Evolução do mercado: Peles com pelo (CN 4302) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor das peles com pelo curtidas ou acabadas (posição pautal CN 4302) no período compreendido entre 2015 e 2025. Este código abrange peles inteiras curtidas ou acabadas — incluindo visons e outras espécies —, bem como cabeças, caudas, patas, desperdícios e peças montadas ou não montadas, com exceção das peles da posição 4303.
O setor das peles com pelo tem atravessado uma década de transformações profundas, marcada por mudanças estruturais na procura global, pressões regulamentares crescentes, a pandemia de COVID-19 e a crescente contestação social relativamente ao bem-estar animal. Os dados aqui analisados refletem de forma inequívoca o impacto destas dinâmicas: entre 2015 e 2025, as exportações da UE nesta posição pautal caíram 56,6% em valor e 72,3% em volume, enquanto as importações recuaram 45,3% em valor e 47,9% em volume. A produção europeia, medida em unidades, contraiu 69,3%, ainda que o seu valor nominal tenha aumentado significativamente devido à subida dos preços.
O relatório organiza-se em três eixos temáticos: (1) a contração estrutural do setor; (2) a reconfiguração das parcerias comerciais da UE; e (3) a transformação da segmentação por produto e os seus efeitos nos preços e na produção.
1. Uma década de contração estrutural do setor
1.1. Queda acentuada do comércio externo em valor e volume
Ao longo do período analisado, tanto as exportações como as importações da UE em peles com pelo registaram reduções acentuadas. As exportações passaram de 184,3 milhões de euros em 2015 para 80,0 milhões em 2025 (−56,6%), com o volume a cair de 4 122 toneladas para 1 142 toneladas (−72,3%). As importações desceram de 153,4 milhões de euros para 83,9 milhões (−45,3%), com o volume a passar de 4 431 toneladas para 2 308 toneladas (−47,9%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (M EUR) | 184,3 | 80,0 | −56,6 |
| Exportações — volume (t) | 4 122 | 1 142 | −72,3 |
| Importações — valor (M EUR) | 153,4 | 83,9 | −45,3 |
| Importações — volume (t) | 4 431 | 2 308 | −47,9 |
| Saldo comercial (M EUR) | +30,9 | −3,9 | −112,7 |
A contração das exportações foi proporcionalmente mais intensa do que a das importações, tanto em valor como em volume, o que reflete uma perda de competitividade externa da indústria europeia de acabamento e comércio de peles.
1.2. Da posição de exportador líquido ao equilíbrio comercial
Em 2015, a UE apresentava uma dependência líquida de importações de −47,3%, ou seja, era um exportador líquido significativo. Em 2025, este indicador situou-se em +0,8%, refletindo um equilíbrio quase perfeito entre importações e exportações. Esta inversão é o resultado combinado da queda mais acentuada das exportações face às importações.
1.3. Produção europeia: menos unidades, maior valor nominal
A produção europeia medida em unidades (p/st) caiu de 69,3 milhões em 2015 para 21,2 milhões em 2025 (−69,3%), com um mínimo de 9,0 milhões registado num ano intermédio. Contudo, o valor de produção nominal subiu de 296,3 milhões de euros para 1 240,4 milhões (+318,6%), o que sugere uma subida extraordinária do valor unitário de produção — provavelmente refletindo tanto a inflação como uma concentração em segmentos de maior valor acrescentado.
| Indicador de produção | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Quantidade (milhões de unidades) | 69,3 | 21,2 | −69,3 |
| Valor (M EUR) | 296,3 | 1 240,4 | +318,6 |
1.4. Colapso da intensidade comercial e da propensão exportadora
Dois indicadores de vulnerabilidade e autonomia permitem captar a dimensão da retração estrutural. A intensidade comercial (exportações + importações como proporção da produção) passou de 84,1% em 2015 para 11,6% em 2025 (−86,2%). A propensão exportadora (exportações como proporção da produção) caiu de 77,0% para 5,7% (−92,5%). Estes valores indicam que a indústria europeia se tornou progressivamente mais orientada para o mercado interno, ou que a produção passou a destinar-se crescentemente a utilizações não capturadas pelo comércio internacional de CN 4302 (por exemplo, integração em produtos acabados da posição 4303).
