Evolução do mercado: Refrigeradores e congeladores (CN 8418) — 2015–2025
Introdução
O código CN 8418 abrange um conjunto alargado de produtos de refrigeração e produção de frio — desde combinações de refrigeradores e congeladores domésticos (841810, 841821, 841830, 841840) a móveis com equipamento de refrigeração (841850), bombas de calor (841861), equipamentos industriais de frio (841869) e respetivas peças (841899). O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais profundas no comércio externo da União Europeia neste setor: uma vaga de importações de grandes dimensões, uma viragem na balança comercial, alterações significativas na composição dos parceiros e reconfigurações no aparelho produtivo europeu. Este relatório analisa as principais dinâmicas observáveis com base nos dados disponibilizados.
1. A erosão do excedente comercial europeu face à maré ascendente das importações
1.1. A inversão da balança comercial: de um superavite de 1,3 mil milhões de euros a um equilíbrio residual
O indicador mais marcante do período é o colapso do excedente comercial da UE na posição CN 8418. Em 2015, a UE registava uma balança positiva de 1 320 M€, reflectindo uma posição líquida exportadora consolidada. Em 2025, esse valor tinha caído para meros 34 M€ — uma redução de 97,4% (Balança comercial — panorama geral). No ponto mais baixo do período, a UE chegou mesmo a registar um défice de 830 M€, revertendo temporariamente uma posição estruturalmente exportadora.
O índice de dependência líquida de importações confirma esta evolução: de -19,0% em 2015 (i.e., a UE exportava líquida) passou para um máximo de +2,8%, estabilizando em -0,1% em 2025 — um limiar de autossuficiência virtual.
1.2. As importações duplicam em valor, puxadas por crescimento de volume e de preço
O valor das importações extra-UE passou de 3 130 M€ em 2015 para 6 210 M€ em 2025, crescimento de 98,4%, atingindo um pico intercalar de cerca de 6 800 M€. O volume importado subiu de 728 548 t para 1 212 411 t (+66,4%), enquanto o preço médio subiu de 4 296 €/t para 5 122 €/t (+19,2%). O crescimento das importações combinou, portanto, expansão quantitativa e valorização unitária.
Acompanhamento das importações por parceiro e preço
1.3. A China como motor central da subida das importações
A China é, de longe, o parceiro que mais contribuiu para esta transformação:
| Parceiro | Importação 2015 (M€) | Importação 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 1 358 | 3 884 | +185,9% |
| Turquia | 762 | 1 046 | +37,3% |
| Sérvia | 118 | 162 | +37,8% |
| Reino Unido | 207 | 181 | -12,4% |
| Tailândia | 70 | 106 | +51,8% |
| Coreia do Sul | 186 | 99 | -46,5% |
O peso das importações chinesas passou de uma base já significativa para 3 884 M€ em 2025, maximum absoluto, o que equivale a mais de 60% do total de importações da UE (desagregação por parceiro).
À medida que as importações chinas se consolidaram, a concentração das importações medida pelo HHI (Herfindahl-Hirschman Index) subiu de 2 610 para 4 235 (+62,3% em valor). Este acentuado aumento indica uma crescente dependência de um número muito reduzido de fornecedores estrangeiros — uma dinâmica com implicações claras para a resiliência da cadeia de abastecimento europeia.
2. Reestruturação produtiva europeia: menos unidades, muito mais valor acrescentado
2.1. O paradoxo da produção: valor a duplicar enquanto o volume cai
Um dos padrões mais enigmáticos do período reside na evolução da produção europeia disponível em dados PRODCOM: o valor de produção europeu passou de 7 897 M€ em 2015 para 17 492 M€ em 2025 (+121,5%), atingindo um máximo de 20 959 M€ em anos intercalares, e simultaneamente a quantidade registada caiu de 418,7 milhões de unidades para 23,4 milhões (-94,4%).
Esta aparente contradição é consistente com uma reestruturação profunda do aparelho produtivo europeu: a saída (ou redução massiva) de produção de eletrodomésticos de grande consumo de baixo valor unitário — como refrigeradores e congeladores domésticos rudimentares — e a concentração naquelas gamas de maior valor acrescentado, nomeadamente equipamento comercial (vitrinas e móveis refrigerados) e bombas de calor industriais. O preço médio de exportação europeu, que subiu de 8 826 €/t para 13 415 €/t (+52,0%), novela a imagem de uma produção que se deslocou para níveis de preço mais elevados.
