Evolução do mercado: Desperdícios de algodão (CN 5202) — 2015–2025
Introdução
O código CN 5202 — Desperdícios de algodão (incluindo os desperdícios de fios e os fiapos) abrange desperdícios de fios (520210), fiapos/garnetted stock (520291) e outros desperdícios de algodão (520299). Trata-se de uma matéria-prima secundária com aplicações na indústria têxtil, na produção de não-tecidos e, crescentemente, na economia circular.
Ao longo da década 2015–2025, o comércio externo da União Europeia nestes produtos foi marcado por três vetores estruturais que configuram o objeto das secções que se seguem: (i) uma acentuada compressão dos volumes em ambas as correntes — importação e exportação —, contrastando com um aumento significativo dos preços unitários; (ii) uma reconfiguração profunda da geografia comercial, com a consolidação de novos parceiros e o declínio de fornecedores tradicionais; e (iii) episódios de choque e elevada volatilidade, particularmente em torno de 2022, que reconfiguraram as relações de preço no mercado global.
1. Contração dos volumes e valorização dos preços: uma inversão da relação quantidade-preço
1.1 As importações mantiveram-se robustas em valor, mas encolheram em volume
Ao longo do período analisado, o valor total das importações da UE aumentou de 82,3 milhões EUR (2015) para 94,1 milhões EUR (2025), uma variação de +14,3%. No entanto, esta evolução disfarça uma realidade inversa ao nível do volume: a quantidade importada caiu de 85 422 toneladas (2015) para 69 493 toneladas (2025), uma redução de −18,6%. O máximo de volume importado regista-se em 2017 (99 528 toneladas), e o mínimo no último ano da série (2025).
| Grandeza | 2015 | 2025 | Variação | Mín. | Máx. |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor (M EUR) | 82,3 | 94,1 | +14,3% | 72,5 (2016) | 133,6 (2022) |
| Volume (kt) | 85,4 | 69,5 | −18,6% | 69,5 (2025) | 99,5 (2017) |
| Preço médio (EUR/t) | 964 | 1 354 | +40,5% | 895 | 1 801 |
O preço médio das importações (EUR/t) quase duplicou, passando de 964 para 1 354 EUR/t (+40,5%), com o pico a atingir 1 801 EUR/t em 2022. Esta evolução sugere que a UE, para abastecer a sua indústria, passou a pagar significativamente mais por cada tonelada importada — um fenómeno consistente com a pressão inflacionista global e os choques de oferta na cadeia do algodão que afetaram os anos de 2021–2023 (ver quadro geral).
1.2 As exportações diminuíram tanto em valor como em volume
Ao contrário das importações, as exportações da UE registaram uma contração em ambas as dimensões. O valor passou de 18,3 milhões EUR para 17,1 milhões EUR (−6,5%), enquanto o volume despencou de 21 706 toneladas para 13 756 toneladas (−36,6%), atingindo o mínimo de toda a série em 2025.
| Grandeza | 2015 | 2025 | Variação | Mín. | Máx. |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor (M EUR) | 18,3 | 17,1 | −6,5% | 15,8 (2016) | 31,5 (2022) |
| Volume (kt) | 21,7 | 13,8 | −36,6% | 13,8 (2025) | 24,0 (2017) |
| Preço médio (EUR/t) | 843 | 1 244 | +47,5% | 843 | 1 617 (2022) |
O preço médio das exportações subiu de 843 para 1 244 EUR/t (+47,5%), indicando que a UE passou a exportar volumes menores, mas a preços mais elevados. Este padrão é coerente com uma procura seletiva: os compradores internacionais procuraram desperdícios de maior qualidade ou valorizaram stocks limitados num mercado apertado.
1.3 O défice comercial alargou-se
O saldo comercial da UE em CN 5202 permaneceu persistentemente negativo ao longo de todo o período, passando de −64,0 milhões EUR em 2015 para −77,0 milhões EUR em 2025 (−20,3%). Os défices mais profundos ocorreram em 2021 e 2022, atingindo −103,6 milhões EUR no mínimo da série — um reflexo direto do choque de preços daqueles anos (ver quadro geral). Em síntese, a UE é estruturalmente importadora líquida de desperdícios de algodão, e a sua dependência externa agravou-se ao longo da década.
2. Reconfiguração da geografia comercial: consolidações, declínios e novas rotas
2.1 A Turquia tornou-se o principal fornecedor, a Índia ganhou peso significativo
No lado das importações por parceiro, a Turquia consolidou-se como principal origem, crescendo de 35,8 milhões EUR em 2015 para 50,3 milhões EUR em 2025 (+40,5%). A Índia, por sua vez, mais do que duplicou a sua quota, passando de 14,8 milhões EUR para 28,5 milhões EUR (+92,8%), tendo atingido o pico de 56,3 milhões EUR em 2022.
| Fornecedor | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação | Pico (M EUR) |
|---|---|---|---|---|
| Turquia | 35,8 | 50,3 | +40,5% | 56,3 (2021) |
| Índia | 14,8 | 28,5 | +92,8% | 56,3 (2022) |
| Paquistão | 19,3 | 4,8 | −74,9% | 22,4 (2018) |
| Maurícias | 1,4 | 2,1 | +49,5% | 2,1 (2025) |
| EUA | 1,0 | 1,7 | +79,4% | 3,5 (2022) |
Juntas, a Turquia e a Índia representaram em 2022 quase 84% do valor importado — uma concentração que, como veremos, se refletiu em episódios de choque de preço.
