Evolução do mercado: Vermutes (CN 2205) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 2205 abrange os vermutes e outros vinhos de uvas frescas aromatizados por plantas ou substâncias aromáticas. A União Europeia é simultaneamente o maior produtor e o principal exportador mundial deste produto, com a Itália, a Espanha e a França a concentrarem perto de 79 % da produção europeia. Entre 2015 e 2025, o setor assistiu a três dinâmicas fundamentais: (i) uma forte expansão do superávit comercial, impulsionada sobretudo pela subida dos preços; (ii) uma reconfiguração das rotas geográficas, com consolidação dos EUA como principal destino e emergência da Argentina como fornecedor; e (iii) um processo acentuado de premialização, com os volumes de produção a recuarem e os valores a atingirem máximos históricos. Este relatório analisa cada uma destas tendências com base nos dados disponíveis.
1. Um superávit comercial em expansão: o preço como motor do crescimento
1.1 As exportações crescem 82 % em valor, mas apenas 14 % em volume
O período 2015–2025 foi marcado por uma divergência acentuada entre a evolução do valor e do volume das exportações da UE de vermute. O valor exportado passou de 149,4 M EUR para 271,9 M EUR (+82,0 %), enquanto o volume subiu de 91 560 t para 104 093 t (+13,7 %). Esta diferença é explicada pela forte subida do preço médio de exportação, que passou de 1 632 EUR/t para 2 612 EUR/t (+60,1 %). A aceleração mais pronunciada deu-se entre 2021 e 2023, período em que os preços de exportação subiram de 1 841 EUR/t para 2 538 EUR/t, refletindo a onda inflacionária global e o aumento dos custos de energia e matéria-prima.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (M EUR) | 149,4 | 271,9 | +82,0 |
| Exportações — volume (mil t) | 91,6 | 104,1 | +13,7 |
| Exportações — preço médio (EUR/t) | 1 632 | 2 612 | +60,1 |
1.2 O superávit comercial quase duplica, atingindo 263 milhões de euros
Graças ao crescimento das exportações muito acima do das importações, o saldo comercial da UE passou de 142,8 M EUR em 2015 para 263,2 M EUR em 2025 (+84,3 %). A dependência líquida de importações (medida como o rácio entre o saldo comercial e o valor total das exportações) agravou-se de −41,4 % para −56,7 %, sinalizando que a UE reforçou a sua posição de exportador líquido. Em 2024, o valor exportado atingiu o máximo do período (284,5 M EUR), antes de uma ligeira contração em 2025.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (M EUR) | 6,6 | 8,7 | +31,1 |
| Importações — volume (mil t) | 2,7 | 3,1 | +15,2 |
| Importações — preço médio (EUR/t) | 2 425 | 2 758 | +13,8 |
| Saldo comercial (M EUR) | 142,8 | 263,2 | +84,3 |
| Dependência líquida de importação (%) | −41,4 | −56,7 | −37,0 |
1.3 Importações residuais e voláteis: uma fração marginal do comércio externo
As importações representam sempre menos de 3,5 % do valor exportado, mas a sua evolução é marcada por uma volatilidade considerável. O valor das importações atingiu o máximo em 2019 (15,1 M EUR) — impulsionado por compras excecionais dos EUA e da Argentina — e caiu para o mínimo em 2021 (4,2 M EUR), provavelmente em resultado das disrupções logísticas associadas à pandemia. Em 2025, as importações situaram-se nos 8,7 M EUR, um nível ainda inferior ao de 2017. A propensão para exportar subiu de 30,1 % para 37,2 %, confirmando que uma parcela crescente da produção europeia se destina aos mercados externos.
