Evolução do mercado: Estruturas flutuantes (CN 8907) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor das estruturas flutuantes — posição aduaneira CN 8907 — ao longo do período 2015–2025. Esta posição inclui balsas, tanques, cofres-diques, plataformas de desembarque, bóias, balizas e outras estruturas flutuantes, excluindo as embarcações das posições 8901 a 8906 e as estruturas destinadas a desmantelamento. A posição é composta por dois subprodutos principais: balsas insufláveis (890710) e outras estruturas flutuantes (890790).
A análise abrange o período completo de 2015 a 2025, com dados anuais. A estrutura do relatório organiza-se em torno de três eixos: a transformação da balança comercial, os deslocamentos geográficos nos parceiros comerciais, e as características estruturais e de volatilidade do mercado.
1. A erosão do excedente comercial: um défice estrutural em formação
O período 2015–2025 assistiu a uma transformação profunda na posição comercial da UE no setor de estruturas flutuantes. Enquanto exportador líquido tradicional, a UE viu o seu excedente comercial comprimir-se drasticamente, resultado de uma convergência entre exportações em declínio e importações em forte crescimento.
1.1 Exportações em queda acentuada
As exportações da UE para países terceiros sofreram uma contração significativa ao longo da década, tanto em valor como em volume:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 283,5 M€ | 200,2 M€ | −29,4 % |
| Volume (toneladas) | 25 913 t | 18 180 t | −29,8 % |
| Preço médio (EUR/t) | 9 318 € | 11 011 € | +18,2 % |
| Quantidade suplementar (p/st) | 1 220 947 | 695 252 | −43,1 % |
Fonte: Dados gerais
O valor das exportações atingiu o máximo do período em 2015 (326,7 M€) e caiu para o mínimo em 2023 (174,7 M€), recuperando ligeiramente em 2024–2025. O volume exportado apresentou uma trajetória semelhante. Contudo, o preço médio por tonelada subiu 18,2 %, sugerindo que a UE passou a exportar estruturas de maior valor unitário — possivelmente produtos mais complexos ou com maior conteúdo tecnológico — apesar da redução do volume total.
Já o número de unidades exportadas (grandeza suplementar) caiu 43,1 %, o que indica que a redução não se limitou à massa, mas também ao número de estruturas efetivamente expedidas para fora da UE.
1.2 Importações em crescimento robusto
Em contraste, as importações apresentaram uma trajetória ascendente consistente:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 80,7 M€ | 144,0 M€ | +78,5 % |
| Volume (toneladas) | 5 300 t | 10 496 t | +98,1 % |
| Preço médio (EUR/t) | 13 612 € | 13 722 € | +0,8 % |
| Quantidade suplementar (p/st) | 971 615 | 1 430 145 | +47,2 % |
Fonte: Dados gerais
O volume importado praticamente duplicou (+98,1 %) e o valor cresceu 78,5 %. Curiosamente, o preço médio por tonelada das importações manteve-se estável (~13 700 €/t), sugerindo que o crescimento se deveu sobretudo a maior quantidade e não a inflação de preços. Note-se que o preço médio de importação (13 722 €/t) é superior ao preço médio de exportação (11 011 €/t) em 2025, o que pode refletir um mix de produto diferente: as importações podem incluir estruturas de maior valor unitário ou complexidade.
1.3 Compressão do excedente comercial
A combinação destas tendências opostas resultou numa erosão acentuada da balança comercial:
| Ano | Exportações (M€) | Importações (M€) | Saldo (M€) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 283,5 | 80,7 | +202,8 |
| 2018 | 287,3 | 111,8 | +175,5 |
| 2020 | 326,7 | 129,6 | +197,1 |
| 2022 | 176,4 | 101,1 | +75,3 |
| 2024 | 223,1 | 128,9 | +94,2 |
| 2025 | 200,2 | 144,0 | +56,2 |
Fonte: Dados gerais
O excedente comercial caiu 72,3 % entre 2015 e 2025, passando de 202,8 M€ para apenas 56,2 M€. A UE mantém-se exportador líquido, mas a margem está a reduzir-se rapidamente. O mínimo foi atingido em 2023 (56,2 M€), com uma ligeira recuperação em 2024, antes de regressar ao mesmo patamar em 2025. Esta trajetória sugere que, sem alterações estruturais, o setor pode aproximar-se de um equilíbrio comercial ou mesmo de um défice nas próximas anos.
