Evolução do mercado: Carnes preparadas (CN 1602) — 2015–2025
Introdução
O código combinado 1602 abrange as preparações e conservas de carne, miudezas, sangue ou insetos, excluindo enchidos, extratos e sumos de carne. Trata-se de um setor relevante no comércio agroalimentar da União Europeia, que envolve uma vasta gama de subprodutos — desde preparações de aves domésticas (160232) até conservas de carne bovina (160250), suína (160249, 160241) e de aves de capoeira diversas (160231, 160239).
No período compreendido entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor foi marcado por transformações profundas. O superavit comercial mais do que duplicou, passando de 676 milhões de euros em 2015 para 1.543 milhões de euros em 2025 (+128,2%), impulsionado sobretudo pela escalada de preços. Em simultâneo, as parcerias comerciais reconfiguraram-se significativamente, com a Tailândia e a China a ganharem peso nas importações, enquanto o Brasil e o Reino Unido perderam quota. A produção interna da UE registou um crescimento notável, tanto em volume (+71,9%) como em valor (+122,1%).
Este relatório analisa as principais dinâmicas observadas, estruturada em três eixos: a evolução do balanço comercial, a reconfiguração das parcerias geográficas e a consolidação do setor produtivo europeu.
1. Superavit comercial em forte expansão, impulsionado pela subida de preços
O valor das exportações cresceu 45,6% enquanto os volumes se mantiveram praticamente estáveis
A evolução do comércio externo da UE no setor CN 1602 entre 2015 e 2025 revela um padrão claro: o crescimento do valor das exportações foi inteiramente sustentado pela apreciação dos preços, uma vez que os volumes exportados se mantiveram estáveis.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor | 1.820 M€ | 2.651 M€ | +45,6% |
| Exportações — volume | 506.542 t | 498.978 t | −1,5% |
| Exportações — preço médio | 3.594 €/t | 5.314 €/t | +47,9% |
| Importações — valor | 1.145 M€ | 1.109 M€ | −3,1% |
| Importações — volume | 326.167 t | 262.358 t | −19,6% |
| Importações — preço médio | 3.509 €/t | 4.226 €/t | +20,4% |
| Saldo comercial | 676 M€ | 1.543 M€ | +128,2% |
Fonte: Visão geral do comércio
A redução das importações aprofundou a posição de excedente da UE
Do lado das importações, a contração foi tanto em volume (−19,6%) como em termos relativos ao valor (−3,1%). A dependência líquida de importações manteve-se negativa ao longo de todo o período (de −3,3% para −3,9%), confirmando que a UE é estruturalmente exportadora líquida neste setor. A intensidade das trocas comerciais (trade intensity) subiu de 3,4% para 3,9%, e a propensão exportadora cresceu de 3,3% para 3,9%, sugerindo uma crescente integração do setor nos mercados globais.
Os preços de exportação subiram mais do que os de importação, melhorando os termos de troca
A subida dos preços de exportação (+47,9%) superou significativamente a dos preços de importação (+20,4%), o que indica uma melhoria dos termos de troca da UE. Isto pode refletir a valorização de produtos de maior valor acrescentado nas exportações europeias, bem como efeitos inflacionários generalizados no setor agroalimentar. Em média, os preços de exportação atingiram o máximo do período em 2025 (5.314 €/t), enquanto os preços de importação atingiram o máximo em 2023 (4.612 €/t) antes de recuarem ligeiramente.