2. Redinâmica geográfica: consolidação dos EUA e os choques de preço de 2022
2.1 Os EUA consolidam-se como principal destino das exportações europeias
Ao longo da década, os Estados Unidos tornaram-se de longe o principal parceiro comercial da UE no segmento do vermute. As exportações para os EUA cresceram de 39,2 M EUR para 86,5 M EUR (+120,6 %), representando 31,8 % do total exportado em 2025. A Rússia, segundo maior destino, duplicou o valor recebido (21,7 M → 43,9 M EUR; +102,2 %). O Reino Unido, terceiro destino, cresceu de forma mais modesta (21,1 M → 23,9 M EUR; +13,1 %), possivelmente refletindo os efeitos do Brexit nas relações comerciais. A Ucrânia (+156,9 %) e o Canadá (+39,8 %) completam os destinos com maior crescimento, enquanto o Japão se manteve praticamente estagnado (−1,0 %).
| País destino | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 39,2 | 86,5 | +120,6 |
| Federação Russa | 21,7 | 43,9 | +102,2 |
| Reino Unido | 21,1 | 23,9 | +13,1 |
| Ucrânia | 3,7 | 9,5 | +156,9 |
| Suíça | 8,1 | 12,9 | +59,7 |
| Japão | 8,0 | 7,9 | −1,0 |
| Canadá | 6,9 | 9,7 | +39,8 |
2.2 Choques de preço em 2022: Argentina nas importações e Rússia nas exportações
O ano de 2022 destacou-se pela ocorrência de dois choques de preço significativos. No lado das importações, a Argentina registou uma subida anómala de preço de +72,3 %, com uma quota de valor de 27,4 % — possivelmente ligada à desvalorização do peso argentino e à crise económica do país. No lado das exportações, a Rússia registou um choque de +89,2 %, com uma quota de valor de 20,2 %, no contexto das sanções económicas subsequentes à invasão da Ucrânia e da volatilidade cambial do rublo. Estes eventos ilustram a elevada volatilidade que caracteriza os fluxos de vermute com parceiros geopoliticamente expostos: a Noruega, a Moldávia e a Austrália apresentam os coeficientes de variação mais elevados nas importações (CV > 1,6), enquanto a China e a Gana lideram a volatilidade nas exportações.
2.3 A Argentina e o Chile reconfiguram o mapa das importações
O lado das importações sofreu uma profunda reconfiguração geográfica. Os EUA, que em 2015 eram a maior fonte de importações (3,4 M EUR), reduziram-se a 1,3 M EUR em 2025 (−62,5 %). O Reino Unido e a Noruega seguiram trajetórias semelhantes (−63,4 % e −99,4 %, respetivamente). Em contrapartida, a Argentina passou de 65 mil EUR para 3,7 M EUR (+5 661 %), tornando-se o principal fornecedor extra-UE, enquanto o Chile cresceu de 507 mil EUR para 1,1 M EUR (+113,1 %). Esta transição reflete provavelmente mudanças nas cadeias de abastecimento, nos custos logísticos e na reconfiguração das preferências dos importadores europeus face a novos acordos comerciais e condições cambiais.
| País origem | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Argentina | 0,06 | 3,7 | +5 661 |
| Chile | 0,5 | 1,1 | +113,1 |
| Geórgia | 0,6 | 0,6 | −7,0 |
| Jamaica | 0,4 | 0,4 | −6,7 |
| Estados Unidos | 3,4 | 1,3 | −62,5 |
| Reino Unido | 1,0 | 0,3 | −63,4 |
| Noruega | 0,6 | <0,01 | −99,4 |
3. Premialização e reestruturação: queda dos volumes de produção, crescimento dos valores
3.1 A produção europeia perde 39 % em volume, mas ganha 69 % em valor
O paradoxo mais marcante do período reside na evolução da produção europeia de vermute. O volume de produção recuou 39,3 % entre 2015 e 2025, atingindo o mínimo do período em anos recentes. Em contrapartida, o valor da produção cresceu 68,9 %, atingindo 763,9 M EUR em 2025 — o máximo da série. Esta dinâmica traduz um processo intenso de premialização: os produtores europeus estão a produzir menos volume, mas a gerar mais valor, provavelmente através da reorientação para gamas premium, da valorização de denominações de origem e da redução de produtos de menor margem.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção — volume | 456 878 | 277 498 | −39,3 |
| Produção — valor (M EUR) | 452,2 | 763,9 | +68,9 |
3.2 Recipientes pequenos dominam 95 % das exportações; grandes contentores ganham peso nas importações
A análise por segmento de produto revela padrões distintos entre importações e exportações. Nas exportações, o segmento de recipientes de capacidade ≤ 2 l (220510) representa 94,6 % do valor, com crescimento de 86,4 % ao longo do período, enquanto o segmento de grandes contentores (> 2 l, 220590) cresceu apenas 27,6 %, reduzindo a sua quota de 7,6 % para 5,4 %.
