doces de fruta.
| Parceiro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Turquia | 128,5 | 215,9 | +67,9% |
| Reino Unido | 45,8 | 24,5 | -46,5% |
| México | 6,9 | 9,9 | +42,6% |
| Índia | 7,8 | 10,0 | +28,2% |
| Sérvia | 5,6 | 18,3 | +227,7% |
| Chile | 4,1 | 8,7 | +112,2% |
| África do Sul | 6,9 | 9,0 | +29,9% |
Dois parceiros merecem atenção especial: a Sérvia (+227,7%) e o Chile (+112,2%) registaram os crescimentos mais acentuados, refletindo provavelmente o efeito dos acordos de associação e de comércio livre da UE com estes países. Em contraste, as importações do Reino Unido diminuíram 46,5% (de €45,8 M para €24,5 M), num claro reflexo das fricções comerciais pós-Brexit que reduziram significativamente o fluxo bilateral.
Quem exporta e importa dentro da UE?
No plano intra-UE, os principais exportadores para mercados extra-UE em 2025 foram a França (€353,0 M, +91,6%), a Itália (€120,2 M, +129,6%), a Bélgica (€79,9 M, +100,2%), a Alemanha (€72,3 M, +42,4%) e a Espanha (€67,2 M, -5,5%). A França quase duplicou o seu valor exportado, consolidando a sua posição como o principal exportador europeu de doces de fruta para mercados terceiros.
No que respeita às importações extra-UE, a Alemanha (€80,0 M, +193,1%) e a Itália (€54,6 M, +254,0%) registaram os maiores crescimentos, sugerindo uma intensificação da procura interna nestes mercados.
3. Concentração moderada, especialização mediterrânica e vulnerabilidades pontuais
A análise da estrutura de mercado, da especialização produtiva e da volatilidade revela um setor com características distintas em termos de competitividade e risco.
A especialização produtiva concentra-se no Mediterrâneo
Os dados de vantagem comparativa revelada (RCA) para 2025 identificam os seguintes Estados-Membros como mais especializados na produção e exportação de doces de fruta:
| País | RCA | RSCA | Quota na produção da UE |
|---|---|---|---|
| Grécia | 2,88 | 0,48 | 1,9% |
| Itália | 2,58 | 0,44 | 20,6% |
| Letónia | 2,38 | 0,41 | 0,8% |
| Espanha | 1,96 | 0,32 | 11,4% |
| Croácia | 1,81 | 0,29 | 0,7% |
A concentração da especialização nos países mediterrânicos (Grécia, Itália, Espanha) é consistente com a tradição de conservação de fruta e a abundância de matéria-prima frutícola nestas regiões. A Itália destaca-se não apenas pelo índice de especialização (RCA de 2,58), mas pelo seu peso na produção total da UE (20,6%), o que a coloca como o segundo maior produtor europeu.
A produção total da UE de doces de fruta cresceu de 1,74 mil milhões de kg em 2015 para 1,91 mil milhões de kg em 2025 (+9,9% em volume). Contudo, o valor da produção praticamente duplicou, passando de €2,6 mil milhões para €5,1 mil milhões (+96,7%), refletindo uma subida acentuada do valor unitário de produção.
Concentração das importações: um mercado moderadamente concentrado
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor situou-se em 3 178 em 2025 (face a 3 194 em 2015), indicando um mercado moderadamente concentrado, dominado pela Turquia. O valor mínimo do HHI registou-se em 2018 (2 074), sugerindo um período de maior diversificação que não se manteve.
| Indicador HHI | 2015 | Mín. | Máx. | 2025 |
|---|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 3 194 | 2 074 (2018) | 3 411 | 3 178 |
| Exportações (valor) | 1 150 | 1 046 | 1 175 | 1 166 |
As exportações apresentam uma concentração significativamente inferior (HHI de 1 166), refletindo uma base exportadora mais diversificada entre múltiplos parceiros. A evolução do HHI de volume confirma este padrão: 1 153 para importações e 911 para exportações.