2. Reconfiguração profunda das parcerias comerciais
2.1. Redução generalizada do número e do peso dos principais fornecedores
O período em análise foi marcado por uma redução generalizada do volume de importações provenientes dos principais parceiros da UE. Os declínios mais acentuados ocorreram em fornecedores que, em 2015, representavam posições de destaque:
| Parceiro | Importações 2015 (M EUR) | Importações 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 41,9 | 30,7 | −26,7 |
| Argentina | 22,2 | 2,0 | −91,1 |
| Vietname | 21,9 | 0,7 | −96,7 |
| Turquia | 14,7 | 12,8 | −12,6 |
| Reino Unido | 6,7 | 0,4 | −94,2 |
| Brasil | 6,5 | 4,6 | −30,2 |
| Bósnia e Herzegovina | 2,7 | 1,2 | −57,8 |
Os dados de parceiros mostram que o Vietname e a Argentina foram os fornecedores cujo comércio com a UE mais colapsou (−96,7% e −91,1%, respetivamente). O caso do Vietname é particularmente notável: as importações passaram de 21,9 milhões de euros em 2015 para apenas 62 euros nalguns anos intermédios, recuperando parcialmente para 0,7 milhões em 2025. O coeficiente de variação (CV) das importações do Vietname é de 1,47, o mais elevado entre os fornecedores, confirmando a extrema instabilidade deste fluxo. O caso do Reino Unido (−94,2%) pode estar parcialmente relacionado com o Brexit e a consequente reclassificação das transações.
2.2. A China consolida-se como principal fornecedor e destino de exportações
Num contexto de contração generalizada, a China destaca-se pela relativa estabilidade das suas relações comerciais com a UE. Do lado das importações, a China passou de 41,9 milhões de euros (27,3% do total) para 30,7 milhões (36,6% do total), aumentando a sua quota de mercado apesar da redução absoluta. Do lado das exportações, a China é o único parceiro da UE que registou um crescimento ligeiro (+5,0%), passando de 16,4 milhões para 17,2 milhões de euros — tornando-se, em 2025, o maior destino das exportações europeias de peles com pelo.
2.3. Queda acentuada das exportações para Hong Kong, Reino Unido e outros mercados tradicionais
As exportações da UE sofreram reduções particularmente acentuadas em mercados que em 2015 eram os seus principais destinos:
| Parceiro | Exportações 2015 (M EUR) | Exportações 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Hong Kong | 60,1 | 7,4 | −87,7 |
| Reino Unido | 21,2 | 4,0 | −81,2 |
| Turquia | 16,1 | 9,5 | −41,0 |
| China | 16,4 | 17,2 | +5,0 |
| Estados Unidos | 11,1 | 7,2 | −34,7 |
| Noruega | 5,9 | 2,1 | −64,3 |
| Suíça | 6,9 | 1,9 | −72,9 |
O caso de Hong Kong é o mais expressivo: em 2015, este mercado era o principal destino das exportações da UE (60,1 milhões de euros, ou seja, 32,6% do total), e em 2025 representou apenas 7,4 milhões. Hong Kong funcionava historicamente como entreposto comercial para o mercado chinês e para o Sudeste Asiático; o declínio pode refletir tanto a redução da procura global como o reforço dos canais de comércio direto com a China continental.
2.4. Aumento da concentração das importações e diversificação das exportações
O índice de concentração HHI das importações em valor subiu de 1 374 para 1 978 (+44,0%), refletindo uma maior dependência de um número mais reduzido de fornecedores — em especial a China e a Turquia. Do lado das exportações, o HHI desceu de 1 528 para 1 006 (−34,2%), indicando uma ligeira diversificação dos destinos, ainda que num contexto de volume global muito reduzido. Em volume, a concentração das importações aumentou ainda mais (HHI de 1 847 para 3 735, +102,2%), sugerindo que os poucos fornecedores remanescentes dominam agora a maior parte do volume importado.
2.5. Itália e Espanha: os Estados-Membros que mais importam e exportam
No contexto da UE, os Estados-Membros mais relevantes são a Itália e a Espanha. A Itália permanece o maior importador (27,0 milhões de euros em 2025, −19,7% face a 2015) e o maior exportador (22,6 milhões, −46,2%), refletindo o peso da indústria de moda e acabamento de peles no país. A Alemanha, que em 2015 era o maior importador (46,2 milhões), registou uma queda de 60,8%, atingindo 18,1 milhões em 2025. Do lado das exportações, a queda mais espetacular foi a dos Países Baixos, que passaram de 22,6 milhões de euros para apenas 0,2 milhões (−99,3%).
3. O colapso do segmento dos visons e a transformação da estrutura do mercado
3.1. O segmento dos visons (CN 430211): o epicentro da crise
O segmento dos visons (CN 430211) foi o mais severamente afetado pela conjugação de fatores que marcou a última década. A UE abateu milhões de visons durante a pandemia de COVID-19 (2020–2021) devido à deteção de variantes do SARS-CoV-2 em explorações de visons, e vários Estados-Membros (incluindo os Países Baixos, a França e a Dinamarca) implementaram proibições ou restrições à criação de animais para pele.
