Evolução do mercado: Pensos e ligaduras (CN 3005) — 2015–2025
Introdução
O código CN 3005 abrange pastas, gazes, ligaduras, pensos curativos, esparadrapos e artigos análogos, impregnados ou recobertos de substâncias farmacêuticas ou acondicionados para venda a retalho para usos medicinais, cirúrgicos, odontológicos ou veterinários. O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais profundas no comércio da UE com países terceiros: a União Europeia passou de uma posição de dependência líquida de importações para uma posição de superavitário, graças sobretudo a um crescimento acentuado das exportações e à valorização dos seus produtos. O período pandémico (2020–2022) introduziu choques de procura e de preços que aceleraram tendências já em curso. Este relatório analisa as principais dinâmicas com base nos dados disponíveis para o período 2015–2025.
1. Da dependência importadora à liderança exportadora: a inversão da balança comercial
A transformação mais marcante do período é a reversão completa da balança comercial da UE neste setor. Em 2015, a UE apresentava um défice comercial de -82,0 M€ face a países terceiros; em 2025, registava um excedente de 418,3 M€, uma melhoria de mais de 610%. Esta inversão resultou não tanto de uma retração das importações, mas sim de um crescimento muito acelerado das exportações.
1.1. Exportações europeias com crescimento muito superior ao das importações
As exportações da UE cresceram 74,7% em valor ao longo do período (de 1.012,6 M€ para 1.769,0 M€), enquanto as importações cresceram apenas 23,4% (de 1.094,6 M€ para 1.350,7 M€). Em volume, as exportações aumentaram 20,8% (de 38.379 t para 46.374 t) e as importações 22,6% (de 88.036 t para 107.933 t).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 1.012,6 M€ | 1.769,0 M€ | +74,7% |
| Importações (valor) | 1.094,6 M€ | 1.350,7 M€ | +23,4% |
| Exportações (volume) | 38.379 t | 46.374 t | +20,8% |
| Importações (volume) | 88.036 t | 107.933 t | +22,6% |
| Balança comercial | -82,0 M€ | +418,3 M€ | +610,3% |
Fonte: Visão geral do comércio
1.2. O papel decisivo da evolução dos preços: produtos europeus de maior valor acrescentado
Se o crescimento em volume foi relativamente próximo entre exportações e importações, a divergência nos preços unitários explica a diferença de desempenho em valor. Os preços médios de exportação da UE subiram 44,6% ao longo do período (de 26.384 €/t para 38.143 €/t), enquanto os preços médios de importação se mantiveram praticamente estáveis (+0,7%, de 12.433 €/t para 12.514 €/t). Isto sugere que os produtores europeus se reorientaram para segmentos de maior valor acrescentado, de elevada qualidade ou com maior conteúdo tecnológico (pensos avançados, materiais inovadores).
| Preço médio (€/t) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportação | 26.384 | 38.143 | +44,6% |
| Importação | 12.433 | 12.514 | +0,7% |
1.3. A dependência líquida de importações inverteu-se
Em 2015, a dependência líquida de importações situava-se em 9,1%, indicando que as importações ultrapassavam ligeiramente as exportações. Em 2025, este indicador atingiu -17,1%, o que significa que a UE se tornou um exportador líquido significativo. Em paralelo, a propensão exportadora subiu de 19,0% para 65,8% e a intensidade comercial passou de 37,2% para 77,3%, refletindo uma abertura comercial e uma competitividade externa muito superiores.
2. Concentração crescente das importações, fragmentação das exportações e especialização heterogénea
O crescimento comercial da UE no setor CN 3005 não se distribuiu de forma homogénea: as importações tornaram-se mais concentradas num número reduzido de fornecedores, enquanto as exportações se diversificaram. Internamente, a especialização produtiva variou substancialmente entre Estados-Membros.
2.1. A China consolidou-se como o principal fornecedor externo
As importações da UE de pensos e ligaduras provenientes da China cresceram 79,7% em valor (de 369,2 M€ para 663,4 M€), consolidando a China longe à frente dos restantes fornecedores. O Reino Unido, que em 2015 era o segundo maior fornecedor (300,4 M€), registou uma quebra de 18,1% (para 245,9 M€), refletindo os efeitos do Brexit. Os EUA mantiveram-se estáveis como terceiro fornecedor (+19,8%).
| Principais fornecedores (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Δ |
|---|---|---|---|
| China | 369,2 | 663,4 | +79,7% |
| Reino Unido | 300,4 | 245,9 | -18,1% |
| EUA | 186,9 | 223,9 | +19,8% |
| Tailândia | 37,7 | 29,0 | -22,9% |
| Egipto | 18,1 | 28,6 | +58,4% |
| Índia | 16,9 | 17,0 | +1,1% |
| México | 39,9 | 7,1 | -82,1% |
Fonte: Principais parceiros por valor
Esta concentração é corroborada pelo índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações, que passou de 2.252 para 3.054 (+35,6%), sinalizando um mercado importador cada vez mais oligopolizado. Em contraste, o HHI das exportações manteve-se mais baixo e estável (1.366 para 1.490, +9,1%), indicando uma distribuição mais equilibrada das vendas externas europeias.