2. Reconfiguração geográfica: o Brexit, a ascensão da Ásia e a dispersão das exportações
O período em análise foi marcado por uma profunda reconfiguração dos padrões geográficos do comércio, com o Reino Unido a perder protagonismo como destino de exportações e parceiros asiáticos e dos Balcãs a ganharem peso nas importações.
2.1 O colapso das exportações para o Reino Unido
O parceiro mais afetado pela evolução do comércio da UE em estruturas flutuantes foi, sem dúvida, o Reino Unido:
| Período | Exportações UE→RU (M€) | Peso nas exportações |
|---|---|---|
| 2015 | 103,6 | 36,5 % |
| 2019 | — | — |
| 2025 | 27,0 | 13,5 % |
| Variação | −74,0 % |
Fonte: Parceiros principais — exportações
As exportações da UE para o Reino Unido caíram 74 % em valor (de 103,6 M€ para 27,0 M€). Esta queda acentuada coincide com a saída do Reino Unido da UE (Brexit), formalizada em 2020, e com a introdução de barreiras alfandegárias e regulatórias. O Reino Unido passou de destino dominante das exportações da UE (o maior parceiro em 2015) para um parceiro secundário. O pico de exportações para o RU foi registado num único ano (117,9 M€), indicando uma forte variabilidade nas encomendas, possivelmente associada a projetos de grande dimensão (plataformas, docas flutuantes, etc.).
2.2 A consolidação dos parceiros asiáticos nas importações
Do lado das importações, os parceiros asiáticos ganharam peso crescente:
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 10,6 | 21,7 | +105,0 % |
| Tailândia | 2,7 | 6,1 | +122,7 % |
| Sérvia | 0,2 | 6,3 | +3 038,7 % |
| Turquia | 1,0 | 3,5 | +255,9 % |
Fonte: Parceiros principais — importações
A China consolidou-se como o maior fornecedor extra-UE, com um crescimento de 105 %, refletindo a competitividade preçária dos fabricantes chineses em estruturas flutuantes de menor valor unitário. A Sérvia apresentou o crescimento mais espetacular (+3 038,7 %), passando de fornecedor marginal a parceiro relevante, possivelmente refletindo a integração da Sérvia nas cadeias de valor europeias e a proximidade geográfica. A Tailândia (+122,7 %) e a Turquia (+255,9 %) também registaram crescimentos significativos.
Os Estados Unidos mantiveram-se como terceiro maior fornecedor (~27,9 M€ em 2025), com uma ligeira redução face a 2015 (29,9 M€), mas com um pico de 51,6 M€, refletindo a natureza cíclica das encomendas de grande dimensão.
2.3 A dispersão geográfica das exportações da UE
A concentração das exportações da UE reduziu-se drasticamente, medida pelo Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI):
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| HHI importações | 2 264 | 1 291 | −43,0 % |
| HHI exportações | 1 708 | 557 | −67,4 % |
Fonte: Concentração HHI
O HHI das exportações caiu de 1 708 para 557 (−67,4 %), indicando uma dispersão muito significativa dos mercados de destino. Se em 2015 o Reino Unido dominava as exportações, em 2025 estas encontram-se distribuídas por um leque muito mais alargado de parceiros — incluindo os EUA (+46,8 %), a Costa do Marfim, os Emirados Árabes Unidos, e outros mercados africanos e do Médio Oriente. O HHI das importações também desceu de 2 264 para 1 291, refletindo uma diversificação das fontes de abastecimento.
