Evolução do mercado: Molhos e condimentos (CN 2103) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 2103 abrange uma vasta gama de produtos alimentares processados: preparações para molhos e molhos preparados, condimentos e temperos compostos, bem como farinha de mostarda e mostarda preparada. Esta família de produtos constitui um segmento consolidado da indústria alimentar europeia, com quatro subcategorias principais — molho de soja (210310), ketchup e outros molhos de tomate (210320), farinha de mostarda e mostarda preparada (210330), e uma ampla categoria residual de outras preparações e molhos (210390) — que em conjunto representam uma parte significativa do comércio intra- e extra-UE de produtos alimentares transformados.
O período analisado, de 2015 a 2025, abrange uma década marcada por múltiplos choques e transformações estruturais: o Brexit, a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia, e a subsequente escalada dos custos de energia e das matérias-primas. Como se verá, o setor dos molhos e condimentos da UE não só resistiu a estas perturbações como registou um crescimento expressivo, com a balança comercial a tornar-se crescentemente favorável à União Europeia.
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1. Um crescimento robusto e sustentado: exportações a duplicar, superavit comercial em expansão
1.1. As exportações da UE mais do que duplicaram em valor
Ao longo da década em análise, as exportações extra-UE de produtos CN 2103 registaram um crescimento acentuado. Em termos de valor, as exportações passaram de 1 410 milhões de euros em 2015 para 3 143 milhões de euros em 2025, traduzindo-se num aumento de 122,8 %. O máximo atingido foi de 3 260 milhões de euros, sinal de que o setor se encontrou ligeiramente acima do nível de pico em 2025.
Em volume, o crescimento foi também significativo, passando de 744 093 toneladas para 1 100 734 toneladas (+47,9 %). A disparidade entre o crescimento do valor e o do volume indica uma subida substancial dos preços médios de exportação: de 1 895 €/t para 2 855 €/t (+50,6 %), o que reflete quer a inflação global quer uma valorização acrescida dos produtos exportados.
1.2. As importações cresceram, mas a taxas inferiores
As importações extra-UE também cresceram, embora a um ritmo mais moderado: de 633 milhões de euros para 1 254 milhões de euros (+98,0 %), e de 298 404 toneladas para 480 168 toneladas (+60,9 %). Os preços médios de importação subiram de 2 122 €/t para 2 611 €/t (+23,0 %).
1.3. O superavit comercial quase triplicou
O resultado líquido é inequívoco: a balança comercial da UE no segmento CN 2103 passou de um superavit de 777 milhões de euros em 2015 para 1 889 milhões de euros em 2025, um crescimento de 143,0 %. A dependência líquida de importações passou de −4,8 % para −18,8 %, confirmando que a UE se consolidou como exportador líquido. Complementarmente, a propensão para exportar passou de 8,7 % para 25,7 %, e a intensidade comercial de 12,4 % para 32,3 %, evidenciando uma crescente internacionalização do setor.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 1 410 M€ | 3 143 M€ | +122,8 % |
| Exportações (volume) | 744 094 t | 1 100 734 t | +47,9 % |
| Exportações (preço médio) | 1 895 €/t | 2 855 €/t | +50,6 % |
| Importações (valor) | 633 M€ | 1 254 M€ | +98,0 % |
| Importações (volume) | 298 404 t | 480 168 t | +60,9 % |
| Importações (preço médio) | 2 122 €/t | 2 611 €/t | +23,0 % |
| Saldo comercial | +777 M€ | +1 889 M€ | +143,0 % |
Para mais pormenores, veja a visão geral do comércio.
2. Reconfiguração geográfica: o peso do Reino Unido e a ascensão dos parceiros asiáticos
2.1. O Reino Unido permanece como parceiro dominante, mas o padrão diversificou-se
O Brexit, consumado formalmente em 2020, teve impacto direto na estrutura do comércio de molhos e condimentos. O Reino Unido é, de longe, o maior parceiro comercial da UE neste segmento, tanto em importações como em exportações. Em 2025, as exportações da UE para o Reino Unido atingiram 1 041 milhões de euros (+91,1 % face a 2015), e as importações provenientes do Reino Unido atingiram 399 milhões de euros (+69,8 %). O Reino Unido continua a representar cerca de um terço do valor total das exportações extra-UE.
