Evolução do mercado: Calandras (CN 8420) — 2015–2025
Introdução
O código NC 8420 abrange calandras e laminadores (exceto para metais ou vidro), bem como os seus cilindros e peças associadas. Trata-se de um setor de base industrial com aplicação em indústrias como a do papel, têxtil, borracha e plásticos. Entre 2015 e 2025, a União Europeia manteve uma posição de superavit comercial estrutural neste produto, com exportações a rondar entre 3 e 6 vezes o valor das importações. No entanto, a dinâmica do período revela transformações significativas: crescimento do valor puxado sobretudo pelos preços, reorientação geográfica dos fluxos comerciais — com perda acentuada do mercado russo e consolidação dos mercados anglófonos — e aceleração das importações, sobretudo da Ásia, com maior concentração das fontes de abastecimento.
A produção interna da UE registou uma evolução paradoxal: o volume de unidades produzidas quase triplicou (de 2,2 milhões para 6,0 milhões de unidades, +167,2%), enquanto o valor da produção caiu 30,1% (de €607,7 milhões para €424,8 milhões). Este dado sugere uma reorientação da base produtiva europeia para componentes e peças de menor valor unitário, num contexto de crescente especialização e integração em cadeias de valor globais.
1. Valorização das exportações europeias: crescimento puxado pelos preços apesar da estagnação dos volumes
1.1. A UE mantém um superavit comercial robusto mas estagnado em termos absolutos
Ao longo do período analisado, a UE manteve uma posição de exportador líquido dominante no setor das calandras. O saldo comercial passou de €275,7 milhões em 2015 para €287,1 milhões em 2025, um crescimento modesto de apenas 4,1%. No entanto, este aparente estagnamento esconde uma evolução interna muito dinâmica:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 329,7 M€ | 405,0 M€ | +22,9% |
| Exportações (volume) | 20 443 t | 18 866 t | −7,7% |
| Importações (valor) | 53,9 M€ | 117,9 M€ | +118,6% |
| Importações (volume) | 6 001 t | 10 075 t | +67,9% |
| Saldo comercial | 275,7 M€ | 287,1 M€ | +4,1% |
O valor máximo das exportações foi registado em 2024, com €498,8 milhões, refletindo um pico cíclico que não se manteve em 2025. Paralelamente, o valor máximo das importações situou-se nos €144,6 milhões (também em 2024). O recurso líquido a importações manteve-se negativo em todo o período, confirmando a condição permanente de exportador líquido da UE, com uma intensificação dessa posição.
1.2. A subida dos preços como motor principal do crescimento do valor exportado
O crescimento de 22,9% no valor das exportações foi inteiramente sustentado pela subida dos preços médios, que passaram de €16 125/t para €21 468/t (+33,1%), enquanto os volumes exportados diminuíram 7,7%. Este fenómeno é consistente com dois fatores complementares:
- Inflação de custos de produção: o aumento dos preços das matérias-primas, da energia e dos componentes eletrónicos ao longo do período, agravado pelas disrupções pós-COVID e pela crise energética de 2022.
- Premiumização da oferta europeia: a crescente especialização dos fabricantes da UE em equipamentos de maior valor acrescentado, com maior conteúdo tecnológico e serviços associados.
O preço médio das exportações de calandras e laminadores (842010) subiu de €18 503/t para €22 665/t (+22,5%), enquanto o das peças e acessórios (842099) registou uma valorização ainda mais acentuada, de €23 746/t para €46 843/t (+97,3%). Do lado das importações, os preços médios globais subiram de €8 987/t para €11 700/t (+30,2%), sinalizando uma pressão inflacionária transversal ao setor.
1.3. Diferenciação por segmento: peças e acessórios como motor de crescimento
A análise por subproduto revela dinâmicas distintas entre os três segmentos que compõem o código 8420:
| Segmento | Exportações 2015 | Exportações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 842010 – Calandras e laminadores | 181,5 M€ | 218,0 M€ | +20,1% |
| 842091 – Cilindros | 119,7 M€ | 131,5 M€ | +9,9% |
| 842099 – Peças e acessórios | 28,5 M€ | 55,5 M€ | +94,7% |
O segmento de peças e acessórios (842099) registou o crescimento mais expressivo (+94,7%), praticamente duplicando o seu peso nas exportações (de 8,7% para 13,7% do total). Este crescimento reflete a crescente importância do aftermarket e da manutenção de equipamentos já instalados globalmente, bem como a possível deslocalização da montagem final de calandras para mercados terceiros, mantendo na UE a fornecção de componentes de elevado valor.