2.4 A especialização dos Estados-Membros
A análise da vantagem comparativa revelada (RCA) mostra que a produção e exportação de estruturas flutuantes na UE está concentrada em Estados-Membros costeiros e com tradição marítima:
| Estado-Membro | RCA (2025) | RSCA (2025) | Peso nas exportações |
|---|---|---|---|
| Croácia | 12,67 | 0,854 | 0,41 % |
| Estónia | 10,52 | 0,826 | 0,34 % |
| Grécia | 7,16 | 0,755 | 0,48 % |
| Dinamarca | 3,91 | 0,593 | 6,73 % |
| França | 1,87 | 0,303 | 14,61 % |
Fonte: Especialização dos Estados-Membros
Os países com maior RCA incluem Croácia, Estónia e Grécia — economias costeiras de menor dimensão onde o setor pesqueiro e marítimo tem um peso relativo elevado. A Dinamarca e a França combinam uma RCA significativa com um peso absoluto relevante nas exportações, constituindo os principais hubs de produção da UE. Do lado negativo, a Lituânia, a Hungria e a Bélgica apresentam RCA muito baixa, indicando ausência de especialização neste setor.
3. Dinâmicas por segmento de produto e volatilidade do mercado
A análise detalhada por subproduto revela dinâmicas diferenciadas entre as balsas insufláveis (890710) e as outras estruturas flutuantes (890790), bem como a existência de choques de preço pontuais que afetaram o mercado.
3.1 O domínio das outras estruturas flutuantes (890790)
O subproduto 890790 (estruturas flutuantes não insufláveis) domina o comércio em volume:
| Indicador | 890790 (2025) | 890710 (2025) | Peso de 890790 |
|---|---|---|---|
| Importações | |||
| Volume (t) | 7 098 | 3 398 | 67,6 % |
| Valor (M€) | 56,1 | 87,9 | 39,0 % |
| Preço (EUR/t) | 7 909 | 25 867 | — |
| Exportações | |||
| Volume (t) | 16 769 | 1 411 | 92,2 % |
| Valor (M€) | 137,7 | 62,5 | 68,8 % |
| Preço (EUR/t) | 8 210 | 44 308 | — |
Fonte: Segmentação por produto
O 890790 representa 92,2 % do volume exportado e 67,6 % do volume importado. No entanto, em valor, as balsas insufláveis (890710) têm um peso desproporcionadamente elevado nas importações (61,1 % do valor, mas apenas 32,4 % do volume), refletindo um preço médio muito superior (25 867 €/t vs. 7 909 €/t). Isto sugere que as balsas insufláveis importadas são produtos de maior valor unitário — possivelmente balsas de salvamento, balsas de alta resistência ou produtos especializados.
3.2 Trajetórias divergentes dos subprodutos
Ao longo do período, os dois subprodutos apresentaram trajetórias distintas:
Importações de 890790 (outras estruturas):
| Ano | Volume (t) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 3 512 | 32,8 | 7 767 |
| 2018 | 6 632 | 38,4 | 5 554 |
| 2020 | 7 897 | 47,0 | 5 942 |
| 2025 | 7 098 | 56,1 | 7 909 |
Fonte: Segmentação por produto
O volume de importação de 890790 duplicou (de 3 512 t para 7 098 t), com um aumento paralelo do preço médio. O volume exportado, em contraste, reduziu-se de 24 682 t para 16 769 t (−32,1 %), embora o preço médio tenha oscilado significativamente (mínimo de 4 606 €/t em 2018, máximo de 13 195 €/t em 2020).
