Evolução do mercado: Roupas usadas (CN 6309) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de artigos têxteis usados, classificados pelo código combinado 6309 — que abrange roupas usadas, trapos e artigos têxteis semelhantes em segunda mão. O período em análise abrange de 2015 a 2025, com base em dados anuais disponíveis no European Trade Dashboard.
A UE é, de forma consistente, uma exportadora líquida de roupas usadas, apresentando um saldo comercial positivo ao longo de todo o período analisado. As exportações representam cerca de quatro a cinco vezes o valor das importações, reflectindo o papel da UE como principal fornecedor global de têxteis em segunda mão, sobretudo para mercados em África, Médio Oriente e Ásia Meridional.
Ao longo da década, o sector sofreu transformações significativas: uma compressão acentuada dos preços de exportação, uma reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais e choques pontuais associados a disrupções logísticas e geopolíticas. Este relatório estrutura-se em três eixos de análise, seguidos de uma conclusão sintética.
1. A compressão de preços e a dissociação entre volume e valor
Uma das dinâmicas mais marcantes do período é a crescente dissociação entre o volume físico exportado e o valor comercial das exportações. Enquanto as quantidades aumentaram significativamente, os valores totais declinaram, devido a uma queda acentuada dos preços unitários.
As exportações crescem em volume mas caem em valor
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de artigos têxteis usados passaram de 1.040.510 toneladas para 1.282.609 toneladas, um crescimento de 23,3% em termos de quantidade. Contudo, o valor total das exportações diminuiu 10,2%, caindo de 903.968.102 € para 811.362.698 €. O preço médio de exportação sofreu uma queda de 27,2%, descendo de 869 €/t para 633 €/t — o valor mais baixo registado no período.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (€) | 903.968.102 | 811.362.698 | -10,2% |
| Quantidade exportações (t) | 1.040.510 | 1.282.609 | +23,3% |
| Preço exportações (€/t) | 869 | 633 | -27,2% |
Este padrão sugere uma pressão competitiva crescente nos mercados de destino, possivelmente alimentada pelo aumento da oferta global de têxteis usados (incluindo concorrência de outras regiões exportadoras), pela deterioração da qualidade média dos lotes exportados, ou por uma combinação de ambos os factores.
As importações mantêm um crescimento moderado
Do lado das importações, a evolução foi mais moderada mas igualmente ascendente em volume. A quantidade importada cresceu 17,6% (de 144.895 para 170.404 toneladas), enquanto o valor aumentou 9,0% (de 173.717.731 € para 189.371.756 €). O preço médio de importação recuou 7,3%, de 1.199 €/t para 1.111 €/t.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor importações (€) | 173.717.731 | 189.371.756 | +9,0% |
| Quantidade importações (t) | 144.895 | 170.404 | +17,6% |
| Preço importações (€/t) | 1.199 | 1.111 | -7,3% |
Note-se que o preço médio de importação é significativamente superior ao de exportação (1.111 €/t vs. 633 €/t em 2025), o que sugere que a UE importa lotes de têxteis usados de maior valor unitário — provavelmente peças seleccionadas ou de melhor qualidade — enquanto exporta volumes maiores a preços mais baixos para mercados onde a procura se centra em vestuário acessível.
O saldo comercial permanece robusto, mas em ligeiro declínio
O saldo comercial da UE neste segmento manteve-se sempre positivo, variando entre um máximo de 795.330.231 € e um mínimo de 621.990.942 €. Entre 2015 e 2025, o saldo diminuiu 14,8%, reflectindo a compressão de preços nas exportações, apesar do crescimento em volume. A UE permanece assim um exportador líquido substancial de têxteis usados, mas a margem está a estreitar-se em termos de valor.
2. Reconfiguração geográfica: a ascensão de novos parceiros e o declínio de rotas tradicionais
A segunda grande dinâmica observável é uma significativa reconfiguração dos fluxos comerciais, tanto no que respeita aos parceiros como aos Estados-Membros envolvidos.
