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Evolução do mercado: Passamanarias (CN 5808) — 2015–2025

Introdução

O código NC 5808 abrange tranças em peça, artigos de passamanaria e ornamentais análogos, borlas, pompons e artigos semelhantes, produtos têxteis com aplicação vasta na moda, decoração e indústria automóvel. Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor atravistou uma transformação profunda: embora o valor total das exportações se tenha mantido relativamente estável (52,3 M€ → 51,2 M€), o volume caiu 25 %, enquanto as importações cresceram em quantidade (+68 %) mas estagnaram em valor, comprimindo os preços unitários médios. Este relatório analisa as três dinâmicas mais relevantes — a desacoplagem preço-volume, a reconfiguração geográfica dos parceiros e os padrões de especialização e volatilidade — com base nos dados disponíveis para o período 2015-01 a 2025-12.


1. A erosão do superavit comercial: volumes ascendentes, preços descendentes

A principal história do período é a progressiva compressão do excedente comercial da UE em passamanarias. Em 2015, a UE registava um superavit de 17,4 M€; em 2025, esse valor tinha-se reduzido para 10,8 M€ (−38 %). A dinâmica subjacente é marcada por uma divergência nítida entre fluxos de importação e de exportação.

1.1. Importações: crescimento de volume e queda de preço

As importações da UE provenientes de países terceiros quase duplicaram em peso líquido ao longo da década:

Métrica 2015 2025 Variação
Valor (M€) 34,8 40,4 +16,0 %
Quantidade (t) 2 029 3 401 +67,6 %
Preço médio (€/t) 17 157 11 879 −30,8 %

O volume cresceu muito mais do que o valor, o que implica uma queda acentuada do preço médio importado. Isto sugere uma crescente pressão competitiva das origens asiáticas, particularmente da China, que domina as importações com uma quota praticamente estável em valor (≈18,9 M€ em ambos os extremos do período, −0,3 %), mas com volumes certamente muito superiores.

1.2. Exportações: manutenção de valor apesar da perda de volume

O lado exportador revela um padrão oposto:

Métrica 2015 2025 Variação
Valor (M€) 52,3 51,2 −2,1 %
Quantidade (t) 1 799 1 343 −25,3 %
Preço médio (€/t) 29 050 38 088 +31,1 %

Apesar de uma perda significativa de volume, o valor manteve-se quase constante, sustentado por um aumento de 31 % no preço médio exportado. Isto indica que a UE se deslocou para segmentos de maior valor acrescentado — uma hipótese confirmada pela análise de subprodutos na secção 3.

1.3. Implicações para a autonomia comercial

A dependência líquida de importações (calculada como percentagem do consumo interno aparente) passou de −17,6 % para −2,6 %, uma melhoria de 85,3 % em termos relativos. A UE permaneceu exportador líquido ao longo de todo o período, mas a margem encolheu substancialmente. A propensão para exportar desceu de 25,0 % para 18,3 % (−26,9 %), sinalizando que a produção interna está progressivamente orientada para o mercado doméstico em vez de para a exportação. A intensidade comercial manteve-se relativamente estável (31,9 % → 29,4 %, −7,7 %).


2. Reconfiguração geográfica: o declínio dos destinos atlânticos e a consolidação das relações sul-europeias

2.1. Exportações da UE: perda do mercado norte-americano e ganhos no espaço mediterrânico

A geografia das exportações sofreu alterações profundas. Os Estados Unidos, que em 2015 eram o principal destino das exportações da UE (8,7 M€), caíram para 3,6 M€ em 2025 (−58,8 %). O Reino Unido, outro mercado atlântico tradicional, também recuou significativamente (4,0 M€ → 2,5 M€, −37,6 %).

Em contrapartida, as exportações para parceiros do Mediterrâneo e da Europa revelaram maior resiliência ou até crescimento:

Parceiro 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Tunísia 3,3 4,4 +32,7 %
Suíça 2,6 3,6 +37,9 %
Marrocos 5,1 3,9 −24,2 %
Turquia 2,2 1,9 −16,9 %
Noruega 1,9 1,3 −28,8 %

A Tunísia e a Suíça consolidaram-se como mercados de referência. A Tunísia, em particular, é simultaneamente destino de exportação e origem de importação, funcionando como plataforma de reexportação e de subcontratação têxtil.

2.2. Importações: a dominância estável da China e o crescimento da Turquia e dos EUA

Do lado das importações, a China manteve uma posição dominante, com 18,9 M€ em ambos os extremos do período. Contudo, o crescimento mais dinâmico registou-se noutros parceiros:

Parceiro 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Estados Unidos 2,0 3,6 +82,9 %
Turquia 1,7 2,5 +46,8 %
Tunísia 2,5 2,7 +7,6 %
Índia 1,7 1,5 −14,2 %
Reino Unido 2,3 2,1 −8,3 %

O crescimento das importações norte-americanas (+82,9 %) é notável e pode refletir reexportações ou cadeias de valor transatlânticas. A Turquia, com o maior aumento relativo (+46,8 %), reforça a sua posição como fornecedor proximal de passamanarias de custo intermédio.

2.3. Redistribuição intra-UE: a ascensão da Alemanha e o declínio da França

No interior da UE, a redistribuição das funções de importação e exportação revela uma ascensão marcante da Alemanha e um declínio acentuado da França:

Exportações intra-UE (M€):

País 2015 2025 Variação
Alemanha 14,2 22,8 +60,4 %
França 23,6 11,7 −50,3 %
Itália 4,8 4,7 −2,9 %
Polónia 0,7 1,3 +73,1 %

A França, que em 2015 era o maior exportador de passamanarias da UE, viu o seu valor reduzido para metade. A Alemanha assumiu a liderança, impulsionada por uma base industrial diversificada e por um forte posicionamento em segmentos de maior valor. A Polónia (+73,1 %) emergiu como ator relevante, refletindo a integração das cadeias de valor têxteis da Europa de Leste.


