Evolução do mercado: Tesouras (CN 8213) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia para o código aduaneiro 8213 — Tesouras e suas lâminas — ao longo do período 2015–2025. Os dados disponíveis cobrem um período de onze anos completos, permitindo identificar tendências estruturais e pontuais. O setor é mapeado ao código Prodcom 25.71.11.90 e abrange tesouras profissionais, domésticas e industriais, bem como as respectivas lâminas.
A análise revela três dinâmicas principais: (i) uma erosão acentuada da capacidade produtiva intra-europeia, que transformou a UE de um bloco quase auto-suficiente num importador líquido significativo; (ii) a crescente concentração das importações na China, com implicações claras para a autonomia estratégica do bloco; e (iii) a reconfiguração dos mercados de destino das exportações europeias, marcada pelo afastamento geopolítico da Rússia e pela instabilidade pós-Brexit com o Reino Unido.
1. O declínio produtivo europeu e a viragem para a dependência importadora
1.1. A produção intra-europeia desmoronou entre 2015 e 2025
O dado mais marcante deste período é o colapso da produção europeia de tesouras. A quantidade produzida caiu de 90,6 milhões de unidades para 18,0 milhões de unidades — uma queda de 80,1%. Em valor, a redução foi de 156,0 M€ para 80,0 M€ (−48,7%). Esta divergência entre a queda em quantidade e a queda em valor sugere que os fabricantes europeus que sobreviveram se reorientaram para segmentos de maior valor acrescentado (tesouras profissionais, cirúrgicas, de precisão), abandonando progressivamente a produção de gama baixa.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção (unidades) | 90,6 M | 18,0 M | −80,1% |
| Produção (valor) | 156,0 M€ | 80,0 M€ | −48,7% |
1.2. A UE passou de quase auto-suficiente a importador líquido significativo
O índice de dependência líquida de importações ilustra a dimensão desta transformação: em 2015, o rácio situava-se em apenas 5,9%, indicando uma produção europeia suficiente para cobrir quase toda a procura interna. Em 2025, o mesmo rácio atingiu 44,1% — um aumento de 647,7%. O pico ocorreu em 2022, com 50,9%, antes de uma ligeira redução.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | 5,9% | 44,1% | +647,7% |
| Intensidade comercial | 46,2% | 81,2% | +75,7% |
| Propensão exportadora | 27,9% | 55,9% | +100,6% |
A intensidade comercial (soma de importações e exportações como percentagem da procura interna) e a propensão exportadora também cresceram fortemente, refletindo uma economia cada vez mais aberta ao comércio internacional neste setor — mas também uma crescente incapacidade de satisfazer a procura doméstica com produção própria.
1.3. As exportações mantiveram-se em valor, mas o volume encolheu
Paradoxalmente, o valor das exportações da UE manteve-se relativamente estável ao longo do período (de 41,3 M€ para 41,3 M€). No entanto, a quantidade exportada caiu 19,1% (de 1.417 t para 1.147 t), enquanto o preço médio subiu 23,5% (de 29.098 €/t para 35.945 €/t). Esta dinâmica sugere que os fabricantes europeus que ainda exportam o fazem sobretudo em segmentos premium, mantendo o valor apesar do encolhimento das quantidades.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 41,3 M€ | 41,3 M€ | 0,0% |
| Exportações (quantidade) | 1.417 t | 1.147 t | −19,1% |
| Exportações (preço médio) | 29.098 €/t | 35.945 €/t | +23,5% |
2. A China como motor central das importações europeias
2.1. A China domina e consolida a sua posição
A China é, de longe, o principal fornecedor extra-UE de tesouras. Em 2015, as importações europeias da China totalizavam 58,3 M€ (67,3% do total importado). Em 2025, esse valor subiu para 81,9 M€ (72,7% do total). A variação absoluta de +40,4% coloca a China como o parceiro que mais cresceu em valor absoluto.
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) | CV |
|---|---|---|---|---|
| China | 58,3 | 81,9 | +40,4% | 0,09 |
| Paquistão | 8,3 | 7,9 | −5,1% | 0,15 |
| Taiwan | 5,4 | 6,6 | +22,5% | 0,17 |
| Japão | 6,3 | 4,7 | −24,4% | 0,34 |
| Vietname | 0,7 | 1,1 | +54,3% | 0,20 |
| Hong Kong | 0,8 | 0,3 | −66,4% | 0,42 |
| Reino Unido | 2,0 | 1,3 | −38,3% | 0,74 |
O coeficiente de variação (CV) da China é o mais baixo entre todos os principais parceiros importadores (0,09), confirmando a estabilidade do fornecimento chinês — uma característica que, combinada com o volume, torna esta dependência particularmente estrutural.