Volatilidade e choques: 2022 como ano de perturbação
A análise da volatilidade revela padrões distintos entre parceiros. Do lado das importações, a Costa Rica apresenta o maior coeficiente de variação (CV = 1,31), indicando uma relação comercial muito instável. Dos parceiros principais, o Reino Unido (CV = 0,48) e o Chile (CV = 0,36) apresentam volatilidade acima da média. Do lado das exportações, o México (CV = 1,10) e a Rússia (CV = 0,40) registam a maior instabilidade, enquanto a Suíça (CV = 0,06) e o Japão (CV = 0,08) surgem como mercados muito estáveis.
Os principais eventos de choque detetados concentram-se em 2022, coincidindo com a crise energética e alimentar global:
| Parceiro | Tipo de choque | Fluxo | Anormalidade | Variação |
|---|---|---|---|---|
| África do Sul | Preço | Importações | 47,9 | +54,9% |
| Colômbia | Preço | Importações | 30,6 | +42,4% |
| Peru | Preço | Exportações | 30,6 | +95,9% |
Estes choques de preço em 2022 refletem as disrupções nas cadeias de abastecimento globais e a escalada dos custos de transporte e energia que caracterizaram esse ano.
O perfil de subprodutos: domínio crescente das preparações de fruta (200799)
A decomposição por subcategorias revela a crescente importância do subproduto 200799 (doces e geleias excl. citrinos e homogeneizados):
| Subcategoria | Importações 2015 (t) | Importações 2025 (t) | Exportações 2015 (t) | Exportações 2025 (t) |
|---|---|---|---|---|
| 200799 — Outros doces e geleias | 78 306 | 120 971 | 181 089 | 217 495 |
| 200710 — Preparações homogeneizadas | 15 452 | 4 628 | 54 265 | 26 531 |
| 200791 — De citrinos | 5 944 | 4 693 | 12 840 | 11 723 |
O subproduto 200799 consolidou a sua dominância, representando a quase totalidade do crescimento das importações (+54,5% em volume) e uma quota crescente das exportações. Em contraste, as preparações homogeneizadas (200710) registaram uma queda acentuada tanto nas importações (-70,1% em volume) como nas exportações (-51,1% em volume). O preço das preparações homogeneizadas disparou de forma desproporcionada (de €1 655/t para €3 853/t nas importações), sugerindo uma possível retração da procura por este segmento específico ou uma subida acentuada dos custos de produção.
A intensidade comercial da UE neste setor (trade intensity) quase triplicou, passando de 9,3% para 23,1% (+149,1%), enquanto a propensão exportadora cresceu de 8,1% para 17,8% (+118,4%). Estes indicadores apontam para uma internacionalização crescente do setor europeu de doces de fruta.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por três tendências dominantes no mercado europeu de doces de fruta (CN 2007). Em primeiro lugar, a valorização dos preços constituiu o motor principal da expansão comercial, com crescimentos de preços unitários na ordem dos 23–62%, face a variações de volume significativamente mais modestas. Em segundo lugar, observou-se uma reconfiguração geográfica profunda, com o redirecionamento das exportações da Rússia para a América do Norte e a consolidação da Turquia como fornecedor dominante das importações. Em terceiro lugar, a especialização mediterrânica (Grécia, Itália, Espanha) manteve-se como base estrutural da competitividade europeia, num setor que se tornou progressivamente mais internacionalizado (trade intensity de 23,1% em 2025).
A UE mantém uma posição líquida de exportador, com um excedente comercial de €504 milhões em 2025, e uma base exportadora diversificada (HHI de 1 166), embora as importações apresentem uma concentração mais elevada face à dependência da Turquia. Os episódios de choque de 2022, embora pontuais, sublinham a importância de manter a diversificação das fontes de abastecimento. A clara erosão das preparações homogeneizadas (200710), tanto em volume como em quota de mercado, constitui uma tendência estrutural que merece acompanhamento nos próximos anos.