Os dados confirmam este colapso:
| Indicador — Visons (430211) | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — volume (t) | 82,8 | 26,1 | −68,5 |
| Importações — valor (M EUR) | 22,9 | 5,3 | −76,9 |
| Exportações — volume (t) | 190,9 | 66,9 | −64,9 |
| Exportações — valor (M EUR) | 66,7 | 14,1 | −78,9 |
O número de peles de visão importadas caiu de 697 321 unidades em 2015 para 248 913 em 2025, com um mínimo de apenas 32 826 registado num ano intermédio. As exportações de visons, que em 2015 representavam 36,2% do valor total das exportações de CN 4302, caíram para 17,6% em 2025.
3.2. O domínio crescente do segmento de peles inteiras não montadas (CN 430219)
O subcódigo 430219 — que abrange peles inteiras curtidas ou acabadas de outras espécies (excluindo visons, cordeiros de tipo astracã, etc.) — constitui agora a esmagadora maioria do comércio de CN 4302. Em 2025, este segmento representou 81,8% do valor das importações (65,4 milhões de euros) e 69,0% do valor das exportações (55,2 milhões de euros).
O volume importado de 430219 desceu de 3 989 toneladas em 2015 para 1 882 toneladas em 2025 (−52,8%), enquanto o volume exportado caiu de 3 236 toneladas para 820 toneladas (−74,7%). A subida dos preços unitários de exportação deste segmento — de 31 605 EUR/t para 67 261 EUR/t (+112,8%) — sugere uma seleção crescente de peles de maior qualidade ou valor acrescentado no comércio internacional.
3.3. Divergência de preços entre importações e exportações: um sinal de especialização ascendente
Um padrão recorrente nos dados é a divergência entre a evolução dos preços de importação e de exportação. Globalmente, o preço médio de exportação subiu de 44 709 EUR/t para 70 018 EUR/t (+56,6%), enquanto o preço médio de importação se manteve relativamente estável (de 34 625 EUR/t para 36 357 EUR/t, +5,0%).
Este fenómeno é particularmente visível no segmento 430219:
| Preço médio (EUR/t) — 430219 | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importação | 28 261 | 34 749 | +22,9 |
| Exportação | 31 605 | 67 261 | +112,8 |
A crescente divergência entre preços de exportação e importação sugere que a UE se está a especializar progressivamente no acabamento e na comercialização de peles de maior valor — uma dinâmica consistente com a especialização identificada nos indicadores de vantagem comparativa. A Grécia (RSCA de 0,87), a Lituânia (0,78) e a Itália (0,53) são os Estados-Membros com maior especialização relativa no setor.
3.4. Instabilidade e choques pontuais em parceiros menores
A análise de volatilidade e choques revela eventos pontuais de grande magnitude. O mais significativo registou-se nas importações do Vietname em 2021, com um choque de preço de +347,2% e um grau de anormalidade de 56,1, correspondendo a 7,1% do valor total das importações desse ano. Este episódio pode estar ligado a compras pontuais de grandes lotes num contexto de restrições de oferta noutros fornecedores. Outros choques de preço foram detetados nas exportações para a Coreia do Sul em 2022 (+101,1%) e para Hong Kong em 2023 (+71,2%).
Do lado da volatilidade, os parceiros com maior coeficiente de variação nas importações incluem a Tailândia (CV de 1,60), o Vietname (1,47) e o Reino Unido (1,26). Do lado das exportações, a Tunísia (CV de 1,41) e a China (0,84) apresentam a maior instabilidade.
Conclusão
O período 2015–2025 foi decisivo para o setor europeu das peles com pelo. Os dados analisados revelam uma indústria em profunda contração estrutural: o comércio externo da UE em CN 4302 perdeu mais de metade do seu valor e dois terços do seu volume, a produção europeia em unidades caiu 69%, e a UE passou de exportador líquido significativo a uma posição de equilíbrio comercial.
A crise dos visons — catalisada pela pandemia de COVID-19 e pelas subsequentes proibições de criação em vários Estados-Membros — foi o fator de choque mais visível, mas a contração é transversal a todos os subsegmentos e parceiros. A concentração das importações aumentou, com a China a consolidar a sua posição como principal fornecedor e como principal destino das exportações europeias.
Num contexto de volume em queda acentuada, os preços unitários de exportação subiram significativamente, sugerindo que a indústria europeia se está a reorientar para segmentos de maior valor acrescentado. Contudo, com uma propensão exportadora reduzida a 5,7% e uma intensidade comercial de apenas 11,6%, o setor tornou-se progressivamente menos relevante no comércio internacional da UE — refletindo, provavelmente, uma mudança estrutural nas preferências dos consumidores, no enquadramento regulamentar e na própria viabilidade económica da produção de peles com pelo na Europa.