Os destinos de exportação deslocam-se para o Médio Oriente e a África Ocidental
Na distribuição das exportações por parceiro, observam-se mudanças estruturais notáveis. Destinos tradicionais como a Tunísia e a Ucrânia registaram quedas acentuadas:
| País destino | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Ucrânia | 62.287.972 | 44.780.474 | -28,1% |
| Tunísia | 47.367.980 | 24.331.764 | -48,6% |
| Camarões | 72.236.941 | 53.833.209 | -25,5% |
| Turquia | 27.934.814 | 23.783.139 | -14,9% |
Por outro lado, registaram-se crescimentos expressivos em destinos do Médio Oriente e da África Ocidental:
| País destino | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Emirados Árabes Unidos | 33.685.913 | 61.057.525 | +81,3% |
| Paquistão | 28.125.053 | 38.963.568 | +38,5% |
| Togo | 25.194.792 | 32.392.841 | +28,6% |
O caso dos Emirados Árabes Unidos é particularmente relevante: o país tornou-se o segundo maior destino das exportações da UE em 2025, ultrapassando parceiros históricos. Esta evolução pode reflectir o papel crescente dos EAU como hub de redistribuição de têxteis usados para o Sul da Ásia e o Corno de África. A queda nas exportações para a Ucrânia, por seu turno, é consistente com a interrupção das cadeias logísticas associada ao conflito iniciado em 2022.
Os fornecedores de importação diversificam-se, com destaque para os Emirados Árabes Unidos
Do lado das importações por parceiro, o Reino Unido manteve-se como principal fornecedor, apesar de uma ligeira queda de 9,6% (de 94.091.388 € para 85.093.956 €). Contudo, a mudança mais dramática verificou-se nos EAU, cujas exportações para a UE dispararam 532,5%, passando de 1.140.954 € para 7.216.149 €.
| País origem | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 94.091.388 | 85.093.956 | -9,6% |
| Suíça | 29.614.929 | 15.700.461 | -47,0% |
| Noruega | 20.340.542 | 22.122.491 | +8,8% |
| E.U.A. | 13.491.369 | 10.103.621 | -25,1% |
| Marrocos | 654.911 | 1.769.070 | +170,1% |
| Emirados Árabes Unidos | 1.140.954 | 7.216.149 | +532,5% |
A queda das importações provenientes da Suíça (-47,0%) e da Islândia (-70,9%) sugere uma reorientação dos fluxos intra-europeus, enquanto o crescimento de Marrocos (+170,1%) e dos EAU (+532,5%) aponta para a emergência de novas cadeias de abastecimento globalizadas.
A Alemanha perde peso como exportador; os Países Baixos emergem como importador
A análise por Estados-Membros revela uma reconfiguração interna significativa. No que respeita às exportações, a Alemanha — historicamente o maior exportador da UE — viu o seu valor cair 49,6%, de 213.321.309 € para 107.510.905 €. Espanha, por outro lado, cresceu 40,4% (de 49.453.527 € para 69.443.046 €).
| Estado-Membro (exportações) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 213.321.309 | 107.510.905 | -49,6% |
| Polónia | 105.168.417 | 106.966.531 | +1,7% |
| Bélgica | 128.905.285 | 88.447.637 | -31,4% |
| Países Baixos | 114.939.773 | 104.159.979 | -9,4% |
| Itália | 105.092.972 | 96.953.385 | -7,7% |
| Espanha | 49.453.527 | 69.443.046 | +40,4% |
| França | 53.021.863 | 54.920.151 | +3,6% |
Do lado das importações, a transformação mais surpreendente ocorreu nos Países Baixos, cujas importações dispararam 2.537,6%, de 2.068.419 € para 54.557.204 € — uma evolução que pode reflectir o papel crescente do porto de Roterdão como ponto de entrada e redistribuição de têxteis usados na Europa.
| Estado-Membro (importações) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Polónia | 39.288.433 | 19.611.536 | -50,1% |
| Países Baixos | 2.068.419 | 54.557.204 | +2.537,6% |
| Itália | 23.267.561 | 11.314.419 | -51,4% |
| Hungria | 23.714.934 | 11.145.532 | -53,0% |
| Alemanha | 14.874.177 | 11.100.949 | -25,4% |
| Áustria | 8.932.223 | 11.188.940 | +25,3% |
3. Concentração, especialização e choques de preço
A terceira dimensão de análise incide na estrutura de concentração do mercado, nos padrões de especialização dos Estados-Membros e nos episódios de volatilidade e choques pontuais.