2.2. Os EUA tornaram-se o principal destino das exportações da UE
O desenvolvimento mais notável do lado das exportações foi o crescimento exponencial das vendas para os Estados Unidos, que aumentaram 142,9% (de 246,4 M€ para 598,5 M€), tornando os EUA de longe o maior mercado para os pensos e ligaduras europeus. A Suíça (+20,0%), a Noruega (+42,1%) e a Austrália (+47,7%) também registaram crescimentos robustos, sempre com preços médios de exportação elevados.
| Principais destinos (exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Δ |
|---|---|---|---|
| EUA | 246,4 | 598,5 | +142,9% |
| Reino Unido | 238,8 | 248,6 | +4,1% |
| Suíça | 115,7 | 138,9 | +20,0% |
| Noruega | 34,9 | 49,5 | +42,1% |
| Rússia | 24,7 | 28,3 | +14,3% |
| Austrália | 42,6 | 62,9 | +47,7% |
| China | 34,1 | 42,8 | +25,8% |
2.3. Os Países Baixos e a Irlanda emergiram como potências exportadoras; a liderança alemã mantém-se
Internamente, é a Alemanha que lidera as exportações (de 292,1 M€ para 399,1 M€, +36,6%) e as importações. Contudo, são os Países Baixos (de 60,7 M€ para 317,2 M€ em exportações, +423%) e a Irlanda (de 88,3 M€ para 196,7 M€, +122,9%) que registaram os crescimentos mais espetaculares do lado da exportação, refletindo provavelmente a consolidação de plataformas logísticas e industriais nestes países. A Hungria destaca-se também com um crescimento excecional de 1.070,6% em exportações (de 9,4 M€ para 110,1 M€). No que respeita à especialização, a Finlândia (RSCA: 0,624), a Hungria (0,359) e a Chéquia (0,294) apresentam as vantagens comparativas mais fortes, enquanto Chipre, Croácia e Roménia registam especialização negativa.
3. O choque pandémico e a volatilidade nos preços de exportação
O período 2020–2022 trouxe perturbações significativas ao mercado, com episódios de volatilidade acentuada nos preços de exportação e alterações abruptas na procura de destino. A análise dos choques de oferta e procura revela eventos de elevada anormalidade, concentrados no período pandémico e pós-pandémico.
3.1. Choques de preços de exportação: China em 2020, Japão em 2023
Três eventos de choque de preços se destacam na série temporal de exportações:
| País | Tipo | Ano-central | Desvio anómalo | Variação (Δ%) | Peso no valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Japão | Preço | 2023 | 16,1 | +42,7% | 4,2% |
| China | Preço | 2020 | 14,6 | +49,0% | 4,5% |
| Reino Unido | Preço | 2017 | 14,0 | -40,8% | 22,5% |
O choque de 2020 nas exportações para a China (+49,0%) coincide com o início da pandemia de COVID-19: a procura global de material de cura e proteção elevou-se drasticamente, e os preços médios de exportação para a China dispararam. Em 2023, o Japão registou uma variação de +42,7% nos preços de exportação da UE, possivelmente relacionada com a reabertura económica pós-pandémica e com a procura de produtos de maior especificidade tecnológica. O choque negativo de 2017 no Reino Unido (-40,8%), o destino de exportação com maior peso relativo (22,5%), reflete possivelmente um ajuste de preços ou mudanças na composição do cabaz exportado após o referendo do Brexit.
3.2. Volatilidade mais acentuada nas relações com parceiros periféricos
O coeficiente de variação (CV) das exportações revela que os parceiros comerciais mais periféricos apresentam maior instabilidade: as exportações para a Malásia (CV=0,57), a Arábia Saudita (CV=0,43) e a Rússia (CV=0,31) registaram volatilidade elevada. Do lado das importações, o México (CV=0,55) e o Japão (CV=0,47) destacam-se como parceiros cujo comércio com a UE é mais instável. Em contraste, a Noruega (CV=0,06), a Austrália (CV=0,09) e a Suíça (CV=0,12) constituem mercados de exportação mais estáveis e previsíveis para a UE, consolidando a imagem de relações comerciais maduras com países desenvolvidos de proximidade geográfica ou institucional.
Conclusão
O período 2015–2025 representou uma transformação estrutural do mercado europeu de pensos e ligaduras (CN 3005). A UE passou de uma posição de défiice comercial (-82 M€) para uma posição de superavitário significativo (+418 M€), impulsionada por exportações que cresceram 74,7% em valor, sustentadas sobretudo por uma valorização acentuada dos preços (+44,6%), sinalizando uma aposta em produtos de maior valor acrescentado. O destino privilegiado foram os Estados Unidos, que absorveram quase 600 M€ em exportações europeias em 2025. Do lado das importações, a China consolidou a sua dominância, contribuindo para uma maior concentração do abastecimento externo (HHI subiu 35,6%), fator que pode constituir um risco em contexto de disrupções geopolíticas ou logísticas. A intensificação da propensão exportadora (de 19,0% para 65,8%) sublinha a crescente competitividade da indústria europeia neste setor. Os episódios de volatilidade durante a pandemia confirmaram a sensibilidade do mercado a choques de procura, mas também a capacidade de recuperação da UE, que saiu do período pandémico numa posição comercial mais forte do que entrou.