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Evolução do mercado: Gomas e resinas naturais (CN 1301) — 2015–2025

Introdução

O código NC 1301 abrange a goma-laca, gomas naturais, resinas, gomas-resinas e oleorresinas naturais (incluindo bálsamos). Este setor agrícola de nicho é essencial para indústrias como a alimentar, farmacêutica, cosmética e de revestimentos. A União Europeia, enquanto bloco comercial, tanto importa matérias-primas brutas de países produtores como exporta produtos transformados para mercados globais.

Entre 2015 e 2025, o comércio da UE neste setor assistiu a mudanças estruturais significativas. O valor total das exportações cresceu 70,3%, atingindo 209,0 milhões de euros em 2025, enquanto as importações cresceram 45,3%, totalizando 246,2 milhões de euros. Contudo, estes crescimentos escondem dinâmicas divergentes nos volumes, nos preços e nos parceiros comerciais que importa analisar em detalhe.

Sobre o âmbito e as definições do produto


1. A inflação dos preços como motor principal do crescimento do valor comercial

O volume comercial manteve-se estável enquanto os preços dispararam

O aspeto mais marcante da evolução do mercado entre 2015 e 2025 é a disparidade entre a estagnação dos volumes e o crescimento acentuado dos valores. Do lado das exportações, a quantidade passou de 33.909 toneladas em 2015 para 33.701 toneladas em 2025 — uma variação de apenas -0,6% — enquanto o valor total cresceu 70,3%. Isto traduziu-se num aumento do preço médio de exportação de 3.619 €/t para 6.201 €/t (+71,3%).

Do lado das importações, o padrão é semelhante mas menos extremo: os volumes cresceram 10,4% (de 82.203 t para 90.784 t), enquanto o valor aumentou 45,3%. O preço médio das importações subiu de 2.062 €/t para 2.712 €/t (+31,5%).

Indicador 2015 2025 Variação
Exportações — Valor (M€) 122,7 209,0 +70,3%
Exportações — Volume (kt) 33,9 33,7 -0,6%
Exportações — Preço (€/t) 3.619 6.201 +71,3%
Importações — Valor (M€) 169,5 246,2 +45,3%
Importações — Volume (kt) 82,2 90,8 +10,4%
Importações — Preço (€/t) 2.062 2.712 +31,5%

Visão geral do comércio

Os dois segmentos do código NC 1301 apresentam trajetórias distintas

O código 1301 desdobra-se em dois subprodutos principais: a goma-arábica (130120) e as demais gomas e resinas naturais (130190). A análise segmentada revela dinâmicas preponderantemente distintas:

  • Goma-arábica (130120): Dominante nas importações, com 65.286 t (173,2 M€) em 2025, e nas exportações, com 32.220 t (158,8 M€). O preço de exportação subiu de 3.104 €/t para 4.929 €/t (+59%), refletindo a crescente pressão sobre as cadeias de abastecimento saarianas e sub-saarianas.

  • Outras gomas e resinas (130190): Apresenta volumes muito inferiores na exportação (1.481 t em 2025), mas com preços drasticamente mais elevados (33.850 €/t em 2025), indicando que a UE exporta sobretudo produtos altamente transformados e de valor acrescentado. Este segmento sofreu uma quebra acentuada em volumes de importação, passando de 44.183 t em 2019 para 25.498 t em 2025 (-42,3%).

Segmento Importações 2025 (t) Importações 2025 (M€) Exportações 2025 (t) Exportações 2025 (M€)
Goma-arábica (130120) 65.286 173,2 32.220 158,8
Outras gomas/resinas (130190) 25.498 73,1 1.481 50,2

Comparação por segmento de produto

A França domina o comércio europeu de forma avassaladora

Do lado interno da UE, a França é claramente o epicentro do comércio em NC 1301 como importador e exportador, refletindo a posição das antigas colónias francesas do Sahel como principais regiões produtoras de goma-arábica. As importações francesas cresceram 61,2% (de 89,4 M€ para 144,2 M€) e as exportações 62,8% (de 88,2 M€ para 143,6 M€). A Alemanha surge em segundo lugar com 46,1 M€ em importações, mas com um crescimento menos acentuado. Um caso notável é o de Portugal, cujas importações dispararam 1.845%, atingindo 21,4 M€ em 2025.