2.2 O colapso do Paquistão e o surgimento de parceiros periféricos
O declínio mais acentuado nas importações foi o do Paquistão: de 19,3 milhões EUR (2015) para apenas 4,8 milhões EUR (2025), uma queda de −74,9%. Este parceiro, que em 2018 era ainda o maior fornecedor da UE (22,4 milhões EUR), perdeu quase toda a sua relevância. A contração no mesmo período verificou-se em Bangladesh (−25,5%). Em contrapartida, parceiros como El Salvador (+32,3%) e as Maurícias (+49,5%) ganharam relevância, sugerindo uma diversificação geográfica da base de fornecimento.
Esta dinâmica é consistente com a concentração das importações (HHI), que subiu de 2 783 (2015) para 3 819 (2025), um aumento de +37,2%. Apesar da maior dispersão geográfica em alguns parceiros menores, o peso crescente da Turquia e da Índia fez com que a concentração efetiva se tenha agravado.
2.3 Os destinos de exportação reconfiguraram-se radicalmente
A composição das exportações mostrou mudanças dramáticas:
| Destino | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 6,4 | 2,2 | −65,0% |
| Suíça | 8,5 | 6,4 | −24,1% |
| EUA | 0,5 | 3,3 | +586,4% |
| Vietname | <0,1 | 0,7 | n/d* |
| Hong Kong | 0,6 | 0,05 | −90,8% |
*Valor de 10 EUR em 2015, tornando a variação percentual sem significado estatístico.
Dois padrões emergem:
-
O Reino Unido, outrora o maior destino (8,4 milhões EUR no máximo de 2018), encolheu para 2,2 milhões EUR (−65,0%) — provavelmente em consequência do Brexit e da reconfiguração das cadeias logísticas UE-Reino Unido.
-
Os EUA tornaram-se o terceiro maior destino (3,3 milhões EUR), com uma variação de quase +590% face a 2015. Hong Kong, que em 2018 movimentava 0,8 milhões EUR, praticamente desapareceu como destino.
Curiosamente, a concentração das exportações (HHI) diminuiu de 3 407 para 2 155 (−36,8%), indicando uma maior diversificação dos mercados de destino, apesar das flutuações individuais.
2.4 A Alemanha (re)afirmou-se como hub comercial da UE
Nas exportações por Estado-Membro, a Alemanha passou de 6,7 milhões EUR para 10,7 milhões EUR (+60,1%), consolidando-se como principal exportador — e também o Estado-Membro com maior valor em importações (31,9 milhões EUR em 2025, +280,3% face a 2015). Espanha duplicou as suas exportações (1,1→3,2 milhões EUR, +198,1%). Em contraste, França quase desapareceu como exportador (6,3→0,4 milhões EUR, −93,8%), e Portugal caiu −95,5%.
A especialização, medida pelo indicador RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage), confirma que Bélgica (RSCA = 0,62) e Bulgária (0,44) são os Estados-Membros com vantagem comparativa mais pronunciada em desperdícios de algodão, enquanto Polónia (−0,99), Áustria (−0,99) e Suécia (−0,98) apresentam uma subespecialização quase total.
3. Choques de 2022 e volatilidade: o ano que alterou o mercado
3.1 O ciclo 2021–2022: preços extremos e défices record
O ano de 2022 constituiu um ponto de inflexão para o mercado. O valor das importações da UE atingiu 133,6 milhões EUR — o máximo da série, com um aumento de 63% face a 2019 (78,5 milhões EUR, último ano pré-pandemia). Os preços de importação atingiram 1 801 EUR/t, o pico histórico na janela analisada. O défice comercial atingiu −103,6 milhões EUR em 2021, o mais profundo de todo o período.
Tanto as importações como as exportações apresentaram picos sincronizados em 2022, sugerindo que o choque inflacionista afetou toda a cadeia de valor — da matéria-prima refugada até aos canais de redistribuição européia.
