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Evolução do mercado: Máquinas para couro e calçado (CN 8453) — 2015–2025

Introdução

O código combinado 8453 abrange máquinas e aparelhos para preparar, curtir ou trabalhar couros ou peles, para fabricar ou consertar calçado e outras obras de couro, excluindo máquinas de costura. Inclui quatro subcategorias: máquinas para couros/peles (845310), máquinas para calçado (845320), outras máquinas para obras de couro (845380) e partes (845390).

A União Europeia é historicamente uma potência exportadora líquida neste setor, com uma dependência líquida de importações negativa que passou de −69,3% em 2015 para −150,1% em 2025. No entanto, o período analisado revela uma trajetória marcada por contração generalizada dos volumes comercializados, reconfiguração geográfica dos parceiros e um deslocamento em direção a produtos de maior valor unitário. Este relatório analisa as principais dinâmicas observadas entre 2015 e 2025, com base nos dados aduaneiros disponíveis.


1. Uma contração estrutural do comércio externo da UE

1.1. Exportações em queda acentuada

Ao longo da década analisada, as exportações da UE de máquinas para couro e calçado registaram uma redução significativa. O valor das exportações caiu 31,6%, passando de 319,5 milhões EUR em 2015 para 218,7 milhões EUR em 2025. A queda nos volumes foi ainda mais pronunciada: as quantidades exportadas diminuíram 48,5%, de 24 034 toneladas para 12 374 toneladas.

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Valor das exportações (M EUR) 319,5 218,7 −31,6%
Quantidade das exportações (t) 24 034 12 374 −48,5%
Preço médio das exportações (EUR/t) 13 291 17 661 +32,9%

O pico exportador do período foi registado em 2017, com 392,8 milhões EUR e 26 446 toneladas exportadas. A partir de 2018, observa-se uma tendência de declínio interrompida apenas parcialmente em 2022.

1.2. Importações contraídas de forma ainda mais pronunciada

As importações seguiram uma trajetória descendente mais acentuada que as exportações:

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Valor das importações (M EUR) 38,3 24,0 −37,3%
Quantidade das importações (t) 6 783 2 735 −59,7%
Preço médio das importações (EUR/t) 5 648 8 773 +55,3%

As importações atingiram o seu mínimo histórico em 2025, tanto em valor como em quantidade. A forte queda das quantidades importadas (−59,7%) sugere uma redução da procura interna europeia por equipamento importado, possivelmente refletindo a contração simultânea da produção doméstica de calçado e artigos de couro.

1.3. Preços em alta apesar da queda dos volumes

Uma dinâmica marcante é o aumento consistente dos preços médios — tanto nas exportações (+32,9%) como nas importações (+55,3%). Este movimento, simultâneo à queda de volumes, indica um deslocamento estrutural do mix de produtos comercializados para equipamentos de maior valor acrescentado. A forte subida dos preços de importação sugere que as fontes de abastecimento mais baratas (nomeadamente a China, cujas exportações para a UE caíram 50,9% em valor) estão a perder peso relativo.


2. O domínio italiano e a reconfiguração da produção europeia

2.1. Itália: epicentro da indústria europeia

A análise da especialização revela que a Itália é, de longe, o Estado-Membro mais especializado na produção de máquinas para couro e calçado. Com um índice RCA de 8,37 e uma quota de 67,1% na produção da UE (em valor), a Itália concentra uma posição dominante inequívoca. A Eslováquia (RCA 3,03), a Bulgária (RCA 2,97) e a Roménia (RCA 2,72) surgem como especializadores secundários, mas com contribuições residuais.

Estado-Membro RCA Quota prod. UE Quota export. UE
Itália 8,37 67,1% 8,0%
Eslováquia 3,03 6,4% 2,1%
Bulgária 2,97 1,9% 0,6%
Roménia 2,72 4,5% 1,7%

2.2. A produção europeia em declínio acentuado

Os dados de produção PRODCOM revelam uma contração severa do aparelho produtivo europeu:

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Quantidade produzida (unidades) 90 173 35 955 −60,1%
Valor da produção (M EUR) 627,3 391,7 −37,6%

A produção de unidades atingiu o seu mínimo em 2020 (20 748 unidades), refletindo os efeitos da pandemia COVID-19. Embora tenha havido uma recuperação parcial, os volumes de 2025 permanecem muito inferiores ao nível de 2015. A queda no número de unidades (−60,1%) é mais severa do que a queda no valor (−37,6%), sugerindo que a produção remanescente se concentra em equipamentos de maior valor unitário — consistente com a subida dos preços de exportação.

