Evolução do mercado: Cânhamo (CN 5302) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código pautal 5302, que abrange o cânhamo (Cannabis sativa L.) em bruto ou trabalhado mas não fiado, bem como estopas e desperdícios de cânhamo. O período em análise estende-se de 2015 a 2025, abrangendo uma década de profundas transformações no panorama europeu das fibras têxteis vegetais. O código 5302 desdobra-se em dois subprodutos: o cânhamo em bruto ou macerado (530210) e o cânhamo trabalhado mas não fiado, incluindo estopas e desperdícios (530290) (Definições e âmbito).
O período é marcado por uma transformação estrutural decisiva: a UE passou de um papel marginal no comércio global de cânhamo para se consolidar como um exportador líquido de grande escala. As exportações cresceram de forma exponencial, impulsionadas por um aumento simultâneo da produção interna e da procura internacional, enquanto as importações — embora em crescimento — permaneceram em volumes significativamente inferiores.
1. A explosão exportadora europeia: crescimento exponencial e superávit acentuado
1.1. As exportações da UE cresceram mais de 30 vezes em volume e 23 vezes em valor
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de cânhamo (CN 5302) registaram um crescimento extraordinário:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 617 513 | 14 647 211 | +2 272% |
| Quantidade (t) | 574 | 17 258 | +2 905% |
| Preço médio (EUR/t) | 1 075 | 849 | −21% |
O valor máximo das exportações foi atingido em 2024, com 18,7 milhões de EUR, e a quantidade máxima em 2024 (19 457 t), antes de um ligeiro recuo em 2025. Este crescimento reflete a expansão da capacidade produtiva europeia, aliada à crescente procura global por fibras de cânhamo para aplicações têxteis, construção, materiais compósitos e setor automóvel.
1.2. O superávit comercial atingiu mais de 13 milhões de EUR em 2025
A balança comercial da UE para o CN 5302 passou de um superávit modesto de 307 838 EUR em 2015 para um excedente de 13 149 958 EUR em 2025, com um máximo de 17 745 708 EUR registado em 2024. A relação de dependência líquida de importações tornou-se fortemente negativa, atingindo −348% em 2025 (com um mínimo de −1 045% em 2023), o que confirma a posição de exportador líquido da UE (Indicadores de autonomia e vulnerabilidade).
1.3. As importações cresceram de forma mais moderada e com maior volatilidade de preços
As importações da UE cresceram 383,5% em valor (de 309 675 EUR para 1 497 253 EUR) e 197,7% em quantidade (de 200 t para 596 t), mas com uma variação muito mais modesta do que as exportações. O preço médio de importação subiu 61,8%, de 1 547 EUR/t para 2 504 EUR/t, o que sugere pressões de custo nos fornecedores externos ou uma mudança na composição qualitativa das importações. Note-se que a quantidade mínima de importação (79 t) foi registada em 2018, refletindo um período de retração.
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros e concentração setorial
2.1. O Reino Unido e a China tornaram-se os principais destinos das exportações europeias
A distribuição geográfica das exportações da UE sofreu uma reconfiguração profunda ao longo da década. Os maiores destinos em 2025 foram:
| Parceiro | Valor exportações 2015 (EUR) | Valor exportações 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 40 084 | 4 477 471 | +11 070% |
| China | 26 968 | 5 572 290 | +20 563% |
| Suíça | 70 303 | 1 378 238 | +1 860% |
| Estados Unidos | 258 351 | 976 497 | +278% |
| Turquia | 9 328 | 423 386 | +4 439% |
(Parceiros comerciais por valor)
A China e o Reino Unido apresentaram as taxas de crescimento mais acentuadas. A China passou de destino marginal a principal parceiro em valor, o que pode refletir a procura da indústria têxtil e de materiais compósitos chineses. O Reino Unido, por sua vez, consolidou-se como destino privilegiado, possivelmente impulsionado pelo Brexit e pela necessidade de estabelecer cadeias de abastecimento alternativas.