No lado das importações, a evolução por segmento mostra um crescimento generalizado:
| Segmento | Importações 2015 | Importações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 842091 – Cilindros | 28,7 M€ | 64,1 M€ | +123,3% |
| 842010 – Calandras e laminadores | 19,7 M€ | 35,7 M€ | +80,9% |
| 842099 – Peças e acessórios | 5,5 M€ | 18,1 M€ | +230,5% |
Os cilindros (842091) continuam a dominar as importações, representando 54,4% do valor total em 2025 (vs. 53,3% em 2015), com volumes que cresceram 59,6% (de 4 239 t para 6 765 t). As peças e acessórios cresceram em termos percentuais (+230,5%), embora partindo de uma base mais reduzida.
2. Reorientação geográfica: colapso russo e viragem para os mercados anglófonos
2.1. A queda abrupta das exportações para a Rússia
A transformação mais marcante na geografia das exportações da UE foi o colapso das vendas para a Rússia. De €23,4 milhões em 2015, as exportações caíram para apenas €4,6 milhões em 2025, uma redução de 80,2%. A queda acentuou-se significativamente após 2022, em resultado das sanções económicas impostas pela UE no contexto do conflito Rússia-Ucrânia. O choque de preço registado nas exportações para a Rússia em 2020 (anomalia de 22,2, desvio de +55,0%) pode ter sido um precursor das tensões que se seguiriam, refletindo alterações nas condições de pagamento e risco associadas àquele mercado.
| Parceiro | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Rússia | 23,4 M€ | 4,6 M€ | −80,2% |
| EUA | 63,4 M€ | 93,6 M€ | +47,6% |
| China | 53,5 M€ | 58,8 M€ | +9,8% |
| Reino Unido | 11,2 M€ | 20,1 M€ | +78,4% |
| Turquia | 12,4 M€ | 18,6 M€ | +49,6% |
| Índia | 21,2 M€ | 21,6 M€ | +1,9% |
| Suíça | 32,4 M€ | 22,8 M€ | −29,5% |
2.2. Os Estados Unidos e o Reino Unido como motores de crescimento exportador
A perda do mercado russo foi mais do que compensada pelo crescimento nas exportações para os Estados Unidos (+47,6%, de €63,4 M€ para €93,6 M€) e para o Reino Unido (+78,4%, de €11,2 M€ para €20,1 M€). O pico das exportações para os EUA atingiu €162,3 milhões, refletindo um ciclo de investimento industrial norte-americano particularmente favorável. É de notar que as exportações para os EUA apresentam uma das menores volatilidades entre os principais parceiros (coeficiente de variação de 0,095), sugerindo uma relação comercial madura e estável. Pelo contrário, as exportações para a Rússia (CV de 0,548), o Brasil (CV de 0,544) e a Tailândia (CV de 0,519) apresentaram flutuações muito mais acentuadas.
No lado das importações, registou-se igualmente um choque de preço significativo nas importações dos EUA em 2021 (anomalia de 40,3, desvio de +75,4%), que afetou 17,5% do valor total das importações — o evento de maior magnitude registado no período.
2.3. A consolidação da Turquia como parceiro estratégico bidirecional
A Turquia emergiu como um parceiro comercial bidirecional cada vez mais importante. As exportações da UE para a Turquia cresceram 49,6% (de €12,4 M€ para €18,6 M€), enquanto as importações se mantiveram estáveis em torno dos €3,4 milhões (−2,1%). O choque de preço registado nas importações turcas em 2019 (anomalia de 13,0, desvio de +67,1%) sugere flutuações pontuais, mas a médio prazo a relação comercial estabilizou. Este padrão sugere que a Turquia se está a converter num centro de montagem e transformação industrial que complementa a capacidade produtiva europeia, importando equipamentos de elevada qualidade da UE para integrar nas suas próprias cadeias de exportação.