2.3. O declínio de exportadores secundários

A evolução das exportações por Estado-Membro mostra que, além da Itália (−36,1%), vários exportadores registaram quedas dramáticas:

  • Lituânia: −98,5% (de 7,5 M EUR para 0,1 M EUR)
  • Dinamarca: −90,2% (de 4,7 M EUR para 0,5 M EUR)
  • França: −66,0% (de 8,0 M EUR para 2,7 M EUR)

Em contraste, a Alemanha (+53,0%, de 24,7 M EUR para 37,9 M EUR) e os Países Baixos (+450,7% nas importações) registaram dinâmicas de crescimento, sugerindo uma reconfiguração geográfica do setor dentro da UE.


3. Reorientação geográfica dos parceiros comerciais

3.1. Redução da dependência de parceiros asiáticos nas importações

A estrutura das importações por parceiro revela uma deslocação significativa:

Parceiro 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação (%)
China 21,6 10,6 −50,9%
Turquia 2,8 0,9 −69,4%
Reino Unido 2,1 2,9 +37,4%
Bósnia e Herzegovina 0,4 0,7 +60,0%

A China, apesar de se manter como principal fornecedor externo, perdeu metade do seu valor de exportação para a UE. A Turquia registou uma redução ainda mais acentuada (−69,4%). Em contrapartida, o Reino Unido e a Bósnia e Herzegovina ganharam quota, refletindo possivelmente fatores logísticos (proximidade geográfica) e de custo (Balcãs Ocidentais).

3.2. Consolidação dos mercados de destino das exportações

Nas exportações, os padrões revelam uma divergência entre parceiros em crescimento e em declínio:

Parceiro 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação (%)
Estados Unidos 28,0 30,2 +7,9%
México 19,5 25,0 +28,5%
Tunísia 6,7 8,2 +22,6%
China 37,8 27,6 −27,0%
Índia 29,4 14,7 −50,0%
Turquia 15,2 8,1 −46,8%

Os Estados Unidos e o México consolidaram-se como mercados resilientes, absorvendo em 2025 um valor combinado de 55,2 M EUR. A Tunísia também cresceu, numa trajetória que se alinha com a deslocalização de fármacos têxteis e de calçado para o Norte de África. Em contraste, a Índia (−50,0%) e a Turquia (−46,8%) registaram quedas expressivas, refletindo possivelmente o desenvolvimento de capacidade industrial local.

3.3. Volatilidade e choques pontuais

A análise de volatilidade revela que as importações apresentam maior instabilidade do que as exportações. Entre os fornecedores, o Reino Unido (CV 0,99) e a Ucrânia (CV 1,11) exibem os maiores coeficientes de variação, refletindo respetivamente os efeitos do Brexit e do conflito armado.

Três choques significativos foram detetados:

  • Tailândia (importações, 2017): choque de preço com aumento de 87% e índice de anormalidade de 43,5 — possivelmente associado a um evento isolado de fornecimento.
  • Argentina (exportações, 2021): choque de preço com aumento de 96% — coincidente com a crise económica argentina e a desvalorização cambial.
  • China (exportações, 2023): choque de preço com aumento de 40% e peso de 15,6% no valor total — refletindo possivelmente a reabertura pós-COVID e distorções no mercado chinês.

Conclusão

O mercado europeu de máquinas para couro e calçado (CN 8453) atravessou, entre 2015 e 2025, uma fase de contração estrutural significativa. Os volumes de comércio externo — tanto de exportações como de importações — diminuíram acentuadamente, acompanhando o declínio da base produtiva europeia (−60,1% em unidades produzidas). No entanto, este declínio quantitativo esconde uma evolução qualitativa: os preços médios subiram 32,9% nas exportações e 55,3% nas importações, sugerindo uma transição para equipamentos de maior valor acrescentado.

A UE mantém-se uma exportadora líquida robusta, com uma dependência líquida de importações de −150,1% em 2025, agravada face ao valor de 2015 (−69,3%). A propensão exportadora aumentou de 44,7% para 65,6%, indicando que a indústria europeia, embora menor em termos absolutos, tornou-se mais orientada para a exportação. A concentração geográfica das exportações ligeiramente aumentou (HHI de 494 para 674), refletindo a crescente dependência de mercados como os Estados Unidos e o México.

O setor continua a ser fortemente dominado pela Itália, que detém mais de dois terços da produção europeia e o maior índice de vantagem comparativa. A consolidação em torno de players italianos e a saída de exportadores menores (Lituânia, Dinamarca) sugerem um processo de concentração industrial que tende a acentuar-se. Os principais riscos identificados incluem a volatilidade dos parceiros de importação, a exposição a choques de preço pontuais e a dependência crescente de um número reduzido de mercados de destino para as exportações.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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