Nas importações, a dinâmica é inversa e mais surpreendente. O segmento de grandes contentores (220590) passou de 1,6 % para 16,9 % do valor importado, com um crescimento de 1 322 % — de 103 mil EUR para 1,5 M EUR. O preço médio de importação deste segmento mais do que duplicou (de 526 EUR/t para 1 071 EUR/t). Esta evolução sugere um aumento das importações de vermute a granel, possivelmente destinado a engarrafamento, mistura ou uso industrial na UE.
| Segmento | Exportações 2015 (M EUR) | Exportações 2025 (M EUR) | Quota 2025 |
|---|---|---|---|
| 220510 — recipientes ≤ 2 l | 138,0 | 257,3 | 94,6 % |
| 220590 — recipientes > 2 l | 11,4 | 14,6 | 5,4 % |
| Total | 149,4 | 271,9 | 100 % |
| Segmento | Importações 2015 (M EUR) | Importações 2025 (M EUR) | Quota 2025 |
|---|---|---|---|
| 220510 — recipientes ≤ 2 l | 6,5 | 7,2 | 83,1 % |
| 220590 — recipientes > 2 l | 0,1 | 1,5 | 16,9 % |
| Total | 6,6 | 8,7 | 100 % |
3.3 Itália lidera a especialização; a Letónia surge como quarto maior exportador
De acordo com os índices de especialização revelada, a Itália é o Estado-Membro com maior vantagem comparativa no vermute (RCA = 5,6; quota de produção de 44,8 %), seguida pela França (RCA = 2,9; 22,9 %) e pela Espanha (RCA = 1,9; 10,9 %). Juntos, estes três países representam perto de 79 % da produção europeia.
No que respeita à concentração dos parceiros comerciais, o índice HHI das exportações subiu de 1 225 para 1 462 (+19,4 %), permanecendo abaixo do limiar de concentração elevada (1 500), mas sinalizando uma ligeira tendência de concentração. Nas importações, o HHI desceu de 3 141 para 2 624 (−16,5 %), indicando uma diversificação das fontes de abastecimento.
No que respeita aos Estados-Membros exportadores, a evolução mais notável é a da Letónia, que passou de 5,9 M EUR para 30,4 M EUR (+412,8 %), tornando-se o quarto maior exportador da UE em 2025 — atrás apenas de Itália, França e Espanha. A Irlanda (+386,9 %) e os Países Baixos (+128,2 %) também registaram crescimentos acentuados, ainda que de base inferior.
| Estado-Membro | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) | Quota 2025 |
|---|---|---|---|---|
| Itália | 55,8 | 108,0 | +93,3 | 39,7 % |
| França | 29,1 | 48,7 | +67,5 | 17,9 % |
| Espanha | 35,4 | 46,9 | +32,6 | 17,3 % |
| Letónia | 5,9 | 30,4 | +412,8 | 11,2 % |
| Alemanha | 15,4 | 19,8 | +28,2 | 7,3 % |
| Irlanda | 1,0 | 4,8 | +386,9 | 1,8 % |
| Países Baixos | 1,2 | 2,8 | +128,2 | 1,0 % |
Conclusão
O mercado europeu de vermutes (CN 2205) reforçou significativamente a sua posição internacional entre 2015 e 2025. O superásit comercial quase duplicou, atingindo 263 M EUR, impulsionado sobretudo por aumentos de preço (+60 % nas exportações) mais do que por crescimento de volume (+14 %). A reconfiguração geográfica foi marcante: os EUA consolidaram-se como destino dominante (32 % das exportações), a Argentina emergiu como principal fornecedor extra-UE, e a Letónia ascendeu a quarto maior exportador europeu. A produção europeia, embora com volumes em queda acentuada (−39 %), gerou valores record (+69 %), confirmando um processo profundo de premialização. Os riscos identificados incluem a crescente concentração das exportações em poucos mercados (com os choques de preço de 2022 a demonstrarem a vulnerabilidade a perturbações geopolíticas), a redução estrutural dos volumes produtivos e a dependência crescente de matérias-primas importadas da América do Sul para o segmento a granel.