2.2. O Vietname emerge como fornecedor alternativo, mas a magnitude é residual
O Vietname registou o crescimento percentual mais elevado entre os principais fornecedores (+54,3%), passando de 0,7 M€ para 1,1 M€. Esta evolução é consistente com a diversificação das cadeias de abastecimento asiáticas (o chamado China+1 strategy), mas o volume ainda é residual: o Vietname representa apenas 1,0% das importações totais, contra 72,7% da China.
2.3. A concentração das importações agravou-se
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 4.727 para 5.520 (+16,8%). Estes valores situam-se muito acima do limiar de 2.500 que a literatura tipicamente associa a mercados altamente concentrados. Em termos de volume, o HHI passou de 7.768 para 8.677 (+11,7%). A concentração das exportações, por contraste, manteve-se estável (HHI em torno de 825).
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 4.727 | 5.520 | +16,8% |
| Importações (volume) | 7.768 | 8.677 | +11,7% |
| Exportações (valor) | 834 | 825 | −1,1% |
| Exportações (volume) | 863 | 886 | +2,6% |
3. Reconfiguração dos mercados de exportação e sinais de instabilidade geopolítica
3.1. A Rússia e o Egipto: dois mercados em colapso
O destino das exportações europeias de tesouras sofreu uma reconfiguração significativa. A Rússia foi o mercado que mais perdeu: as exportações caíram de 2,3 M€ para 0,5 M€ (−76,3%). A queda é consistente com as sanções impostas após 2022, e os dados de volatilidade confirmam uma elevada instabilidade (CV = 0,51). O Egipto apresentou uma queda semelhante (−63,6%), com um choque de preço detetado em 2023 (anomalia de 4,4, desvio de +64,7%).
3.2. A Suíça e a Noruega ganham relevância como mercados de destino
Em contraste, os mercados europeus não-UE de elevado poder aquisitivo mantiveram-se robustos. As exportações para a Suíça cresceram 16,2% (de 5,4 M€ para 6,3 M€) e para a Noruega 19,0% (de 2,7 M€ para 3,3 M€). A Turquia (+21,5%) também se afirmou como destino crescente. Estes mercados caracterizam-se por baixa volatilidade (CV da Noruega de apenas 0,09) e elevado poder de compra, o que os torna naturalmente atrativos para os segmentos premium europeus.
| Destino | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) | CV |
|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | 5,5 | 5,5 | −0,3% | 0,18 |
| Estados Unidos | 7,4 | 6,8 | −8,3% | 0,15 |
| Suíça | 5,4 | 6,3 | +16,2% | 0,15 |
| Noruega | 2,7 | 3,3 | +19,0% | 0,09 |
| Turquia | 1,4 | 1,7 | +21,5% | 0,30 |
| Rússia | 2,3 | 0,5 | −76,3% | 0,51 |
| Egipto | 0,5 | 0,2 | −63,6% | 0,50 |
3.3. Choques de preço no Leste Europeu e no Norte de África
A análise de eventos de choque detetou três anomalias significativas nas exportações europeias:
| Parceiro | Tipo | Ano | Anomalia | Desvio (%) | Peso no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Ucrânia | Preço | 2022 | 134,6 | +54,3% | 2,0% |
| Marrocos | Preço | 2022 | 10,2 | +33,1% | 1,6% |
| Egipto | Preço | 2023 | 4,4 | +64,7% | 0,9% |
O choque na Ucrânia (anomalia de 134,6) é particularmente notável e coincide com o início do conflito armado em 2022, o que poderá refletir tanto uma procura anómala (abastecimento de emergência) como alterações logísticas. Os choques em Marrocos e no Egipto, embora menos extremos, sugerem perturbações nos fluxos comerciais do Mediterrâneo sul.
Conclusão
O mercado europeu de tesouras (CN 8213) atravessou, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. A erosão da base produtiva europeia — com uma queda de 80,1% na quantidade produzida — conduziu a uma dependência crescente de importações extra-UE, que passaram de 86,6 M€ para 112,6 M€ (+30,0%), com um défice comercial que se agravou de 45,4 M€ para 71,4 M€ (−57,3%).
A China consolidou a sua posição como fornecedor dominante (72,7% das importações em 2025), contribuindo para um HHI de importações de 5.520 — muito acima do limiar de elevada concentração. Paradoxalmente, as exportações europeias mantiveram-se estáveis em valor (41,3 M€) graças a uma reorientação para segmentos de maior valor acrescentado e mercados de elevado poder aquisitivo (Suíça, Noruega, EUA).
Do ponto de vista da autonomia estratégica, os dados apontam para vulnerabilidades crescentes: a dependência líquida de importações passou de 5,9% para 44,1%, e a concentração geográfica do abastecimento agravou-se. A emergência do Vietname como fornecedor alternativo (+54,3%) é ainda insuficiente para mitigar o risco de dependência da China. Os choques recentes (conflito na Ucrânia, sanções à Rússia, perturbações no Mediterrâneo) reforçam a necessidade de uma reflexão estratégica sobre a resililência das cadeias de abastecimento europeias neste setor.