2.2. Os fornecedores tradicionais de importações perderam relevância
Do lado das importações, registou-se uma inversão acentuada nos parceiros dominantes:
| Parceiro | Valor importações 2015 (EUR) | Valor importações 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Ucrânia | 30 001 | 319 957 | +967% |
| Reino Unido | 13 186 | 527 213 | +3 898% |
| China | 144 180 | 54 509 | −62% |
| Canadá | 41 714 | 1 967 | −95% |
| Egipto | 46 011 | 49 | −99,9% |
| Bielorrússia | 15 219 | 2 040 | −87% |
A China, o Canadá e o Egipto — que em 2015 representavam os principais fornecedores — praticamente desapareceram do panorama importador em 2025. Esta dinâmica sugere uma substituição de importações pela produção europeia interna, aliada a possíveis perturbações logísticas e geopolíticas (sanções, Brexit, pandemia). A Ucrânia emerge como fornecedor crescente, embora as suas exportações para a UE sejam modestas em comparação com o volume total.
2.3. França, Bélgica e Países Baixos lideram a capacidade exportadora da UE
A análise por Estado-Membro revela a concentração da capacidade exportadora:
| Estado-Membro | Valor exportações 2015 (EUR) | Valor exportações 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| França | 126 024 | 8 752 195 | +6 845% |
| Bélgica | 32 561 | 2 234 804 | +6 763% |
| Países Baixos | 399 979 | 1 550 074 | +288% |
| Itália | 75 250 | 290 281 | +286% |
| Espanha | 7 339 | 491 507 | +6 597% |
| Alemanha | 60 729 | 669 680 | +1 003% |
(Estados-Membros exportadores)
A França é, de longe, o maior exportador europeu, com uma quota dominante em 2025. Este facto é coerente com a tradição francesa no cultivo de cânhamo, aliada a uma aposta política e industrial recente na bioeconomia. A Bélgica e a Espanha registaram crescimentos igualmente impressionantes, sinalizando uma diversificação geográfica da base produtiva europeia.
2.4. A concentração geográfica das exportações aumentou ligeiramente
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações subiu de 2 202 para 2 642 (+20%), indicando uma concentração crescente dos destinos. Porém, o HHI das importações manteve-se relativamente estável (2 716 → 2 639, −2,8%), sugerindo que a base de fornecedores da UE se manteve diversificada, apesar da perda de parceiros tradicionais (Concentração HHI).
3. Dinâmicas de preço, volatilidade e estrutura produtiva
3.1. Os preços de exportação caíram 21% enquanto os de importação subiram 62%
Uma das dinâmicas mais notáveis do período é a divergência entre a evolução dos preços de exportação e importação:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Preço médio exportação (EUR/t) | 1 075 | 849 | −21% |
| Preço médio importação (EUR/t) | 1 547 | 2 504 | +62% |
A queda dos preços de exportação — apesar do crescimento exponencial dos volumes — sugere uma economia de escala significativa na produção europeia, bem como uma possível pressão competitiva nos mercados de destino. O preço de exportação mínimo atingiu 688 EUR/t em 2025 (no segmento 530290), contra um máximo de 1 974 EUR/t. Por outro lado, a subida dos preços de importação pode refletir custos logísticos crescentes, menor oferta de fornecedores de baixo custo ou uma mudança para importações de maior valor acrescentado.
3.2. Foram detetados choques de preço significativos em 2017 e 2018
A análise de volatilidade revelou eventos de choque de preços em três momentos críticos:
| Evento | Tipo | Fluxo | Ano | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| Suíça | Preço | Exportações | 2017 | +400% |
| Canadá | Preço | Importações | 2018 | +334% |
| Reino Unido | Preço | Exportações | 2018 | +167% |
O choque na Suíça em 2017 (abnormalidade de 1 130) pode estar ligado a restrições regulamentares ou flutuações cambiais após a decisão do banco central suíço de abandonar o câmbio mínimo face ao euro. O choque no Canadá em 2018 coincide com a legalização do cannabis recreativo no Canadá, que pode ter reorientado a oferta de fibra de cânhamo. Os coeficientes de variação mais elevados foram registados para a Sérvia (CV = 2,69) e o Reino Unido (CV = 1,71) nas importações, e para a China (CV = 1,57) e o Reino Unido (CV = 1,28) nas exportações, confirmando a elevada volatilidade destes fluxos (Volatilidade por parceiro).