A concentração das importações diminui; as exportações permanecem pulverizadas
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações da UE por parceiro caiu 28,5%, de 3.462 para 2.475, reflectindo uma diversificação significativa das fontes de abastecimento. Apesar da queda, o valor permanece num patamar que indica concentração moderada (o Reino Unido continua a dominar como fornecedor principal).
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (por parceiro) | 3.462 | 2.475 | -28,5% |
| Exportações (por parceiro) | 326 | 308 | -5,5% |
O HHI das exportações é significativamente mais baixo (308 em 2025), indicando que as exportações da UE estão muito mais distribuídas entre múltiplos destinos — uma estrutura pulverizada que conferiu alguma resiliência ao sector face a choques específicos em determinados mercados.
A especialização concentra-se no Norte e Leste da Europa
A análise de especialização revela que os Estados-Membros mais especializados na exportação de têxteis usados são, em 2025:
| Estado-Membro | RCA | RSCA |
|---|---|---|
| Bulgária | 13,01 | 0,857 |
| Lituânia | 5,46 | 0,690 |
| Letónia | 2,99 | 0,499 |
| Suécia | 2,05 | 0,344 |
| Finlândia | 1,96 | 0,324 |
A Bulgária destaca-se com uma RCA (Vantagem Comparativa Revelada) de 13,01 — um valor extremamente elevado que indica uma forte especialização nesta rubrica. Estes resultados são consistentes com a existência de infraestruturas de recolha, triagem e exportação de têxteis usados bem desenvolvidas nestes países, frequentemente ligadas a organizações humanitárias e de reciclagem.
No extremo oposto, Luxemburgo (RCA ≈ 0), Malta (0,03), Grécia (0,12), Roménia (0,15) e Portugal (0,23) apresentam os níveis mais baixos de especialização, reflectindo mercados internos mais pequenos ou uma menor integração nas cadeias de valor dos têxteis em segunda mão.
Choques de preço pontuais marcam o período 2022
A análise de volatilidade e choques identificou três eventos de choço relevantes, todos centrados em 2022:
| Entidade | Tipo | Fluxo | Abnormalidade | Variação | Participação no valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Melilha | Preço | Exportações | 407,9 | +275,4% | 2,3% |
| Suíça | Preço | Importações | 24,2 | +45,4% | 17,0% |
| Camarões | Preço | Exportações | 22,9 | +12,5% | 10,3% |
O choço mais intenso verificou-se em Melilha, território espanhol em Marrocos, onde os preços de exportação dispararam 275% em 2022 — possivelmente ligado a anomalias estatísticas ou a fluxos atípicos de reexportação. O choço na Suíça (importações com variação de +45,4% e participação de 17% no valor) é mais relevante em termos de impacto macro, podendo reflectir disrupções logísticas ou alterações na qualidade/tipo de produto importado.
A volatilidade por parceiro é particularmente elevada nas importações provenientes da China (CV 1,82) e de Marrocos (CV 1,35), sugerindo que estas rotas são mais sujeitas a flutuações — possivelmente por volumes esporádicos ou por variações na composição dos lotes. Do lado das exportações, Marrocos (CV 0,63) e os EAU (CV 0,41) apresentam os maiores coeficientes de variação, indicando relações comerciais menos estáveis.
Conclusão
O mercado europeu de têxteis usados (CN 6309) entre 2015 e 2025 caracteriza-se por três tendências dominantes: (1) uma compressão estrutural dos preços, que levou a uma dissociação entre o crescimento em volume e o declínio em valor das exportações; (2) uma reconfiguração geográfica significativa, com a ascensão dos Emirados Árabes Unidos e de destinos africanos ocidentais em detrimento de parceiros tradicionais como a Tunísia e a Ucrânia; e (3) uma transformação interna da distribuição do comércio entre os Estados-Membros, com a perda de peso da Alemanha como exportadora e a emergência dos Países Baixos como ponto de importação central.
Apesar destas transformações, a UE mantém uma posição de exportador líquido robusto, com um saldo comercial de 622 milhões de euros em 2025. A crescente diversificação das fontes de importação (queda do HHI de 3.462 para 2.475) e a pulverização das exportações por múltiplos destinos conferem ao sector alguma resiliência estrutural. Contudo, a contínua erosão dos preços de exportação — de 869 €/t em 2015 para 633 €/t em 2025 — merece atenção, podendo reflectir uma pressão competitiva crescente ou uma mudança qualitativa na composição dos fluxos comerciais.