No entanto, a análise da concentração do comércio por parceiro revela uma tendência clara de diversificação. O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) para as importações desceu de 1 901 para 1 551 (−18,4 %), e para as exportações de 1 741 para 1 512 (−13,1 %), sinal de que a dependência de mercados individuais está a diminuir.
2.2. Tailândia e China: importações asiáticas em forte ascenso
Dos parceiros de importação, os que mais cresceram foram os asiáticos:
| Parceiro de importação | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 235 M€ | 399 M€ | +69,8 % |
| Tailândia | 76 M€ | 196 M€ | +157,7 % |
| China | 43 M€ | 140 M€ | +226,9 % |
| Japão | 27 M€ | 74 M€ | +172,9 % |
| Estados Unidos | 69 M€ | 106 M€ | +54,8 % |
| Suíça | 85 M€ | 79 M€ | −7,4 % |
| Turquia | 17 M€ | 34 M€ | +93,7 % |
A Tailândia e a China cresceram a um ritmo particularmente acelerado, o que pode refletir a crescente popularidade da gastronomia asiática na Europa, bem como a integração destes países nas cadeias de abastecimento globais. A China, em especial, mais do que triplicou o valor das exportações para a UE (+226,9 %), passando de 43 para 140 milhões de euros.
2.3. Os Estados Unidos tornaram-se o segundo maior destino de exportação
Do lado das exportações, o crescimento mais espetacular registou-se nos Estados Unidos: de 105 milhões de euros em 2015 para 537 milhões de euros em 2025, um aumento de 412,7 %. Este salto reflete tanto a consolidação das marcas europeias no mercado norte-americano como eventuais efeitos cambiais favoráveis.
| Parceiro de exportação | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 545 M€ | 1 041 M€ | +91,1 % |
| Estados Unidos | 105 M€ | 537 M€ | +412,7 % |
| Suíça | 131 M€ | 226 M€ | +73,2 % |
| Federação Russa | 90 M€ | 90 M€ | −0,3 % |
| Noruega | 77 M€ | 126 M€ | +63,2 % |
| Austrália | 38 M€ | 95 M€ | +152,4 % |
| Marrocos | 7 M€ | 55 M€ | +707,0 % |
Destaca-se também o caso do Marrocos, cujo crescimento de 707,0 % (de 7 para 55 milhões de euros) é o mais acentuado em termos relativos, ainda que em valor absoluto o volume permaneça modesto. Por outro lado, a Rússia manteve-se virtualmente estável (−0,3 %), o que é notável dado o contexto geopolítico pós-2022.
Os dados de volatilidade confirmam que os fluxos com Marrocos e com a Turquia apresentam os maiores coeficientes de variação em exportações (respetivamente, 0,59 e 1,01), sugerindo que estes mercados, apesar de crescentes, são também mais instáveis. O Reino Unido e a Noruega, por contraste, mostram-se como mercados estáveis e de baixa volatilidade.
Para mais detalhes sobre os parceiros, veja a análise por parceiros e a análise por Estados-Membros.
3. Dinâmica do lado da produção: a Itália como locomotora do setor europeu
3.1. A produção da UE cresceu mais de 50 % em volume
Os dados de produção (PRODCOM) disponíveis para a UE mostram que a produção de molhos e condimentos passou de 3 182 milhões de kg (2015) para 4 856 milhões de kg (2025), um aumento de 52,6 %. Em valor, a subida foi ainda mais acentuada: de 6 774 milhões de euros para 12 601 milhões de euros (+86,0 %), refletindo a subida generalizada dos custos das matérias-primas e o posicionamento de gama mais elevada. É importante notar que os valores máximos intermédios de produção foram bastante mais elevados (até 35 mil milhões de kg), sugerindo flutuações consideráveis ao longo da década.
Consulte os volumes de produção para mais pormenores.