2.2. Itália e Alemanha: os exportadores dominantes do bloco
Do lado das exportações intra-UE para mercados externos, a Itália e a Alemanha lideram de forma consistente:
| Estado-Membro exportador | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Itália | 1 103 | 1 768 | +60,2% |
| Alemanha | 893 | 1 264 | +41,5% |
| França | 508 | 650 | +27,9% |
| Polónia | 228 | 383 | +68,3% |
A Itália mantém-se o primeiro exportador extra-UE com 1 768 M€, seguida pela Alemanha com 1 264 M€ (exportações por Estado-Membro). A Polónia destaca-se pelo crescimento de +68,3%, consolidando a sua posição na cadeia de valor europeia de refrigeração.
2.3. Perfis de especialização: quem produz e quem consome
A análise de especialização por Estado-Membro em 2025 revela uma geografia produtiva assimétrica. Os Estados-Membros com maior índice RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage) incluem:
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota na produção europeia |
|---|---|---|---|
| Bulgária | 3,098 | 0,512 | 1,9% |
| Itália | 2,272 | 0,389 | 18,2% |
| Áustria | 2,010 | 0,335 | 6,6% |
| Suécia | 1,985 | 0,330 | 4,8% |
| Polónia | 1,679 | 0,253 | 11,2% |
A Itália, com quota de 18,2% na produção europeia e RSCA de 0,389, é simultaneamente o maior produtor e um dos mais especializados. Por outro lado, Estados-Membros como Malta (RSCA: -0,951), Chipre (-0,949) e Irlanda (-0,603) mantêm uma posição importadora líquida e sem especialização produtiva no setor.
2.4. O lado das importações por Estado-Membro: crescimento desigual
No lado das importações comunitárias, os destinos mais relevantes registam crescimentos muito distintos:
| Estado-Membro importador | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 609 | 946 | +55,4% |
| França | 603 | 951 | +57,7% |
| Itália | 347 | 713 | +105,5% |
| Países Baixos | 269 | 696 | +158,2% |
| Espanha | 223 | 552 | +147,0% |
| Polónia | 179 | 460 | +157,7% |
O crescimento dos Países Baixos (+158,2%), de Espanha (+147,0%) e da Polónia (+157,7%) é particularmente notável, sugerindo uma procura interna crescente de equipamentos de refrigeração e bombas de calor nos mercados Sul e Leste da UE.
3. O ímpeto das bombas de calor, as disrupções de 2022 e a concentração das fontes de abastecimento
3.1. As bombas de calor (841861): o segmento mais dinâmico — e mais volátil
Dentro do chapéu CN 8418, o subproduto que mais cresceu em ambas as direcções do comércio foram as bombas de calor (841861). As importações de bombas de calor passaram de 178 M€ em 2015 para um máximo de 1 440 M€ em 2022 (pico do ciclo), antes de recuar para 747 M€ em 2025:
| Ano | Importação 841861 (M€) | Importação 841861 (t) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 178 | 17 189 | 10 333 |
| 2020 | 455 | 40 387 | 11 255 |
| 2022 | 1 440 | 106 544 | 13 517 |
| 2025 | 747 | 59 379 | 12 582 |
O ciclo das bombas de calor responde claramente pela maior parte do pico nas importações totais da UE no biênio 2021–2022, e pela inversão correspondente na balança comercial. Em 2022, as bombas de calor representavam cerca de 24% do valor total das importações CN 8418.
Do lado das exportações, as bombas de calor europeias foram crescendo de forma mais moderada (de 426 M€ em 2015 para 688 M€ em 2025), mantendo sempre um prémio de preço significativo face às importações: o preço médio de exportação em 2025 atingiu 22 294 €/t, comparado com 12 582 €/t para as importações — uma diferença de +77% que reflecte a aposta europeia em equipamentos de gamas superiores e aplicações industriais.