Países da UE por valor


2. A reconfiguração das cadeias de abastecimento: o avanço do Sahel e o recuo da América Latina

O Chade emergiu como a grande história de crescimento nas importações

A análise dos parceiros comerciais revela uma profunda reconfiguração das fontes de abastecimento europeu ao longo da década. O Saara e o Sahel consolidaram-se como o centro nevrálgico da produção de goma-arábica, com o Sudão a manter-se como principal fornecedor (94,6 M€ em 2025), mas a grande surpresa foi o Chade, cujas exportações para a UE cresceram de 13,5 M€ para 47,7 M€ (+253,5%).

Fornecedor 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Sudão 69,4 94,6 +36,4%
Chade 13,5 47,7 +253,5%
Brasil 18,5 21,9 +18,2%
Índia 8,8 16,5 +87,9%
Reino Unido 15,3 8,7 -43,5%
Somália 7,6 5,0 -34,1%

Principais parceiros importadores

A América Latina sofreu quebras e elevada instabilidade

O Brasil, apesar de se manter entre os principais fornecedores, apresentou uma trajetória errática: o valor das exportações para a UE atingiu um máximo de 52,4 M€ em algum ponto do período, caindo para 21,9 M€ em 2025. A Argentina praticamente desapareceu das importações da UE, passando de 250.000 € para menos de 90 € (-100%). O Egito, embora com volumes menores, apresentou a volatilidade mais extrema entre todos os fornecedores, com um coeficiente de variação de 1,89, sinalizando interrupções graves e imprevisíveis no fornecimento.

A queda da Argentina, em particular, pode refletir a conjugação de fatores como a seca, a conversão de terras para soja e a menor competitividade face aos fornecedores africanos.

As exportações europeias diversificaram-se geograficamente, com destaque para a Ásia

No lado das exportações, os Estados Unidos consolidaram-se como o maior destino (56,5 M€ em 2025, +109,8% face a 2015). Contudo, o crescimento mais dinâmico registou-se em mercados não tradicionais:

Destino 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Estados Unidos 26,9 56,5 +109,8%
Suíça 7,1 22,6 +218,7%
China 6,8 14,5 +113,5%
Turquia 4,3 9,7 +126,7%
México 3,8 7,3 +93,0%
Reino Unido 12,4 9,5 -23,0%
Brasil 13,3 9,3 -30,0%

O crescimento para a China e a Turquia sugere que a procura por gomas e resinas naturais está a expandir-se rapidamente nos mercados emergentes, possivelmente impulsionada pela indústria alimentar e cosmética asiática. A Suíça, embora mercado de trânsito, registou a maior taxa de crescimento (+218,7%), atingindo mesmo um máximo de 43,9 M€ em determinado ano, o que pode refletir reexportações.

Principais parceiros exportadores


3. Riscos estruturais: concentração geográfica, volatilidade e dependência do Sahel

O índice HHI revela uma concentração moderada nas importações e crescente nas exportações

O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) do valor das importações manteve-se relativamente estável entre 2015 e 2025, situando-se na faixa dos 2.015 a 2.030 — valores que indicam uma concentração moderada, à medida que o fornecimento africano é partilhado entre vários países (Sudão, Chade, Somália, Senegal, Mali, Nigéria).

Métrica HHI 2015 2025 Variação
Importações (valor) 2.015 2.030 +0,7%
Importações (volume) 3.248 2.799 -13,8%
Exportações (valor) 855 1.033 +20,9%
Exportações (volume) 982 1.173 +19,4%

O lado das exportações apresentou HHI mais baixos, confirmando uma maior diversificação dos mercados de destino. Contudo, o aumento de 855 para 1.033 (+20,9%) no HHI das exportações por valor indica alguma crescente concentração no destino, provavelmente impulsionada pelo crescimento do peso dos Estados Unidos.