2. Reconfiguração geográfica: declínio dos fornecedores tradicionais e ascensão da Ásia
As importações da Tailândia e da China cresceram acentuadamente, substituindo o Brasil e o Reino Unido
A estrutura das importações por parceiro sofreu uma transformação profunda ao longo do período:
| Parceiro | Importações 2015 | Importações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Brasil | 431 M€ | 230 M€ | −46,6% |
| Tailândia | 241 M€ | 370 M€ | +53,0% |
| Reino Unido | 365 M€ | 192 M€ | −47,4% |
| China | 71 M€ | 248 M€ | +250,6% |
| Sérvia | 0,6 M€ | 7,4 M€ | +1.087,7% |
| Ucrânia | 2,5 M€ | 19,7 M€ | +694,2% |
| Argentina | 7,8 M€ | 3,5 M€ | −55,6% |
A Tailândia tornou-se o maior fornecedor extra-UE em 2025, ultrapassando o Brasil, que ocupava essa posição em 2015. A China registou o crescimento mais espetacular (+250,6%), passando de 71 milhões para 248 milhões de euros — um ritmo que reflete a crescente competitividade chinesa no segmento de preparações avícolas. A concentração das importações (HHI por valor) diminuiu de 2.915 para 2.354 (−19,3%), confirmando uma maior diversificação geográfica dos fornecedores.
O Reino Unido consolidou-se como destino dominante das exportações da UE
Do lado das exportações, o Reino Unido permaneceu como parceiro esmagadoramente dominante:
| Parceiro | Exportações 2015 | Exportações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1.318 M€ | 1.865 M€ | +41,5% |
| Estados Unidos | 60 M€ | 89 M€ | +47,0% |
| Suíça | 64 M€ | 110 M€ | +70,6% |
| Japão | 21 M€ | 46 M€ | +116,1% |
| Ucrânia | 5,5 M€ | 26,5 M€ | +383,6% |
| Sérvia | 13,6 M€ | 29,0 M€ | +113,1% |
| Angola | 17,9 M€ | 10,7 M€ | −40,2% |
O Reino Unido absorveu 70,3% do valor total das exportações da UE para países extra-UE em 2025 (1.865 de 2.651 milhões de euros). A concentração das exportações (HHI) permaneceu elevada (5.051 em 2025), refletindo esta dependência. A Ucrânia e a Sérvia registaram os crescimentos mais expressivos como destinos, embora em valores absolutos ainda modestos.
Choques de preços pontuais em parceiros secundários
A análise de volatilidade e choques identificou três eventos relevantes:
- Angola (2023, exportações): choque de preço com variação de +103,3% e índice de anormalidade de 14,6 — o mais significativo do período, embora com quota de apenas 0,9% no valor total das exportações.
- Japão (2018, exportações): queda de preço de −31,3%, com índice de anormalidade de 10,0.
- Tailândia (2022, importações): subida de preço de +23,0%, com quota de 35,1% nas importações, refletindo a crescente importância deste fornecedor.
Os parceiros com maior volatilidade nas importações incluem a Ucrânia (CV 0,87) e a Sérvia (CV 0,59), enquanto nas exportações se destacam a Ucrânia (CV 0,77) e o Canadá (CV 0,47).
3. Produção europeia em forte expansão com dominância avícola crescente
A produção da UE mais do que duplicou em valor ao longo da década
Os dados de produção revelam um crescimento notável do setor na UE:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Volume de produção | 4.364 M kg | 7.501 M kg | +71,9% |
| Valor de produção | 18.314 M€ | 40.683 M€ | +122,1% |
O valor de produção cresceu a um ritmo muito superior ao volume, refletindo a mesma dinâmica de inflação de preços observada no comércio externo. O preço médio de produção interno subiu significativamente, o que contribuiu para a melhoria dos termos de troca nas exportações.
A Polónia e a Dinamarca lideram a especialização europeia no setor
De acordo com os indicadores de especialização em 2025, os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada (RSCA) neste setor são:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota na produção | Quota nas exportações totais |
|---|---|---|---|---|
| Polónia | 0,464 | 2,73 | 18,1% | 6,6% |
| Dinamarca | 0,405 | 2,36 | 4,1% | 1,7% |
| Croácia | 0,287 | 1,80 | 0,7% | 0,4% |
| Hungria | 0,161 | 1,38 | 3,7% | 2,7% |
| Áustria | 0,156 | 1,37 | 4,5% | 3,3% |
A Polónia destaca-se com o maior RSCA (0,464) e um crescimento extraordinário das exportações: passou de 185 milhões de euros em 2015 para 609 milhões em 2025 (+228,8%), tornando-se o segundo maior exportador da UE, atrás apenas da Irlanda (por Estado-Membro). Na extremidade oposta, Malta (RSCA −1,00), Chipre (−0,76) e Finlândia (−0,71) apresentam a menor especialização no setor.