3. Importações em aceleração: concentração crescente e novos atores asiáticos
3.1. A Coreia do Sul e a China como fornecedores em rápida ascensão
O crescimento mais impressionante nas importações da UE verificou-se nos fornecedores asiáticos:
| Fornecedor | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Coreia do Sul | 0,7 M€ | 11,7 M€ | +1 579,8% |
| China | 6,5 M€ | 24,5 M€ | +276,4% |
| Suíça | 17,0 M€ | 39,5 M€ | +132,9% |
| EUA | 8,9 M€ | 14,1 M€ | +57,9% |
| Reino Unido | 4,3 M€ | 4,3 M€ | +0,2% |
| Turquia | 3,5 M€ | 3,4 M€ | −2,1% |
| Noruega | 0,4 M€ | 0,3 M€ | −41,1% |
A Coreia do Sul destaca-se pelo crescimento exponencial (+1 579,8%), passando de um fornecedor marginal (€0,7 milhões) a um ator relevante (€11,7 milhões), com um pico de €25,2 milhões. No entanto, este fornecedor apresenta a maior volatilidade entre todos os parceiros analisados (CV de 1,345), o que sugere uma relação comercial ainda instável e dependente de encomendas pontuais de grande dimensão. A China triplicou praticamente as suas exportações para a UE, atingindo um pico de €49,7 milhões, embora com flutuações consideráveis (CV de 0,461). Este crescimento reflete a crescente competitividade dos fabricantes chineses no segmento de equipamentos industriais de média gama.
3.2. A Suíça como parceiro comercial dominante e a lógica do comércio intra-industrial
A Suíça é simultaneamente o maior fornecedor de importações (€39,5 milhões em 2025, +132,9%) e um destino significativo de exportações (€22,8 milhões). Este padrão de comércio bidirecional em ambos os sentidos é típico de comércio intra-industrial, onde países com estruturas industriais semelhantes trocam produtos diferenciados dentro do mesmo setor. A proximidade geográfica, a integração ao mercado único através de acordos bilaterais e a especialização complementar explicam esta dinâmica. As importações suíças mantêm uma volatilidade moderada (CV de 0,241), refletindo uma relação comercial estruturalmente sólida.
3.3. Maior concentração das importações e riscos para a autonomia do abastecimento
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor subiu de 1 567 para 1 842 (+17,6%), indicando uma concentração crescente das fontes de abastecimento. Em volume, a concentração praticamente duplicou:
| Concentração HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 1 567 | 1 842 | +17,6% |
| Importações (volume) | 1 163 | 2 335 | +100,8% |
| Exportações (valor) | 899 | 928 | +3,3% |
| Exportações (volume) | 922 | 988 | +7,2% |
Enquanto a base de exportação da UE permaneceu diversificada (HHI estável em torno dos 900), o lado das importações tornou-se significativamente mais concentrado. O intensidade comercial da UE neste setor mais do que duplicou (de 51,5% para 113,1%), refletindo uma maior abertura e interdependência com mercados externos, enquanto a propensão para exportar disparou de 46,5% para 117,5%.
Embora a UE mantenha uma posição de superavit robusta, a crescente dependência de fornecedores externos para cilindros e componentes específicos constitui um risco potencial de abastecimento, como demonstrado pelos choques de preço detetados — nomeadamente o pico de preços nas importações dos EUA em 2021, que afetou 17,5% do valor total das importações com uma anomalia de 40,3.
Conclusão
O mercado europeu de calandras e laminadores (CN 8420) entre 2015 e 2025 é marcado por três tendências convergentes: (1) a valorização das exportações europeias através de preços mais elevados, num contexto de volumes estáveis ou em ligeira contração; (2) uma profunda reorientação geográfica, com o desaparecimento da Rússia como mercado de destino e a consolidação dos EUA, Reino Unido e Turquia como parceiros cada vez mais relevantes; e (3) a aceleração das importações, com a entrada de novos fornecedores asiáticos (China e Coreia do Sul) e o aumento da concentração das fontes de abastecimento.
A UE mantém uma posição estrutural de exportador líquido, com um superavit que se manteve acima dos €275 milhões ao longo de todo o período. Contudo, a produção interna revela sinais de transformação profunda: a produção em volume quase triplicou (+167,2%), mas o valor caiu 30,1%, sugerindo uma reorientação para componentes de menor valor unitário. Os Estados Membros com maior especialização revelada neste setor são a Áustria (RSCA de 0,68), a Eslovénia (0,66) e a Itália (0,49), enquanto a Itália (€171,7 milhões) e a Alemanha (€159,6 milhões) dominam em valor absoluto de exportações, representando juntas mais de 80% do total da UE em 2025.
Os principais riscos identificados residem na crescente concentração das importações, na dependência de fornecedores específicos para cilindros — que representam mais de metade do valor importado — e na elevada volatilidade dos novos parceiros asiáticos. A manutenção da competitividade europeia dependerá da capacidade de inovação tecnológica e de manutenção de cadeias de abastecimento diversificadas, num contexto geopolítico crescentemente volátil.