Importações de 890710 (balsas insufláveis):
| Ano | Volume (t) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 1 787 | 47,9 | 25 096 |
| 2020 | 1 856 | 82,5 | 44 466 |
| 2022 | 2 635 | 54,8 | 20 790 |
| 2025 | 3 398 | 87,9 | 25 867 |
Fonte: Segmentação por produto
As importações de balsas insufláveis cresceram 90,1 % em volume e 83,5 % em valor, com uma forte volatilidade de preços (o preço atingiu 44 466 €/t em 2020 e caiu para 20 790 €/t em 2022). O ano de 2020 parece ter sido marcado por encomendas de balsas de alto valor, possivelmente associadas a projetos de infraestruturas ou a necessidades específicas durante a pandemia.
3.3 Eventos de choque e volatilidade
O mercado apresentou eventos de choque significativos, sobretudo no segmento das exportações:
| Parceiro | Tipo de choque | Ano | Anomalia | Variação (%) | Peso no valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Cazaquistão | Preço (exportações) | 2020 | 470,9 | +2 054,9 % | 1,3 % |
| EUA | Preço (exportações) | 2017 | 101,1 | +138,8 % | 10,7 % |
| Rússia | Preço (exportações) | 2018 | 98,2 | +793,4 % | 5,5 % |
Fonte: Choques de oferta
O choque mais espetacular registou-se nas exportações para o Cazaquistão em 2020, com uma anomalia de preço de 470,9 desvios-padrão e uma variação de +2 054,9 %. Trata-se provavelmente de uma exportação pontual de uma ou poucas estruturas de grande valor (plataforma flutuante, doca, etc.). Os choques nos EUA (2017) e na Rússia (2018) seguem o mesmo padrão — projetos de grande dimensão que distorcem temporariamente as séries.
No que respeita à volatilidade das parceiros, os fluxos com Curaçao (CV = 3,14), Ilhas Marshall (CV = 3,27), Costa do Marfim (CV = 2,83) e Congo (CV = 2,25) apresentam coeficientes de variação muito elevados, indicando encomendas esporádicas de grande valor. Do lado das importações, a Rússia (CV = 1,92), o Vietname (CV = 2,63) e o Cazaquistão (CV = 1,92) são os parceiros mais voláteis.
Conclusão
O mercado europeu de estruturas flutuantes (CN 8907) atravessou uma transformação profunda entre 2015 e 2025. Os três resultados mais relevantes são:
-
Erosão do excedente comercial. O excedente comercial da UE reduziu-se 72,3 %, passando de 202,8 M€ para 56,2 M€. Esta compressão resultou da convergência de exportações em queda (−29,4 % em valor) e importações em crescimento (+78,5 %). A UE mantém-se exportador líquido, mas a margem está a estreitar-se rapidamente.
-
Reconfiguração geográfica radical. A queda de 74 % nas exportações para o Reino Unido — o antigo principal parceiro — constitui a mudança mais marcante do período. Simultaneamente, a China consolidou-se como principal fornecedor extra-UE, e a Sérvia emergiu como parceiro relevante. Do lado das exportações, a UE diversificou significativamente os seus mercados, como evidenciado pela queda de 67,4 % no HHI das exportações.
-
Volatilidade estrutural do mercado. O setor é caracterizado por projetos de grande dimensão e esporádicos (docas, plataformas, infraestruturas portuárias), que geram choques de preço e volume de grande magnitude. Os eventos de choque no Cazaquistão, nos EUA e na Rússia ilustram esta natureza pontual. O subproduto 890790 (estruturas não insufláveis) domina o comércio em volume, mas as balsas insufláveis (890710) apresentam um valor unitário muito superior e uma crescente participação nas importações.
Em perspetiva, a evolução sugere que o setor se encontra num ponto de inflexão: a UE está a perder competitividade exportadora face a fornecedores asiáticos emergentes, ao mesmo tempo que a procura interna de estruturas flutuantes — possivelmente impulsionada por investimentos em infraestruturas costeiras, energias renováveis offshore e segurança marítima — continua a crescer. A capacidade da UE para manter a sua posição no mercado dependerá da sua capacidade de se diferenciar em segmentos de maior valor acrescentado e complexidade técnica.