3.2 Choques identificados: Turquia, Índia e Paquistão no epicentro
A análise de volatilidade e de choques de oferta identifica três eventos de choque de preço na proximidade de 2022:
| Evento | Tipo | Corrente | Desvio | Variação | Anomalia | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Paquistão | Preço | Importação | 60,7% | 283,3 | +15,3% | 2022 |
| EUA | Preço | Exportação | 47,9% | 29,5 | +24,3% | 2022 |
| Turquia | Preço | Importação | 53,8% | 25,8 | +49,2% | 2022 |
O caso do Paquistão é o mais marcante: uma anomalia de 283,3 (normalizado), com uma variação de preço de +60,7% num único ano. Este choque foi simultâneo ao colapso das quantidades importadas do Paquistão em toda a década — sugerindo que as condições macroeconómicas e as disrupções logísticas de 2021–2022 (incluindo as enchentes devastadoras no Paquistão em 2022) tiveram efeitos profundos na capacidade de fornecimento e na formação de preços.
3.3 A volatilidade é desigual entre parceiros
Os coeficientes de variação (CV) dos parceiros de exportação revelam padrões de risco assimétricos:
- Exportações de elevada volatilidade: Hong Kong (CV = 1,86), Bangladesh (1,84), Canadá (3,23), México (1,31) — parceiros com fluxos erráticos e, frequentemente, de pequena dimensão.
- Importações de baixa volatilidade: Turquia (CV = 0,16), Maurícias (0,19) — fornecedores estáveis que funcionam como âncora do abastecimento europeu.
- Importações de elevada volatilidade: Vietname (CV = 1,57), Indonésia (0,97), Costa Rica (0,89) — parceiros periféricos e esporádicos.
Esta assimetria sugere que a UE, embora busque diversificação, continua dependente de um núcleo reduzido de fornecedores estáveis (primordialmente Turquia e, em menor grau, Maurícias), mantendo canais secundários altamente voláteis.
3.4 A composição por subproduto revela crescimento dos fiapos nos últimos anos
A segmentação por subproduto oferece uma leitura complementar:
Importações por subproduto (toneladas):
| CN subproduto | 2015 | 2019 | 2022 | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| 520299 — Outros desperdícios | 76 091 | 65 445 | 68 217 | 63 680 | −16,3% |
| 520291 — Fiapos | 7 120 | 7 370 | 3 581 | 3 822 | −46,3% |
| 520210 — Desperdícios de fios | 2 210 | 1 814 | 2 339 | 1 991 | −9,9% |
O subproduto 520299 (outros desperdícios) domina a composição, representando cerca de 90% do volume em todos os anos. Os fiapos (520291) perderam quase metade dos volumes importados (7 120→3 822 toneladas, −46,3%). Em termos de valor, contudo, os fiapos ganharam peso relativo significativo graças à forte valorização de preços: o preço médio de importação dos fiapos mais do que duplicou (de 571 para 1 474 EUR/t), a maior subida percentual entre os subprodutos.
Exportações por subproduto (toneladas):
| CN subproduto | 2015 | 2019 | 2022 | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| 520299 — Outros desperdícios | 18 404 | 12 988 | 16 868 | 11 251 | −38,9% |
| 520291 — Fiapos | 2 662 | 4 982 | 4 446 | 2 012 | −24,4% |
| 520210 — Desperdícios de fios | 639 | 592 | 293 | 493 | −22,9% |
As exportações de desperdícios de fios (520210) apresentam uma anomalia relevante em 2024, com 4 711 toneladas exportadas e um preço médio de apenas 167 EUR/t — possivelmente um lote anomalo ou stock de liquididade, contrastando com o preço de 3 461 EUR/t em 2025.
Conclusão
O mercado europeu de desperdícios de algodão (CN 5202) entre 2015 e 2025 é um caso revelador das tensões entre a procura industrial perdurável e as restrições de oferta numa matéria-prima secundária. Os principais resultados podem sintetizar-se em três eixos:
-
Declínio estrutural dos volumes, mas expansão dos valores: a UE importa e exporta menos toneladas, mas a preços consideravelmente mais elevados. Esta valorização reflete tanto o choque inflacionista de 2021–2022 como uma potencial revalorização dos desperdícios como recurso na economia circular.
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Concentração crescente das importações na Turquia e na Índia: os dois maiores fornecedores capturaram quota crescente de um mercado que, simultaneamente, perdeu atores como o Paquistão — cujo colapso foi abrupto (−74,9%) e associado a choques de preço extremos. A concentração HHI de importações subiu 37%, sinal de fragilização da diversificação da base de fornecimento.
-
Reconfiguração dos mercados de destino das exportações europeias: o Brexit, a consolidação dos EUA como destino e o desaparecimento de Hong Kong como hub redistribuidor redesenharam o mapa das exportações da UE, cuja concentração diminuiu (HHI −37%), mas cujo volume total caiu quase 37% em termos de quantidade.
Tendo em conta o contexto atual da transição verde e das pressões regulatorias sobre a circularidade têxtil (incluindo a Estratégia da UE para Têxteis Sustentáveis e Circulares), os desperdícios de algodão poderão ganhar relevância estratégica crescente — o que tornará ainda mais pertinente a monitorização da sua base de fornecimento e da volatilidade de preços.