3.2. A Itália domina a especialização exportadora
A análise da vantagem comparativa revela de forma clara a geografia da especialização europeia. Em 2025, os cinco Estados-Membros mais especializados no segmento CN 2103, medidos pelo RSCA (Índice Simétrico de Vantagem Comparativa Revelada), são:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Partilha prod. (export) | Partilha total |
|---|---|---|---|---|
| Estónia | 0,5374 | 3,32 | 1,1 % | 0,3 % |
| Croácia | 0,4779 | 2,83 | 1,2 % | 0,4 % |
| Itália | 0,3777 | 2,21 | 17,7 % | 8,0 % |
| Letónia | 0,2970 | 1,85 | 0,6 % | 0,3 % |
| Espanha | 0,1334 | 1,31 | 7,6 % | 5,8 % |
Embora a Estónia e a Croácia apresentem os RSCA mais elevados, o seu peso no comércio total é marginal. É a Itália que se destaca como o verdadeiro motor exportador europeu: com 17,7 % das exportações do setor e um RCA de 2,21, a Itália é o maior exportador individual da UE, atingindo em 2025 um valor de 1 031 milhões de euros — mais de um terço do total das exportações extra-UE de CN 2103, com um crescimento de 306,4 % face a 2015. A Bélgica (+313,6 %) e a Polónia (+83,8 %) completam o trio de Estados-Membros com o maior crescimento exportador.
Do lado oposto, a Irlanda (RSCA = −0,91) e o Chipre (RSCA = −0,85) são os menos especializados, dependendo fortemente de importações de molhos e condimentos.
3.3. A composição do comércio revela a centralidade da categoria 210390
A desagregação por subcategoria mostra que a classe 210390 — que abrange preparações para molhos e molhos preparados excluindo molho de soja, ketchup e mostarda — domina tanto as exportações como as importações:
| Subcategoria | Importações 2025 (valor) | Exportações 2025 (valor) |
|---|---|---|
| 210390 — Outros molhos e preparações | 1 036 M€ | 2 401 M€ |
| 210320 — Ketchup e molhos de tomate | 74 M€ | 577 M€ |
| 210310 — Molho de soja | 117 M€ | 52 M€ |
| 210330 — Mostarda | 27 M€ | 112 M€ |
Em exportações, a classe 210390 representa cerca de 76 % do valor total, tendo passado de 1 015 milhões para 2 401 milhões de euros (+136,6 %), com um aumento de preço de 2 324 para 3 296 €/t (+41,8 %). Em importações, a mesma classe representa igualmente a grande maioria (mais de 80 %), com o molho de soja a ser o segundo maior segmento importado (117 M€), o que reflete a dependência europeia de fornecedores asiáticos para este produto específico.
Os dados de segmentação por produto estão disponíveis na análise comparativa por subcategorias.
Conclusão
A década 2015-2025 foi, para o setor dos molhos e condimentos (CN 2103) na União Europeia, um período de expansão assinalável. As exportações mais do que duplicaram em valor, o superavit comercial quase triplicou, e a produção interna cresceu significativamente, consolidando a UE como exportador líquido estrutural neste segmento.
Três tendências principais merecem destaque. Em primeiro lugar, a diversificação geográfica dos parceiros comerciais, com a redução do HHI a indicar uma menor concentração das trocas. Em segundo lugar, a ascensão dos mercados asiáticos — tanto como fornecedores (Tailândia, China, Japão) como reflexo da globalização dos gostos alimentares europeus. Em terceiro lugar, a centralidade da Itália enquanto locomotora exportadora europeia, cujo peso no setor ultrapassa largamente o de qualquer outro Estado-Membro.
Do ponto de vista da vulnerabilidade, o setor apresenta uma posição robusta: a dependência líquida de importações é negativa e acentuou-se, a propensão para exportar mais do que duplicou, e a concentração dos fluxos é cada vez menor. Os principais riscos residem na volatilidade de mercados periféricos (Turquia, Marrocos) e nos eventuais efeitos de choques de preços nas matérias-primas, como os detetados em 2020 e 2023. No entanto, a base produtiva diversificada e a especialização geográfica da UE sugerem que o setor está bem posicionado para continuar a sua trajetória ascendente.