3.3. A produção europeia de cânhamo triplicou em volume e sextuplicou em valor
A produção interna da UE para o CN 5302 registou uma expansão notável:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Quantidade (kg) | 300 000 000 | 822 000 000 | +174% |
| Valor (EUR) | 163 961 401 | 1 248 000 000 | +661% |
O facto de o valor ter crescido muito mais do que a quantidade (661% vs. 174%) indica uma subida acentuada do valor unitário da produção, possivelmente refletindo uma valorização acrescida do cânhamo europeu, maior transformação industrial ou a entrada em novas aplicações de maior valor (biocompósitos, isolamento, cosmética, etc.).
3.4. Portugal é o Estado-Membro mais especializado em cânhamo, seguido por Croácia e Países Baixos
A análise de especialização revelou fortes disparidades entre Estados-Membros em 2025:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produtiva |
|---|---|---|---|
| Portugal | 0,85 | 12,61 | 17,4% |
| Croácia | 0,51 | 3,06 | 1,2% |
| Países Baixos | 0,42 | 2,47 | 35,9% |
| França | 0,41 | 2,38 | 18,6% |
| Itália | 0,30 | 1,86 | 14,9% |
(Especialização por Estado-Membro)
O caso português é particularmente relevante: apesar de ter uma quota modesta na produção total (17,4%), apresenta a maior RCA (12,61), o que indica uma especialização intensiva em cânhamo face ao seu padrão comercial global. No extremo oposto, países como a Eslováquia, a Hungria, a Estónia, a Dinamarca e a Suécia apresentam RCA praticamente nula, refletindo uma ausência quase total de atividade exportadora neste setor.
3.5. O segmento de cânhamo trabalhado (530290) domina tanto as importações como as exportações
A análise por subproduto revela que o segmento 530290 (cânhamo trabalhado mas não fiado, estopas e desperdícios) constitui a esmagadora maioria do comércio:
Exportações em 2025:
| Subproduto | Quantidade (t) | Valor (EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 530290 — Trabalhado | 14 584 | 10 040 815 | 688 |
| 530210 — Em bruto | 2 674 | 4 492 439 | 1 680 |
Importações em 2025:
| Subproduto | Quantidade (t) | Valor (EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 530290 — Trabalhado | 576 | 1 410 175 | 2 440 |
| 530210 — Em bruto | 20 | 87 078 | 4 333 |
O segmento 530290 domina tanto em volume como em valor nas exportações. Curiosamente, o cânhamo em bruto (530210) apresenta preços muito mais elevados — tanto nas importações (4 333 EUR/t) como nas exportações (1 680 EUR/t) — o que pode refletir a sua qualidade superior, a escassez relativa ou a sua utilização em aplicações de nicho. Note-se que a variação nas quantidades importadas de 530290 foi espetacular: de 200 t em 2015 para 576 t em 2025, mas com um mínimo de apenas 21 t em 2018, período de forte retração.
Conclusão
A análise do comércio externo da UE para o código 5302 entre 2015 e 2025 revela uma transformação estrutural profunda. A União Europeia consolidou-se como exportador líquido de cânhamo, com um superávit comercial que atingiu mais de 13 milhões de EUR em 2025, sustentado por uma produção interna que triplicou em volume e sextuplicou em valor. Esta evolução reflete simultaneamente o renascimento do interesse europeu pelo cânhamo como matéria-prima sustentável e a capacidade da UE para capitalizar as suas vantagens comparativas — em particular as da França, de Portugal e dos Países Baixos.
No entanto, persistem vulnerabilidades. A concentração geográfica das exportações aumentou ligeiramente, e a dependência de um número reduzido de destinos (Reino Unido e China representam uma quota crescente) constitui um risco de concentração. A divergência entre preços de exportação (em queda) e preços de importação (em subida) coloca questões sobre a sustentabilidade das margens no longo prazo. Os choques de preço detetados em 2017 e 2018 — ligados a fatores regulamentares e cambiais — sublinham a exposição do setor a perturbações exógenas.
Em síntese, o setor do cânhamo na UE encontra-se numa fase de expansão dinâmica, mas cuja consolidação dependerá da capacidade de diversificar mercados, manter a competitividade de preços e responder às crescentes exigências de sustentabilidade que impulsionam a procura global por fibras vegetais.