3. Especialização, segmentação de produto e choques de volatilidade

3.1. Padrões de especialização: França e Portugal lideram, mas com perfis distintos

A análise de especialização revela que a França (RSCA = 0,565, RCA = 3,60) e Portugal (RSCA = 0,481, RCA = 2,86) são os Estados-Membros mais especializados em passamanarias em 2025. A França detém 28,1 % da produção da UE, mas apenas 7,8 % do total das suas exportações. Portugal, com uma quota de produção de 3,9 %, apresenta um perfil de especialização proporcionalmente mais forte.

Os países menos especializados — Irlanda (RSCA = −0,999), Chipre (RSCA = −0,997) e Luxemburgo (RSCA = −0,987) — não dispõem de capacidade de produção relevante neste setor.

A produção total da UE em valor desceu de 311,6 M€ para 258,8 M€ (−16,9 %), acompanhando a contração das exportações em volume e sugerindo uma reestruturação do sector com encerramento de unidades de menor produtividade.

3.2. Segmentação de produto: as tranças (580810) ganham peso face aos ornamentos (580890)

A decomposição por subproduto revela uma clara divergência entre os dois segmentos do código 5808:

Exportações por subproduto (M€):

Subproduto 2015 2025 Variação
580810 — Tranças em peça 24,0 34,3 +42,9 %
580890 — Artigos ornamentais e afins 28,2 16,8 −40,4 %

As tranças em peça (580810) tornaram-se claramente o motor das exportações, crescendo 43 % em valor, enquanto os artigos ornamentais (580890) sofreram uma queda acentuada (−40 %). Esta transição explica em grande parte o aumento do preço médio das exportações: as tranças têm um preço de exportação médio de 39 660 €/t em 2025, face a 35 203 €/t dos artigos ornamentais.

Importações por subproduto (t):

Subproduto 2015 2025 Variação
580890 — Artigos ornamentais e afins 1 387 2 469 +78,0 %
580810 — Tranças em peça 642 932 +45,2 %

Do lado das importações, os artigos ornamentais (580890) dominam em volume e cresceram 78 %, mas o seu preço de importação caiu de 17 736 €/t para 9 647 €/t (−46 %), refletindo uma intensificação da concorrência asiática em produtos de menor valor unitário. As tranças importadas, por seu lado, mantiveram preços mais estáveis (15 900 → 17 780 €/t).

3.3. Volatilidade e choques de preço nos parceiros de exportação

A análise de volatilidade e a deteção de choques revelam três eventos relevantes no período:

Choque Tipo Data Variação Grau de anomalia
Turquia (exportações UE) Preço 2023 +101,8 % 37,7
Suíça (exportações UE) Preço 2022 +26,1 % 8,0
Reino Unido (exportações UE) Preço 2022 +37,4 % 5,5

O choque mais significativo ocorreu nas exportações para a Turquia em 2023, com uma duplicação do preço médio (+101,8 %) e um grau de anomalia de 37,7, sugerindo uma alteração estrutural na composição do produto exportado ou um episódio de escassez. Os choques de 2022 no Reino Unido e na Suíça, com anomalias mais moderadas (5,5 e 8,0), coincidem com o período de pós-pandemia e de perturbações logísticas.

Do lado das importações, os parceiros com maior coeficiente de variação incluem Marrocos (CV = 1,57), Macedónia do Norte (CV = 1,16) e Vietname (CV = 0,81), indicando fornecimentos intermitentes ou de pequena escala. A China, com CV = 0,14, é de longe o fornecedor mais estável.

3.4. Concentração do mercado

A concentração das importações (HHI) diminuiu de 3 210 para 2 495 (−22,3 %), embora permaneça num nível moderadamente elevado, reflectindo o peso persistente da China. A concentração das exportações é muito inferior (683 → 547, −19,8 %), confirmando que os fluxos de saída da UE estão mais diversificados entre parceiros.


Conclusão

O mercado europeu de passamanarias (CN 5808) encontra-se num ponto de inflexão estrutural. A UE manteve-se exportador líquido ao longo de toda a década, mas o superavit comercial foi significativamente erodido (−38 % em valor). A principal causa é a combinação de um crescimento robusto das importações em volume (+68 %), sobretudo de artigos ornamentais de baixo preço provenientes da China, com uma queda acentuada das exportações de segmentos de menor valor (-25 % em peso). Em paralelo, a UE reorientou a sua produção e exportação para tranças de maior valor unitário (+43 % em valor exportado), num movimento ascendente na cadeia de valor.

Geograficamente, observou-se uma reconfiguração significativa: o mercado norte-americano, outrora o principal destino, encolheu 59 %, enquanto a Tunísia e a Suíça ganharam relevância. No interior da UE, a Alemanha substituiu a França como principal exportador, e a Polónia emergiu como ator crescente, refletindo a reorganização das cadeias de valor têxteis europeias.

Os riscos futuros residem na concentração persistente das importações na China (HHI = 2 495), na crescente pressão dos preços asiáticos sobre o segmento dos artigos ornamentais e na vulnerabilidade a choques de preço em parceiros-chave como a Turquia. A capacidade da UE de manter a sua vantagem competitiva dependerá da continuação da aposta em segmentos de maior valor acrescentado e da diversificação das origens de aprovisionamento.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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