O segmento avícola domina tanto as importações como as exportações
A segmentação por produto revela a clara dominância do segmento avícola (CN 160232 — aves da espécie Gallus domesticus):
Importações por segmento (2025):
| Segmento | Volume | Valor | Preço médio |
|---|---|---|---|
| 160232 — Aves Gallus domesticus | 213.198 t | 821 M€ | 3.850 €/t |
| 160239 — Patos, gansos, pintadas | 21.991 t | 92 M€ | 4.169 €/t |
| 160250 — Bovina | 15.898 t | 126 M€ | 7.900 €/t |
| 160231 — Peruas e perus | 3.223 t | 13 M€ | 4.186 €/t |
| 160249 — Outras preparações suínas | 5.541 t | 41 M€ | 7.418 €/t |
| 160241 — Pernas de suíno | 648 t | 4 M€ | 6.191 €/t |
| 160290 — Outras carnes/miudezas | 1.527 t | 9 M€ | 5.966 €/t |
Exportações por segmento (2025):
| Segmento | Volume | Valor | Preço médio |
|---|---|---|---|
| 160232 — Aves Gallus domesticus | 239.627 t | 1.120 M€ | 4.676 €/t |
| 160249 — Outras preparações suínas | 97.770 t | 593 M€ | 6.060 €/t |
| 160241 — Pernas de suíno | 58.173 t | 347 M€ | 5.958 €/t |
| 160250 — Bovina | 47.895 t | 294 M€ | 6.144 €/t |
| 160231 — Peruas e perus | 20.188 t | 124 M€ | 6.133 €/t |
| 160239 — Patos, gansos, pintadas | 5.918 t | 30 M€ | 5.112 €/t |
| 160290 — Outras carnes/miudezas | 7.321 t | 33 M€ | 4.489 €/t |
O segmento 160232 (aves domésticas) representa 81,3% do volume importado e 48,0% do volume exportado em 2025. Do lado das exportações, a composição é mais diversificada, com as preparações suínas (160249 e 160241) a representarem em conjunto 31,2% do volume. A importação de preparações de perua (160231) registou um colapso dramático — de 47.574 toneladas em 2015 para apenas 3.223 toneladas em 2025 (−93,2%) — sugerindo uma reconfiguração significativa das cadeias de abastecimento neste subsegmento.
Conclusão
O setor das carnes preparadas (CN 1602) na União Europeia passou por uma década de transformações profundas entre 2015 e 2025. A principal conclusão é que a UE consolidou a sua posição como exportadora líquida, com o superavit comercial a crescer 128,2%, impulsionado sobretudo pela apreciação dos preços (+47,9% nas exportações) mais do que pelo crescimento dos volumes.
Em termos geográficos, observou-se uma significativa reconfiguração das cadeias de abastecimento. A Tailândia e a China emergiram como fornecedores cada vez mais importantes, substituindo parcialmente o Brasil e o Reino Unido, que registaram quedas acentuadas. Do lado exportador, a concentração no Reino Unido permanece elevada (cerca de 70% do valor), constituindo um fator de vulnerabilidade.
A produção interna cresceu fortemente (+71,9% em volume, +122,1% em valor), com a Polónia a destacar-se como principal motor de crescimento e especialização. O segmento avícola permanece dominante tanto nas importações como nas exportações, embora as exportações apresentem uma composição mais diversificada, com as preparações suínas a constituírem uma fatia significativa. As dinâmicas de preços — com exportações a subir mais do que importações — sugerem uma melhoria estrutural dos termos de troca do setor europeu nos mercados internacionais.