3.2. Combinações de refrigeradores e congeladores (841810): o segmento dominante em volume
O subproduto das combinações de refrigeradores e congeladores (841810) constitui consistentemente o maior segmento comercializado — tanto em volume como em valor, particularmente do lado das importações. A desagregação por produto mostra que:
| Produto | Importação 2015 (M€) | Importação 2025 (M€) | Preço €/t 2015 | Preço €/t 2025 |
|---|---|---|---|---|
| 841810 – Combinações | 972 | 2 053 | 3 480 | 3 568 |
| 841821 – De compressão | 468 | 555 | 2 870 | 3 724 |
| 841850 – Móveis refrigerados | 348 | 781 | 4 126 | 5 117 |
| 841899 – Peças | 437 | 663 | 8 429 | 10 990 |
As combinações de refrigeradores/congeladores (841810) cresceram em valor (+111%) mantendo preços praticamente estáveis em euros por tonelada, sugerindo que a concorrência asiática (principalmente chinesa) manteve compressão nos preços ao mesmo tempo que expandiu fortemente a quota de mercado em volume. Em contraste, as importações de peças (841899) registaram uma subida de preço de 8 429 €/t para 10 990 €/t (+30,5%), sugerindo subidas de custos ou uma sofisticação dos componentes importados.
3.3. Choques de preços em 2022 e volatilidade dos parceiros
O detecção automática de choques identifica os seguintes eventos de maior anomalia:
| Evento | Tipo | Sentido | Ano | Deslocação | Partilha no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Argélia | Preço | Exportação | 2017 | +45,4% | 1,0% |
| Canadá | Preço | Exportação | 2022 | +64,1% | 1,9% |
| China | Preço | Importação | 2022 | +58,5% | 72,7% |
O choque nas importações chinesas de 2022 (deslocação de +58,5% no preço, com uma quota de 72,7% no valor total importado) é, de longe, o evento de maior relevo macroeconómico. Coincide com picos de custos de transporte marítimo e disrupções nas cadeias de abastecimento pós-COVID, que afetaram particularmente os bens de consumo durável — incluindo eletrodomésticos e bombas de calor.
Do lado da volatilidade das partes, os parceiros com maior coeficiente de variação nas importações incluem Noruega (CV = 0,84), Rússia (CV = 0,78) e Japão (CV = 0,61), enquanto a China, com o seu volume esmagador, regista um CV comparativamente moderado de 0,28. Do lado das exportações, a Rússia (CV = 0,49) destaca-se como mercado volátil, reflectindo diretamente as sanções comerciais introduzidas desde 2022: a exportação para a Rússia caiu de 295 M€ para 73 M€ (-75,1%) (desagregação por parceiro de exportação).
3.4. A intensificação e a propensão exportadora: sinais de abertura comercial crescente
Apesar do reequilíbrio da balança comercial, os indicadores de abertura do setor europeu ao comércio intensificaram-se:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial | 36,5% | 51,4% | +41,0% |
| Propensão exportadora | 28,5% | 34,7% | +21,5% |
Uma intensidade comercial de 51,4% indica que mais de metade do valor total do setor (produção somada de importações) passou por transações transfronteiriças — um grau de abertura elevado para um setor que tradicionalmente privilegiava mercados domésticos. Este resultado reflecte simultaneamente o crescimento das exportações europeias (de 4 450 M€ para 6 244 M€, +40,3%) e, sobretudo, a vaga de importações acima referida (indicadores de autonomia e vulnerabilidade).
Conclusão
O período 2015–2025 transformou de forma fundamental a posição da UE no comércio internacional de equipamento de refrigeração, congeladores e bombas de calor (CN 8418). Três grandes vetores de mudança convergiram:
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O superavite comercial europeu esvaziou-se, passando de +1 320 M€ a +34 M€. Esta erosão foi conduzida por uma quase duplicação das importações (+98,4%), nas quais a China assumiu um papel dominante — sozinha, responde por mais de 3 884 M€ em 2025. A concentração das importações (HHI) subiu de 2 610 para 4 235, um sinal do risco crescente de monopólio de abastecimento.
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O aparelho produtivo europeu reconfigurou-se para níveis de valor acrescentado mais elevados. O valor de produção quase duplicou (+121,5%) enquanto o volume em unidades registou uma queda acentuada. A Itália e a Alemanha consolidaram-se como exportadores de topo, e a Polónia emergiu como uma plataforma produtiva exportadora significativa.
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O segmento das bombas de calor foi o mais dinâmico e ao mesmo tempo o mais volátil, deflagrando o ciclo de pico das importações em 2021–2022. A recuperação parcial em 2023–2025 indica um regresso à média, mas o choque de preços de 2022, centrado nas importações chinesas, deixou marcas profundas nos preços médios e na estrutura do comércio.
Em síntese, a UE saiu do período 2015–2025 com um setor de refrigeração mais profundo em valor, mas estruturalmente mais dependente de importações — sobretudo provenientes da China — e com uma concentração de fornecedores que torna o mercado europeu mais vulnerável a disrupções futuras nas cadeias globais de valor.