Análise da concentração

A Apganistão geopolítica do Sahel agrava a exposição ao risco de fornecimento

A elevada dependência das importações europeias face aos países do Sahel e do Saara constitui um risco estrutural. O Sudão e o Chade, que em conjunto representam a maioria das importações de goma natural, sofrem instabilidade política crónica, conflitos armados e condições climáticas extremas. A volatilidade nas importações de fornecedores africanos confirma esta vulnerabilidade:

Fornecedor Coeficiente de Variação
Egito 1,89
Argentina 0,85
Somália 0,50
Mali 0,48
Chade 0,45
Senegal 0,42
Indonésia 0,34
Reino Unido 0,30
Nigéria 0,24
Índia 0,23
Brasil 0,21
Sudão 0,16

Em particular, o Saara central (Chade, Mali) apresenta coeficientes de volatilidade muito elevados, ligados tanto a interrupções logísticas como a fatores sazonais. A deteção de um choque de preço nas exportações para o Brasil em 2022, com uma anomalia de 4,6 e um aumento de 47,4% nos preços, ilustra como os choques se podem propagar ao longo da cadeia de valor.

Volatilidade por parceiro

A melhoria do défice comercial mascara uma vulnerabilidade crescente

O saldo comercial da UE em NC 1301 melhorou de -46,8 M€ em 2015 para -37,2 M€ em 2025 (+20,4%), tendo mesmo registado um excedente pontual de 13,0 M€ em determinado ano. Contudo, esta melhoria é essencialmente impulsionada pela inflação dos preços de exportação (que cresceram 71%) mais do que por ganhos reais de volume. Com os preços das importações a subirem 31,5% e os volumes de importação a crescerem 10,4%, a dependência estrutural da UE face ao fornecimento externo permanece elevada. Em 2025, as importações representaram cerca de 2,4 vezes o volume das exportações, confirmando que a UE é primordialmente um transformador e reexportador, e não uma região produtora de gomas naturais.

Métrica 2015 2025 Variação
Saldo comercial (M€) -46,8 -37,2 +20,4%
Exportações / Importações (volume) 0,41 0,37 -10,1%
Exportações / Importações (valor) 0,72 0,85 +17,2%

Choques de fornecimento identificados


Conclusão

O mercado europeu de gomas e resinas naturais (CN 1301) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por três tendências convergentes: a inflação acentuada dos preços, a reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento e a crescente exposição a riscos geopolíticos e climáticos.

O crescimento nominal de 70,3% nas exportações e 45,3% nas importações esconde, na realidade, uma estagnação quase total dos volumes exportados e um crescimento modesto dos volumes importados. A "história" do período é fundamentalmente uma história de preços, refletindo a escassez crescente de goma-arábica face a uma procura global em expansão, bem como pressões de custos nas cadeias de abastecimento africanas.

O Sahel consolidou-se como a região central do abastecimento europeu — o Sudão e o Chade representam agora mais de metade do valor das importações —, enquanto a América Latina perdeu relevância. Do lado das exportações, a UE fortaleceu a sua posição nos mercados asiáticos e norte-americanos, triângulos comerciais que tendem a intensificar-se com a crescente procura global por ingredientes naturais para a indústria alimentar, farmacêutica e cosmética.

A principal fragilidade do setor reside na concentração geográfica do fornecimento em regiões politicamente instáveis. Os elevados coeficientes de volatilidade dos fornecedores do Sahel, conjugados com a vulnerabilidade climática do ecossistema de gomas naturais, indicam que a UE enfrenta um risco estrutural de interrupções de fornecimento que tenderá a agravar-se com as alterações climáticas e a desestabilização da região saeliana. A aposta na diversificação de fornecedores e no investimento na transformação de valor acrescentado europeu serão fatores determinantes para a resiliência futura deste setor.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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